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GARCIA E BRONZO_BasesEpistemológicas

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contribuições de WEBER (1967) em seus Ensaios sobre a Teoria da Ciência e contribuições fundamentais também na análise da ética protestante e origem do capitalismo e das burocracias. Secundariamente, a partir de um conjunto de autores e cientistas sociais que, das esquematizações Weberianas formalistas, partiram para o entendimento das organizações em uma perspectiva mais ampla e menos restritiva . 
	Como se sabe, os estudos dessa última corrente apoiaram-se vigorosamente nos postulados funcionalistas de Émille Durkheim, segundo os quais as sociedades tendem à estabilidade e são integradas “organicamente”. As organizações/instituições, por sua vez, participam desse processo à medida que são vistas como meios para o atingimento de finalidades específicas. Dentre elas, a da ordem social (DURKHEIM, 1989). 
	Para CLEGG & HARDY (1996), a tradição do programa de pesquisa funcionalista na Teoria Organizacional está, em um primeiro momento, presa aos limites do pensamento convencional Durkheimniano e à trajetória epistemológica do trabalho conceitual de Weber. Com o passar do tempo e o avanço das pesquisas, entretanto, o que se percebe é um conjunto de novas teorizações e perspectivas de análise a partir dos limites antes restritos da abordagem funcionalista.
	Assim, se tomamos como referência a perspectiva mais “fechada” e menos crítica dos estudos funcionalistas na Teoria Organizacional, consagra-se a idéia de que as funções deveriam ser desempenhadas satisfatoriamente para o bem de toda a estrutura, tudo isso centrado no princípio orgânico da teoria sistêmica. Nesse ambiente, nada interessaria mais à análise organizacional do que as normas e as estruturas dos papéis desempenhados que, de forma concreta, comporiam a unidade de análise e foco da pesquisa. Há um valor claro em relação à ação determinada dos atores organizacionais, ao emprego absoluto de uma racionalidade tipicamente instrumental-funcional. O enfoque é formalista, analítico, e o princípio é totalmente sistêmico. Como bem coloca VIANELLO (1976: 15), nesse caso tudo “(...) aproxima-se, na verdade, à banalidade”. 
	No mínimo, trata-se de uma formulação ingênua. Ao não considerar as contradições e “fissuras” internas à lógica hegemônica do poder institucional, tal perspectiva deixa também de relevar os mecanismos objetivos e subjetivos e as práticas de resistência que, a todo momento, estão presentes nas situações de trabalho (RODRIGUES & COLLISON, 1995).
	MORGAN (1986) salienta, entretanto, as diferenças efetivas entre a abordagem das organizações enquanto sistemas abertos (e nesse sentido a ênfase passa a se dar necessariamente sobre o trabalho dos críticos da burocracia) e a lógica das organizações enquanto sistemas fechados, esta última sobretudo ligada aos postulados formais da Escola Clássica e da abordagem da Escola de Relações Humanas. 
	Ou seja, há um avanço efetivo. Mas o avanço é efetivamente qualitativo no que diz respeito ao reposicionamento e à redistribuição de forças e de poder nos limites da organização? Acreditamos que não. No centro da perspectiva funcionalista e da teoria sistêmica, sobretudo naquele período que antecede o trabalho dos teóricos críticos da burocracia, o que nos parece “saltar aos olhos” é a tentativa de se compreender acriticamente os pressupostos organizacionais à luz de um outro grande sistema, que é o sistema social. 
	Dahrendorf, citado em MORGAN (1979), ao sistematizar sua crítica sobre os pressupostos acerca da natureza da sociedades propõe o order-conflict debate, questionando a hegemonia positivista da perspectiva funcionalista e sistêmica e redimensionando o peso das contradições e da dialética à natureza da ordem e do equilíbrio social. 
	Seguindo a lógica estrutural-funcionalista, e isso já foi aqui discutido, um conjunto importante de pressupostos conforma o lado consensual desse processo: as sociedades (e as organizações produtivas evidentemente) representariam estruturas estáveis e que tenderiam ao equilíbrio e ao consenso. Por esse enfoque, a convergência de valores e o consenso entre os indivíduos seriam possibilidades reais e, no limite, a sociedade seria totalmente integrada pelo funcionamento ótimo dos seus elementos constituintes. 
	Ao destacar essa linha de compreensão, Dahrendorf parte para expor o que para ele significava a nova teoria coercitiva da sociedade, isto é, os elementos que sugerem que toda sociedade está - na verdade- sujeita aos processos de mudança, ao dissenso e ao conflito. A mudança é factível e permanente, assim como a chance real de desintegração e de instabilidades (MORGAN, 1979). Ao procurar agregar essas duas perspectivas, Dahrendorf e outros autores neo-marxistas que o seguiram lançaram as luzes sobre um problema fundamental, e sinalizaram a necessidade de estudos mais aprofundados e críticos sobre a questão do poder, da dominação e do conflito nas relações entre capital e trabalho. 
	As bases preliminares para a discussão teórica do poder nas organizações já haviam sido plantadas, portanto, no final dos anos 60. Essa perspectiva sobressai-se frente aos tradicionais estudos inscritos na lógica do estrutural-funcionalismo, enquadrando de forma diferenciada o poder. E é devido a essa reorientação epistemológica, impressa nos estudos posteriores de análise organizacional das décadas de 70/80, que se torna possível o exame detalhado das instituições como centros de poder, com efeitos importantes do ponto de vista da análise conjuntural e histórica das organizações, das classes trabalhadoras e da divisão social e técnica do trabalho em uma perspectiva mais ampla, bastante influenciada pelas idéias de Marx e pela crítica dos neo-marxistas. O debate acerca da “Sociologia das Profissões”, por exemplo, ganhou interesse entre a comunidade científica após a Segunda Guerra Mundial. Com o desenvolvimento da gerência capitalista e do trabalho técnico nas duas últimas décadas deu-se o reposicionamento teórico das correntes que se propunham analisar o fenômeno complexo das classes sociais e ocupacionais no modo capitalista de produção, geralmente influenciadas pelas propostas clássicas de M. Weber e K.Marx. Neste sentido destacam-se, por exemplo, as teses da proletarização e da nova classe trabalhadora: a primeira ressaltando a proletarização do trabalho técnico; a segunda, valorizando as virtudes da técnica e sugerindo maior capacidade de resistência e mobilização dessa nova classe frente às práticas de poder do capital. 
	Tem-se, portanto, que recorrer à obra desenvolvida no século XIX por Karl Marx, responsável por enquadrar analiticamente uma interpretação histórica do desenvolvimento social. Seguindo essa construção ontológica, a atividade prática dos homens é a sua realidade concreta, verdadeiramente sensível; o homem é visto como integrante de um mundo social que possui uma realidade tão concreta quanto o próprio mundo natural. O homem modela o seu mundo através da sua objetivação, do seu trabalho, da sua atividade prática, mas também cognitiva e racional. Enfim, o homem se coloca à ação e se conscientiza ao mesmo tempo da sua realidade; ele é exatamente aquilo que produz ou a forma como produz (PRATES et. alli, 1991) .
	Tanto para Marx quanto para Durkheim, a ação do homem é estruturalmente determinada. Mas enquanto Marx enxerga o mundo social como expressão dos processos produtivos e, portanto, como derivação da base material e das relações sociais de produção características de cada bloco histórico - isto é, como um todo estruturado e integrado dialeticamente -, Durkheim inclinou-se a observar as sociedades como formações estáveis, integradas organicamente. 
	A partir dessa referência básica, torna-se fácil compreender a distinção, entre essas duas “formas de pensamento”, sobre a função da divisão do trabalho no seio das sociedades modernas. Para Durkheim, a divisão do trabalho é funcional e necessária mesmo em seus extremos. O trabalho atomizado contribuiria para a formação de uma “solidariedade orgânica” e poderia desdobrar-se