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FARIA e ATTIE Contradições Limitações e possibilidades

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Solidária de Produção.
Diante disto, pretende-se apresentar neste trabalho o tema das Organizações Solidárias de
Produção e Autogestão enquanto alternativas ao modo de produção dominante, para em seguida
apresentar, sob uma perspectiva crítica, as contradições inerentes ao encontro de duas lógicas tão
diversas: a da solidariedade, da autonomia e da cooperação e, ao mesmo tempo, a do poder do
capital, da heteronomia e da competição. A revisão bibliográfica que se apresenta a seguir
pretende delinear as linhas de pensamento mais proeminentes no debate teórico atual em torno da
questão sem, no entanto, ter a pretensão de cobrir ou esgotar todas as produções sobre esse tema.
Em seguida será apresentado o caso do kibbutz Hatzerim com intuito de extrair contribuições
deste modelo, ao mesmo tempo verificando possíveis aplicações às Organizações Solidárias de
Produção no Brasil. Com base nas concepções aqui reunidas, pretende-se abrir espaço para
discussões e análises como forma de contribuir para uma reflexão teórica crítica sobre esse
fenômeno contemporâneo que vem ganhando cada vez mais espaço na realidade de muitos
trabalhadores no Brasil e em outras partes do mundo.
1. Organizações Solidárias de Produção: reações e propostas face à crise do mercado
de trabalho
Diante de um quadro de incertezas e intensas transformações, de elevados índices de
desemprego e da incapacidade dos setores público e privado em gerar postos de trabalho estáveis
e regulamentados, muitos trabalhadores têm buscado soluções alternativas em forma de
empreendimentos coletivos. Tem-se acompanhado o surgimento de organizações que se
caracterizam pela articulação de trabalhadores em situação de desemprego em grupos
comunitários, associações ou cooperativas na tentativa de gerar renda coletivamente, além de
ampliar o controle sobre o próprio trabalho através de uma gestão pautada em princípios
democráticos e solidários com intuito de fortalecer a autonomia do grupo. Ao conjunto de
experiências desse modelo, convencionou-se chamar Organizações Solidárias de Produção.
O movimento das Organizações Solidárias de Produção não é novo. Pelo contrário, ele
remonta ao século XIX como reação ao empobrecimento generalizado dos artesãos provocado
pela difusão das máquinas e da organização fabril da produção propagada pela Revolução
Industrial. Apesar de grandes autores denominados socialistas utópicos como Proudhon, Fourier e
Owen, terem dado sua devida contribuição ao tema, tal movimento não foi resultado da criação
de ninguém. O movimento surgiu através de uma demanda natural de reação contra a política
econômica geradora de desemprego. Ele foi uma criação dos próprios trabalhadores em luta
contra o sistema pelo qual foram deixados à margem.
Desde as três últimas décadas, o movimento pelas Organizações Solidárias de Produção
tem se articulado de maneira inédita, reflexo do modelo econômico que o gerou. Ele se manifesta
em torno de organizações bastante heterogêneas quanto ao tipo de atividade econômica que
realizam, tais como produção, distribuição, consumo e prestação de serviços diversos. Os
empreendimentos de Economia Organizações Solidárias de Produção podem ser definidos como
sendo organizações coletivas de trabalhadores voltadas para a geração de trabalho e renda,
regidas, idealmente, por princípios de autogestão, democracia, participação, igualitarismo,
cooperação no trabalho, auto-sustentação, desenvolvimento humano e responsabilidade social.
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Nesses empreendimentos, o trabalho é o elemento central e a manutenção de cada posto tem
prioridade maior que a lucratividade (EID, GALLO & PIMENTEL, 2001).
Não estamos, portanto, nos referindo a um setor não mercantil e não monetário, como a
economia da dádiva. Também não estamos falando de um setor não lucrativo, como o
terceiro setor. O aspecto central (...) não é a sua não lucratividade, até porque a dimensão
do lucro está presente nas suas expressões mercantis. [...] Dessa forma, é preciso realçar
que uma das originalidades (...) é estar no mercado sem se submeter à busca do lucro
máximo como se evidencia pela prática do preço justo pelos seus empreendimentos
(LISBOA, 2005, p.109).
Segundo Pinho (2004), ao colocar o homem como sujeito e fim da atividade econômica,
as Organizações Solidárias de Produção buscam resgatar a dimensão ética e humana das
atividades produtivas e opor-se a um modelo econômico único para todas as culturas e todas as
sociedades. Nesse sentido, Pinho tece uma crítica à teoria econômica dominante, inspirada por
economistas neoliberais e baseada em uma ética utilitarista, por reduzir o homem a mero
indivíduo guiado pela ambição e interessado apenas em satisfazer suas necessidades imediatas
(homo economicus). França e Laville (2004) acrescentam ainda que as Organizações Solidárias
de Produção dotam as atividades de um sentido de compartilhamento, podendo também permitir
a abertura progressiva de espaços onde se conjugam formas de diversificação do trabalho que
levam em consideração a situação social dos atores implicados.
Utilizando-se de práticas de autogestão, essas organizações possuem natureza singular,
uma vez que modificam o princípio e a finalidade da extração do trabalho excedente.
Caracterizam-se por funcionarem com base na propriedade social dos meios de produção,
vedando a apropriação individual desses meios ou a sua alienação particular. O controle e a
decisão pertencem à coletividade dos trabalhadores, em regime de paridade de direitos e sua
gestão está atrelada à comunidade de trabalho que organiza o processo produtivo, operando as
estratégias econômicas e decidindo sobre o destino do excedente produzido (GAIGER, 1999).
Tal organização
Nega a separação entre trabalho e posse dos meios de produção, que é
reconhecidamente a base do capitalismo. [...] O capital [...] é possuído pelos que
nela trabalham, e apenas por eles. Trabalho e capital estão fundidos porque todos
os que trabalham são proprietários [...] e não há proprietários que não trabalhem
nela (SINGER, 2002, p.84).
Tal mecanismo pressupõe uma reconciliação entre o trabalhador e as forças produtivas
que ele detém e utiliza. Não sendo mais um elemento descartável e não estando mais separado do
produto do seu trabalho, agora sob seu domínio, o trabalhador recupera as condições necessárias
para uma experiência integral de vida laboral e ascende a um novo patamar de satisfação e de
atendimento a aspirações não apenas materiais ou monetárias.
Em torno das Organizações Solidárias de Produção hoje confluem muitas correntes,
tornando-as um vasto e heterogêneo agregado de atividades que, no momento, se expandem, mas
que ainda não consistem um campo articulado. De todo modo, as formulações convergem para
um núcleo comum: a autogestão e a solidariedade como o âmago de todas as propostas.
2. Autogestão: a busca por novas formas de organização do trabalho
Um dos pressupostos básicos para que as Organizações Solidárias de Produção alcancem
seus objetivos sociais de transformação nas relações de trabalho, traduz-se na presença ou não de
um modelo de gestão adequado às características peculiares desses empreendimentos. Originária
da língua francesa, a palavra autogestão é relativamente recente no vocabulário moderno podendo
ser datada da década de 1950 em conseqüência da introdução na Iugoslávia de um sistema de
raquellirax
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raquellirax
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raquellirax
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raquellirax
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raquellirax
Nota
Me parece aqui bem próimo à concepção sobre os negócios da cultura popular trazidos com o PCV.
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organização econômica e estatal assim denominado. Seu correto significado ainda é pouco
conhecido embora tenha conquistado bastante espaço nas três últimas décadas (GUILLERM &
BOURDET, 1976).
Bobbio, Matteucci & Pasquino (1986) definem autogestão como um sistema de
organização das atividades sociais desenvolvidas mediante a cooperação de várias pessoas
(atividades