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644350_Georges_Duby_-_As_Tres_Ordens_ou_O_Imaginario_do_Feudalismo[1]

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depredações, as injustiças, o abuso dos poderes senhoriais, e depois por toda a desordem e 
todo o mal. São eles os “maléficos” que a assembleia do Puy denuncia, assustada por vê-los 
“crescer entre o povo”. E foi precisamente contra os causadores subalternos da turbulência 
que os “prelados”, laicos e eclesiásticos, se aliaram nos concílios de paz, para erguerem a 
barreira das interdições. A intenção clarifica-se ainda mais durante a segunda fase 
expansionista das novas instituições pacíficas, que começa por volta de 1015, uma dezena 
de anos antes de Adalberão e Gerardo intervirem. Pensou-se suster a cavalaria com 
juramentos colectivos. A rede de proibições não mudou. Mas para que fossem respeitadas, 
obrigava-se ao juramento – como em 1016 em Verdun-sur-le-Douls 6 “todos os que são 
cavaleiros e usam as armas seculares”. 
Todos os cavaleiros. A prática de tais juramentos teve um efeito decisivo. Reuniu, 
num corpo único, todos os portadores de espada, agora isolados da massa do povo, como 
até então o estavam apenas os príncipes, pelos compromissos tomados, pela moral a que se 
ligavam, moral específica, ajustada à sua maneira de viver, de agir na sociedade, aos 
pecados que os espreitavam. Faltava uma palavra para designar os membros desta [Pg. 160] 
categoria social, muito evidentemente delimitada. À palavra latina miles preferiu-se um 
termo familiar, cabalarius, que vinha directamente das palavras pronunciadas pelos laicos 
nas assembleias, das frases de linguagem corrente, pelas quais comprometiam a sua fé. Os 
hábitos de linguagem incitavam o falar destes homens, regidos por uma ética específica, 
como se se tratasse de uma ordem. Prudente, o vocabulário dos textos que tratam de tais 
regulamentos hesita ainda em fazê-lo. Mas o certo é que se admitia já que todos os 
cavaleiros assumissem na sociedade um ofício positivo que os obrigasse a impor, a si 
próprios, não apenas interdições, mas também deveres. Segundo a Vida de Géraud 
 
6 G. Duby, “La diffusion du titre chevaleresque sur le versant méditeranéen de la Chrétienté latine”, La 
noblesse au Moyen Age, Paris, 1976 
d'Aurillac, esse ofício era o de pugnator, quer dizer o oficio que no ministério régio era 
militar. 
Ora, foi precisamente sob a forma de um juramento exigido a todos os cavaleiros que 
o movimento para a paz de Deus entrou na França do Norte. Chegava pelo vale do Ródano, 
através da Borgonha. O resvalar do poder capetíngio para sudeste foi muito directamente 
responsável pela sua progressão até aos países francos. Em 1016, Roberto, o Piedoso, 
encontrava-se em Verdun-sur-le-Doubs. Calvalgava então pelo ducado. A assembleia 
efectuava-se no ducado de Chalan, que o seu amigo, o bispo de Auxerre, governava. O 
monarca aproveitou a oportunidade para se mostrar entre os arcebispos e os abades, na 
fronteira do seu reino com a Borgonha, nesses confins das grandes áreas políticas onde era 
de uso reunir tais concílios, em redor das “reliquias dos santos trazidos de diversas regiões 
7“. Em 1024, em Hery, na diocese de Auxerre, ainda na Borgonha, Roberto organizava 
pessoalmente um concílio deste tipo. Nesse mesmo ano, dois bispos de França, Garin de 
Beauvais e Béraud de Soissons, imitaram-no; utilizaram o texto do juramento prestado em 
Verdun para que os cavaleiros da sua diocese o jurassem, modificando-o apenas um pouco, 
arranjando na mesma um lugar para o rei, garante da ordem. Na província que o Capetíngio 
ainda conservava em volta de Orleães e de Paris, o seu poder, enfraquecido, não diferia já 
do de um príncipe, por exemplo do poder que o duque da Aquitânia detinha. Foi pois muito 
naturalmente que o sistema, elaborado na Borgonha e ao sul do Loire, se estendeu até ao 
Norte da França. 
Depressa Ademar de Chabanne, nos seus sermões, fez deste sistema uma teoria 8. 
Cabe aos bispos – disse – proteger os pobres e clero contra forças de turbulência; é sua 
missão defendê-los, como o apóstolo S. Marcial fazia outrora, instituir a paz de Cristo, quer 
dizer o reflexo da ordem celeste na terra; que os bispos se apoiem para isso na força que os 
príncipes seculares ainda detêm; que façam destes os auxiliares da sua autoridade, 
encarregados de executar o que promulgam. Um tal sistema apoiava-se na tradição 
gelasiana. Diferia do sistema de que Gerardo se fez o defensor, [Pg. 161] apenas por um 
maior realismo: a consciência clara que tinha do desmoronar da monarquia. Como em 
Limoges ou em Chalon, os bispos de Beauvais e de Soissons aconselharam o monarca a 
 
7 Gesta episcoporum autissiodorum, RHF X, 172. 
8 D. F. Callahan, Adhémar de Chabanne et Ia paix de Dieux, Annales du Midi, 1977. 
basear a paz em juramentos obrigatórios. Não seria regressar às práticas inauguradas por 
Carlos Magno, quando este obrigava os súbditos a jurarem respeitar a ordem e a não 
cometer violências contra os pobres? A única diferença estava em que o juramento não se 
exigia a todos os homens livres: exigir-se-ia agora ao que subsistia, no “povo”, de 
militarmente activo, portanto verdadeiramente livre – aos cavaleiros. O resto do vulgus, 
havendo-se tornado verdadeiramente “pobre”, misturar-se-ia aos descendentes dos 
escravos, formando uma multidão inerte, passiva, a “plebe”, dominada, esmagada pelo 
novo senhorio e tão totalmente privada de liberdade que não podia imaginar que pudesse 
ainda comprometer a sua fé, jurando. Podia-se pois manter os juramentos de paz, cuja 
instituição os bispos de Francia propunham em 1024 de acordo com o monarca, pela 
simples adaptação dos velhos juramentos públicos carolíngios às novas disposições das 
relações de sociedade. Porque é que, no caso presente, Gerardo atacou com tanta energia, 
usando, contra os pacifistas, o argumento da trifuncionalidade social? Porque se esforçou 
ele por instaurar a paz na sua diocese – Adalberão seguiu-lhe o exemplo – de uma maneira 
diversa, por mandato episcopal, estabelecendo a trégua de Deus, cuja fórmula talvez tivesse 
sido invenção sua, mantendo-a em certos limites, garantindo-a com determinadas sanções 
eclesiásticas e sem suprimir a intervenção de uma justiça pública repressiva? 
Se Gerardo agiu assim, foi, antes de tudo, por receio de uma aliança entre os 
poderosos laicos e a parte evoluída do povo, essa pequena aristocracia do dinheiro, cuja 
ascenção se adivinhava nas cidades do Norte da França. Uma tal aliança ameaçava 
directamente as prerrogativas que os condes-bispos detinham nas cidades. Na verdade, esta 
aliança firmava-se: os senhores dos castelos urbanos, na esperança de consolidarem os seus 
poderes de justiça e de policiamento, estendiam a mão aos súbditos mais empreendedores 
do senhorio episcopal que sonhavam com a liberdade e começavam, furtivamente, a unir-se 
também por juramentos colectivos. No entanto, Gerardo foi, antes do mais, levado pelo que 
lucidamente observava: essa flexão, cujo movimento pela paz se tornava o assunto dos anos 
vinte do século XI, e que o inclinava para o que, para ele, como para Adalberão, 
caracterizava a heresia: a afirmação de uma outra ordem, de uma outra sociedade. De 
penitência. A informação dada por Raul Glaber é exacta: ao aproximar-se o milénio da 
Paixão, a aspiração da paz de Deus toma lugar num empreendimento de purificação geral; 
associava-se à obrigação de jejuar, à repressão do incesto, da poligamia, da fornicação. 
Justamente antes de reconstituir o discurso do bispo Gerardo, cujo tema trifuncional 
constitui o preâmbulo, o autor da Gesta dos Bispos de Cambrai alude, recordemo-lo, a uma 
missiva vinda do céu, chamando o comum dos fiéis ao respeito de certas interdições rituais. 
Nos termos dessa missiva, exprimiam-se os dois erros