A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
248 pág.
Naturalismo e Biologização das Cidades na Constituição da Idéia de Meio Ambiente Urbano

Pré-visualização | Página 25 de 50

miasmática numa moderna “teoria do meio”. Além disso, segundo essa concepção, a 
influência do meio será determinante não apenas para o físico como também para o moral, 
seguindo o estabelecimento de uma estreita vinculação entre medicina e ética (Andrade, 
1992:21). Essa vinculação é um elemento fundamental para a compreensão do higienismo-
sanitarismo e, por extensão, da ideologia das reformas urbanas posteriores. 
Segundo Gunn (1998), “as inovações médicas no fim do século XIX se situaram entre 
a causa e o remédio para as diversas formas da peste”, distinguindo-se assim diferentes 
formas de enfrentamento das doenças epidêmicas. Na esfera das causas encontram-se as 
pesquisas visando à compreensão dos mecanismos de contágio e infecção, ao passo que do 
lado dos tratamentos, há o desenvolvimento das vacinas como uma formidável conquista do 
século XIX. Essas duas abordagens distinguirão as pesquisas do grupo francês ligado a Louis 
Pasteur e dos pesquisadores germânicos, sendo Robert Koch um grande expoente (Rosen, 
1994, cap. 7). 
Com os avanços da bacteriologia e da parasitologia, foram esclarecidos alguns 
problemas relativos às causas das doenças e o papel dos vetores ou intermediários das 
doenças. Entre outras conseqüências, essas descobertas “indicaram o papel que o homem 
ocupa na transmissão das doenças, reforçando na legislação sanitária as proposições de 
controle dos doentes” (Costa, 1985:30). A definição do papel do mosquito como agente 
transmissor e hospedeiro intermediário da febre amarela em 1900, por exemplo, criou um 
novo paradigma de prevenção da febre amarela, fundamentado justamente nesses princípios. 
Dos miasmas às moscas – a naturalização da cidade pela Medicina e Biologia 82 
Naturalismo e biologização das cidades na constituição da idéia de meio ambiente urbano 
À parte dos avanços e descobertas, observa-se que “as ações voltadas para a 
implantação do paradigma bacteriológico fizeram parte de um longo processo de 
confrontações e negociações” (Almeida, 2000). Para Costa (1985:10), a ascensão da 
microbiologia no último quartel do século XIX teria permitido que “os programas de saúde 
pública pudessem ser realizados ignorando considerações e reflexões sobre política social e 
reforma urbana”, passando então a prescindir de medidas incidentes especificamente sobre o 
ambiente urbano. Analisando as intervenções sanitaristas voltadas às habitações populares, 
entretanto, Caponi (2002:1668) discute essas considerações, que segundo ela, “parecem 
desconsiderar que, por exemplo, em relação à moradia popular, muitas das estratégias 
defendidas pelos higienistas pré e pós-pasteurianos se mantiveram idênticas”, e que “muitas 
preocupações com os hábitos e condutas populares (alcoolismo, prostituição, sexualidade, 
etc.) se mantiveram constantes”. 
Mais do que compatível com as antigas concepções miasmáticas, “o discurso 
microbiológico pode resultar um excelente aliado que permite legitimar e reproduzir tanto os 
velhos temores e medos associados à moradia popular como as antigas estratégias operativas 
próprias do higienismo clássico” (Caponi, 2002:1673). A atenção dos sanitaristas para com a 
moradia popular parece também se originar, segundo Caponi, não apenas da emergência da 
microbiologia, mas também da “generalização da estatística92 como recurso capaz de pôr em 
evidência a relação entre as desigualdades sociais e as diferenças na mortalidade da 
população” e ainda da “persistência da antiga associação entre condições físicas e condições 
morais” (Caponi, 2002:1669). De qualquer forma, percebe-se que, mais próximo à virada do 
 
92 Mais adiante, serão feitas outras considerações sobre a crescente importância da estatística para o 
reconhecimento da realidade social (particularmente a urbana) no século XIX. Desde já convém destacar seu 
papel na constituição de uma abordagem quantitativa – portanto, “científica” – e exterior sobre essa realidade. 
Tais aspectos são observados por Donne (1983) e Bresciani (1992), entre outros. 
Dos miasmas às moscas – a naturalização da cidade pela Medicina e Biologia 83 
Naturalismo e biologização das cidades na constituição da idéia de meio ambiente urbano 
século XIX para o XX, começa a se desenhar uma progressiva distinção entre os campos da 
medicina e da biologia: 
A herança miasmática teria conseqüências nas práticas de medicina hospitalar e de 
saúde pública. Os divisores entre a medicina e a biologia foram se tornando mais 
densos com o funcionamento dos diversos institutos públicos de bacteriologia. A 
criação de cursos médicos com uma faculdade própria e a criação posterior de um 
curso de biologia em um departamento de filosofia, ciências e letras abrigado no 
mesmo prédio da medicina define os contornos de separação destas corporações. 
Concomitantemente nestas décadas no fim do século XIX e no início do século XX, a 
medicina teria outras "questões fronteirísticas" com a engenharia no campo do 
higienismo sanitário. (Gunn, 1998). 
Segundo Gunn, o período da 1a Guerra Mundial pode ser considerado um divisor de 
águas no movimento sanitário-higienista, com a cisão “entre correntes da medicina, biologia e 
saúde pública”, que se traduziu também numa distinção crescente entre práticas ligadas ao 
saneamento e higiene e outras mais voltadas à medicina preventiva. Ao longo dessa década, 
iniciativas de educação higiênica e sanitária da população foram ganhando força. 
As cidades brasileiras, que durante o período colonial haviam convivido com 
epidemias diversas, passam a ser objeto de intervenções sistemáticas visando o controle, o 
combate e/ou a erradicação das moléstias. Um exemplo no século XIX é a forma como, no 
Recife, se responde às epidemias de febre amarela no fim dos anos 1840 e do cólera-morbo 
em 1855 e 185693. 
Em São Paulo, o problema sanitário e o combate às epidemias emergem de forma 
importante na década final do século XIX, no bojo de um veloz crescimento populacional 
provocado, especialmente, pela imigração européia de trabalhadores para substituir a mão-de-
obra escrava recém-liberta. Ao longo dessa década é notável a criação, desenvolvimento e 
articulação de uma extensa rede de instituições ligadas à prática, pesquisa e ensino medicinal 
 
93 Gunn (1998) aponta para a importância da peste do Recife em 1848-49 como a oportunidade de 
estabelecimento de uma experiência pioneira em ordenação urbana com um caráter sanitarista, promovida pelo 
médico Heitor de Aquino da Fonseca. As principais medidas desse novo ordenamento visavam à eliminação de 
focos miasmáticos. 
Dos miasmas às moscas – a naturalização da cidade pela Medicina e Biologia 84 
Naturalismo e biologização das cidades na constituição da idéia de meio ambiente urbano 
em São Paulo94. Em 1894 foi implantado o Código Sanitário em todo o Estado, em paralelo 
com um aumento da atenção aos serviços de vacinação. Na tentativa de erradicar a febre 
amarela, aplicaram-se simultaneamente 
(...) elementos da nascente bacteriologia com ancestrais concepções miasmáticas, 
resultando em um conjunto de intervenções sobre o fluxo e a pureza do ar, da água e do 
solo, por meio de ações genéricas de saneamento urbano, melhorias nas habitações, 
isolamento dos doentes e desinfecções de locais supostamente contaminados (Telarolli 
Jr., 1996:13). 
Ao longo das décadas seguintes, grande parte das epidemias foi controlada ou 
virtualmente erradicada do Estado, ao ponto de, a partir de 1905, a saúde pública estatal se 
voltar ao combate de outras doenças, não epidêmicas, mas capazes de afetar a produtividade 
geral dos trabalhadores (Telarolli Jr., 1996:53)95. Em 1918, São Paulo já havia controlado a 
maior parte das