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Naturalismo e Biologização das Cidades na Constituição da Idéia de Meio Ambiente Urbano

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guardam evidentemente profundas relações com os mitos da criação do mundo peculiares a 
cada cultura. Entretanto, o apelo “esotérico” de tais práticas tem estimulado grande 
exploração comercial, como no caso da prática chinesa do feng shui13. 
O fundamento da idéia de genius loci é uma ligação profunda com a terra, que pode 
ser resumida pelo mito animista14 da “mãe natureza”. Segundo Rupert Sheldrake (1997), a 
grande maioria das palavras que designam a natureza nas línguas européias guarda alguma 
relação com a idéia de nascimento, de geração e de maternidade: physis do grego, natura do 
 
12 Sheldrake (1997:176) nota que “a palavra espírito tem dois significados relacionados: um sentimento, uma 
atmosfera ou um caráter; e uma entidade ou ser invisível, com sua própria alma ou personalidade”. 
13 Seria leviano desqualificar a priori a técnica chinesa de interpretação e remediação de lugares, mas não resta 
dúvida de que o recente modismo do feng shui no Ocidente parece guardar muito pouco da relação original entre 
mitos, símbolos e interpretações do espaço culturalmente muito particulares, cuja transferência para outros 
contextos culturais nunca é tarefa simples. Da forma como é praticada na atualidade, sem o devido cuidado de 
compreender e reelaborar tais mitos e significados em termos mais adequados à nossa própria cultura, o feng 
shui transforma-se apenas numa ferramenta supersticiosa e superficial. Sobre os riscos da “importação” de 
costumes orientais de forma descuidada e inconseqüente, vide a introdução de Carl G. Jung para o livro chinês O 
segredo da flor de ouro. (Jung e Wilhelm, 1992). 
14 Pode-se definir o animismo como uma doutrina segundo a qual o princípio da vida deriva de uma só e mesma 
alma, ou a atribuição de um princípio vital pessoal, isto é, uma alma, a seres vivos, objetos inanimados e 
fenômenos naturais em geral. 
A ação humana na idéia de Natureza 26 
Naturalismo e biologização das cidades na constituição da idéia de meio ambiente urbano 
latim são apenas alguns exemplos mais notáveis15. A representação maternal da natureza, 
muito comum às sociedades agrícolas, residia em sua imagem de fonte da vida. era a Mãe 
Terra (ou a Natureza) quem nutria os organismos vivos e exalava o sopro da vida. 
A natureza, nesta representação animista, jamais seria observada como um objeto em 
si mesmo, mas apenas em função do próprio homem. A necessidade de ligar o destino do 
homem ao das coisas revela um temor fundamental do acaso – da indeterminação, da fantasia, 
da liberdade16. Daí que uma das principais características das concepções anímicas seja o que 
Lenoble (1990:50) considera uma “idéia moral” como a primeira idéia que os homens 
formaram da natureza – e que, para Rosset, é um dos traços comuns a quaisquer formas de 
naturalismo. A causalidade da Natureza mágica, viva e consciente, significaria então na 
realidade uma inextricável vinculação entre as vontades dos homens e das coisas: se há 
realmente uma vinculação entre os destinos do homem e do mundo, é fácil concluir que um 
evento terrível, uma doença, uma catástrofe, sejam interpretados como “castigos” divinos, e o 
contrário como “benesses”. 
Esse “antropomorfismo” da representação de natureza aparece, por exemplo, em 
Homero e Hesíodo: sujeito ao comportamento passional dos deuses, o universo ainda preserva 
grande dose de mistério e imponderabilidade, e episódios como os de Prometeu e Pandora 
servem para confirmar a condição do homem sujeito aos caprichos divinos. Só com as 
 
15 Lenoble reconhece também esse caráter animista da noção de natureza: uma raiz comum (nasci, nascer) forma 
tanto a palavra latina natura quanto natio, enfatizando com isso a idéia de que a noção de nascimento, desde a 
Antigüidade Clássica, reconhecia simultaneamente duas origens essenciais do homem: o nascimento dentro do 
mundo, a geração e seus órgãos (natura), mas também o nascimento perante a sociedade humana e a estrutura 
que vincula o homem a seus antepassados e conterrâneos (natio): “não é por acaso (...) que na mesma época, na 
Grécia do século V antes de Cristo, se formularam as noções de physis e de cidade, de lei natural e de lei civil. 
Este sincronismo não tem nada de um acidente particular à Grécia; encontramo-la até na China e em quase todos 
os povos” (Lenoble, 1990:194) 
16 Tema que será o mote central para a tese de Rosset, conforme será abordado adiante. Pode-se adiantar, desde 
já, que as duas características do animismo apontadas por Lenoble serão consideradas, por Rosset, como 
integrantes de todas as visões subseqüentes da natureza. 
A ação humana na idéia de Natureza 27 
Naturalismo e biologização das cidades na constituição da idéia de meio ambiente urbano 
primeiras cosmogonias filosóficas que se adotará um pressuposto de uma legalidade 
impessoal, lógica e universal – expresso no conceito de arché17. 
Outra herança importante à concepção anímica da natureza é a do latino Plínio, o 
Velho: em sua obra Historia Naturalis, em que pretende descrever enciclopedicamente todo o 
mundo então conhecido, Plínio acaba por legitimar tradições e mitos de sua época, que 
acabam por se preservar por séculos a fio e constituindo uma referência “científica” por toda a 
Idade Média européia, e mesmo depois18. Suas descrições geográficas não serão capazes de 
afastar totalmente as lendas que envolviam as terras mais distantes, por exemplo, sua 
meteorologia freqüentemente se confunde com a astronomia (e, por vezes, esbarra na 
astrologia); sua física ajuda a preservar quase intactos algumas concepções míticas populares, 
tais como: a idéia de ação por simples contato (da qual deriva a crença no poder de amuletos, 
por exemplo), a ação por semelhança de formas (expressa por gestos simbólicos, entre 
outros), a ação pelos números e pontos cardeais (explícita herança pitagórica, que atribui 
qualidades às relações de proporção, medida, harmonia, etc.), sem falar nas propriedades dos 
quatro elementos, que a Historia naturalis ajuda a fixar definitivamente. Além disso, 
(...) Plínio inaugura uma certa sensibilidade naturalista, caracterizada pelo sentimento 
de fragilidade vinculada ao estado (provisório) das coisas, e por um medo do presente, 
perpetuamente suspeito de consumar a ruína definitiva de tudo o que o passado 
oferecia de atrativo e promissor. (...) o medo é o traço específico do pensamento 
naturalista, pois é o único que está temeroso de perder alguma coisa, postulando a 
existência de alguma coisa a perder (...). Daí, em Plínio, a recusa do presente e da 
história real, reencontrando, na história natural, um refúgio anti-histórico – igualzinho 
 
17 A grande contribuição de Homero está na humanização dos deuses e no afastamento do temor aos mortos: 
para ele, a alma (psyché) do homem se desprende e se desliga completamente do corpo agonizante, e passam a 
integrar o cortejo de Hades, o deus dos infernos. Perdendo todas as faculdades espirituais (inteligência, 
sensibilidade e consciência de si), as almas permanecem apenas como imagens semelhantes em aparência ao 
corpo que ocupava, mas são incapazes de interferir na vida dos homens. Já no mito das Idades de Hesíodo se 
encontra o tema da “degradação” do mundo, a partir do qual Platão, posteriormente, dará forma a uma 
concepção filosófica da natureza. Observe-se que essas concepções exaltam valores prezados por suas épocas: a 
virtude (areté) representa, para Homero, uma qualidade inata daqueles indivíduos descendentes dos heróis e 
antepassados ilustres, os aristoi, enquanto para Hesíodo, é decorrência do trabalho. Cf. Introdução ao volume 
Pré-Socráticos, da Coleção Os Pensadores (São Paulo: Nova Cultural, 1996:14-5). 
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