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644350_Georges_Duby_-_As_Tres_Ordens_ou_O_Imaginario_do_Feudalismo[1]

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[Pg. 036] 
Nesse castelo aquartela-se uma equipa de guerreiros-salteadores, de milites, de 
cavaleiros de que Gautier é o chefe, o guardião da fortaleza. Como todos os castelões da 
época, Gautier procura tirar proveito da função que exerce. Balduíno, conde da 
 
1 Gesta III, 52, MGH, 486. 
2 O. Köhler, Das Bild des geistlichen Fürsten in den Viten des 10., 11., 12. Jhd., Berlim, 1935. 
Flandres, apoia-o, está por detrás dele. Este conde é o rival natural de todos os condes 
vizinhos e, especialmente, do conde de Cambrai, o bispo Gerardo; a cidade de Arras 
pertence ao seu regnum; domina já por completo o bispado de Thérouanne e desejaria 
dominar também o bispado de Arras, então ligado ao de Cambrai; sonha sobretudo, 
encorajado de vez em quando pelo Capetíngio, estender o seu principado para lá da 
fronteira, para a Lorena, isto é, para as terras de Cambrai. Gautier é um dos peões que 
ele maneja com esta finalidade. As suas ambições envenenam, dentro da cidade 
episcopal, o conflito então clássico, entre o poder eclesiástico – que fala, escreve e do 
qual nos vem tudo o que sabemos, nós os historiadores, deste género de casos – e o 
poder laico, entre o, bispo e o homem que o bispo denuncia como um “tirano”, o 
opressor do povo, porque lhe disputa o poder senhorial. Questão banal, mas lancinante. 
Podemos perguntar se as Gesta não foram, em larga medida, escritas em função dela. 
De qualquer maneira, as suas peripécias ressoam por todo o conjunto do relato. O 
debate principiou, com efeito, muito antes do advento de Gerardo, nos anos oitenta do 
século X – no momento em que, por toda a parte, no Macônnais, no Poitou, na Ile-de-
France, os senhores dos castelos começam a tecer, em volta da fortaleza, uma rede de 
obrigações lucrativas, um sistema de exploração do campesinato. Recém-eleito, o jovem 
bispo encontrou-o à sua frente, extremamente violento. Durante a agonia do seu 
antecessor, o castelão Gautier invadira a casa do bispo e depois perturbou as exéquias; 
sem se dobrar: as Gesta contam que, com os cavaleiros seus acólitos, deitou fogo aos 
arredores da cidade. Gautier, o maléfico, o agente do demónio, está presente em todas, 
ou quase todas, as páginas do Livro III, onde vemos, do princípio ao fim, 
entrecruzarem-se dois temas: o da tirania e o da paz. 
Porque o panegírico tem por finalidade mostrar de que forma o bondoso bispo, 
defensor dos pobres, enfrenta a agressão dos maus. De três maneiras. A primeira 
consiste em enfraquecer o conde da Flandres que atiça a fogueira, acolhendo-lhe o filho, 
rebelado contra o pai, conforme sucedia com a maioria dos herdeiros presuntivos mal 
saíam da adolescência, impacientes por disporem livremente dos recursos do senhorio, 
excitados pelos companheiros da mesma idade, igualmente frustrados e ávidos. A 
segunda consiste em concluir, com o adversário, acordos particulares, convenções. As 
suas cláusulas estão cuidadosamente registadas nas Gesta que, por isso, constituem um 
aglomerado de peças susceptíveis de serem mostradas mais tarde, possivelmente perante 
as assembleias de árbitros. Acordos sobre o serviço militar, partilha dos proventos 
judiciais que garantiam, à moda nova, a libertação de reféns e a prestação de juramentos 
pessoais. A finalidade de tais pactos era aprisionar Gautier numa rede de compromissos 
colectivos capaz de reprimir [Pg. 037] as suas tentações de querer ainda mais. 
Esperavam submetê-lo também pela fé jurada: deve comprometer-se, pondo a mão 
sobre as relíquias dos santos, a servir Gerardo como, conforme o costume, os cavaleiros 
da Lorena “servem a seu senhor e a seu bispo” 3. Entendamos pois que Gerardo fez de 
Gautier seu vassalo, isto na mesma época em que esta espécie de laço começa a tornar-
se o fundamento das relações políticas entre a aristocracia do reino da França. Tudo mal 
seguro, ameaçado de mudar rapidamente, a despeito do medo dos castigos que se 
sabiam caber aos perjuros, no Além. Tudo muito humilhante para a alta personagem que 
era o bispo de Cambrai, primo dos duques, parente, favorito do imperador. Resta a 
terceira acção, a mais nobre, a mais gratificante porque ideológica. Gerardo é sagrado, 
impregnado de “sageza”. Pode opor o teórico ao quotidiano, e aos acidentes irrisórios da 
vida terrestre a imutável regularidade das ordenações celestes. A si lhe cabe aplicar-se, 
pelo ensino, pela palavra, a restaurar uma gama de poderes susceptíveis de reduzir a 
desordem de que a indocilidade, a turbulência e a cupidez de Gautier são como que a 
amplificação caricatural. Por um lado, as Gesta apresentam-se como a recolha de 
“provas”, na expectativa de futuros processos. Por outro, elas desenvolvem 
essencialmente uma longa teoria da paz. No seio deste discurso situemos, no seu lugar 
exacto, a figura trifuncional. 
 
 
 
O tema da paz desenvolve-se, com maior amplitude que nunca, quando o relato 
chega ao ano de 1023. Quer dizer, em quase tudo o que constitui a matéria do livro III, 
relatando o autor essencialmente o que se passou durante os poucos meses – decisivos 
meses para a história da formação ideológica que tentamos apreender – que precederam 
o momento em que o seu autor se lançou ao trabalho. Os artifícios da composição 
retórica, assim como a confusão que as correcções posteriores provocam, fazem com 
que esta espécie de tratado da boa paz esteja interrompido por outros desenvolvimentos, 
retalhado, dividido em cinco fragmentos. Ei-los: 
1.° Gerardo surge, pela primeira vez, estabelecido na 'posição de pacificador, no 
capitulo 24: pelas suas admoestações, porque proclama a verdade e a justiça, dissuade 
dois dos seus confrades, o bispo de Noyon e o bispo de Laon, Adalberão seu primo, de 
decidirem pelas armas o conflito que os opõe. Trata-se aqui, simplesmente, de um 
 
3 Gesta III, 44. MGH, 482. 
prelúdio. 
2.° O primeiro acto ocupa o capítulo 27. A cena passa-se em Compiègne, na 
assembleia convocada por Roberto, o Piedoso, no dia 1 de Maio de 1023. Aqui, são 
reproduzidas as palavras de Gerardo, reconstituídas: nesse discurso começa-se a 
vislumbrar o sistema ideológico. As maiores personagens do reino, entre as quais 
Gerardo – que aqui aparece de passagem, um pouco como mandatário do imperador –, 
vieram [Pg. 038] com efeito discutir uma reforma geral da sociedade cristã e, por 
conseguinte, da paz. Dois dos co-episcopi do bispo de Cambrai sugerem uma fórmula, a 
paz de Deus, que Gerardo condena, enunciando então uma contraproposta onde vemos 
esboçar-se o seu projecto geral. 
3.º Após alguns capítulos que mostram o bispo ocupado com problemas 
aparentemente diferentes, mas que de facto se ligam ao mesmo combate, ele continua a 
vituperar, por outras razões, os seus confrades, os sufragâneos da província de Reims 
que, segundo diz, se afastam do caminho direito, arrastados como são pela desordem 
que, pouco a pouco, invade o reino do Oeste; enquanto que ele, o Loreno, não se desvia 
– outra vez no capítulo 37 – da paz. Notemo-lo, a propósito de um acontecimento 
surgido alguns meses depois da assembleia de Compiègne e no seu prolongamento: em 
Agosto de 1023, Henrique II e Roberto o Piedoso encontraram-se em Ivois, no Mosela, 
nos confins do reino de ambos. “Aqui se tomou uma decisão (entendamos por esta 
palavra a sentença que põe termo a um debate) global quanto à paz e à justiça e à 
reconciliação de uma amizade mútua. Aqui ficou igualmente tratado, com a máxima 
diligência e minuciosamente, a paz da santa igreja de Deus 4“. Visio pacis. Dir-se-ia 
que o céu ia descer sobre a terra, que a confusão e a corrupção bruscamente iam refluir 
para as suas fontes: os dois confrades em soberania, conjuntamente representantes