A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
248 pág.
Naturalismo e Biologização das Cidades na Constituição da Idéia de Meio Ambiente Urbano

Pré-visualização | Página 20 de 50

às moscas – a naturalização da cidade pela Medicina e Biologia 67 
Naturalismo e biologização das cidades na constituição da idéia de meio ambiente urbano 
uma transposição do darwinismo ao plano social), e por fim a Ecologia anterior à formulação 
do conceito de ecossistema. 
O argumento que será desenvolvido neste capítulo, portanto, parte da hipótese de que 
as três vertentes do pensamento médico-biológico indicadas acima contribuíram em conjunto 
para a consolidação de uma imagem de cidade como “organismo” (portanto, como natureza). 
Mais do que isso, contribuíram para estabelecer as bases de uma compreensão do urbano 
como “meio ambiente” que permanece nos dias atuais sob novas formulações. Ainda que 
bastante criticada, a adoção de um vocabulário biomédico ao estudo e à intervenção no urbano 
tem sido objeto de poucos estudos61. Além disso, as contribuições da Medicina e Biologia são 
recorrentemente analisadas como indistintas. 
É necessário, portanto, reconhecer a especificidade de cada uma delas e o papel que 
tiveram na consolidação da matriz teórica do urbanismo em momentos distintos62. Para isso, é 
fundamental perceber que a biologia em que se baseou o higienismo do século XIX não é 
absolutamente a mesma em que se foram buscar, na década de 1920, os modelos teóricos de 
projeções do crescimento urbano. Se num primeiro momento a biologia e a medicina 
estiveram de fato associadas, essa realidade vai pouco a pouco se transformando, à medida 
que cada disciplina passa a se dedicar a um conjunto de questões específicas63. Esse processo 
de distinção tem suas implicações e faz-se necessário tratar o assunto com atenção e algum 
cuidado. 
É preciso que se diga, de antemão, que a contribuição dessas disciplinas ao 
pensamento urbanístico ultrapassa a mera imagética. De fato, a formulação de uma analogia 
 
61 Referência fundamental para o assunto é o artigo de Gunn e Correa (2001). 
62 Merece nota, aqui, a referência de Mumford a respeito da influência de concepções biológicas lamarckianas na 
formulação basilar do funcionalismo da arquitetura modernista – ‘a forma segue a função’ – vide nota #107, 
mais adiante, para indicações bibliográficas. 
63 Vide, a respeito, Costa (1985) e Ribeiro (1994). 
Dos miasmas às moscas – a naturalização da cidade pela Medicina e Biologia 68 
Naturalismo e biologização das cidades na constituição da idéia de meio ambiente urbano 
entre organismos e cidades poderia se limitar a uma figura metafórica, uma licença poética, 
não fosse ela reveladora de um processo social muito mais importante. Mais ainda, se não 
fosse tomada, por muito tempo, como uma descrição adequada de cidades. 
Para além desse aspecto, o legado dessas ciências para o pensamento sobre as cidades, 
no período aqui observado, estende-se aos próprios fundamentos teóricos e metodológicos do 
nascente urbanismo, e um dos objetivos deste capítulo é justamente verificar o alcance desse 
legado. Convém observar que essa penetração da biologia no pensamento sobre as cidades 
não é fortuita nem descabida, considerando que o século XIX é considerado, por muitos, 
como o “século da biologia” (Gunn, 1997)64. Se as descobertas e debates em biologia causam 
tamanho impacto no século XIX, é compreensível que os urbanistas também buscassem em 
tal ciência conceitos e métodos aplicáveis à cidade. 
A importância das concepções biológicas para o urbanismo fica bastante evidente na 
atuação dos médicos no ordenamento das cidades (principalmente a partir da ascensão do 
paradigma microbiológico), mas não se encerra nela. De fato, durante todo o período de 
constituição do urbanismo como disciplina e campo profissional associado ao 
higienismo/sanitarismo, as metáforas biomédicas representaram um papel fundamental, seja 
como imagem e vocabulário, seja como formulação do problema a enfrentar: nas palavras de 
Gunn e Correia (2001:38), “a grande cidade, um corpo doente; o urbanista, seu médico”65. 
 
64 O organicismo representa uma importante vertente do pensamento moderno que ultrapassa a questão 
urbanística, estendendo-se à sociologia, economia e, evidentemente, à biologia. Embora a concepção organicista 
(ou organísmica) seja característica da passagem do século XIX para o XX, ela atingiu em tempos sutilmente 
distintos cada uma das disciplinas mencionadas. A importância dessa concepção e da discussão de suas 
implicações justifica uma discussão mais pormenorizada do assunto; neste estudo, a questão será tratada apenas 
em suas linhas gerais. 
65 O artigo em referência representa, até o momento, o mais cuidadoso trabalho encontrado de mapeamento da 
utilização das concepções e vocabulário médico-biológico no urbanismo. Além de demonstrar “o caráter 
aparentemente essencial destas metáforas à construção do campo conceitual, do discurso e das práticas do 
urbanismo ao longo dos últimos séculos” (Gunn & Correia, 2001:54), o artigo trata também de algumas 
importantes implicações de tal procedimento, algumas das quais serão tratadas também nesta seção. 
Dos miasmas às moscas – a naturalização da cidade pela Medicina e Biologia 69 
Naturalismo e biologização das cidades na constituição da idéia de meio ambiente urbano 
Ao mesmo tempo, deve-se observar que existe, entre Biologia e Urbanismo, não 
apenas uma influência unilateral, mas um intercâmbio: num sentido, há o famoso exemplo da 
descrição do sistema circulatório humano por Harvey fornecendo a imagem perfeita do 
sistema viário urbano desde o século XVII (Gunn e Correia, 2001:37; Sennett, 1997:213-4); 
por outro lado, há a crença, pelo zoólogo e fundador da paleontologia George Cuvier, de que 
“assim como diferentes planos de construção podem se reduzir a um pequeno número de 
estilos, de igual modo pode-se distinguir entre os animais quatro grupos fundamentais de 
planos de construção” (Radl, 1988:5). A questão da diversidade de formas de vida – entendida 
segundo conceitos arquitetônicos – e suas origens era, além disso, tratada por alguns 
investigadores da seguinte forma: 
Afirmavam que do indivíduo, da espécie, do gênero havia transições não só para frente 
e para trás (formas inferiores e mais perfeitas), mas também em todas as direções, até 
outras numerosas formas, de maneira que os indivíduos e espécies podiam ser 
representados como cidades, províncias e países, em um mapa (...). (Radl, 1988:38). 
A idéia de assemelhar organismos vivos a cidades não é uma invenção do século 
XIX66; contudo, a imagética organicista se fixa profundamente nesse momento de constituição 
do urbanismo. Diversos autores, posteriormente, vão criticar esse procedimento, que, no dizer 
de Reis Filho, utiliza categorias “que para nós não explicam nada, estamos apenas fazendo 
analogias, ou seja, dizendo que isto se parece com aquilo, mas que não é igual”67. Uma das 
críticas mais freqüentes a tal comparação é que ela “despolitiza” conflitos e processos 
essenciais da construção social das cidades. Para Gunn e Correia (2001:58), “na ânsia de 
legitimar sua ação e seu papel na sociedade, (...) [o urbanista] não recua ante uma operação 
brutal de simplificação das contradições do mundo moderno”. O uso de tais categorias 
biológicas, além de “revelar uma atitude de fuga diante da complexidade e das contradições 
 
66 Há uma longa história de associação entre corpo (principalmente humano) e a sociedade. Particularmente em 
relação às cidades, pode-se apontar momentos em que a analogia foi particularmente prestigiada, como no 
Renascimento. Vide, a respeito, Sennett (1997). 
67 Reis Filho, Nestor Goulart. “AUH 237 – Urbanização e Urbanismo no Brasil, Resumos das aulas” (anotações 
de Ricardo Hernán Medrano).