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Naturalismo e Biologização das Cidades na Constituição da Idéia de Meio Ambiente Urbano

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development, Galton desenvolveu 
sistematicamente sua teoria eugênica. Acreditava que suas idéias sobre hereditariedade mental 
produziriam uma reforma política e religiosa na sociedade, contemplando o controle de 
casamentos e de fertilidade – para ele, o aprimoramento das raças humanas se daria 
exclusivamente mediante cruzamentos selecionados, o meio não poderia influenciar as 
inclinações hereditárias. 
Em 1909, Galton publica seu livro Esays on Eugenics, coletânea de um conjunto de 
artigos, palestras e conferências sobre o tema da eugenia. Em um desses artigos117, Galton 
parte de uma proposição estatística para fundamentar sua argumentação de que a distribuição 
de “talentos” em uma dada população obedece a certas leis estatísticas118. A partir da adoção 
da premissa de que “os cérebros de nossa nação encontram-se nas mais altas de nossas 
classes” (Galton, 1909:11), Galton tenta estimar o valor das crianças nascidas de acordo com 
a classe à qual estão destinadas no futuro “contabilizando” dois eventos – o custo para mantê-
la na infância e velhice, e seus ganhos como jovem e adulto. Conclui pela “economia de 
esforço” ao se concentrar a atenção sobre as classes mais altas para buscar o aprimoramento 
da raça, de onde deriva a recomendação de que os esforços (inclusive investimentos 
monetários) deveriam priorizar e promover casamentos entre semelhantes. 
 
117 “The possible improvement of the human breed, under the existing conditions of law and sentiment” (Galton, 
1909:1-34) 
118 É fundamental observar a estreita ligação entre as teorias eugênicas e as ferramentas estatísticas. Um dos 
principais seguidores de Galton, o professor da University College London Karl Pearson, é ainda hoje 
considerado um dos nomes mais importantes para a sistematização da estatística moderna. O vínculo é 
especialmente destacado pelo próprio Galton em outro de seus artigos publicados em 1909: “Probability, the 
foundation of eugenics” (Galton, 1909:72-99). 
Dos miasmas às moscas – a naturalização da cidade pela Medicina e Biologia 97 
Naturalismo e biologização das cidades na constituição da idéia de meio ambiente urbano 
Suas sugestões para promover o aumento do “melhor estoque” incluem concessão de 
incentivos monetários para antecipar casamentos desejáveis, e fornecer condições para uma 
“vida simples” em uma casa saudável119. A concessão de emprego rural com uma boa moradia 
também pode ser, portanto, um recurso eugênico, já que a seleção necessária de quem será 
agraciado implica a escolha dos “melhores candidatos”. Outra forma de promover os 
indivíduos de mais alto potencial seria a provisão de moradia adequada e com aluguéis baixos 
aos casais “promissores”. Isso significa claramente que se abandone a idéia de investimento 
em habitações populares, por exemplo, que se constituiriam um esforço pouco lucrativo para a 
melhoria da raça. 
“Cacóplatos”, “escória social”... a Eugenia no Brasil 
Segundo Couto (1994), a vinda da Família Real portuguesa ao Brasil em 1808, e o 
resultante impulso de urbanização, trouxe como importante conseqüência a discussão racial 
no Brasil, já que as teorias racistas européias condenavam com veemência a miscigenação, 
traço consolidado da população brasileira120. 
A questão se torna ainda mais importante quando da abolição da escravatura. Embora 
ela não tenha promovido a transformação econômica e social esperada pelos abolicionistas, 
levantou a questão da inserção social dos escravos recém-libertados. Após a abolição, 
Milhares de escravos deixaram às tontas as fazendas, e mergulharam como grileiros 
numa agricultura de subsistência onde quer que pudessem encontrar terras (...). Outros 
 
119 É interessante destacar a ênfase de Galton no perigo para a civilização da urbanização acelerada: “aqueles que 
vêm para as cidades podem produzir grandes famílias, mas há muita razão em acreditar que essas diminuem nas 
gerações seguintes. Em resumo, as cidades esterilizam o vigor rural” (Galton, 1909:27, grifo nosso). 
120 Para uma detalhada análise das origens e do caráter da sociedade multirracial brasileira, vide Skidmore, 
1976:54-65. Desde o período colonial, o mulato foi sempre capaz de galgar degraus na escala social. Sua 
presença do mulato na sociedade brasileira obrigou a elite a uma reinterpretação das teorias racistas européias 
para adaptação à realidade local, embora as premissas racistas dessa “democracia racial” tenham sempre se 
mantido: o branco “caucasiano” era naturalmente o topo da hierarquia social, e a ascensão do mulado dependia 
em boa parte de seu aspecto físico – quanto menos “negróide”, maior a possibilidade de mobilidade social – e de 
sua “brancura” cultural – educação, boas maneiras, riqueza. 
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muitos migraram para as cidades (...). Alguns, como se presumira, incorporaram-se a 
bandos de marginais urbanos (...). A atitude do público era influenciada mais pela 
dramatização do processo abolicionista do que pelo número de escravos alforriados 
que abandonavam o campo. Em conseqüência: a força policial foi aumentada, e os 
grupos de capoeira tornaram-se alvo de penas repressivas do novo Código Penal de 
1890 (...) Tais violências reforçavam a imagem do negro como um elemento atrasado e 
anti-social, dando assim à elite novo incentivo para trabalhar por um Brasil mais 
branco. (Skidmore, 1976:63-4). 
O problema era agravado pela escassez de oportunidades de trabalho não 
especializado nessas cidades: 
(...) os brasileiros de classe baixa, que abrangiam a vasta maioria dos escuros, tinham 
mil dificuldades em subir social e economicamente. O fracasso dessa escalada 
confirmava a concepção sobre o que a elite tinha deles – de peso morto para o 
desenvolvimento nacional (idem, ibidem, p.64). 
A resposta dessa elite, que na opinião de Skidmore é uma solução peculiar ao Brasil, é 
a formulação de um ideal de “branqueamento”. O otimismo da ideologia do branqueamento 
repousava sobre a afirmação de que a miscigenação não produzia necessariamente 
degenerados, mas uma população sadia capaz de se tornar gradativamente branca. Àquelas 
suposições somava-se a crença de que a população negra diminuiria progressivamente (seja 
por uma natalidade mais baixa, maior incidência de doenças, seja por desorganização social), 
e a de que a miscigenação produzia naturalmente uma população mais clara. Essa justificativa 
“científica” foi que permitiu, com o advento da República, a abertura dos cargos oficiais a 
“todos os talentos”, permitindo a muitos “mulatos capazes” o acesso a altos cargos políticos e 
administrativos (Skidmore, 1976:82). 
A ideologia do branqueamento, contudo, foi contestada por um dos pioneiros do 
pensamento racial no Brasil. Para Nina Rodrigues, o máximo que a miscigenação seria capaz 
de promover é o retardamento da degeneração da raça. Muito ligado à doutrina do 
determinismo climático, Nina Rodrigues manifestava preocupação quanto à ameaça que a 
diversidade étnica e racial pudesse representar uma ameaça à unidade territorial brasileira, 
pela cisão entre um Sul branco e um Norte negro/mestiço. Isso porque, para ele, é patente a 
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inadequabilidade da raça branca para o clima do norte e nordeste do país, e do negro para o 
do sul e sudeste: 
(...) a possibilidade de oposição futura, que já se deixa entrever, entre uma nação 
branca, forte e poderosa, provavelmente de origem teutônica, que se