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APG 4º PERÍODO ACADÊMICA: AMANDA MARTINS COSTA 3. Muscular própria Organizada em duas camadas: circular interna e longitudinal externa. Distribuição muscular: Terço superior: músculo estriado esquelético. Terço médio: mistura de músculo estriado e liso. Terço inferior: músculo liso apenas. Controla o peristaltismo. 4. Adventícia (ou serosa na parte abdominal) Tecido conjuntivo frouxo que fixa o esôfago às estruturas vizinhas. MORFOFISIOLÓGIA DO ESÔFAGO Tubo muscular oco que liga a orofaringe ao estômago. mede em média 25 a 30 cm no adulto. Localização: Posteriormente à traqueia e da laringe. Anteriormente à coluna vertebral. Estende-se ao longo do mediastino posterior, dentro da cavidade torácica. Atravessa o hiato esofágico do diafragma ao nível da 11ª vértebra torácica (T11) para atingir o estômago. Função: Atua como um conduto para a passagem de alimentos e líquidos da faringe para o estômago. Divisões regionais: Esôfago cervical (proximal): do nível de C6 até a entrada do tórax. Esôfago torácico (médio): no mediastino posterior, junto à aorta e traqueia. Esôfago abdominal (distal): curto segmento intraperitoneal, entre o hiato diafragmático e o cárdia do estômago. Camadas histológicas (de dentro para fora): A parede do esôfago é formada por 4 camadas clássicas do trato digestório: 1. Mucosa Epitélio pavimentoso estratificado não queratinizado → resistente à abrasão (proteção contra atrito). Lâmina própria → tecido conjuntivo frouxo com vasos, fibras elásticas e linfócitos. Muscular da mucosa → músculo liso (fibras longitudinais). 2. Submucosa Tecido conjuntivo denso, com fibras colágenas e elásticas. Presença de glândulas esofágicas (principalmente na parte distal): produzem e secretam muco para lubrificar e proteger. S2P1: DOENÇA DO REFLUXO GASTRO-ESOFÁGICO Objetivos Rever a morfofisiológia do esôfago. Entender a epidemiologia, etiologia, fatores de risco, fisiopatologia, manifestações clínicas, diagnóstico, prevenção e complicações do refluxo gastro-esofágico nos adultos e nas crianças. Compreender o tratamento não medicamentoso e medicamentoso contendo suas classes e mecanismo de ação. Fisiologia: O esôfago tem como principal função conduzir o bolo alimentar da faringe ao estômago, por meio de movimentos peristálticos coordenados. Fases da deglutição: 1. Fase oral voluntária: o bolo é empurrado pela língua para a faringe. 2. Fase faríngea (reflexa): acontece o fechamento da nasofaringe e laringe; o bolo é impulsionado para o esôfago. (impede a entrada de alimento nas vias aéreas). 3. Fase esofágica (reflexa): onda peristáltica primária conduz o bolo ao estômago. Esfíncteres esofágicos: Esfíncter esofágico superior (EES): Também chamado de esfíncter faringoesofágico. Formado por músculo estriado (músculo cricofaríngeo). Localizado na junção entre a faringe e o esôfago. Impede o refluxo de conteúdo gástrico e ar para a faringe Esfíncter esofágico inferior (EEI): Também conhecido como esfíncter gastresofágico. Área de cerca de 3 cm localizada acima da junção com o estômago. funciona como uma barreira fisiológica ao refluxo. Seu relaxamento é estimulado por nervo vago durante a deglutição. APG 4º PERÍODO ACADÊMICA: AMANDA MARTINS COSTA Em Lactentes e Crianças O RGE é frequente e fisiológico nos primeiros meses de vida. Cerca de 50% dos recém-nascidos de até 3 meses apresentam ao menos um episódio de regurgitação por dia. A tendência é de diminuição gradual até os 8 meses e desaparecimento até os 2 anos, com a introdução alimentar e postura ereta. A maioria dos lactentes com RGE simples apresenta: Crescimento normal. Sintomas que regridem entre 9 e 24 meses. Populações pediátricas de risco para DRGE patológica: Crianças com paralisia cerebral. Síndrome de Down, fibrose cística, e doenças neurológicas. Classifica o refluxo patológico da DRGE pediátrica: 1. Regurgitação com desnutrição. 2. Esofagite. 3. Complicações respiratórias (ex.: tosse crônica, sibilância, apneia). ETIOLOGIA DA DRGE A DRGE é uma condição multifatorial. Os sintomas e as lesões decorrem de alterações funcionais no sistema antirrefluxo. Mecanismo básico Refluxo = retorno passivo do conteúdo gástrico ao esôfago. Ocorre por relaxamentos transitórios do esfíncter esofágico inferior (EEI), sem aumento de pressão intra-abdominal. Principais fatores etiológicos: 1. Alterações na barreira antirrefluxo Enfraquecimento ou relaxamento inadequado do EEI. Hérnia de hiato. 2. Alterações na motilidade Diminuição do peristaltismo esofágico, comprometendo a depuração do ácido. Retardo do esvaziamento gástrico. 3. Fatores anatômicos e funcionais em crianças Esofágos mais curtos e imaturos. Imaturidade do EEI. Posição supina constante nos lactentes. Dieta predominantemente líquida. 4. Fatores agravantes Obesidade. Gravidez. Tabagismo. Medicamentos (anticolinérgicos, bloqueadores de canais de cálcio). Refeições volumosas ou com alimentos irritantes (café, álcool, chocolate). DEFINIÇÃO de Refluxo Gastresofágico (RGE) É o deslocamento sem esforço do conteúdo gástrico do estômago para o esôfago. Considerado fisiológico quando não há sintomas ou lesão da mucosa. Ocorre várias vezes ao dia em lactentes, crianças e adultos saudáveis. IMPORTÂNCIA CLÍNICA da DRGE: Considerada um problema de saúde pública devido à: Alta prevalência Evolução crônica Recorrência frequente Impacto significativo na qualidade de vida EPIDEMIOLOGIA Em Adultos: A DRGE é uma condição crônica e de alta prevalência principalmente nos países ocidentais. Aproximadamente 10% a 20% da população adulta refere episódios semanais de refluxo. Ocorre com maior frequência entre 30 e 60 anos. Apresenta leve predominância no sexo masculino. Fatores como obesidade, sedentarismo, consumo de álcool, tabagismo e dieta rica em gorduras estão fortemente associados à maior incidência. Estima-se que no EUA: 15 a 44% dos adultos norte- americanos apresentam pirose ao menos 1x/mês. 14 a 17,8% apresentam sintomas diariamente. No Brasil: Estudo com ~14.000 pessoas em 22 cidades mostrou que 12% da população urbana apresenta sintomas típicos (pirose) da DRGE. Afeta todas as faixas etárias, com maior procura por tratamento entre idosos. A doença tem grande impacto: Recorrência frequente. Prejuízo na qualidade de vida. Possível subdiagnóstico de manifestações extraesofágicas (ex.: laringite, tosse crônica, asma, erosão dentária). APG 4º PERÍODO ACADÊMICA: AMANDA MARTINS COSTA Efeitos fisiopatológicos: Dissociação entre os esfíncteres interno e externo. Cria um saco herniário onde o conteúdo gástrico pode ficar preso. Facilita o chamado refluxo sobreposto, ou seja, o retorno do conteúdo do saco herniário ao esôfago. Outros fatores predisponentes ao refluxo c. Distensão gástrica pós-refeição Após refeições, especialmente volumosas ou ricas em gordura: Há distensão do estômago. Isso estimula os RTEIE e aumenta o risco de refluxo. Há aumento da pressão intragástrica. d. Retardo do esvaziamento gástrico Quando o esvaziamento gástrico está lento, o alimento permanece mais tempo no estômago. Isso eleva a pressão intragástrica, favorecendo o refluxo. Comum em condições como: Gastroparesia. Obstruções antropilóricas (parciais ou totais). e. Obstrução ou semiobstrução antropilórica Aumenta a pressão intragástrica, facilitando o refluxo. f. Hipersecreção gástrica Excesso de produção de ácido clorídrico: Aumenta a agressividade do conteúdo gástrico que reflui. É rara, mas pode ocorrer em condições como: Síndrome de Zollinger-Ellison (tumor produtor de gastrina). Mesmo sem refluxo volumoso, o refluxo de ácido mais concentrado pode causar lesão tecidual intensa. 2. Mecanismos de Depuração Intraluminal (Defesa funcional/esofágica) é o conjunto de mecanismos responsáveis por limpar (remover) e neutralizar o conteúdo gástrico refluxado no interior do esôfago, impedindo que ele cause lesões na mucosa esofágica. A depuração ocorre por 2 tipos de mecanismos complementares: 5. Fatores que afetam a mucosa Redução da resistência do epitélio esofágico ao ácido. Tempo prolongado de exposição ao conteúdo gástrico. Presença de pepsina, ácido clorídrico, bile e enzimas pancreáticas no refluxo. FISIOPATOLOGIA DA DRGE A DRGE é uma doença multifatorial, resultante do contato anormal e repetido do conteúdo gástrico com a mucosa do esôfago, levando a sintomas e/ou lesões teciduais. Esse processo decorre de falhas em 3 linhas principais de defesa do esôfago: 1. Barreira Antirrefluxo (Defesa anatômica e funcional) A principal proteção contra o refluxo é a barreira antirrefluxo, formada por 2 componentes: A) Esfíncter esofágico inferior (EEI) – "esfíncter interno" mantém-se fechado (contraído) em repouso e se abre (relaxado) somente com a deglutição ou distensão gástrica; Na DRGE, pode ocorrer: Relaxamento transitório do EEI (RTEIE): São relaxamentos espontâneos e não relacionados à deglutição. Estão presentes em 63 a 74% dos episódios de RGE e é o principal mecanismo fisiopatológico da DRGE. Em formas graves de DRGE: O EIE apresenta pressão de repouso diminuída Fatores que afetam a pressão do EIE, como: Colecistocinina (CCK) – liberada após ingestão de gorduras (reduz o tônus). Óxido nítrico (ON) e peptídeo intestinal vasoativo (VIP) – neurotransmissores inibitórios que também reduzem a contração do EEI. Comprimento total e comprimento abdominal do EIE – a redução desses comprimentos está associada à disfunção esfincteriana (menos eficaz em impedir o refluxo). B) Diafragma crural – "esfíncter externo" ajuda a reforçar mecanicamente a continência da junção esofagogástrica (EEI), especialmente durante a respiração. Hérnia hiatal Ocorre quando parte do estômago protrui através do hiato esofágico do diafragma para dentro do tórax APG 4º PERÍODO ACADÊMICA: AMANDA MARTINS COSTA b) Causas da hipossalivação: Síndrome de Sjögren: Doença autoimune que afeta glândulas exócrinas. Reduz a produção salivar drasticamente. Uso de medicamentos: Anticolinérgicos, antidepressivos tricíclicos, anti-histamínicos, entre outros. Afetam a secreção salivar e reduzem a capacidade de tamponamento. 3. DRGE NOTURNA: UM RISCO MAIOR Durante o sono, há maior risco de lesão esofágica por refluxo devido a: Fatores Noturnos Efeitos ↓ Fluxo salivar Menor neutralização do ácido. ↓ Peristaltismo Menor limpeza mecânica do esôfago. Posição supina (deitado) Impede a ação da gravidade, prolongando o contato do ácido com a mucosa. 3. Resistência intrínseca do epitélio esofágico Refere-se à capacidade do epitélio esofágico (mucosa) de se proteger contra agressão ácida, como o conteúdo ácido ou biliar que pode refluir do estômago. Essa resistência é composta por 3 linhas de defesa interligadas: A) DEFESA PRÉ-EPITELIAL: Local: No lúmen (interior) do esôfago. Composição: Muco Bicarbonato Água Função: Forma uma barreira físico-química contra o refluxo ácido. Observação: Essa camada é pouco desenvolvida no esôfago em comparação com o estômago e o duodeno. Por isso, o esôfago é mais vulnerável a lesões. B) DEFESA EPITELIAL: Local: No próprio epitélio do esôfago (tecido de revestimento). Mecanismos: Junções intercelulares firmes: Presentes no epitélio estratificado pavimentoso, dificultam a passagem de íons e substâncias nocivas entre as células. Substâncias tamponadoras intersticiais: Como proteínas, fosfato e bicarbonato, ajudam a neutralizar o ácido que atravessa a camada superficial. Função: Impede a retrodifusão de íons (ex: H+) e protege o tecido mais profundo contra lesões a) Depuração mecânica: Função principal: remover fisicamente o conteúdo gástrico do esôfago. Ações envolvidas: Peristaltismo esofágico: contrações musculares rítmicas que empurram o conteúdo ácido (refluxo) de volta ao estômago. Gravidade: contribui na posição ereta, auxiliando no esvaziamento do esôfago, mas é ausente durante o sono ou quando o paciente está deitado. b) Depuração química: Função principal: neutralizar quimicamente o ácido residual que permanece após o refluxo. Ações envolvidas: Saliva: contém bicarbonato e outros tamponantes que atua elevando o pH do esôfago. A neutralização do ácido leva cerca de 3 a 5 minutos. Cada 7 mL de saliva é capaz de neutralizar 1 mL de HCl 0,1N. Muco esofágico: ajuda a proteger e tamponar o ácido restante Alterações que prejudicam a depuração: 1. Alterações Dos Mecanismos Mecânicos: a) Alterações no peristaltismo esofágico: O peristaltismo pode estar comprometido em 2 contextos: Primária – doenças próprias do esôfago: Exemplo: Motilidade esofágica ineficaz (MEI). Caracteriza-se por contrações fracas ou ausentes após a deglutição. Diminui a remoção mecânica do ácido. Secundária – doenças sistêmicas do tecido conjuntivo: Esclerodermia, síndrome CREST, doença mista do tecido conjuntivo. Provocam fibrose e disfunção muscular do esôfago. Prejudicam significativamente a motilidade peristáltica. 3. ALTERAÇÕES DOS MECANISMOS QUÍMICOS a) Diminuição da produção ou fluxo salivar: Importância da saliva: Rica em bicarbonato, fundamental na neutralização do HCl. Atua lentamente: 3 a 5 minutos são necessários para restaurar o pH após um episódio de refluxo. Cada 7 mL de saliva neutraliza aproximadamente 1 mL de HCl 0,1 N. APG 4º PERÍODO ACADÊMICA: AMANDA MARTINS COSTA Manifestações Extraesofágicas da DRGE Nem sempre os sintomas respiratórios são causados por aspiração direta do conteúdo ácido. Existem dois mecanismos principais: 1. Mecanismo reflexo (via nervo vago): Estímulo: Acidificação da mucosa esofágica distal. Resposta: Tosse, broncospasmo, rouquidão, dor torácica. (sem contato direto do ácido com as vias aéreas). 2. Mecanismo por aspiração direta: O refluxo atinge diretamente a mucosa das vias respiratórias, provocando lesões: Granulomas de cordas vocais Estenose subglótica rouquidão crônica Asma refratária FISIOLÓGICA EM LACTENTES A fisiopatologia do refluxo em crianças pequenas/lactentes é diferente: O refluxo ocorre por imaturidade funcional do EEI. Há reduzida capacidade de esvaziamento gástrico. A alimentação é líquida e em grandes volumes. A posição habitual é supina. Esses fatores favorecem episódios fisiológicos de RGE que tendem a desaparecer até os 12-18 meses. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS DA DRGE A DRGE pode se manifestar por sintomas típicos, atípicos, extraesofágicos e também por sinais de alarme, que indicam gravidade ou complicações. 1. Sintomas Típicos São os mais comuns e fáceis de reconhecer, relacionados diretamente ao refluxo ácido no esôfago: Principais sintomas: Pirose: (azia) Sensação de queimação retroesternal (atrás do osso do peito), irradiação comum para o pescoço ou garganta. Geralmente ocorre após refeições ou em decúbito. Regurgitação: Retorno do conteúdo gástrico (ácido ou amargo) até a faringe, Pode ser percebido pelo gosto ácido ou amargo na boca. Acontece especialmente em posição reclinada ou ao abaixar-se. Eructações: “Arrotos” frequentes, às vezes acompanhados de sabor ácido ou amargo. C) DEFESA PÓS-EPITELIAL: Local: Na camada subepitelial (abaixo do epitélio). Mecanismo principal: Suprimento sanguíneo adequado (vasculatura subepitelial). Funções: Levar oxigênio e nutrientes às células epiteliais, pararegeneração tecidual. Remover metabólitos ácidos ou tóxicos gerados pelo estresse químico ou inflamatório, que consigam penetrar o epitélio. Alterações Patológicas O defeito mais comum dessa resistência é o aumento da permeabilidade paracelular (entre as células). As junções intercelulares se tornam disfuncionais. Isso facilita a penetração de ácido, pepsina, bile e outras enzimas, promovendo lesão celular → causando esofagite. Quando os mecanismos de defesa são ultrapassados pelos fatores agressivos (ácido, enzimas, bile), ocorre esofagite de refluxo. AGENTES AGRAVANTES: Refluxo Duodeno- Gastroesofágico É quando o conteúdo duodenal (bile + enzimas pancreáticas) reflui: 1. Do duodeno para o estômago. 2. E depois, do estômago para o esôfago → chamado de refluxo duodeno- gastroesofágico. Componentes agressivos: Bile; Secreções pancreáticas, como enzimas proteolíticas (ex.: Pepsina, tripsina). Esses compostos em contato com a mucosa esofágica: São altamente lesivos por si só. A bile e as enzimas pancreáticas potencializam a ação do ácido clorídrico. Aumentam a intensidade e profundidade da lesão epitelial. Isso explica por que pacientes com a mesma quantidade de ácido (medida por pHmetria) podem apresentar graus diferentes de esofagite, dependendo da composição do refluxo. Ácido clorídrico + Pepsina: Comum nos episódios de refluxo. Causam agressão direta à mucosa. APG 4º PERÍODO ACADÊMICA: AMANDA MARTINS COSTA Sangramento gastrointestinal (ex: vômito com sangue ou fezes escurecidas) Anemia: geralmente por perda de sangue crônica Emagrecimento involuntário Conduta: Esses sinais indicam necessidade de investigação imediata, principalmente com endoscopia digestiva alta, para descartar complicações como câncer de esôfago. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS DA DRGE CRIANÇAS Lactentes: Baixo ganho ponderal Regurgitações pós-alimentação. Choro excessivo ou irritabilidade. Arqueamento do dorso (“postura de Sandifer”). Recusa alimentar. Apneia/bradicardia. Crianças maiores/adolescentes: Nausea matinal Desconforto abdominal / Queimação Dor abdominal epigástrica. Tosse noturna ou sibilância. Rouquidão persistente. Vômitos recorrentes. Manifestações extraesofágicas Tosse crônica; Sibilancia/asma crônica; Rouquidão/pigarro; Laringites de repetição; Pneumonias recorrentes; Dor de garganta crônica/erosão do esmalte dentário. DRGE COM ENDOSCOPIA NORMAL Cerca de 60% dos pacientes com sintomas típicos de DRGE têm endoscopia normal. Esses pacientes: Têm sintomas tão intensos quanto os que apresentam esofagite. Apresentam impacto semelhante na qualidade de vida. São classificados, com base na pHmetria, em 2 grupos: A. Doença do Refluxo Não Erosiva (NERD) O paciente tem sintomas típicos, mas a endoscopia não mostra lesões na mucosa esofágica. Pode ser dividida em: 1. Exposição ácida anormal + boa resposta a IBP (semelhante à esofagite erosiva). 2. Exposição ácida normal, mas com correlação positiva entre sintomas e episódios de refluxo (índice de sintomas positivo) + melhora com IBP. Melhoram com o uso de antiácidos. 2. Sintomas Atípicos Não são específicos, mas podem estar presentes em casos de DRGE. Podem simular outras doenças, como as cardíacas. Exemplo principal: Dor torácica não cardíaca: Pode ser idêntica à dor cardíaca (anginosa). Ocorre porque o esôfago e o coração compartilham a mesma inervação (nervo vago e raízes torácicas), O refluxo ácido estimula quimiorreceptores da mucosa esofágica, causando dor. 3. Sintomas Extraesofágicos São manifestações em outros órgãos que podem ser causadas ou agravadas pelo refluxo, mas não são exclusivas da DRGE. A. Sintomas pulmonares: Tosse crônica Asma ou crises de broncoespasmo Bronquite Fibrose pulmonar Aspiração recorrente (microaspiração noturna) B. Sintomas otorrinolaringológicos: Rouquidão Sensação de "globo faríngeo" (globo) Roncos Pigarro frequente Laringite crônica Alterações das cordas vocais (como granulomas) Sinusite crônica Erosões dentárias (por ação do ácido) Observações importantes: Esses sintomas não são específicos da DRGE. A maioria dos pacientes com sintomas extraesofágicos não apresenta os sintomas típicos de refluxo. É necessário confirmar o diagnóstico de DRGE: Por exames complementares (ex: pHmetria, endoscopia), Ou pela resposta ao tratamento com inibidores da bomba de prótons (IBP). 4. Sintomas de Alarme Sugerem formas mais graves ou complicações da DRGE, como esofagite erosiva, estenose, úlcera ou neoplasia. Sinais de alarme: Odinofagia: dor ao engolir Disfagia: dificuldade para engolir alimentos APG 4º PERÍODO ACADÊMICA: AMANDA MARTINS COSTA ESTENOSE PÉPTICA A estenose péptica é o estreitamento do esôfago devido à formação de cicatrizes fibrosas secundárias e inflamação crônica da mucosa esofágica provocada pelo refluxo ácido gástrico. Esse processo cicatricial reduz o diâmetro do esôfago, dificultando a passagem dos alimentos. Causa mais comum (70%): DRGE: responsável por aproximadamente 70% dos casos. Outras causas (30%): Ingestão de cáusticos (acidental ou intencional). Sequelas de radioterapia. Esclerose de varizes esofágicas. Doenças dermatológicas como epidermólise bolhosa. Doença de Crohn (envolvimento esofágico raro, mas possível). Tumores esofágicos. Infecções: sífilis, tuberculose, citomegalovírus (CMV). Outras doenças inflamatórias ou infecciosas raras. Sintoma mais comum: Disfagia esofágica (dificuldade para engolir, especialmente alimentos sólidos). Observações clínicas importantes: Cerca de 30% dos pacientes com estenose péptica não relatam sintomas clássicos de DRGE (como pirose ou regurgitação). Isso pode retardar o diagnóstico. Diagnóstico: Radiologia do esôfago: Alta sensibilidade para detectar estenoses, inclusive aquelas não vistas pela endoscopia. Endoscopia digestiva alta: Essencial para: Visualizar a estenose Coletar biópsias para análise histopatológica ESÔFAGO DE BARRETT É quando o epitélio escamoso estratificado normal do esôfago distal (mais resistente ao atrito) é substituído por um epitélio colunar com metaplasia intestinal (mais típico do intestino delgado). Essa substituição celular é chamada de metaplasia intestinal e ocorre como resposta adaptativa crônica à agressão do conteúdo gástrico ácido sobre a mucosa esofágica. Diagnóstico Endoscopia digestiva alta identifica mucosa alterada. Confirmação por biópsia, com presença de metaplasia intestinal (células caliciformes). B. Pirose Funcional Paciente apresenta pirose recorrente, mas: pHmetria normal (sem refluxo ácido anormal). EDA normal. Ausência de resposta ao tratamento com IBPs. Segundo os critérios de Roma III, é um diagnóstico funcional (sem lesão ou inflamação identificável). Representa menos de 10% dos pacientes com pirose acompanhados por gastroenterologistas. ESOFAGITE EROSIVA É a forma mais evidente da DRGE, caracterizada por lesões (erosões) na mucosa esofágica, visíveis na endoscopia. O diagnóstico é confirmado por endoscopia digestiva alta, que mostra essas erosões. Achados endoscópicos típicos: Hiperemia (vermelhidão) da mucosa Erosões superficiais ou lineares Ulcerações Sangramento ao toque (em casos mais graves). Mesmo com a presença de erosões, é necessário considerar diagnósticos diferenciais, outras doenças podem causar lesões esofágicas semelhantes, sendo importante diferenciá-las: Esofagite por comprimidos: medicamentos que ficam em contato com a mucosa esofágica. Esofagite eosinofílica: Transtorno inflamatório crônico de origem imunológica/alérgica, com infiltração de eosinófilos na mucosaesofágica. Esofagite infecciosa: Comum em pacientes imunocomprometidos (HIV, transplantados). Indica maior gravidade, risco de complicações e necessidade de tratamento prolongado com inibidores de bomba de prótons (IBP). Pacientes com esofagite erosiva têm maior risco de desenvolver: Estenose esofágica Hemorragia digestiva alta Metaplasia de Barrett (condição pré- maligna) APG 4º PERÍODO ACADÊMICA: AMANDA MARTINS COSTA Correlação sintoma-refluxo: Índice de sintomas (IS): % de refluxos associados aos sintomas relatados. Análise estatística (teste exato de Fisher): Avalia quatro combinações: Refluxo com sintoma. Refluxo sem sintoma. Sintoma sem refluxo. Ausência de ambos. Este método é mais preciso para confirmar associação clínica. Monitoramento do pH intragástrico: Avalia a eficácia de drogas antiácidas, como os Inibidores da Bomba de Prótons (IBPs). Útil para medir: Início da ação. Duração do bloqueio ácido. 3. IMPEDÂNCIA/pHmetria ESOFÁGICA Definição: Técnica que detecta qualquer tipo de refluxo, independente do pH (ácido, não ácido, gasoso, líquido ou misto). Parâmetros avaliados: Tipo de refluxo: ácido vs. fracamente ácido. Composição do refluxo: líquido, gasoso ou misto. Alcance proximal (até onde o refluxo sobe). Tempo de clareamento esofágico (tempo até o refluxo ser eliminado). Indicações principais: Pacientes sintomáticos que não melhoraram com IBPs. Suspeita de refluxo não ácido ou ácido residual. Vantagens sobre a pHmetria isolada: Engloba todas as informações da pHmetria convencional. Permite uma avaliação mais completa e precisa. Tendência atual é a substituição da pHmetria isolada pela impedância/pHmetria. 4. ENDOSCOPIA DIGESTIVA ALTA NA DRGE Finalidade principal Exame de escolha para avaliar alterações na mucosa esofágica causadas pela DRGE. Permite visualização direta do esôfago e realização de biópsias para estudo histológico. Risco associado: É uma condição pré-maligna, com maior risco de evolução para adenocarcinoma de esôfago. Evolui em etapas: metaplasia → displasia → câncer. Epidemiologia Mais comum em homens brancos, acima de 50 anos. Prevalência estimada em 6 a 12% dos pacientes com DRGE submetidos à endoscopia, segundo dados americanos. Raro em mulheres, negros e asiáticos. DIAGNOSTICO DA DRGE 1. EXAME CLÍNICO Identificação dos sintomas cardinais: Pirose (sensação de queimação retroesternal). Regurgitação ácida. Diagnóstico presuntivo: Em pacientes com esses sintomas clássicos, o diagnóstico de DRGE pode ser presumido. Não há necessidade imediata de exames complementares nesses casos. exames diagnósticos opcionais, inclui: teste de supressão da acidez, esofagoscopia e monitoramento ambulatorial do pH esofágico. 2. pHmetria ESOFÁGICA PROLONGADA Finalidade: Detecta refluxo ácido anormal no esôfago. Ajuda a entender a frequência e intensidade da exposição ácida. Características do exame: Realizado em ambiente ambulatorial. Usa sensores miniaturizados e equipamentos portáteis. A análise é feita por computador. Limitações: Não é padrão-ouro para diagnóstico. Até 25% dos pacientes com esofagite podem ter pHmetria normal. Reprodutibilidade é variável (entre 85% e valores menores). Mede apenas o componente ácido da DRGE. Não detecta refluxos não ácidos nem avalia sensibilidade individual da mucosa. APG 4º PERÍODO ACADÊMICA: AMANDA MARTINS COSTA Mais útil em diagnósticos diferenciais: Acalasia Esclerodermia Disfagia funcional 8. BILITEC® Avalia o refluxo biliar (duodenogástrico). Usa espectrofotometria da bilirrubina. Útil para detectar: Esôfago de Barrett Estenose péptica Limitações: Confunde substâncias com coloração semelhante. Requer dieta líquida não fisiológica. Pouco usado na prática clínica no Brasil. TRATAMENTO NÃO MEDICAMENTOSO (DRGE) O tratamento não farmacológico é a primeira abordagem na maioria dos casos, especialmente em pacientes com sintomas leves, lactentes ou gestantes. A. Modificações dietéticas e comportamentais Evitar alimentos que relaxam o EEI ou irritam a mucosa esofágica: chocolate, cafeína, bebidas alcoólicas, alimentos gordurosos, cítricos e alimentos picantes. Evitar refeições volumosas e alimentar-se ao menos 2-3 horas antes de deitar. Fracionar as refeições ao longo do dia. B. Medidas posturais Elevação da cabeceira da cama em 15–20 cm. Evitar deitar-se logo após as refeições. Manter posição ereta por, pelo menos, 30 minutos após comer (especialmente em lactentes e idosos). C. Controle de fatores de risco Redução de peso em pacientes com sobrepeso ou obesidade. Evitar roupas apertadas na região abdominal. Parar de fumar (a nicotina relaxa o EEI). Controle de estresse, pois pode piorar os sintomas. TRATAMENTO MEDICAMENTOSO DA DRGE Indicado quando: As medidas não farmacológicas não são suficientes. Os sintomas são persistentes ou graves. Há presença de complicações (esofagite, úlcera, estenose). ESTUDO HISTOLÓGICO (biópsias) Alterações características: Reacionais: alongamento das papilas da lâmina própria, hiperplasia da camada basal. Inflamatórias: presença de neutrófilos e eosinófilos intraepiteliais. Células “em balão”: indicam aumento da permeabilidade epitelial. Explicam a pirose pelo contato do refluxado com fibras nervosas expostas. Ajuda a diferenciar de esofagite eosinofílica. Microscopia eletrônica: Detecta precocemente a dilatação dos espaços intercelulares. Embora sensível, não é específica (também aparece em controles assintomáticos). Pouco usada na prática clínica por ser demorada. 5. ESTUDOS RADIOLÓGICOS 1. Esofagograma com bário: Útil para investigar: Hérnias hiatais Estenoses Anéis esofágicos Diagnóstico de esofagite é evidente somente em casos graves. 2. Cintilografia com tecnécio-99: Avalia o refluxo de conteúdo não ácido. Pode ser útil em: Gastrectomizados Pacientes com anemia perniciosa Durante uso de IBPs (inibidores da secreção gástrica). Baixa sensibilidade comparada à pHmetria. 6. TESTES PROVOCATIVOS – Teste de Bernstein- Baker Objetivo: confirmar que os sintomas decorrem do refluxo ácido. Consiste em: Infusão de ácido clorídrico 0,1 N no esôfago → verifica se reproduz os sintomas. Placebo com solução salina. Teste positivo: sintomas ocorrem somente com o ácido. Alta especificidade, porém uso restrito: Quando não há pHmetria disponível. Em pacientes com sintomas infrequentes. 7. MANOMETRIA ESOFÁGICA Não indicada para diagnóstico primário da DRGE. Avalia: Pressão e motilidade esofágica Detecta disfunções do esfíncter esofagiano inferior (EEI). APG 4º PERÍODO ACADÊMICA: AMANDA MARTINS COSTA os antagonistas H2 atuam competindo com a histamina pelos receptores H2, impedindo sua ativação. Isso bloqueia a cascata de: ativação da adenilato ciclase, produção de AMPc, ativação da bomba de prótons. Resultado final: menor secreção de ácido no estômago. Resumo: Bloqueiam os receptores H2 na célula parietal gástrica → redução da secreção de ácido gástrico estimulada pela histamina. Efeitos práticos da ação dos H2-antagonistas Reduzem a secreção ácida basal (produzida entre as refeições e à noite). Também reduzem a secreção estimulada por alimentos, gastrina e acetilcolina. Usados no tratamento de: Úlceras gástricas e duodenais. Doença do refluxo gastroesofágico (DRGE). Condições de hipersecreção ácida (ex: síndrome de Zollinger-Ellison). Duração: Efeito de 8 a 12 horas. Observações: Tolerância com o uso prolongado. Cimetidina pode inibir o citocromo P450, interferindono metabolismo de outras drogas. C. Inibidores da bomba de prótons (IBPs) Exemplos: Omeprazol Esomeprazol Pantoprazol Lansoprazol Rabeprazol Mecanismo de ação: Resumo prático: Etapa O que acontece 1. Ingestão IBP é absorvido no intestino e entra na circulação 2. Chegada ao estômago Vai até as células parietais, acumulando-se nos canalículos ácidos 3. Ativação É ativado pelo pH