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Resumo feito por Gustavo Oliveira Silva (Gama 4 – Medicina) RESUMO 1 PATOLOGIA - Lesões celulares I ETAPAS EVOLUTIVAS DA AGRESSÃO CELULAR As células normais vivem em um estado de homeostase, mantido por mecanismos que regulam estritamente parâmetros como temperatura, pH, osmolaridade, concentração de íons, entre outros. A integridade celular depende do equilíbrio entre agressões externas e a capacidade interna de adaptação. Quando submetida a um estresse - qualquer estímulo que leve a uma demanda além da capacidade fisiológica da célula - a resposta inicial será a tentativa de adaptação. Essa adaptação pode envolver hipertrofia, hiperplasia, atrofia ou metaplasia, conforme o tipo de célula e o tipo de estímulo. Ex.: Cardiomiócitos diante de sobrecarga funcional, como na hipertensão arterial, na qual ele responde inicialmente com hipertrofia, caracterizando uma adaptação. No entanto, a capacidade adaptativa das células é limitada. Quando o estresse é intenso, prolongado ou quando o agente agressor ultrapassa o limiar de adaptação, o resultado será uma lesão celular. Dependendo da intensidade e da duração do estímulo, essa lesão pode ser reversível ou irreversível. I. Lesão reversível: Caracteriza-se por alterações funcionais e morfológicas que ainda permitem a recuperação da célula após a retirada do estímulo lesivo. Entre os principais sinais morfológicos da lesão reversível estão o edema celular, causado por falhas na bomba de sódio-potássio e alterações nas organelas, como tumefação mitocondrial e dilatação do retículo endoplasmático. II. Lesão irreversível: Ocorre quando o dano celular atinge um ponto sem retorno, mesmo após a suspensão do estímulo agressor. Nessa fase, há perda da integridade das membranas, disfunção persistente das mitocôndrias e quebra da estrutura nuclear. O desfecho inevitável é a morte celular, que pode ocorrer por dois mecanismos principais: necrose ou apoptose. i. Necrose: Sempre patológica e resulta da ação de agentes externos que causam lesões severas e agudas. Caracteriza-se por perda da integridade da membrana plasmática, extravasamento do conteúdo celular e intensa resposta inflamatória pelos DAMPs. ii. Apoptose: É uma forma de morte celular programada, que pode ocorrer em contextos fisiológicos (como involução de tecidos durante o desenvolvimento) ou patológicos (como em lesões irreparáveis no DNA+). Diferente da necrose, a apoptose não gera inflamação, pois o conteúdo celular é fragmentado e removido por fagocitose de forma ordenada. Portanto, as etapas evolutivas da agressão celular seguem uma progressão que parte da homeostase, passa pela adaptação frente ao estresse, progride para lesão celular se o estímulo for muito intenso, e, por fim, culmina na morte celular caso essa lesão se torne irreversível. Resumo feito por Gustavo Oliveira Silva (Gama 4 – Medicina) RESPOSTAS CÉLULARES À AGRESSÃO As células respondem de maneira específica conforme o tipo e a intensidade do estímulo agressor. Estímulos como o aumento da demanda funcional, frequentemente associado à ação hormonal ou fatores de crescimento, levam a adaptações como hipertrofia e hiperplasia, mecanismos amplamente observados em contextos como gestação e sobrecarga cardíaca. Já a redução de estímulos tróficos ou nutricionais resulta em atrofia, fenômeno comum em desuso muscular, desnutrição ou envelhecimento. A presença de irritantes crônicos, sejam químicos ou físicos, pode induzir a metaplasia, um processo adaptativo em que ocorre substituição fenotípica de um epitélio por outro mais resistente, como o epitélio escamoso que substitui o colunar nos brônquios de fumantes. Quando há fornecimento insuficiente de oxigênio ou ação de toxinas, como em infecções bacterianas ou agressões químicas, instala-se uma lesão celular. Se essa lesão for de natureza aguda e transitória, a célula pode apresentar acúmulo de água (ou tumefação hidrópica) ou acúmulo lipídico, permanecendo viável. Porém, lesões de caráter progressivo e com grande potencial destrutivo, como aquelas que envolvem danos ao DNA ou diminuição considerável na disponibilidade energética, culminam em morte celular. Ainda há condições em que a célula, mesmo sem agressão pontual aguda, sofre efeitos cumulativos ao longo do tempo, como ocorre no envelhecimento celular. Além disso, agressões crônicas, genéticas ou metabólicas favorecem o acúmulo de substâncias anormais, como proteínas mal dobradas ou cálcio, refletindo distúrbios do metabolismo intracelular. LESÃO CELULAR A lesão celular representa uma alteração estrutural e funcional decorrente de um estímulo que excede a capacidade de resposta adaptativa da célula. A hipóxia moderada, como observada em um acidente isquêmico transitório (AIT), é um exemplo clássico: há disfunção energética e tumefação celular, mas a integridade estrutural ainda pode ser restabelecida com a reversão do quadro isquêmico. Contudo, se a agressão progride e os limites de reversibilidade são ultrapassados, haverá uma lesão irreversível. Nessa condição, ocorrem alterações profundas como perda da integridade da membrana plasmática, dano mitocondrial irreversível e degradação enzimática das organelas, culminando na morte celular. Isso é observado em patologias como a hepatite aguda — onde há necrose hepatocelular maciça — e no infarto agudo do miocárdio (IAM), no qual os cardiomiócitos necrosam devido à isquemia sustentada. Resumo feito por Gustavo Oliveira Silva (Gama 4 – Medicina) As ilustrações demonstram essa sequência de forma clara: o miócito normal, ao ser submetido a uma sobrecarga, sofre hipertrofia. Persistindo a agressão, ocorrem sinais de lesão reversível, como tumefação. Se a injúria continua ou se intensifica, instala-se a lesão irreversível com morte celular. A histologia correspondente mostra, no IAM, áreas extensas de necrose miocárdica com perda de arquitetura celular, enquanto na adaptação hipertrófica observa-se espessamento miocitário. CAUSAS DE LESÃO CELULAR Resumo feito por Gustavo Oliveira Silva (Gama 4 – Medicina) LESÃO TECIDUAL A lesão tecidual pode se manifestar em diferentes níveis de complexidade, desde alterações bioquímicas até danos visíveis ao exame macroscópico. O gráfico apresentado ilustra a progressão dessas alterações ao longo do tempo e evidencia que nem toda lesão grave é precedida por uma fase reversível: determinados insultos, como queimaduras extensas ou contato direto com substâncias cáusticas (ex: ácido clorídrico concentrado), causam danos celulares imediatos e irreversíveis, independentemente de qualquer tentativa de adaptação. Inicialmente, os primeiros eventos da injúria celular ocorrem em nível molecular e bioquímico, quando ainda não há alterações morfológicas detectáveis. Nesse estágio, ocorrem disfunções em enzimas, canais iônicos e vias metabólicas. Alterações nas concentrações intracelulares de cálcio e ATP, além da produção de espécies reativas de oxigênio (EROs), são marcos iniciais da disfunção celular. À medida que a lesão progride, surgem alterações ultraestruturais, visíveis apenas por microscopia eletrônica. Estas incluem: a) Invaginações da membrana plasmática com formação de bolhas (protusão citoplasmática). b) Perda de microvilosidades. c) Alteração da polaridade da membrana. d) Tumefação do retículo endoplasmático. e) Desligamento dos polissomos. f) Tumefação mitocondrial com presença de densidades amorfas e, em estágios mais avançados, fragmentação do núcleo com fenómenos como picnose (primeiro estágio de morte celular), cariorrexe (segundo estágio) e cariólise (terceiro estágio). Com maior tempo ou intensidade da lesão, ocorrem alterações visíveis à microscopia óptica, como vacuolização citoplasmática (formação de bolsas intracelulares), granulação, condensação nucleare ruptura de membranas. Só então, em fases ainda mais tardias, surgem as alterações macroscópicas, que refletem a morte celular em tecidos e órgãos — como a palidez, a amolecimento ou alterações de coloração observadas, por exemplo, em áreas de necrose isquêmica. Do ponto de vista funcional, a perda da atividade celular ocorre antes mesmo de qualquer alteração morfológica ser detectável. Por isso, testes bioquímicos (como dosagem sérica de enzimas) são frequentemente mais sensíveis para detectar lesão tecidual precoce do que exames morfológicos. Duas alterações são especialmente críticas para a definição da irreversibilidade da lesão e, portanto, da morte celular: 1) Perda irreversível da permeabilidade da membrana plasmática: Leva a um colapso do equilíbrio iônico e osmótico. 2) Lesão nuclear severa: Leva à degradação extensiva de DNA e proteínas nucleares, impossibilitando qualquer reparo ou regeneração. Resumo feito por Gustavo Oliveira Silva (Gama 4 – Medicina) LESÃO CELULAR REVERSSÍVEL Algumas alterações de transição entre a lesão reversível e irreversível podem ser vistas no microscópio eletrônico. Na membrana plasmática, a tumefação leva à formação de bolhas (protusões citoplasmáticas). Há também perda de microvilosidades, comprometendo a superfície de absorção celular. As tumefação mitocondrial e acúmulo de corpos amorfos densos, compostos por fosfato e cálcio, indicativos de falência energética progressiva. Esses achados refletem perda do potencial de membrana mitocondrial, essencial para a fosforilação oxidativa. A tumefação do retículo endoplasmático compromete a síntese proteica. No núcleo, há desagregação leve de componentes do nucléolo, como a separação das zonas fibrilar e granular — duas regiões responsáveis pela montagem de ribossomos — que irá afetar o processo de síntese proteica. Tais alterações, são manifestações de disfunções bioquímicas profundas que, embora graves, são passíveis de reversão se a integridade celular for restaurada a tempo. MECANISMOS DA LESÃO CELULAR ISQUEMIA E SUA RELAÇÃO COM O DANO MITOCONDRIAL A isquemia, caracterizada pela redução do suprimento sanguíneo tecidual, é uma das principais causas de lesão celular. Uma das estruturas que podem ser danificadas e está relacionada com vários efeitos lesivos e a mitocôndria, uma organela essencial para a produção de energia celular, participando diretamente da fosforilação oxidativa, além de desempenhar papéis críticos na regulação da apoptose e do metabolismo oxidativo. ➔ Estrutura mitocondrial: Estruturalmente, é delimitada por duas membranas: uma externa e uma interna altamente seletiva e impermeável a íons, onde se localizam as cristas mitocondriais. Entre essas membranas encontra-se o espaço intermembrana, que contém moléculas como o citocromo C, adenilato quinase e creatina quinase mitocondrial — elementos centrais tanto na bioenergética quanto no controle da morte celular programada. Resumo feito por Gustavo Oliveira Silva (Gama 4 – Medicina) Além disso, a mitocôndria é particularmente sensível a certos estímulos lesivos, como aumento do cálcio citosólico, EROs, hipóxia e exposição a toxinas. Esses agentes causam danos ou disfunção mitocondrial, gerando importantes consequências: I. Falência da via aeróbia: Devido à menor chegada de nutrientes e oxigênio ocasionadas pela isquemia, haverá um dano direto à via aeróbica de produção de energia celular, já que o oxigênio é essencial na etapa de fosforilação oxidativa. Por conta da falência dessa via, a célula irá iniciar a via de glicólise anaeróbica para produzir energia, levando a: a) Queda na produção de ATP: Afeta diretamente a produção de proteínas, incluindo aquelas envolvidas na manutenção do equilíbrio osmótico, como os canais iônicos e as bombas eletroquímicas da membrana plasmática. Entre os sistemas mais prejudicados estão a bomba Na⁺/K⁺-ATPase, cuja inatividade promove acúmulo de Na⁺ intracelular e saída de K⁺, resultando em influxo de água e edema celular (tumefação). A célula incha, perde microvilosidades e forma bolhas na membrana. A desorganização da membrana causa aumento da sua permeabilidade, agravando ainda mais o desequilíbrio hidroeletrolítico. Além disso, os canais de cálcio, normalmente mantidos sob rígido controle, deixam de funcionar adequadamente. Como a concentração extracelular de Ca²⁺ é cerca de 10.000 vezes maior que a intracelular, a falência dessas bombas leva a um influxo massivo de cálcio, que ativa diversas enzimas destrutivas (como fosfolipases, endonucleases e proteases), intensificando o dano estrutural e funcional celular. b) Acúmulo de ácido lático, queda no pH intracelular, produção de EROs e estresse oxidativo: O acúmulo de ácido lático leva a uma diminuição do pH intracelular, via responsável pela desnaturação de proteínas, inibição de funções enzimáticas, diminuição da estabilidade da membrana mitocondrial interna e contribuição para a abertura do poro de transição da permeabilidade mitocondrial (PTP). Além disso, com essa desestruturação mitocondrial, a cadeia respiratória passa a vazar elétrons diretamente para o oxigênio e promovendo a formação de EROs. As espécies reativas oxidam proteínas, danificam enzimas, quebram DNA nuclear e mitocondrial e condensação da cromatina – um sinal precoce de sofrimento celular - . Poro de transição de permeabilidade mitocondrial (PTP) O PTP é um canal não seletivo que se abre na membrana interna quando a mitocôndria sofre estresse grave. A abertura desse poro colapsa o potencial de membrana, interrompe a fosforilação oxidativa e promove a liberação de moléculas como o citocromo C, um proteína que normalmente está confinada no espaço intermembrana. Ao passo que essas proteínas se deslocam para o espaço citosólico, há a ativação de vias de sinalização que promovem a expressão de proteínas pró-apoptóticas e inibição de proteínas antiapoptóticas. Isso vai ocorrer, pois, o citocromo C se associa à proteína adaptadora Apaf-1 e a procaspase-9 para formar o apoptossomo, um complexo proteico responsável pela via intrínseca da apoptose. Assim, a disfunção mitocondrial representa um ponto crítico de bifurcação entre a sobrevivência celular, a apoptose e a necrose. A intensidade e duração da agressão, assim como a capacidade de resposta celular, determinarão qual dessas vias será efetivamente ativada. Resumo feito por Gustavo Oliveira Silva (Gama 4 – Medicina) IMPORTANTE! A restauração do fluxo sanguíneo para tecidos que sofreram isquemia é, em princípio, uma manobra terapêutica essencial, capaz de recuperar células reversivelmente lesadas e restabelecer a função tecidual. No entanto, paradoxalmente, esse processo também pode intensificar a lesão celular e provocar morte celular adicional, configurando o fenômeno conhecido como lesão por reperfusão. Durante o período isquêmico, as células comprometem sua função energética e reduzem suas atividades de sintetização de compostos, como as proteínas, muitas das quais são enzimas antioxidantes fundamentais. Essa adaptação metabólica é uma tentativa de sobrevivência em ambiente de hipoperfusão. Quando o fluxo sanguíneo é restabelecido de forma abrupta — como ocorre após angioplastia com stent ou transplante de órgãos —, a chegada maciça de oxigênio a um tecido que estava funcionalmente deprimido resulta em produção excessiva de espécies reativas de oxigênio (EROs). Esse aumento súbito das EROs ocorre exatamente onde a capacidade de neutralização antioxidante está reduzida, intensificando a peroxidação lipídica, o dano ao DNA e a modificação de proteínas estruturais e funcionais. Além disso, esse estresse oxidativo agudo promove a liberação de DAMPs (padrões moleculares associados a dano), que ativam o sistema imune inato, amplificando a resposta inflamatória e recrutandoneutrófilos para o local. Esses leucócitos, por sua vez, exacerbam a liberação de radicais livres e enzimas lisossômicas, agravando ainda mais a lesão tecidual. Esse fenômeno tem implicações clínicas críticas, principalmente em contextos como infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral, transplantes de órgãos e choque hemorrágico. No transplante cardíaco, por exemplo, o coração sofre um período de isquemia controlada. Contudo, ao ser implantado no receptor e exposto à plena oxigenação, o aumento abrupto da pressão oxidativa pode comprometer a viabilidade do enxerto e favorecer eventos imunológicos, como a rejeição aguda. Portanto, a lesão de isquemia-reperfusão é um fenômeno multifatorial, com componentes oxidativos, inflamatórios e imunológicos, que contribuem de maneira significativa para o agravamento da lesão celular inicialmente reversível. FLUXO INTRACELULAR DE CÁLCIO E PERDA DA HOMEOSTASIA O cálcio (Ca²⁺) é um dos principais mediadores intracelulares da lesão celular. Em condições fisiológicas, sua concentração intracitoplasmática é mantida extremamente baixa. Esse gradiente é rigidamente controlado por mecanismos de compartimentalização em organelas como a mitocôndria e o retículo endoplasmático liso (REL), além de bombas e canais de membrana. Em consequência a esses episódios de falência energética e perda de integridade das membrana por conta da isquemia ou exposição a substâncias tóxicas, haverá um prejuízo no funcionamento das bombas de cálcio ATP-dependentes. Com isso, haverá o influxo desse íon do meio extracelular para o citoplasma em conjunto com a liberação de reservas intracelulares (mitocôndria e REL) Esse aumento súbito da concentração de cálcio livre no citosol ativa uma série de enzimas que agravam o dano celular: Resumo feito por Gustavo Oliveira Silva (Gama 4 – Medicina) a) Fosfolipases: Degradam os fosfolipídios da membrana plasmática e das organelas, comprometendo a sua integridade estrutural. b) Proteases: Responsáveis por clivar proteínas de membrana e do citoesqueleto, desorganizando o arcabouço estrutural da célula. c) Endonucleases: Quebram os ácidos nucleicos, promovendo fragmentação do DNA e dano nuclear. d) ATPases: Intensificam o consumo de ATP, agravando a já crítica depleção energética causada pela isquemia. Além dessas ações enzimáticas, a maior concentração de cálcio no citosol promove o aumento da permeabilidade mitocondrial, favorecendo ainda mais a formação do poro de transição de permeabilidade (PTP), o que contribui ainda mais para o início da cascata apoptótica. Assim, o descontrole do fluxo de Ca²⁺ não apenas representa uma consequência do estresse celular, mas também atua como um amplificador do dano, acelerando a transição da lesão reversível para a irreversível. A falência na regulação do cálcio constitui, portanto, um dos principais mecanismos moleculares por trás da perda da homeostase celular. ESTRESSE OXIDATIVO O estresse oxidativo é definido como o desequilíbrio entre a produção de espécies reativas de oxigênio (EROs) e a capacidade da célula de neutralizá-las por meio de mecanismos antioxidantes. As EROs são radicais livres altamente instáveis, que contêm elétrons desemparelhados e reagem rapidamente com componentes celulares, promovendo lesões estruturais e funcionais. A produção de radicais livres pode ocorrer em diversas circunstâncias fisiológicas e patológicas. Entre os principais mecanismos estão: 1. Reações de oxirredução normais: Especialmente durante a fosforilação oxidativa nas mitocôndrias; 2. Absorção de energia radiante: Luz ultravioleta e raios X; 3. Resposta inflamatória: Através de leucócitos ativados; 4. Metabolismo enzimático de substâncias químicas exógenas; 5. Presença de metais de transição; 6. Óxido nítrico (NO), que pode se combinar com o ânion superóxido formando peroxinitrito, um agente altamente tóxico. Resumo feito por Gustavo Oliveira Silva (Gama 4 – Medicina) A célula dispõe de mecanismos antioxidantes para neutralizar essas espécies reativas, como as enzimas superóxido dismutase (SOD), catalase e glutationa peroxidase, além de antioxidantes não enzimáticos como vitamina E e vitamina C. No entanto, como esses sistemas envolvem proteínas enzimáticas, sua eficácia é prejudicada em situações de lesão celular, pois estes comprometem a síntese proteica. Quando a produção de EROs excede a capacidade de defesa antioxidante, os radicais livres atacam alvos celulares vitais, resultando em: • Peroxidação lipídica: Afeta diretamente a membrana plasmática e membranas de organelas, alterando sua fluidez, permeabilidade e integridade; • Dano a proteínas: Leva ao mau dobramento (perda de função) ou acúmulo de agregados proteicos; • Lesões ao DNA: Comprometem a estabilidade genômica e favorece o desenvolvimento de neoplasias. Portanto, o estresse oxidativo representa um mecanismo central de lesão celular, frequentemente atuando em sinergia com hipóxia, toxinas e inflamação, e contribuindo significativamente para a transição da lesão reversível à irreversível. DEFEITOS NA PERMEABILIDADE DA MEMBRANA A integridade das membranas celulares — plasmática, mitocondrial, lisossomal e do retículo endoplasmático — é fundamental para a manutenção da homeostase e da viabilidade celular. Quando essas estruturas sofrem lesões, especialmente em decorrência de isquemia, hipóxia ou ação de toxinas, a célula torna-se extremamente vulnerável à morte. Os principais mecanismos bioquímicos que comprometem a permeabilidade membranar incluem: 1. Espécies Reativas de Oxigênio (EROs); 2. Diminuição da síntese de fosfolipídios: Devido à diminuição do ATP e síntese proteica 3. Aumento da quebra de fosfolipídios: Mediada por fosfolipases ativadas pelo aumento de cálcio intracelular; 4. Alterações citoesqueléticas: Decorrentes da ação de proteases e colapso energético, que favorecem a formação de bolhas e fragilidade da membrana. As consequências da perda de permeabilidade variam de acordo com o compartimento afetado: • Danos à membrana mitocondrial: Comprometem a fosforilação oxidativa e favorecem a liberação de proteínas pró-apoptóticas, como o citocromo C; • Danos à membrana plasmática: Resultam em desequilíbrio osmótico; • Danos às membranas lisossomais: Levam ao extravasamento de enzimas hidrolíticas como proteases, nucleases e fosfatases. Essas enzimas autodigerem os componentes celulares, promovendo necrose. Portanto, a ruptura da permeabilidade membrana é um evento terminal em muitas formas de lesão celular, sendo um ponto de não retorno que define a irreversibilidade do dano e a progressão para morte celular, por apoptose ou necrose, dependendo do contexto fisiopatológico. Resumo feito por Gustavo Oliveira Silva (Gama 4 – Medicina) DANOS AO DNA E ÀS PROTEÍNAS As células possuem mecanismos altamente sofisticados para garantir a integridade do genoma e a qualidade das proteínas sintetizadas. No entanto, quando esses sistemas são ultrapassados, o acúmulo de danos ao DNA e a formação de proteínas mal-dobradas leva à ativação de vias de morte celular, sobretudo por apoptose. O dano ao DNA pode ser causado por múltiplos fatores, incluindo: • Alterações epigenéticas; • Radiações ionizantes; • Agressões químicas ou virais. Durante o funcionamento normal da célula, o RNA mensageiro é traduzido em proteínas. Após essa tradução, as proteínas ainda precisam ser dobradas corretamente para funcionar. Esse processo de enovelamento ocorre no retículo endoplasmático (RE) e conta com a ajuda de proteínas chamadas chaperonas, que garantem que a proteína atinja sua forma final adequada. Ou seja, os passos de síntese e enovelamento de proteínas é dado por: 1. O RNA é traduzido. 2. As chaperonas ajudam a dobrar as proteínas. 3. As proteínas corretamente dobradas tornam-se funcionais e maduras.No entanto, diversos fatores podem atrapalhar esse processo, como mostra a parte inferior da imagem. Esses fatores incluem: a) Alterações no metabolismo (como falta de energia); b) Mutações genéticas em proteínas ou nas próprias chaperonas; c) Infecções virais; d) Agressões químicas. Essas situações levam ao acúmulo de proteínas mal dobradas, o que causa um desequilíbrio chamado estresse do retículo endoplasmático. Isso acontece quando há mais proteínas com defeito do que a célula consegue corrigir ou descartar. Nesse ponto, a célula tenta se adaptar, tomando medidas como reduzir a produção de novas proteínas (para não piorar a situação) e aumentar a produção de chaperonas (para tentar resolver o acúmulo de proteínas mal dobradas). Se essa adaptação funcionar, as proteínas voltam a ser dobradas corretamente. Mas, se falhar, e o acúmulo de proteínas defeituosas continuar, o estresse do RE ativa mecanismos que levam à morte celular por apoptose — como forma de proteger o organismo de uma célula disfuncional. Esse mecanismo tem relevância clínica significativa em doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson, nas quais agregados proteicos mal eliminados são tóxicos para neurônios e contribuem para disfunção sináptica e morte celular progressiva. Assim, tanto os danos irreparáveis ao DNA quanto o acúmulo tóxico de proteínas mal conformadas representam gatilhos críticos para a ativação de vias apoptóticas, marcando a falência dos mecanismos de reparo e controle da célula. Resumo feito por Gustavo Oliveira Silva (Gama 4 – Medicina) LESÃO CELULAR – APLICAÇÃO CLÍNICA A identificação e monitoramento da lesão celular possuem relevância clínica direta, principalmente por meio da dosagem de biomarcadores. A liberação de enzimas ou proteínas específicas no meio extracelular é consequência da perda de integridade da membrana plasmática, o que indica morte celular por necrose. Esse princípio é aplicado na avaliação de eventos como o infarto agudo do miocárdio (IAM) e a hepatite viral aguda. INFARTO No caso do IAM, o gráfico demonstra a liberação de três marcadores séricos distintos: mioglobina, CK- MB (creatina quinase MB) e troponina I. A mioglobina é o primeiro marcador a se elevar, aparecendo nas primeiras 2 horas após o início dos sintomas, mas também desaparece rapidamente. A CK-MB eleva-se entre 4 a 6 horas e retorna ao normal em 48 a 72 horas. Já a troponina I, altamente específica para lesão miocárdica, apresenta elevação mais duradoura, persistindo por até 7 a 10 dias. A queda desses marcadores ocorre porque, mesmo que haja necrose de algumas fibras musculares, essa lesão pode ser focal e restrita, sem impacto funcional significativo. Isso explica episódios assintomáticos de infarto, em que a destruição celular é insuficiente para provocar sintomas evidentes, mas ainda assim mensurável por exames laboratoriais. HEPATITE A Na hepatite A, o gráfico evidencia um padrão temporal que reforça o conceito de que as alterações bioquímicas precedem os sintomas clínicos. O RNA do vírus da hepatite A (HAV) já pode ser detectado nas fezes e no soro durante o período de incubação, quando o paciente ainda está assintomático. Resumo feito por Gustavo Oliveira Silva (Gama 4 – Medicina) O aumento da enzima ALT (alanina aminotransferase) marca o início da morte hepatocelular, pois essa enzima, normalmente confinada ao interior das células hepáticas, é liberada para o plasma quando há perda da integridade da membrana. A elevação da ALT coincide com o aparecimento dos sintomas clínicos, como icterícia e fadiga. O acompanhamento da resposta imune também pode ser feito através da dosagem de IgM anti-HAV, que surge no início da infecção aguda, e IgG anti-HAV, que aparece tardiamente e persiste como marcador de imunidade. Além disso, a ativação das células T específicas contra o HAV evidencia a participação do sistema imune adaptativo na resolução da infecção.