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Naturalismo e Biologização das Cidades na Constituição da Idéia de Meio Ambiente Urbano

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de psiquiatria e consultório gratuito de 
psicanálise; aplicou testes psicológicos em alunos de escolas públicas e em operários de fábricas, organizou 
diversas campanhas antialcoólicas e estabeleceu contratos de assistência psiquiátrica com a prefeitura do Rio 
de Janeiro. Os principais objetivos dessa entidade foram a prevenção de doenças mentais mediante higiene em 
geral e higiene do sistema nervoso em particular; proteção e amparo no meio social aos egressos de 
manicômios e aos doentes mentais passíveis de internação; aperfeiçoamento dos meios de tratamento desses 
doentes e programa de higiene mental e eugenia no domínio das atividades individual, escolar, profissional e 
social (Castañeda, 1998:37-8). 
Dos miasmas às moscas – a naturalização da cidade pela Medicina e Biologia 105 
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vícios). Recorrerá com freqüência ao relatório da expedição de Belisário Penna e Arthur 
Neiva, corroborando a visão de que a degeneração do brasileiro se deve à sua doença, ao 
analfabetismo e à miséria. Em outros tantos artigos, analisará uma série de “hábitos 
condenáveis” e apresentará conselhos às mães sobre práticas eugênicas em âmbito familiar. 
A súmula de seu pensamento eugênico, contudo, está no seu livro comemorativo de 
vinte anos de campanha eugênica – Por que sou eugenista (Kehl, 1937), no qual também se 
evidencia a nítida radicalização de algumas posições. Algumas posições polêmicas são 
defendidas nesse livro por Renato Kehl, como a esterilização compulsória de “certos 
alienados e criminosos” (p.81), a prática da a filantropia “no sentido eugênico de amparar os 
elementos produtivos e, sobretudo, os tipos superiores da coletividade, quer se dediquem a 
trabalhos manuais quer aos intelectuais” (p.76), e uma opinião claramente anti-humanista127, 
ao afirmar que: 
Ao fim de vinte séculos de doutrinas metafísicas para melhoramento do homem, ainda 
se repetem as guerras, as lutas de conquistas, as barbaridades, os assassínios, as 
desarmonias sangrentas entre indivíduos e povos. A verdadeira causa da degeneração 
individual e coletiva ainda não foi exposta com clareza e francamente. A decadência do 
homem, indivíduo, como dos povos, reside, sempre, em última análise, como disse 
Siemens, “na falta de seleção natural; esta desloca todas as outras para planos 
secundários”. (Kehl, 1937:38-9) 
O eugenista apresenta ainda sua posição perante alguns problemas bio-sociais, que 
incluem as doenças (sífilis, tuberculose), questões propriamente sociais (divórcio, guerra, 
imigração128), e as práticas eugenistas (controle de natalidade, a “filantropia seletiva”, exame 
 
127 Segundo Schwarcz (1993), a Eugenia é originária de um tronco das ciências biológicas que frontalmente se 
opuseram ao humanismo iluminista do século XVIII. 
128 A atuação dos eugenistas com relação à política imigratória só poderá ser compreendida se relacionada à 
questão da ideologia do “branqueamento” da população brasileira (Skidmore, 1976). As restrições à entrada de 
imigrantes no Brasil –justificadas pelos problemas que causaria à eugenização e branqueamento da população 
brasileira (especialmente no caso de negros e asiáticos) e, por outro lado, pela possibilidade de introdução de 
novas doenças, estranhas ao nosso ambiente – foram fortemente defendidas por Antonio Carlos Pacheco e Silva 
e por Renato Kehl, o primeiro através de sua atuação como constituinte, e o segundo através de panfletagem 
durante o ano de 1934. Uma análise da Constituição Brasileira então elaborada poderia evidenciar muitos 
aspectos ainda pouco elucidados da influência do eugenismo no Brasil. 
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pré-nupcial, etc.). A abordagem bio-social, de fato, é a chave para a compreensão das 
propostas e da atuação de Renato Kehl ao final dos anos 1930: 
Não há solução para os males sociais fora das leis da biologia, Não há política 
racional, independente dos princípios biológicos, capaz de trazer paz e felicidade aos 
povos. Eis por que a política, por excelência, é a política biológica, a política com base 
na eugenia. (Kehl, 1937:13). 
Após a Segunda Guerra Mundial, continua publicando livros, voltando-se aos estudos 
de medicina legal e criminologia, mas acaba encerrando a carreira já em 1947 (Couto, 1999). 
Aparentemente, havia-se tornado insustentável a manutenção de uma posição de destaque ao 
grande defensor da eugenia, após o Holocausto nazista, mas seria preciso um exame mais 
atento dessa fase de sua vida para compreender com mais clareza a influência dos 
desdobramentos da guerra em suas convicções. 
A dimensão (anti) urbana da Eugenia 
Com o crescimento das cidades, a reordenação dos espaços urbanos se fez uma 
necessidade para as elites, e o higienismo tomou para si tal tarefa, como já visto – mas 
também a eugenia, com a contundente imposição de normas severas para regular a vida social 
das populações. Mesmo admitindo os sucessos da ação sanitarista, principalmente na capital 
federal, a ênfase dada na higienização do campo e do sertão mostra que a aposta na “vocação 
agrícola” era nítida. Mais do que isso, as melhorias do campo e a “regeneração da raça” 
visavam unicamente o aumento da produtividade dos trabalhadores rurais, não em qualquer 
tentativa de reorganização da estrutura fundiária do campo129. O eugenismo brasileiro está 
intimamente ligado a essa tendência ruralista encontrada em certos segmentos da elite 
nacional nas décadas de 1920 e 30. De fato, consta das proposições da Comissão Central 
Brasileira de Eugenia: 
 
129 Parece não ser à toa que, no período, a figura do índio passa a ser elogiada, por exemplo, por Miguel de 
Calmon, pelo seu “intransigente espírito de apego ao solo” (Skidmore, 1976:183). 
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Direitos de sucessão que favoreçam os trabalhadores dos campos no sentido de 
garantir a estabilidade econômica das famílias sadias e prolíferas de agricultores e 
criadores. Kehl (1937: 95) 
Sendo verídicos os relatos de Belisário Penna e Arthur Neiva publicados em 1916, apenas 
uma parcela ínfima da população rural teria condições de ser agraciada pelos direitos de 
sucessão reivindicados pelos eugenistas. Mesmo considerando que fosse bem sucedido um 
programa de saneamento do interior como aqueles cientistas propunham, é muito pouco 
provável que as populações rurais mais carentes tivessem condições, em curto ou médio 
prazo, de serem aprovadas numa avaliação eugênica, subentendida na proposta. Essas idéias 
pareciam mais tratar de garantir aos já proprietários rurais que não seriam reconhecidos 
direitos, aos ex-escravos libertos ou a seus descendentes, de terras que tivessem ocupado 
como “posseiros” após a Abolição. 
Conforme visto anteriormente, muito se criticava o “abandono do campo” e a 
condenação das populações sertanejas ao descaso, ao mesmo tempo em que defendiam a 
doutrina da “vocação agrícola” do país. Contudo, mais importante para este trabalho do que a 
apologia eugenista do agrarismo é de fato o conteúdo explicitamente antiurbano. As 
implicações dessa ideologia são discutidas neste tópico. 
Uma oposição urbano-rural é evidente, por exemplo, na abordagem das doenças por 
parte dos sanitaristas da década de 1920 – por extensão, dos eugenistas aos quais aqueles 
então se associam: as principais endemias rurias são a malária (impaludismo), a 
ancilostomose (opilação) e a doença