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SEMIOLOGIA FISIOTERAPÊUTICA Isadora Rebolho Sisto Exame do movimento humano Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar conceitos e terminologias da Biomecânica. Reconhecer instrumentos de avaliação do movimento humano. Relacionar instrumentos e equipamentos com diferentes finalidades para avaliação do movimento humano. Introdução Biomecânica é uma disciplina entre as ciências derivadas das ciências naturais, a qual se ocupa com análises físicas de sistemas biológicos e, consequentemente, análises físicas de movimentos do corpo humano. Quando dimensionamos a Biomecânica no contexto das ciências deri- vadas, cujo objetivo é estudar o movimento, devemos lembrar que essa reivindicação científica se apoia em dois fatos fundamentais: (a) a Biome- cânica apresenta claramente definido seu objeto de estudo, definindo, portanto, sua estrutura de base do conhecimento; e (b) seus resultados de investigações são obtidos pelo uso de métodos científicos próprios que envolvem todas as etapas do trabalho científico. O corpo humano, portanto, pode ser definido fisicamente como um complexo sistema de segmentos articulados em equilíbrio estático ou dinâmico, no qual o movimento é causado por forças internas que atuam fora do eixo articular, provocando deslocamentos angulares dos segmentos, e por forças externas ao corpo. A ciência que descreve, analisa e modela os sistemas biológicos é chamada de Biomecânica, logo, esta é uma ciência altamente interdis- ciplinar dada à natureza do fenômeno investigado. Assim, a Biomecânica do movimento busca explicar como as formas de movimento dos corpos de seres vivos acontecem na natureza a partir de parâmetros cinemáticos e dinâmicos. Neste capítulo, você vai identificar os critérios e as técnicas de avalia- ção do movimento humano, reconhecer os instrumentos de mensuração do movimento humano e relacionar instrumentos e equipamentos com diferentes finalidades para avaliação do movimento humano. Conceitos e terminologias da Biomecânica Entende-se a cinesiologia como a ciência do movimento humano, a qual é estudada por meio da compreensão das forças que atuam sobre o corpo. Trata- -se da integração de teorias e princípios de anatomia, mecânica, psicologia e antropologia. Já o termo Biomecânica se refere às forças e a seus efeitos (mecânica) aplicados a todo o corpo ou a um segmento corporal, de forma que seja possível compreender o movimento humano, especialmente em relação às atividades funcionais de vida diária. A Biomecânica interna representa os mecanismos responsáveis pela geração e pelo controle do movimento, enquanto a Biomecânica externa a relação do corpo com o ambiente e as forças que agem na interface corpo- -ambiente, como inércia, massa, aceleração, atrito, etc. A mecânica clássica se divide em: estática — corpo em repouso ou em movimento; dinâmica — sistema em movimentação; cinemática — descrição do movimento sem se preocupar com o agente que o causou; cinética — estudo das forças que agem sobre o movimento; referencial — estático ou em movimento. A cinemática, que é a ciência que estuda o movimento dos corpos no espaço, a qual aplica o sistema de coordenadas retangulares para descrever o corpo no espaço, é subdividida em: osteocinemática — ocupa-se dos movimentos dos ossos (movimento de um osso em relação a outro); artrocinemática — trata de movimentos que ocorrem entre superfícies articulares (micromovimentos). Exame do movimento humano2 Orientação do corpo humano O conhecimento e o entendimento da terminologia utilizada para descrever as várias regiões do corpo humano são imprescindíveis para que o estudante se familiarize com as diferentes nomenclaturas utilizadas para descrever regiões anatômicas e movimentos neste texto. Para defi nir os movimentos de articulações e segmentos e para registrar a localização no espaço de pontos específi cos no corpo, é necessário um ponto de referência. Tal referencial sempre parte da posição anatômica. Definir os movimentos do corpo humano é geralmente muito complexo, uma vez que eles podem ser realizados em diversas direções, dessa forma, ao estudar os movimentos dos principais segmentos do corpo humano, é preciso estabelecer pontos de referência e conhecer alguns conceitos de orientação. O conhecimento da posição anatômica é muito importante, pois se trata da posição em que os movimentos angulares foram denominados em uma postura estática. Ela consiste no corpo em pé, na postura ereta, com os olhos fixos no horizonte, calcanhares aproximados e pés rodados ligeiramente para a lateral. Os membros superiores estarão posicionados a cada lado do corpo, com as superfícies palmares voltadas para frente ou anteriormente. A partir da posição anatômica, os seguintes termos de orientação são utilizados para descrever a localização (posição) das estruturas no corpo: anterior — relativo à superfície frontal (à frente); posterior — relativo à superfície dorsal (por trás); superior — mais próximo da cabeça; inferior — mais próximo dos pés; medial — mais próximo da linha mediana; lateral — afastado da linha mediana. Com relação ao tronco, os seguintes termos podem ser utilizados: ventral — relativo à superfície abdominal; dorsal — relativo à superfície dorsal (posterior); cranial/cefálico — mais próximo da cabeça (ou em direção à); caudal — mais próximo da base da coluna (ou em direção à); medial — mais próximo da linha mediana; lateral — afastado da linha mediana. 3Exame do movimento humano Com relação aos membros, os seguintes termos podem ser utilizados: proximal — mais próximo do tronco; distal — afastado do tronco; superfície flexora — a superfície anterior do membro superior e a superfície posterior do membro inferior (ventral); superfície extensora — a superfície posterior do membro superior e a superfície anterior do membro inferior (dorsal). A posição fundamental é similar à posição anatômica, exceto pelos braços, que ficam mais relaxados ao longo do corpo com as palmas voltadas para o tronco. Centro de gravidade O centro de gravidade é o ponto em que está concentrado todo o peso do corpo (Figura 1), o que gera, portanto, um equilíbrio de todas as partes, sendo ponto de interseção dos três planos: sagital, frontal e transverso. A sua localização irá depender da estrutura anatômica do indivíduo, mas, em geral, nas mulheres, ele é mais baixo do que nos homens, porém, de forma não precisa, podemos encontrá-lo mais ou menos a 4 cm à frente da primeira vértebra sacra. Exame do movimento humano4 Figura 1. Centro de gravidade do corpo humano. Fonte: Adaptada de Blamb/Shutterstock.com. Ponto de gravidade Planos de orientação do corpo O movimento de qualquer articulação ocorre dentro de um plano imaginário. Cada plano se projeta em torno de um eixo que lhe é perpendicular. O eixo é o ponto central no qual uma articulação gira. O movimento humano se baseia em três planos, que se movem em torno de três eixos. 5Exame do movimento humano plano sagital — atravessa o corpo de frente para trás, dividindo-o em duas metades iguais (direita e esquerda). plano frontal — conhecido também como plano coronal, atravessa o corpo de um lado para outro, em um trajeto paralelo à sutura coronal do crânio, dividindo o corpo em duas metades (anterior e posterior). plano transverso — recebe também o nome de horizontal. Seu corte acontece na horizontal, atravessando o corpo ao meio e o dividindo em superior e inferior. Para melhor compreendermos os movimentos, cada um dos planos foi descrito a partir da posição anatômica, que corresponde às dimensões espaciais nas quais se executa um movimento. Eixos de movimentos do corpo Quando é observado o movimento do corpo humano, aplica-se o conhecimento de eixo. Os eixos são linhas imaginárias derivadas das dimensões estabelecidaspelos planos anatômicos, os quais atravessam os planos do corpo perpendi- cularmente para possibilitar movimentos. Os eixos que correspondem às linhas perpendiculares que atravessam os planos anatômicos no centro do movimento (Figura 2) são: eixo bilateral — estende-se horizontalmente de um lado a outro e perpendicularmente ao plano sagital. Possibilita o movimento de flexão e extensão, conhecido também como crânio podálico, transversal ou horizontal. Exemplo: articulação do ombro. eixo anteroposterior — estende-se no sentido anterior para posterior e perpendicular ao plano frontal. Possibilita os movimentos de abdução e adução, podendo ser chamado de eixo sagital. Exemplo: articulação do ombro e do quadril. eixo vertical — estende-se no sentido de cima para baixo e perpendicu- lar ao solo e ao plano transversal. Possibilita os movimentos de rotação lateral e rotação medial. Exemplo: articulação do cotovelo. Exame do movimento humano6 Figura 2. Planos anatômicos no centro do movimento. Fonte: Adaptada de Sampaio (2016). Eixo longitudinal Eixo transversal Eixo sagital Movimentos articulares versus planos e eixos Os movimentos que ocorrem no plano sagital essencialmente o fazem em direção anteroposterior, como, por exemplo, fl exão, extensão e hiperextensão. Esses movimentos giram em torno do eixo horizontal ou transversal. Os movimentos que ocorrem no plano frontal ou coronal são os que des- locam o corpo para a lateral, como inclinação lateral, abdução e adução, por exemplo. Tais movimentos acontecem ao redor de um eixo sagital ou eixo anteroposterior. Já no plano horizontal ou transverso, ocorrem os movimentos rotacionais. São exemplos: rotação lateral e medial e supinação e pronação. Os movimentos desse plano ocorrem ao redor do eixo longitudinal (Quadro 1). 7Exame do movimento humano Movimento Plano Eixo Flexão/extensão Sagital Horizontal Abdução/adução Frontal Sagital Rotações Transversal Longitudinal Quadro 1. Movimentos articulares versus planos e eixos Classificação dos métodos de medição Genericamente, os métodos utilizados em Biomecânica podem ser classifi cados nas seguintes categorias: teórico-dedutivos ou determinísticos — com base somente em leis físicas e relações matemáticas (relações causais); empírico-indutivos ou indeterminísticos — com base em relações estatísticas (relações formais) e relações experimentais; métodos combinados — tentam conjugar os dois anteriores em função do problema científico a ser tratado. É possível classificar os procedimentos de medição em Biomecânica nas seguintes categorias: procedimentos mecânicos — observações de grandezas por observação direta e que não se alteram rapidamente. procedimentos eletrônicos — grandezas. Mecânicas são transforma- das em elétricas, o que facilita a medição de grandezas que se alteram rapidamente com o tempo e por isso se adaptam ao processamento de dados, permitindo, dessa maneira, medições dinâmicas. procedimentos ópticos-eletrônicos (processamento de imagens) — representação óptica e geométrica do objeto a ser analisado. Nesse caso, análises e medições são feitas no modelo, ou seja, são procedimentos indiretos, uma vez que a análise é feita no modelo representado. Exame do movimento humano8 Quanto às técnicas de medição em Biomecânica, é possível relacionar resumidamente os métodos que representam todo o suporte de desenvolvimento e evolução da ciência, particularmente na Biomecânica do esporte: simulação e otimização computacional da técnica de movimento; comando e controle da técnica de movimento por computação; análise da sobrecarga do aparelho locomotor. Por sua vez, a Biomecânica pode ser dividida em interna e externa, dada a grande diferença de abordagem e alvo. A Biomecânica interna se preocupa com as forças internas, ou seja, forças transmitidas pelas estruturas biológicas internas do corpo, tais como forças musculares, forças nos tendões, ligamentos, ossos e cartilagem articular. Elas estão intimamente relacionadas à execução dos movimentos e às cargas mecânicas exercidas pelo aparelho locomotor, as quais são representadas pelo stress (estímulo mecânico necessário para o desenvolvimento e o crescimento das estruturas do corpo). O conhecimento dessas forças internas tem aplicações, como, por exemplo, no estudo clínico da marcha patológica originada por anomalia muscular, no transplante de tendão ou na amputação de membros, no aperfeiçoamento da técnica de movimento, bem como na determinação de cargas excessivas du- rante as atividades físicas em esportes de alto nível ou em atividades laborais no cotidiano. A determinação das forças internas dos músculos e das articulações ainda é um problema não resolvido na Biomecânica, mas seguramente está constituída na base fundamental para a melhor compreensão dos critérios de controle de movimento. Os métodos utilizados pela Biomecânica para abordar as diversas formas de movimento são cinemetria, dinamometria, antropometria e eletromiografia (EMG). Utilizando-se desses métodos, o movimento pode ser matematicamente descrito e modelado, o que permite uma maior compreensão dos mecanismos internos reguladores e executores do movimento do corpo humano (Figura 3). 9Exame do movimento humano Figura 3. Áreas para complexa análise biomecânica do movimento humano. Fonte: Adaptada de Baumann (1995). Posição e orientação dos segmentos corporais Forças externas e distribuição de pressão Parâmetros para o modelo corporal Atividade muscular Modelo Modelo Forças de gravitação Energia mecânica Inércia Momentos líquidos e forças internas Cinemetria Dinamometria Antropometria EMG No desenvolvimento de um processo de medição, invariavelmente ocorrem erros que precisam ser controlados. Inicialmente, os erros são classificados quanto à sua natureza: erro estático (erro de leitura, sensibilidade, reprodutibilidade, etc.) e erro dinâmico (considerando-se a relação entre frequência própria do movimento e frequência de registro). Outro fator de erro é observado em função de o sistema de medição nem sempre acompanhar a rápida modificação das grandezas a serem medidas. Exame do movimento humano10 Instrumentos de avaliação do movimento humano Cinemetria A cinemetria é um conjunto de métodos que busca medir os parâmetros cine- máticos do movimento, isto é, posição, orientação, velocidade e aceleração. O instrumento básico para medidas cinemáticas se baseia em câmeras de vídeo que registram a imagem do movimento e então, por meio de software específi co, calculam as variáveis cinemáticas de interesse. Outras técnicas e outros métodos ainda são relacionados para o processamento de grandezas cinemáticas, entre eles, destacam-se as técnicas de medição direta, as quais são utilizadas para: medidas de tempo que utilizam cronômetros para a base de tempo; medidas de ângulos que utilizam goniômetro para a determinação da posição de segmentos com origem em eixos articulares; medidas de aceleração que utilizam acelerômetros, que são transdutores designados a mensurar a quantidade de movimento pela posição de uma massa em deslocamento. Por intermédio da fotografia, da cinematografia e da cronofotografia, é possível registrar a imagem para o processamento de variáveis cinemáticas. Todos esses procedimentos carecem de lentes e outros instrumentos ópticos para garantir a qualidade da imagem, sendo assim, eles requerem cuidados com a distância entre o objeto e a lente e quanto ao seu comprimento, bem como a regulagem da abertura do foco. Para a reconstrução de coordenadas do objeto a partir da imagem registrada, são necessários modelos nos quais, além das referências geométricas e posições relativas às partes do corpo em função do tempo, também haja informações sobre as dimensões corporais, que são obtidas por meio de dispositivos classificados nos modelos antropométricos. Para o processamento da imagem, são utilizadascâmeras, com base em películas fotoquímicas ou fotoelétricas e que tenham ainda o recurso de registro de sequências de sinais elétricos em uma base de tempo conhecida, além de armazenarem o registro em fitas magnéticas, o que caracteriza a videografia. Assim, genericamente, os sistemas podem ser classificados como: 11Exame do movimento humano dispositivos convencionais com avaliação manual — sistemas de câmeras cinematográficas e fotográficas, nos quais, após a revelação dos filmes, a avaliação é manual; dispositivos eletrônicos com avaliação manual — sistema de vídeo em que uma camada sensível à luz capta a imagem, que é transformada em impulsos elétricos, e suas coordenadas são armazenadas em uma placa ou fita magnética; dispositivos eletrônicos com avaliação automática — sistema óptico- -eletrônico no qual as coordenadas das imagens são identificadas e digitalizadas automaticamente e consequente obtenção imediata das coordenadas desejadas. Os pontos cujas coordenadas são de interesse podem ser marcas ativas, como fontes de luz, ou passivas, como re- fletores de luz. Dinamometria A dinamometria engloba todos os tipos de medidas de força (e pressão). As forças mensuráveis são as forças externas, que são transmitidas entre o corpo e o ambiente. De particular interesse são as forças de reação do solo, as quais são transmitidas na fase de apoio em atividades quase estáticas ou dinâmicas.4,5,6 Juntamente com a constante peso corporal, essas forças de reação do solo são, em geral, a causa de qualquer alteração do movimento do centro de gravidade. O instrumento básico em dinamometria é a plataforma de força, que mede a força de reação do solo e o ponto de aplicação dessa força. Assim, por intermédio da dinamometria, mede-se a ação deformadora da força sobre os corpos por meio de um método direto, pelo qual as forças externas são determinadas. Essas forças são pré-requisitos necessários para o cálculo das forças internas (força muscular, força ligamentar e forças articulares). Entre os principais objetivos que indicam a utilização da dinamometria, é possível apontar: a análise da técnica de movimento; a análise da condição física; o controle da sobrecarga; a influência de fatores externos; a influência de fatores internos; o monitoramento de atletas; os indicadores para detecção de talentos esportivos. Exame do movimento humano12 A dinamometria manual é um procedimento que permite medir e quan- tificar a força de grupos musculares específicos durante um movimento. O exame é feito por meio de um aparelho, chamado dinamômetro, que, quando colocado em contato com o membro que está realizando o movimento, indicará a força muscular impressa no gesto. Os dados obtidos com o exame permitem identificar diminuição da força muscular e assimetrias entre os membros, direcionando o melhor programa de tratamento ou prevenindo lesões. Antropometria A antropometria determina características e propriedades do aparelho locomo- tor, como as dimensões das formas geométricas de segmentos, a distribuição de massa, os braços de alavanca, as posições articulares, etc., defi nindo, portanto, um modelo antropométrico que contém os parâmetros necessários para a construção de um modelo biomecânico da estrutura analisada. Algumas das variáveis que podem ser calculadas são: propriedades do biomaterial, o que inclui resistência dos componentes do aparelho locomotor, elasticidade, deformação e limite de ruptura; cinéticas, as quais são o momento de inércia de segmentos corporais; centro de rotação articular, origem e inserção muscular, comprimento e área de seção transversa muscular e braços de alavanca da musculatura. Densidade, distribuição de massa corporal, propriedades inerciais, centro de gravidade e momento de inércia são características antropométricas nas quais a maioria dos dados são determinados a partir de estudos cadavéricos. Os métodos analíticos são os mais utilizados e se caracterizam por modelos do corpo com base em dados antropométricos do indivíduo, portanto, medida direta, in vivo. EMG A eletromiografi a (EMG) se caracteriza pelo registro das atividades elétricas associadas às contrações musculares. Diferentemente dos métodos mencio- nados até aqui, que determinam propriedades mecânicas, a EMG indica o estímulo neural para o sistema muscular. Como um parâmetro de controle, a EMG é muito importante para a modelagem do sistema dinâmico neuromus- culoesquelético. O resultado básico é o padrão temporal dos diferentes grupos musculares sinérgicos ativos no movimento observado. 13Exame do movimento humano Por intermédio da EMG, determina-se, de maneira direta, a atividade mus- cular voluntária a partir do potencial de ação muscular. A inervação muscular transmite os potenciais cuja atividade elétrica média pode ser detectada por eletrodos colocados na superfície da pele, sobreposta ao músculo, e a partir daí se observa o início e o fim da ação muscular em movimentos e posturas, ou seja, o padrão temporal dessa inervação/ativação. Esses sinais coletados podem ser influenciados pela velocidade de encurtamento e alongamento muscular, pelo grau de tensão, pela fadiga, pela atividade reflexa, entre outros fatores. Depois desses sinais eletromiográficos serem amplificados, eles podem ser processados para comparação ou correlação com outros sinais eletrofisiológicos ou grandezas biomecânicas. O motivo para monitorar o potencial de ação muscular é poder relacioná- -lo com algumas medidas da função muscular, como tensão, força, estado de fadiga e, consequentemente, metabolismo muscular, recrutamento de elementos contráteis, entre outros parâmetros. A EMG é um método de diagnóstico que avalia problemas nervosos ou musculares. Essa técnica utiliza elétrodos de superfície para avaliar a capacidade das células nervosas transmitirem sinais elétricos. Além disso, pode também utilizar eletrodos em forma de agulha para avaliar a atividade muscular em repouso ou durante a contração muscular. A EMG pode ser útil na detecção de atividade elétrica muscular anormal, que pode ocorrer em muitas doenças com sede primária no músculo ou secundária em lesões dos respectivos nervos. Instrumentos e equipamentos para avaliação do movimento humano Prevenção de lesão e reabilitação Acredita-se que a prevenção de lesão e a reabilitação devem ser a meta pri- mária da Biomecânica do esporte e do exercício. A Biomecânica é útil para os profi ssionais da Medicina do esporte verifi carem as forças que podem ter causado determinada lesão, prevenirem uma contusão, para que não se repita Exame do movimento humano14 ou ocorra pela primeira vez, e identifi carem quais exercícios podem auxiliar na reabilitação da lesão. A Biomecânica pode ser usada para fundamentar alterações da técnica, do equipamento ou do treinamento, a fi m de prevenir ou reabilitar lesões. Alguns estudos relatam que a prevenção de lesão e a reabilitação devem ser a meta primária da Biomecânica do esporte e do exercício. Técnicas para reduzir lesão A ginástica é um exemplo de como a Biomecânica pode auxiliar na redução de lesões. Uma pesquisa fi nanciada pelo Comitê Olímpico dos Estados Unidos e pela Associação de Ginástica dos Estados Unidos está interessada nas forças de impacto que os ginastas sofrem quando pousam depois de uma acrobacia e nas estratégias que eles podem usar para reduzir essas forças. Os árbitros dão mais pontos para aqueles ginastas que cravam as suas aterrissagens, mas estas podem envolver forças de impacto maiores e mais perigosas, as quais são as causas das lesões por overuse em muitos desses atletas. Uma aterrissagem em que o ginasta flexiona seus joelhos, quadris e tornozelos pode reduzir as forças de impacto, mas também implica uma menor nota. Um dos resultados dessa pesquisa foi a alteração da regra, permitindo o uso de estratégias de aterrissagem que reduziam essas forças de impacto sem penalizara nota do ginasta. O cotovelo de tenista (epicondilite lateral) é um tipo de lesão por overuse que aflige muitos tenistas inexperientes. Pesquisas de Biomecânica revelam que uma das causas desse problema é a hiperextensão do músculo extensor radial curto do carpo, o que aponta uma falha técnica durante o backhand como uma possível razão para a hiperextensão. Os tenistas que conseguem manter a posição do punho neutra no impacto da bola durante o backhand são menos suscetíveis a desenvolver essa lesão em comparação aos que realizam a flexão do punho. Design de equipamentos para reduzir lesão Um exemplo de como a Biomecânica afeta o design de equipamentos espor- tivos para reduzir o número de lesões compreende a indústria de calçados de corrida. Após a medalha de ouro do atleta Frank Shorter na maratona das Olimpíadas de 1972, os Estados Unidos tiveram um acentuado incremento na corrida. Infelizmente, esse aumento na participação foi acompanhado por um acréscimo na quantidade de lesões relacionadas a essa prática. Assim, houve 15Exame do movimento humano um rápido crescimento no número de pesquisas Biomecânicas sobre corrida e calçados de corrida a partir da década de 1970. Em 1980, a Nike fundou o seu Laboratório de Pesquisa do Esporte para favorecer o desenvolvimento do atletismo e de calçados para esse esporte por meio de estudos da Biomecânica, da fi siologia do exercício e da anatomia funcional. Os calçados de corrida disponíveis no início da década de 1970 eram duros demais para muitos corredores inexperientes, sendo assim, lesões por impacto, como canelite e fraturas por estresse, tornaram-se comuns. A indústria calça- dista respondeu a isso produzindo calçados mais macios, contudo, estes não forneciam tanta estabilidade ou controle como um calçado mais duro, de modo que as lesões de tornozelo, joelho e quadril aumentaram entre os corredores. Pesquisas de Biomecânica proporcionaram muitas das características apresen- tadas nos calçados de corrida modernos, os quais conferem tanto estabilidade como amortecimento. Essas melhoras resultaram em menos lesões de corrida. A Biomecânica do esporte e do exercício pode proporcionar melhora no desempenho e auxiliar na prevenção de lesão e na reabilitação por meio do aperfeiçoamento da técnica, do design de equipamentos e do treinamento. Na verdade, há poucos exemplos da contribuição da Biomecânica no desen- volvimento de novas técnicas ou equipamentos que melhorem o desempenho. Embora as pessoas que mais afetem as técnicas esportivas — professores, treinadores e atletas —, na maioria das vezes, não sejam conhecedoras da Biomecânica, as suas constantes motivações de tentativa e erro lhes permitem tropeçar nas técnicas melhoradas. À medida que mais professores, profissionais da saúde e atletas se expõem à Biomecânica, melhoras na técnica podem ocorrer com mais rapidez. Todavia, a Biomecânica do esporte e do exercício ainda é um campo relativamente jovem. A população de biomecânicos do esporte é pequena demais para ocasionar mudanças em muitas modalidades. Acessando o link a seguir, você poderá assistir ao vídeo O que é biomecânica. https://goo.gl/4gfZCo Exame do movimento humano16 Uma vez que a maioria dos movimentos com os quais o fisioterapeuta lida são lentos e desprovidos de acelerações rápidas, os conceitos da mecânica aplicáveis à prática clínica são, principalmente, os princípios da estática. A finalidade de se estudar cinesiologia clínica é compreender as forças que atuam sobre o corpo humano e manipulá-las em procedimentos de tratamento, a fim de que o desempenho humano possa ser melhorado e lesões possam ser prevenidas. BAUMANN, W. Métodos de medição e campos de aplicação da biomecânica: estado da arte e perspectivas. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE BIOMECÂNICA, 6., Brasília, DF, 1995. Anais... Brasília, DF: SBB, 1995. SAMPAIO, A. V. Eixos do corpo humano. Brasil, 2016. Disponível em: https://www.cram. com/flashcards/11-eixos-do-corpo-humano-7008957. Acesso em: 5 mar. 2019. Leituras recomendadas HALL, S. Biomecânica básica. Barueri, SP: Manole, 2007. HAMILL, J.; KNUTZEN, K. M. Bases Biomecânicas do movimento humano. 3. ed. Barueri, SP: Manole, 2011. OKINO, E.; FRATIN, L. Desvendando a física do corpo humano. Barueri, SP: Manole, 2007. 17Exame do movimento humano