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644350_Georges_Duby_-_As_Tres_Ordens_ou_O_Imaginario_do_Feudalismo[1]

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dos 
mistérios. As suas mãos distribuem o sagrado. Dois séculos antes, podia ter sido tomado 
por santo; teria continuado a agir depois de morto, aparecendo em sonhos, pregando, 
advertindo, admoestando; teria lançado do túmulo maldições ou bênçãos. No ano mil, já 
assim não é. Todavia, interessa ainda que o bispo seja nobre, que o seu sangue seja 
portador dos carismas que predestinam para as funções de intercessor. Se os bispos de 
Metz e de Reims se chamam todos Adalberão e são todos rebentos da casa de Ardenas é 
mais por questões de magia que de política familiar: só certas estirpes passam por ter o 
dom de comunicar com o invisível. 
É preciso também que este poder potencial seja actualizado por um rito: a unção, a 
sagração. O bispo surge como personagem sagrada, um Cristo, o ungido do Senhor; 
imiscuindo-se-lhe na pele, penetrando-lhe todo o corpo, o crisma impregna-o, para 
sempre, do seu poder divino. Pode nomeadamente delegar noutros a função sacerdotal, 
ungindo-os com o óleo sagrado. Ordena-os. O bispo ordena todos os homens que, sob o 
seu controlo, exorcizam os demónios nas aldeias da diocese. Ninguém faz sacrifícios, 
ninguém esboça os gestos rituais, ninguém pronuncia as fórmulas propiciatórias que ele 
não tenha pessoalmente instituído. O bispo gera o clero (clerus), estende sobre este uma 
autoridade de pai. Pela filiação espiritual, todas as operações sacramentais emanam das 
suas próprias mãos. 
O bispo deve ao sagrado um outro dom: o dom da sapientia, um olhar capaz de 
atravessar a cortina das aparências, para atingir as verdades ocultas. Só o bispo detém as 
chaves da verdade. Privilégio exorbitante, que deforma o dever que ele possui de a 
difundir. De ensinar os que não sabem, de erguer os que caem. Pela palavra. O bispo é 
senhor da palavra. Usa uma linguagem muito velha, que a maior parte dos homens à sua 
volta já não compreende, mas para a qual, sete séculos atrás, na Roma imperial enfim 
convertida, se traduzira a Escritura. Porque o bispo é o intérprete do Verbo de Deus e 
porque, nessas paragens, a palavra representa o belo latim do século IV, o bispo torna-se 
o depositário da cultura clássica. Na sua morada, embutida nas antigas ruínas, conserva-
se, investido por todos os lados pela barbárie rústica, aquilo que no ano mil não 
desaparecera dos livros, a linguagem pautada, ordenada, do latim puro. O cargo 
episcopal é o foco de um permanente renascimento da latinidade. O instrumento desta 
função cultural é a oficina junto da catedral, a escola – uma pequena equipa de homens 
de todas as idades, aplicados em copiar os textos, em analisar as frases, em imaginar as 
etimologias e [Pg. 027] que, sem cessar, permutando entre si o que sabem, trabalham 
essa matéria-prima preciosa, esse tesouro: as palavras da homilia, dos encantamentos, as 
palavras de Deus. 
 
 
 
Um só destes vocábulos latinos, o verbo orare, resume a dupla missão episcopal: 
rezar e pregar – o que vem a dar no mesmo. A sagração colocou o bispo no limite 
exacto do celeste e do terrestre, do invisível e do visível. Fala tanto de um como do 
outro lado. Para convencer, para captar benevolência. O bispo prega, como outrora se 
pregava na tribuna do forum, o que o leva a procurar em Cícero os modelos dos 
discursos eficazes. Orator, ele profere alternadamente as palavras que, lançadas para o 
céu quais oferendas, devem suscitar, por reciprocidade, a efusão da Graça e aquelas que, 
na terra, fazem ouvir o que a sapientia desvenda. Porque a sua posição é mediana, 
intermediária, o bispo deve especialmente cooperar na restauração da harmonia entre os 
dois mundos, esse acordo necessário que o Diabo, sem cessar, se esforça por destruir. 
Auxiliado pelo clero que ordenou e ensina, o bispo deve constantemente mondar, 
separar o trigo do joio, repelir as trevas. Esclarecendo o povo, admoestando-o; e para 
isso dirigindo-se, antes de tudo, directamente a essa personagem que lhe está associada, 
que é também prelatus, designada por Deus, pelas suas virtudes de sangue, colocada por 
Deus à frente dos outros para os guiar, mas para os guiar no domínio do terrestre, do 
material, do carnal: o paroquiano preferido do bispo, aquele que o bispo morigera em 
primeiro lugar: o rei, ou o príncipe, o homem que detém, “pela graça de Deus”, a 
principalis potestas e que dirige, no lugar do rei, a parte do rebanho que o bispo não 
conduz, a parte que, distinta do clero, do clerus, se chama o povo 3 – populus. Na 
tradição carolíngia, os bispos do século XI sentem-se obrigados a apresentar aos olhos 
dos reis e dos príncipes como que um espelho. Um desses espelhos de metal polido 
como aqueles de que na época se serviam, reflectindo bastante mal as imagens, 
mostrando contudo os defeitos, ajudando assim a corrigi-los 4. O discurso episcopal, ao 
dirigir-se aos príncipes da terra, tem essa finalidade: lembrar-lhes os seus direitos, os 
seus deveres e o que não corre direito neste mundo. Incitá-los a agir, a restabelecer a 
ordem. A ordem, cujo modelo o bispo descobre no céu. Discurso político, o discurso 
dos bispos convida a reformar as relações sociais. Ë um projecto de sociedade. Na 
tradição carolíngia, o episcopado é o produtor natural da ideologia. [Pg. 028] 
 
 
 
Ora os bispos Adalberão e Gerardo eram ambos carolíngios, os mais carolíngios 
de todos. Pelas raízes da sua raça. Mas também porque a província eclesiástica de 
Reims, de que as suas duas dioceses eram membros, constituía o coração da Francia, do 
país dos Francos. O arcebispo de Reims, Rémi, baptizara Clóvis. Os seus sucessores 
reivindicavam agora o monopólio de sagrar o rei dos Francos ocidentais 5. Século e 
meio atrás, quando a dignidade imperial escorregava irresistivelmente para leste, para 
 
3 Acerca do cargo do princeps, em último lugar: K. F. Werner, “Westfranken-Frankreich unter den 
Spätkarolingern und frühen Kapetinger (888-1060)”, Handbuch der europäischen Geschichte, T. 
Schieder ed., I, Klett, 1977. 
4 J. Batany, Approches du Roman de la Rose. Paris, 1973. 
5 P. E. Schramm, Der König von Frankreich. Das Wesen der Monarchie vom 9. bis zum 16. Jhd., 2.ª ed., 
1960. 
Aix-la-Chapelle e para Roma, o arcebispo Hincmar de Reims tinha armazenado os 
melhores frutos do renascimento carolíngio entre Reims e Compiegne, entre Paris e 
Laon (o “Monte Loon” das canções de gesta, o derradeiro refúgio de Carlos, filho do 
último soberano carolíngio que Adalberão, o arcebispo de Reims, privara dos seus 
direitos em 987, ao designar para a eleição real o usurpador Hugo Capeto, e que 
Adalberão, bispo de Laon, o nosso, havia traído). Desta província-mãe, Metz apenas 
ocupava as orlas: era a ponta exposta à selvajaria australiana. Porém, a política dos 
restantes reis francos do Leste e da Germania, ao estabelecerem clérigos lorenos nos 
bispados de Reims, de Cambrai e de Laon, visara precisamente impedir isso e recuperar 
essa reserva de cultura. Podemos ver, nas catedrais de Cambrai e de Laon, assim como 
na de Reims, os conservatórios das formas políticas francas. Na sua biblioteca restava, 
mais do que nunca viva, expressa no latim dos reitores, a memória de tais formas. Cabia 
aos bispos dessas cidades alimentar tal recordação, inspirarem-se nela para poderem 
ajudar, pelos discursos, a boa governação dos reinos. 
A cidade de Laon dependia do reino do Oeste. A de Cambrai dependia do reino da 
Lorena, fundido com o da Germânia. Reino dos Francos ocidentais: o mesmo é dizer o 
reino da França; reino dos Francos orientais, isto é, o Império – dois Estados que o 
Escaut e o Mosa separavam e cujos monarcas, primos, ambos herdeiros de Carlos 
Magno, iguais em prestígio, apareciam aos escritores do primeiro século XI como os