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FARIA e ATTIE Contradições Limitações e possibilidades

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produtivas, serviços, atividade administrativa), em que as decisões relativas à gestão
são diretamente tomadas por quantos dela participam, com base na atribuição do poder decisório
às coletividades definidas por cada uma das estruturas específicas de atividade. São, portanto,
identificáveis duas determinações essenciais do conceito de autogestão. A primeira é a superação
da distinção entre quem toma as decisões e quem as executa, no que diz respeito ao destino dos
papéis em cada atividade coletiva organizada com base na divisão do trabalho. A segunda é a
autonomia decisória de cada unidade de atividade, ou seja, a superação da interferência de
vontades alheias às coletividades concretas na definição do processo decisório.
Em sentido mais amplo, Guillerm e Bourdet (1975) consideram que a autogestão constitui
uma forma de organização direta da vida coletiva em todos os níveis, resultante da supressão do
aparelho de direção separado da sociedade (Estado). Complementando a definição, afirmam
ainda que:
[...] a autogestão impõe uma transformação radical, não somente econômica, mas
política, levando em conta que destrói a noção comum de política (como gestão
reservada a uma casta de políticos) para criar um outro sentido da palavra
política: a saber, a manipulação, sem intermediários e em todos os níveis, de
todos os “seus negócios” por todos os homens (GUILLERM & BOURDET,
1975, p.31).
Existe, contudo, uma orientação sociológica bastante difusa que abrange a autogestão
juntamente à co-gestão numa mesma problemática: a da participação operária e da democracia
industrial, baseando-se no fato de que ambos os princípios visam restituir aos trabalhadores o
controle da situação do trabalho. Entretanto, a co-gestão tem por objetivo a simples modificação
do processo decisório das empresas mediante a inclusão de consultas aos associados ou de formas
de co-decisão com seus representantes, podendo até atribuir-lhes um poder autônomo restrito a
alguns aspectos das condições de trabalho (serviços sociais, ambiente, segurança, etc.). Enquanto
isso, a autogestão vai além, visando tornar realidade a socialização do poder gerencial, atribuindo
aos trabalhadores poder em todas as decisões que lhes dizem respeito (BOBBIO, MATTEUCCI
& PASQUINO, 1986).
Aproxima-se mais da autogestão a idéia de associativismo cooperativo, tanto em termos
estruturais, como no tocante à matriz ideológica de seus princípios. Contudo, enquanto o
associativismo cooperativo em seu modelo tradicional “posiciona a alternativa do trabalho
assalariado na redistribuição paritária da propriedade dos meios de produção entre todos os
membros de uma unidade econômica”, a autogestão considera, ao contrário, a necessidade de
redefinição do papel e do poder dos trabalhadores no processo econômico, apontando como
condição de tal processo não já a aquisição generalizada do status de proprietário privado, mas
sim a supressão de tal status e a “conquista igualitária do poder de gestão mediante o direito
indivisível do usufruto dos meios ‘sociais’ de produção” (BOBBIO, MATTEUCCI E
PASQUINO, 1986). A autogestão pode ser definida, portanto, como um modo de gestão que
tem como pressuposto básico as relações de igualdade e a valorização do trabalhador na medida
em que rompe o processo de alienação, expande e estimula a difusão do conhecimento, além de
destruir a estrutura hierarquizada verticalmente de forma que todos se tornem conscientes de sua
responsabilidade para com o sucesso ou insucesso da organização.
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Nota
Interessante aqui refletir sobre proposta política do EStado para a cultura a partir do conceito aqui tratado de co-gestão.
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2.1 A organização autogerida: aspectos organizacionais
A trajetória da autogestão, inserida no contexto atual das Organizações Solidárias de
Produção, soma cerca de 30 anos de presença no ambiente organizacional. Partindo de uma
proposta política abrangente e revolucionária, são encontradas hoje experiências pragmáticas que
objetivam a preservação dos postos de trabalho e, mais do que isto, a melhoria gradual e contínua
da qualidade de vida dos trabalhadores.
Para Gutierrez (1991), a organização autogerida é antes de tudo uma empresa como
qualquer outra, ou seja, uma organização que alia esforço humano e material para produção de
bens e/ou serviços com o objetivo de comercializá-los na comunidade. Ela é um sistema auto-
regulado internamente, com os elementos que dela participam buscando o equilíbrio como forma
de atingir seus objetivos. De acordo com uma visão típica de Guerreiro Ramos (FARIA, 2006), a
idéia de empresa enquanto sistema em equilíbrio é comum no estudo da Administração, de forma
que a diferença está no enfoque, ou seja, enquanto o equilíbrio proposto para a organização
tradicional baseia-se na razão instrumental, o da empresa autogerida deveria, pelo menos
parcialmente, incorporar uma visão substantiva.
Quanto a sua dimensão organizacional, as empresas de autogestão diferem das empresas
convencionais em alguns pontos cruciais:
Quadro 01 – Organização Convencional “versus” Organização Autogerida
Organização Convencional Organização Autogerida
Estrutura altamente hierarquizada Supressão/flexibilização hierárquica
Competição entre setores Colaboração/cooperação entre setores
Alienação, absenteísmo Participação direta e efetiva
Decisões centralizadas pela gerência Democratização das decisões
Prioridade: busca de excedentes
econômicos crescentes
Prioridade: preservação e valorização
dos postos de trabalho
Fonte: adaptado de SINGER (2002b)
A estruturação de organizações rigidamente hierarquizadas como apregoado pelos
princípios fundamentais do taylorismo-fordismo, bem como pelo modelo tecnoburocrático
descrito por Max Weber (1971) pode ser comumente encontrada no universo industrial bem
como nas atividades desenvolvidas pelo setor de serviços. Segundo Guillerm & Bourdet (1975),
tais práticas apresentam como resultado direto o desinteresse pelo trabalho, alienação,
absenteísmo e instabilidade e, como conseqüência, comprovadas quedas de rendimento uma vez
que acarretam a separação entre a concepção e a execução das atividades.
Ao propor a supressão da estrutura hierárquica de suas organizações, a autogestão
preconiza o desenvolvimento de habilidades criativas nos trabalhadores além de habilitá-los a
tomar suas próprias decisões eliminando, assim, estruturas piramidais impostas de cima para
baixo. Entretanto, tal objetivo não implica a instalação do caos. Pelo contrário, ela diz respeito
muito mais a uma rede de relações baseada no desejo de cada um fazer da organização um
produto da discussão, das decisões e do controle do conjunto de seus membros (NAKANO,
1997). A eliminação da rigidez hierárquica torna a administração mais enxuta uma vez que
confere ao trabalhador poder de decisão sobre as atividades da organização e, ao mesmo tempo,
torna os trabalhadores capacitados a expressar autodisciplina e cooperação voluntária permitindo
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Nota
Fiquei aqui pensando omo ser uma organização de mercado e não focar nos clientes. Já que o que se diz aqui é que o foco estaria nos trabalhadores.
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que a organização autogerida saia do campo da retórica para se tornar realidade (NAKANO,
2003).
Pedrini (2003) analisa um exemplo de empresa autogerida que vem atuando há 14 anos no
mercado e desde seu início implantou um sistema de rotatividade funcional, tendo como
principais objetivos: superação da hierarquia entre trabalho intelectual e braçal, alcance do
conhecimento global do processo