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Naturalismo e Biologização das Cidades na Constituição da Idéia de Meio Ambiente Urbano

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A. S. “An assessment of several of the historically most influential theoretical models used in 
ecology and of the data provided in their support”. Ecological Modelling, 43 (1988: 5-31). 
166 Os estudos em referência são: Leão, M. L. O metropolitano de São Paulo. São Paulo, s/n, 1945; Whitaker, P. 
P. “O abastecimento de água da cidade de São Paulo”. Engenharia V(50): 65-108, outubro de 1946. Ambos se 
apóiam em um artigo, também de autoria de Leão, no qual são abordados os dois modelos matemáticos 
fundamentais (exponencial e logístico) de projeção das populações, seguida de uma exposição do modelo 
logístico de Pearl e Reed, a partir do qual se efetua uma projeção populacional para São Paulo (Leão, Mário 
Lopes. “O crescimento da População de São Paulo”. Engenharia III (33): 355-361, maio de 1945). 
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Naturalismo e biologização das cidades na constituição da idéia de meio ambiente urbano 
crescimento populacional de São Paulo no período, a migração, é desconsiderada, tornando o 
modelo irreal. 
Ainda assim, a fórmula de Verhulst permitiu a fixação de uma noção de projeção 
populacional como um instrumento de planejamento urbano. É preciso rever, portanto, em 
que pressupostos repousa tal concepção. 
Em primeiro lugar, vale lembrar que o modelo de Verhulst foi desenvolvido com 
populações confinadas a um espaço fisicamente limitado (era uma das “falhas” do modelo 
malthusiano). A aplicação a população das cidades só seria conceitualmente justificável 
assumindo-se que a cidade é também um espaço fisicamente limitado167. Em segundo lugar, o 
modelo trata de um ambiente não apenas limitado, mas isolado; mesmo em ecologia, o 
modelo é criticado por não considerar as migrações populacionais. Depois, a equação 
logística supõe um fator limitante ao crescimento da população – que, tratando-se de uma 
cidade, seria muito dificilmente definível: qual seria o principal fator limitante de uma 
população urbana? Energia, abastecimento de água, fatores estritamente econômicos, uma 
combinação desses fatores, ou outros ainda? 
A última das restrições acima retoma a questão de atribuir caracteres naturais à 
cidade, fundamento de quase todas as críticas dirigidas a uma abordagem biológica das 
cidades. Tenta-se forçar a interpretação da cidade como um ente limitado no espaço. 
Atualmente, fotografias aéreas, imagens de satélite e os últimos recursos em cartografia 
parecem comprovar essa verdade. Obscurecem, porém, a percepção de que, se há limites, 
 
167 A insistência em adotar como premissa o fechamento estrutural ou a limitação espacial parece ser mais um 
aspecto do organicismo: ao tomar a população como uma totalidade abstrata independente do conjunto de seus 
elementos, equipara-se seu crescimento ao de um organismo vivo, como uma célula. O próprio Pearl (1925) 
mostra como o modelo senoidal é, originalmente, um modelo descritivo/preditivo do crescimento de indivíduos 
(por exemplo, da altura de uma pessoa). É interessante notar que a própria representação gráfica do crescimento 
urbano, expressa pela expansão da mancha urbana, ajuda a reforçar essa metáfora – a ponto de permitir a 
equivalência deste crescimento a um processo cancerígeno. 
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esses são de ordem fundamentalmente social: questões fundiárias (estrutura de posse da terra), 
político-administrativas (limites à ocupação humana, como por exemplo as unidades de 
conservação ambiental) ou infra-estruturas, apenas para citar alguns exemplos. Nenhum 
desses fatores pode ser considerado, do ponto de vista estritamente ecológico, um verdadeiro 
fator limitante. Historicamente, todos esses fatores puderam ser modificados ou revertidos 
para poder permitir abrigar uma população maior – ou para restringir o acesso de populações 
indesejáveis. 
A despeito de tais críticas, a ecologia urbana de fato exerceu influência no Brasil, ao 
menos em certos círculos técnicos e acadêmicos. Até a década de 1970 são bastante esparsos 
os estudos urbanos que adotam o referencial teórico da Ecologia168, mas sempre que se refere 
a ela no período, fala-se essencialmente da ecologia da Escola de Chicago. A abordagem 
ecológica das cidades acabou sobrevivendo, mas acabou passando por uma inevitável 
reformulação ao longo das décadas seguintes. Essa reformulação diz respeito antes de tudo à 
transformação teórico-metodológica da própria Ecologia no pós-Segunda Guerra Mundial, 
com a consolidação do conceito de ecossistema e a incorporação dos conceitos 
termodinâmicos, da Teoria dos Sistemas e da Complexidade169, conforme será visto no 
próximo capítulo. 
 
168 Entre 1945 e 1970, apenas três artigos de autores brasileiros dedicam-se explicitamente ao tema: Mello, Luiz 
Inácio de Anhaia. “A cidade, base material de relações sociais. Sociologia urbana, ecologia humana e o Plano de 
Londres”. Engenharia III (31): 269-277, março de 1945. Moreira, Aldemar. “Ecologia e urbanismo”. 
Engenharia Municipal (19): 15-18. outubro-dezembro de 1960. Andrade, Francisco de Paula Dias de. 
“Ecologia”. Engenharia Municipal X(28): 39-48, julho-setembro de 1966. Há ainda um artigo de interesse, a 
respeito da estatística demográfica aplicada à cidade de São Paulo: Pagano, Aúthos. “Novas fórmulas para a 
estimativa da população e sua aplicação ao Município de São Paulo” Engenharia Municipal VI(21): 22-24, abril-
junho de 1961. 
169 As transformações na teoria e nos métodos da Ecologia na segunda metade do século XX são expostas de 
forma acessível em Acot (1990) e Capra (1997). 
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BIOLOGISMO E CIDADES, CONSIDERAÇÕES FINAIS 
Este capítulo buscou vasculhar algumas vertentes do pensamento sobre as cidades 
apoiadas em concepções biológicas e médicas, vigentes entre o século XIX e a primeira 
metade do século XX, e o que se revela é uma presença nada desprezível. Em seus 
primórdios, o Urbanismo parece ter buscado nessas disciplinas muito mais do que metáforas 
ou analogias meramente ilustrativas, mas sim modelos explicativos de fato – e muito dos 
esforços de descrição e análise das cidades entre a segunda metade do século XIX e a 
primeira metade do XX consistiram, realmente, em tentativas de adequar a realidade urbana a 
esses modelos. 
Situá-los historicamente é mais que necessário, ao menos por duas razões. Em 
primeiro lugar, é preciso reconhecer permanências e mudanças na prática e na teoria que 
embasam a disciplina do Urbanismo, visando uma contínua avaliação e crítica dos 
pressupostos que orientam a atuação profissional sobre as cidades. Em segundo lugar, 
qualquer tentativa séria de avaliar os possíveis e cabíveis intercâmbios entre disciplinas 
deveria estar pautada por uma compreensão acurada de ambas, sob o risco de simplificações 
que podem comprometer a busca de uma efetiva multidisciplinaridade e descambar para 
julgamentos preconceituosos. 
Sob o primeiro aspecto, foi possível verificar que a Medicina e a Biologia, 
conjuntamente e de forma isolada, concederam vocábulos e conceitos para a descrição e 
interpretação das cidades, bem como modos de intervenção sobre estas. Uma diferença 
importante talvez seja a de que os médicos, diferentemente dos biólogos, engajaram-se 
pessoalmente no trato de questões urbanas e do ordenamento territorial. Através de suas 
formulações teóricas, mas também de sua atuação profissional, os médicos contribuíram