A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
248 pág.
Naturalismo e Biologização das Cidades na Constituição da Idéia de Meio Ambiente Urbano

Pré-visualização | Página 46 de 50

e/ou no passado (real ou mítico) não se insere 
apenas, portanto, na lógica da nostalgia ou do passadismo. Busca-se ainda conferir ordem ou 
sentido àquilo que parece caótico e descontrolado (ou mesmo incontrolável). Ao mesmo 
tempo, reage-se às tendências mecanicistas e reducionistas que orientaram a ciência a partir 
de Descartes e Newton. A acusação de Ruskin e dos pré-rafaelitas à arte que, segundo eles, 
havia-se tornado meramente formalista e, portanto, desprovida de alma ou sentimento 
inscreve-se no mesmo contexto da diatribe de poetas como William Blake e Wordsworth 
contra os economistas que associavam as motivações individuais apenas às categorias de 
necessidade e satisfação, e a biologia vitalista que interpretava as formas e simetrias orgânicas 
 
183 O estigma da apreciação estética e do apelo visual da paisagem tem sido capaz de obnubilar, segundo 
Sandeville Jr. (2001, 2004a, 2004b), a definição da paisagem como um objeto de estudo sistemático e objetivo. 
Ambientalismo(s) contemporâneo(s) e a analogia reformulada 147 
Naturalismo e biologização das cidades na constituição da idéia de meio ambiente urbano 
como expressões de um plano essencial do ser vivo não redutível aos “mecanismos” 
fisiológicos. 
Essas diversas manifestações da sensibilidade romântica vão buscar seu modelo de 
natureza longe do mecanicismo, da idéia de um processo desprovido de finalidade e 
determinado por sua própria lógica interna. Como já observado, o romantismo contrapõe a 
essa natureza determinada e mecânica uma outra fundamentalmente dinâmica, agitada e 
passional. Paradoxalmente, ao reintroduzir a idéia de finalidade em contraposição ao 
“mecanismo cego” anterior, desencadeia uma acirrada polêmica, que marca os 
desenvolvimentos das diversas ciências ao longo de todo o século XIX, a respeito da 
“tendência” da natureza: ou à ordem ou à desordem. 
Para uma série de vertentes científicas que podem ser consideradas subsidiárias do 
romantismo, a natureza encontra-se em um estado de movimento e “desordem” que tende ao 
“equilíbrio” (mais do que à estabilidade), ou dele se originou. O aparente paradoxo se explica, 
então, como uma tentativa de circunscrever o instável ao presente, conquistando a segurança 
de sabê-lo fugaz – não se tratando, portanto, de uma exaltação do acaso, mas apenas 
devolvendo à natureza sua transcendência ao domínio humano imediato. De forma 
semelhante, o gosto romântico pelo “sublime”, pela sensação do perigo e do incômodo, 
pressupõe a garantia de retorno a uma condição de segurança ou conforto. 
A perspectiva de um “equilíbrio” final motiva a idealização da utopia, a fuga para o 
futuro, bem como a busca de reconciliação com a natureza já no tempo presente, como uma 
forma de antecipar e realizar a destinação final. Assim, é possível interpretar a estética de 
origem romântica, inclusive a de Ruskin, como aquela que expressa esse movimento e esse 
finalismo em termos de uma forma não rígida, sinuosa e insinuante, mas que se realiza numa 
totalidade inteligível, tal como as formas qualificadas “orgânicas”. 
Ambientalismo(s) contemporâneo(s) e a analogia reformulada 148 
Naturalismo e biologização das cidades na constituição da idéia de meio ambiente urbano 
Os dois componentes aqui destacados da sensibilidade romântica – a concepção de 
natureza e a apreciação estética da paisagem como expressão dessa natureza – comporão o 
imaginário no qual se funda o clamor pela proteção e pela conservação (ou restauração) de 
tudo aquilo que, submetido à civilização humana, tenda a se afastar dessa tendência ao 
equilíbrio: a natureza, sem dúvida, mas também a “memória”, a “tradição”, a “comunidade”, 
etc. Sob este imperativo, a ação humana é interpretada como uma intromissão e um abalo 
nessa tendência “natural” à equilibração, e deve por isso limitar-se e conter-se de modo a não 
interferir negativamente. É isso que, posteriormente, o ambientalismo exigirá da sociedade 
como um todo. 
AMBIENTALISMO E SOCIEDADE 
Aqui se introduz a idéia do ambientalismo não apenas como concepção ou doutrina, 
mas também como um movimento social – o qual, como se discutirá na seqüência, não deve 
ser considerado único, mas sim uma pluralidade de movimentos nem sempre coerentes e 
sinérgicos. Por uma série de razões, que incluem a própria preponderância político-econômica 
norte-americana no século XX, as atenções acabaram se voltando ao surgimento e ascensão 
dos movimentos ambientalistas nos Estados Unidos, a ponto de fazer crer que este caso, 
talvez bastante particular, tenha servido de modelo a todos os demais. 
Uma “história oficial” do ambientalismo 
Desde as origens dos debates contemporâneos acerca da proteção aos “recursos 
naturais”, ao menos duas tendências marcaram posição clara – que, no caso norte-americano, 
configuraram uma polêmica de fato. Essas tendências poderiam ser denominadas, seguindo 
Diegues (2000), como preservacionistas e conservacionistas. Enquanto a corrente 
preservacionista defendia o puro e simples isolamento de áreas naturais do contato com o 
Ambientalismo(s) contemporâneo(s) e a analogia reformulada 149 
Naturalismo e biologização das cidades na constituição da idéia de meio ambiente urbano 
homem184, a corrente conservacionista advogava o uso “racional” dos “recursos naturais”, para 
a qual um conceito basilar é da prevenção do desperdício (Diegues, 2000:29). Outra diferença 
entre as posições pode ser sintetizada preliminarmente na qualificação de “biocêntricos” aos 
preservacionistas e “antropocêntricos” aos conservacionistas185. A consolidação das “questões 
ambientais” nos Estados Unidos, em termos teóricos, metodológicos e conceituais, se deu ao 
longo da primeira metade do século XX orbitando em redor de uma ou outra dessas posições. 
A partir da década de 1960, denúcias dos efeitos nocivos da industrialização ao 
ambiente, como aquelas encampadas por Rachel Carson (Silent Spring), Barry Comoner (The 
Closing Circle), ou a constatação de um crescimento populacional sem precedentes (The 
population bomb, de Paul Ehrlich), alimentam um amplo movimento social contestatório que 
põe em questão o modo de vida das sociedades capitalistas ocidentais, ou da sociedade 
“urbano-industrial”. Para Castells (1976), porém, os líderes estudantis do final da década de 
1960 partem do mote da defesa do meio ambiente para a reorganização de um ativismo social 
que havia então entrado em crise, e acabam reabilitando a ideologia de uma elite “passadista” 
que havia parado no tempo186. Orientados no sentido da “conservação da natureza”, esses 
movimentos apontam suas armas para as causas do “desequilíbrio” ambiental, e acabam 
 
184 Castells (1976) argumenta que essa tendência tem suas origens claramente marcadas no surgimento das 
sociedades protetoras da natureza, tais como o Sierra Club (fundada em 1892 por John Muir), ou a Audubon 
Society, de caráter elitista e conservador, que inicialmente teria tido pouco eco “numa América lançada no 
máximo da industrialização e na formação de grandes trusts econômicos à escala mundial” (Castells, 1976:73). 
Mesmo seu mais famoso inspirador, Henry David Thoreau, teria sido por algum tempo considerado apenas “um 
rousseauniano de segunda ordem” (idem, ibidem). 
185 Pode-se dizer, desde já, que tal dualismo talvez seja uma contraposição apressada e um pouco redutora. 
Parece sugerir uma oposição entre “ecólogos” e “humanistas” que, de fato, não se demonstra. Válido como um 
ponto de partida útil, esse contraponto deveria ser refinado em diferenças mais sutis de conteúdo social, político 
e cultural. 
186 O nome destacado por Castells é o de Cliff Humphrey, da Universidade de Berkeley, fundador