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179 
Capítulo X 
Metáfora e devolução: 
o livro de história no processo
de psicodiagnóstico interventivo 
Elisabeth Becker Marizilda 
Fleury Donatelli 
Mary Dolores Ewerton Santiago 
I. Introdução 
O atendimento de crianças na área de psicodiagnóstico no Centro 
de Psicologia Aplicada da Universidade Paulista, onde trabalhamos 
como supervisoras de estágio do curso de Psicologia, possibilita uma 
constante reflexão sobre as questões que permeiam essa prática clínica. 
Uma delas é relativa à devolução das informações psicodiagnós- 
ticas à criança. A experiência mostra que a devolução para os pais, em 
geral, é mais fácil do que para a criança, por termos em comum a co- 
municação mediada por palavras. Com as crianças há dificuldades 
peculiares para transmitir e compartilhar a compreensão resultante do 
psicodiagnóstico. Como alternativa à tradicional forma de comunicação 
180 SILVIA ANCONA-LOPEZ 
verbal com utilização de caixa de brinquedos ou de material resultan- 
te de procedimentos de avaliação, sugerimos construir uma narrativa 
sobre os aspectos mais relevantes observados no psicodiagnóstico, 
apresentando-a à criança sob a forma de livro de história infantil. 
Diversos autores com distintos enfoques teóricos reconhecem as 
narrativas como vitais para a evolução da humanidade e para a for- 
mação da identidade do ser humano, na medida em que espelham 
conteúdos intrínsecos ao próprio ser. 
As narrativas na forma de mitos, fábulas e contos de fada têm 
sua origem em épocas remotas. Provavelmente, são as primeiras 
formas de literatura de que se tem notícia. Existem diferenças e se- 
melhanças entre as três formas de narrativas. Os mitos e as fábulas 
são derivados dos contos, sendo estes considerados como a forma 
mais primitiva de contar histórias. 
Segundo Souza (2003), o mito e a fábula são narrativas que têm 
frequentemente uma origem anônima e popular, mas divergem quan- 
to a seus propósitos. O que diferencia o mito da fábula é seu caráter 
coletivo e sua origem, fundamentada em questões espirituais e acon- 
tecimentos históricos. Essas experiências foram dramatizadas, roman- 
ceadas, fantasiadas pela imaginação humana, que também buscou 
dar sentido aos fenômenos inusitados, de natureza espiritual ou so- 
brenatural, que carecem de explicação. Desse modo, os mitos não 
obedecem ao princípio da razão, transmitindo um conhecimento, uma 
realidade não racional. Nas palavras do autor citado: 
[...] de acordo com o conceito mais generalizado, o mito é um tipo de 
narrativa alegórica e/ou simbólica, de origens remotas e caráter cole- 
tivo, que pretende transmitir uma realidade não racional, mas sempre 
tida como verdadeira. Em nível de narrativa, o mito possui uma estru- 
tura própria, com princípio, meio e fim, constituindo-se em uma forma 
de transmissão de alguma experiência vital, diluída no tempo e geral- 
mente ligada ao sobrenatural. Com o passar dos séculos, muitos desses 
relatos míticos perderam seu primitivo caráter sagrado, devido ao 
desaparecimento da noção de que todo o mito nasce (num determina- 
do momento histórico-cultural) ligado às crenças de uma comunidade, 
pressupondo portanto um ato de fé (Souza, 2003, p. xxx). 
PSICODIAGNÓSTICO INTERVENTIVO 181 
A importância dos mitos enquanto narrativa foi focalizada por 
Eliade (1986), que os considera uma forma de transmissão oral de 
conhecimentos relativos a uma cosmogonia, possibilitando, desse 
modo, ao homem conhecer sua origem e a origem do mundo, inse- 
rindo-se neste. “O mito designa [...] uma ‘história verdadeira’ e, 
ademais, extremamente preciosa por seu caráter sagrado, exemplar 
e significativo” (ibidem, p. 7). 
As fábulas, diferentemente dos mitos, são histórias construídas 
por determinado autor e seu objetivo é transmitir uma ideia moral, 
um valor. Relatam situações do cotidiano, a maneira de as pessoas se 
comportarem no dia a dia. Para Souza 
[...] a fábula costuma ser conceituada como uma breve narrativa alegóri- 
ca, de caráter individual, moralizante e didático, independentemente de 
qualquer ligação com o sobrenatural. Nela, os personagens apresentam 
situações do dia a dia, de onde podem ser extraídos paradigmas de com- 
portamento social, com base no bom-senso popular. Seres irracionais e, 
às vezes, até mesmo coisas e objetos, contracenam entre si, ou com as 
pessoas, ou com deuses mitológicos. Tais cenas simbolizam situações, 
comportamentos, interesses, paixões e sentimentos, humanos ou não, que 
nem sempre podem ser focalizados explicitamente (2003, p. xxx e xxxi). 
Os contos de fada, por sua vez, também são criações bastante 
antigas. Transmitem conhecimento sobre questões humanas universais, 
colocando em foco as questões-limite da existência, como nascimen- 
to, vida e morte. Para Bettelheim (1980), os contos de fada trazem à 
luz comportamentos latentes e manifestos, oferecem mensagens de 
desenvolvimento e encorajamento, falando à criança muito mais que 
qualquer outro tipo de literatura. O caráter mágico dos contos de fada 
tem proximidade com o universo psíquico da criança, atingindo-o em 
suas diferentes nuances, possibilitando que ela entre em contato com 
suas lutas internas e problemas existenciais, bem como com outras 
batalhas que a aguardam no decorrer de sua vida. Nos contos de fada 
o mal e o bem existem, mas estão separados, e há um caráter moral
em cada história. Assim, nas palavras desse autor: 
182 SILVIA ANCONA-LOPEZ 
As figuras dos contos de fadas não são ambivalentes — não são boas 
e más ao mesmo tempo, como somos todos na realidade. Mas dado 
que a polarização domina a mente da criança, também domina os 
contos de fada (Bettelheim, 1980, p. 17). 
Essas narrativas são úteis aos psicólogos tanto na compreensão 
do psiquismo quanto no atendimento a clientes. Freud recorreu aos 
mitos de Édipo e de Narciso para explicar certos fenômenos psicoló- 
gicos relativos ao desenvolvimento humano. Outros autores descrevem 
os benefícios dos contos quando são utilizados como técnica nos 
processos psicoterapêuticos, de modo geral (Oaklander, 1980; Gardner, 
1993; Coelho, 2003; Gutfreind, 2003). 
O livro de história elaborado com a finalidade de devolução 
diagnóstica à criança, tal como temos feito em nossa prática clínica e 
usado como metáfora no psicodiagnóstico, aproxima-se dos contos 
de fada em alguns aspectos e difere em outros. 
Quanto às semelhanças, os contos de fada e o livro de história 
como devolutiva têm por objetivo a transmissão de algum conheci- 
mento, como o conhecimento de si, da sua história, de seus conflitos, 
ou o conhecimento de alguma situação peculiar ao existir humano. Os 
contos de fada atingem diferentes camadas da psique e o livro de 
história também, na medida em que contempla a trajetória de vida e 
os conflitos da criança através de metáforas, analogias e imagens vi- 
suais que favorecem uma apreensão adequada às suas possibilidades 
de consciência. 
Em ambos, a verdade é apresentada, não é omitida. Nos contos 
de fada, não raramente há a morte ou enfraquecimento de alguma 
figura parental e, de algum modo, a criança é colocada em contato 
com essas questões-limite da existência. Muitas crianças trazidas para 
um psicodiagnóstico têm histórias de vida trágica e estas farão parte 
do livro, embora de forma metafórica. 
Com relação às diferenças, os contos de fada têm um caráter 
moral, o que não ocorre com o livro de história. Além disso, os contos 
de fada promovem a interiorização de certos valores, e este também 
PSICODIAGNÓSTICO INTERVENTIVO 183 
não é o propósito do livro de história. Ao contrário, seus objetivos 
contemplam as possibilidades criativas da criança, cabendo sempre 
a ela os julgamentos e, principalmente, as possíveis soluções para os 
conflitos centrais. 
II. Fundamentos da devolução psicodiagnóstica
Há três décadas, surgiram em nosso meio os primeiros trabalhos 
sistematizados acerca dos fundamentos teóricos, da técnica de devo- 
lução de informação psicodiagnóstica ao paciente. Tais trabalhosforam 
desenvolvidos na Argentina por Ocampo e Arzeno (1974). De acordo 
com elas, a devolução é realizada em uma ou duas entrevistas no 
final do processo psicodiagnóstico, e é necessária para que o pacien- 
te possa integrar aspectos de sua identidade que estão dissociados. 
A devolutiva funciona, portanto, como mecanismo de reintrojeção, 
sobretudo da identidade latente do paciente, contribuindo também 
para diminuir fantasias de doença, incurabilidade e loucura, possibi- 
litando perceber-se com critérios mais próximos da realidade, com 
menos distorções idealizadoras ou depreciativas. Isso é possível na 
medida em que o paciente pode resgatar aspectos próprios que ele 
depositou no psicólogo durante o processo, tanto aqueles desvalori- 
zados e temidos, como outros, enriquecedores e adaptativos. 
Para essas autoras, o objetivo essencial da devolutiva deve ser, 
portanto, auxiliar o paciente a realizar uma integração psíquica da- 
queles aspectos de sua personalidade que estão dissociados, contri- 
buindo, desse modo, para a preservação de sua identidade. Se isto é 
conseguido, a devolução terá para ele um caráter terapêutico. Vale 
lembrar a complexidade dessa tarefa, considerando-se as peculiari- 
dades do desenvolvimento da criança. 
Também para Verthelyi (1989), o conceito de devolução está ba- 
seado na ideia de projeção e posterior reintrojeção de aspectos que o 
paciente revelou durante o processo psicodiagnóstico. Esta autora, 
entretanto, junto a Friedenthal (1976), sinaliza que um único momen- 
184 SILVIA ANCONA-LOPEZ 
 
 
to devolutivo, ao término do processo, talvez não seja o modo mais 
adequado para que isso seja obtido. Considerando a importância 
desse tipo de trabalho, ambas propuseram realizar devoluções parciais 
durante todo o processo psicodiagnóstico, o que permitiria explorar 
melhor as hipóteses levantadas e aumentar os seus possíveis efeitos 
terapêuticos. Argumentam ser mais apropriado, nessas devoluções, 
incluir aspectos acessíveis e aceitáveis ao ego do paciente do que fazer 
interpretações. Assim, se as devoluções parciais são feitas ao longo do 
processo, pode ocorrer que, ao final deste, não seja necessário comu- 
nicar algo novo e que a entrevista de encerramento se destine mais a 
resumir tudo o que foi visto e despedir-se do paciente. 
 
 
 
III. A técnica de devolução e suas possibilidades 
 
 
Quanto à questão de como realizar a devolução, Ocampo e Ar- 
zeno (1974, p. 402) consideram “recomendável utilizar o material de 
testes, no qual geralmente aparece condensado ou expressado plas- 
ticamente o que podemos dizer” começando sempre pelos aspectos 
mais adaptativos para depois abordar aqueles que são menos adap- 
tativos, fazendo uso de uma linguagem simples e apropriada à crian- 
ça para que ela possa compreender nossa comunicação. 
Opinião semelhante tem Verthelyi (1989), para quem as técnicas 
projetivas, especialmente os testes gráficos e os relatos, podem ser o 
material mais adequado para mostrar ao paciente aspectos de si mes- 
mo observáveis em sua produção. Uma análise cuidadosa da totali- 
dade do material permitirá privilegiar aqueles aspectos revelados cuja 
temática seja mais facilmente reconhecível pelo sujeito e cujos conte- 
údos estejam mais próximos de sua consciência, a fim de facilitar a 
sua assimilação. 
Como supervisoras de psicodiagnóstico e psicólogas clínicas, 
trabalhando em uma concepção de psicodiagnóstico interventivo, 
também temos utilizado devoluções parciais durante todo o processo, 
bem como focalizado a questão de que esse processo pode e deve ter 
PSICODIAGNÓSTICO INTERVENTIVO 185 
um caráter terapêutico. Em um trabalho anterior, Santiago (2001) 
comenta que a utilização de material de técnicas projetivas, como o 
CAT-A, enquanto mediador na devolução à criança, mostrou-se limi- 
tada quanto às possibilidades de contribuir efetivamente para que ela 
pudesse integrar alguns aspectos de seu próprio funcionamento 
psíquico, assim como de obter uma compreensão daquelas situações 
familiares, escolares ou sociais que estavam relacionadas à manifes- 
tação de seus sintomas. Frequentemente, eram observadas reações de 
desinteresse ou atitudes passivas, de aparente aceitação de tudo que 
lhe era dito, até expressões diretas de intolerância à devolução que 
lhe estava sendo dada, por exemplo, tentando impedir o psicólogo 
de prosseguir na sua comunicação. Estas dificuldades vivenciadas 
nos levaram a pesquisar a possibilidade de utilizar novos procedi- 
mentos que se mostrassem mais eficazes no sentido de alcançarmos 
nossos objetivos no encerramento do psicodiagnóstico interventivo 
da criança. Tais objetivos seriam possibilitar à criança apropriar-se da 
própria história, bem como de seus conflitos, defesas, desejos e ma- 
neira de se relacionar com o ambiente de modo geral, o que inclui 
retomar a relação estabelecida com o psicólogo, podendo despedir-se 
dele e da situação de um atendimento de uma forma mais autônoma 
e integrada do que quando se iniciou o processo. 
Na literatura pesquisada, encontramos referências ao uso de 
histórias como forma de interpretação na psicoterapia de crianças. 
IV. O uso de histórias na psicoterapia de crianças
Um trabalho pioneiro sobre o uso de histórias em psicoterapia 
para comunicar à criança o significado psicodinâmico de seus sinto- 
mas foi realizado por Gardner (1993). Considerando que contar his- 
tórias é um dos modos favoritos de as crianças se comunicarem e que 
elas gostam tanto de contá-las como de escutá-las, Gardner criou a 
“técnica de relato mútuo de histórias”, propondo-a para crianças de 
5 a 11 anos. Nesta técnica, o psicoterapeuta estimula a criança a criar 
186 SILVIA ANCONA-LOPEZ 
uma história, apreender seu tema psicodinâmico, tomando-a como 
uma projeção; então, formula e narra outra história para a criança 
com as mesmas características presentes na dela, mas introduzindo 
soluções de conflitos mais saudáveis do que aquelas originalmente 
propostas pela criança. 
Para este autor, o psicoterapeuta tem mais chance de ser escuta- 
do quando fala a linguagem própria da criança — a linguagem da 
alegoria. Com esta técnica, as interpretações são recebidas pelo in- 
consciente da criança, não havendo confrontações diretas que suscitem 
ansiedade. 
O uso de histórias na psicoterapia de crianças também é relatado 
por Oaklander (1980). Baseando-se nas concepções da Gestalt e tendo 
como objetivo ajudar a criança a tomar consciência de si mesma e de 
sua existência no mundo, a autora faz um amplo uso de histórias: 
conta, lê, escreve, estimula a criação de histórias através de figuras, 
bonecos e, ainda, registra as no gravador e aparelho de vídeo para 
serem posteriormente vistas pela criança. Os objetivos da utilização 
desta técnica se assemelham, em alguns aspectos, aos de Gardner. 
No Brasil, Safra (1984) pesquisou um método de consulta que se 
utiliza das histórias infantis como meio de intervenção. De orientação 
teórica winnicottiana, esse autor considera a narrativa de uma história 
uma forma lúdica de expressão compatível com a vida mental da 
criança, que, em seus termos, “por favorecer o aparecimento do espa- 
ço transicional, é elemento importante para que a criança introjete a 
intervenção sem se sentir invadida” (idem ibidem, p. 10). Nesta pro- 
posta, o terapeuta obtém um conhecimento da criança através de um 
contato com ela na hora de jogo e do uma entrevista com os pais. 
Depois, junto a estes, constrói uma história que revela uma compre- 
ensão dos problemas da criança e que deve ser lida para ela, pelos 
pais, durante certo tempo. Os resultados a que o autor chegou em sua 
pesquisa mostraram a diminuição ou desaparecimento do sintoma. 
Também no Brasil foi publicado um interessante e extenso tra- 
balho em que, aliando pesquisa à atividade clínica de analista de 
crianças, Gutfreind (2003) propõe a utilização de contos no processo 
PSICODIAGNÓSTICO INTERVENTIVO 187 
psicoterapêutico. Para esse autor, contar o conto é oaspecto essencial, 
sendo isso mais relevante que a necessidade de investigação das 
teorias subjacentes, pois para ele “oferecer histórias a uma criança é 
promover um programa eficiente de saúde mental” (idem ibidem, 
p. 12). Gutfreind assume como sendo extremamente relevantes as
múltiplas alternativas de leituras e atribuição de significados à his- 
tória, na medida em que estas remetem a criança a um mundo de 
infinitas possibilidades de contar, ouvir e imaginar. 
“Contar e ouvir. E contando e ouvindo entrar em interação com 
o outro e, a partir desses conteúdos e dessa troca, construir-se como
ser humano capaz de ter uma identidade (feito uma personagem), de 
sentir, pensar, imaginar” (Gutfreind, 2003, p. 146). 
V. A utilização do livro de história como procedimento devolutivo 
no psicodiagnóstico interventivo de crianças 
As referências à utilização de narrativa de história como encerra- 
mento do processo psicodiagnóstico interventivo de crianças aparecem 
em nosso meio inicialmente como trabalho (pôster) apresentado em 
um encontro de supervisores de clínicas-escola (Becker, 1999). Segui- 
ram-se várias outras apresentações de trabalhos e publicações sobre 
essa proposta realizadas por esse grupo de supervisores (Becker, 2001, 
2002; Becker et al., 2002; Donatelli, 2001; Santiago, 2001; Santiago et 
al., 2001a, 2001b; Santiago et al., 2003). Mas foi Constance Fischer, 
psicóloga norte-americana, a pessoa a nos inspirar e incentivar para 
desenvolvêssemos essa nova técnica para devolutivas infantis, por 
meio de seu texto sobre psicodiagnóstico e em trabalho desenvolvido 
com supervisores de estágio na Pontifícia Universidade Católica de 
São Paulo.2 Nesta ocasião, relatou-nos suas experiências com a criação 
de poemas, músicas e cartas como possibilidades de informações psi- 
2. Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica. Pontifícia Universidade Católica de 
São Paulo, 1998. 
188 SILVIA ANCONA-LOPEZ 
codiagnósticas transmitidas a crianças e adolescentes. Em suas publi- 
cações anteriores, Fischer (1970, 1989, 1994) expôs sua proposta de um 
psicodiagnóstico centrado na vida, o que confere particular importância 
no modo como são transmitidas pelo psicólogo as compreensões ad- 
vindas de um psicodiagnóstico. Para essa autora, partindo de um 
enfoque existencial, o cliente é um participante informado e, desde o 
início, envolvido em papel ativo, transformando-se assim em um co- 
assessor do psicólogo com quem desenvolve um trabalho interventivo 
contextualizado e compartilhado. Dessa forma, embora ainda estejam 
presentes nas devolutivas com as crianças as alternativas mais tradi- 
cionais de usar os brinquedos, bem como os estímulos à atividade 
expressiva gráfica e verbal das técnicas projetivas, assumimos, como 
essa autora, a importância de oferecer à criança alternativas, entre as 
quais o livro de história tem sido o melhor expoente. 
Consideramos que o livro de história é o resultado da compre- 
ensão de todo o trabalho realizado no psicodiagnóstico. Ele contém 
aspectos significativos do desenvolvimento da criança e de suas re- 
lações com o meio em que vive, assim como uma compreensão de 
seus sintomas. Supomos que, desse modo, é possível dar a ela um 
entendimento melhor de seu problema, contextualizando-o em sua 
história familiar e pessoal, incluindo também seus recursos para lidar 
com as dificuldades apresentadas. 
Em nossa experiência, a criação de uma história devolutiva ex- 
clusiva para a criança permite-lhe uma vivência psicológica também 
única. Utilizando recursos analógicos propiciados pelas identificações 
com personagens, a criança parece obter uma percepção do seu sin- 
toma, bem como a expressão dos sentimentos envolvidos. 
Pudemos observar diferentes reações das crianças durante e após 
a apresentação do livro de história: reconhecimento de que a história 
dizia respeito a ela, interesse e atenção durante a leitura (até nas 
crianças muito agitadas), disponibilidade para interagir na situação, 
querer compartilhar a história com a professora, com colegas, com 
avós, pedir aos pais insistentemente a releitura da narrativa ou, ao 
contrário, guardá-la, “esquecê-la” até um momento de retomada. 
PSICODIAGNÓSTICO INTERVENTIVO 189 
Consideramos que a elaboração do livro de histórias como de- 
volutiva supõe alguns elementos norteadores: 
• O livro de histórias é uma metáfora que expressa a compre- 
ensão do psicodiagnóstico. É uma síntese que contempla a
história vital da criança e suas vivências durante o psicodiag- 
nóstico, suas dificuldades e recursos internos, em uma lingua- 
gem acessível à sua compreensão.
• A história e os personagens devem ser escolhidos em função
das afinidades e analogias com os conteúdos evidenciados
no psicodiagnóstico. Por exemplo, pulgas e macaquinhos
como personagens para crianças com condutas hiperativas,
pássaros e peixes como personagens para famílias migrantes.
Deve-se dar especial atenção ao emprego de personagens
que têm, culturalmente, sentidos conotativos. No Brasil,
veados, burros, urubus e gatos pretos podem ligar-se a sen- 
tidos pejorativos.
• Quanto ao conteúdo formal, é fundamental que o livro de
história traduza:
 a história de vida (familiar e da criança);
 o sintoma;
 a busca de atendimento e a relação com o psicólogo;
 a explicitação dos sentimentos do personagem de identificação;
 a integração dos diferentes aspectos observados através da
hora de jogo, testes, visitas etc. 
• O final da história ainda é um tema controverso, entretanto é
muito importante que a criança tenha a chance de expressar
sua própria solução final quanto ao encaminhamento dado.
Supomos também que o trabalho de elaboração psíquica pode 
prosseguir após o encerramento do psicodiagnóstico, visto que o livro 
é entregue a ela no final do processo e o texto e as gravuras podem 
servir de estímulos para que, gradativamente, ela se aproprie mais 
das analogias. Dessa compreensão e apropriação resulta um “encon- 
190 SILVIA ANCONA-LOPEZ 
tro” da criança com o trabalho do psicólogo de forma mais intensa 
do que já vinha ocorrendo durante o processo. 
Este procedimento tem se mostrado satisfatório em termos das 
reações das crianças e comentários dos pais ou responsáveis no en- 
cerramento do processo psicodiagnóstico interventivo ou início da 
psicoterapia, parecendo favorecer e fortalecer o estabelecimento de 
uma área de intersecção entre estes e o psicólogo, necessária à conti- 
nuidade do trabalho. 
Sendo assim, a devolutiva dada através do livro de história tem 
se mostrado mais do que a etapa final de um processo de psicodiag- 
nóstico. Ela remete, entre outras, às possibilidades de pesquisa quan- 
to ao seu caráter terapêutico, às especificidades das histórias em 
função do momento evolutivo da criança e às ressonâncias na família. 
Para ilustrar essa prática, relatamos a seguir um resumo do 
atendimento em Psicodiagnóstico Interventivo com o respectivo livro 
de história. O nome dos clientes, assim como alguns dados, foram 
modificados para preservar suas identidades. 
Trata-se de uma menina de 8 anos de idade, que chamaremos de 
Maria. Ela foi encaminhada pela escola com a queixa de falta de aten- 
ção e dificuldade de aprendizagem. Os dados colhidos sobre a história 
de vida da criança mostravam que a família era constituída pela mãe 
e cinco filhos, sendo a primeira filha adotiva, a segunda e a terceira 
do sexo feminino e biológicas, o quarto de sexo masculino, também 
biológico, e a última, que era a cliente em questão, do sexo feminino. 
Os pais casaram-se e em seguida adotaram a primeira criança, 
que foi muito bem recebida por eles. Todos os filhos foram desejados, 
embora, segundo a mãe, a gravidez de Maria tenha ocorrido num 
período tumultuado de sua vida. A mãe comentou que ela e o mari- 
do viviam bem e em perfeita harmonia até o momento em que ele 
soube que tinha uma doença grave. Ficou muito revoltado, recusou 
qualquer tipo de tratamento e passou a beber. 
A vida familiar mudou, e os conflitosentre o casal tornaram-se 
rotina. Foi neste momento que a mãe engravidou de Maria, fato que ge- 
rou muitos temores e preocupações no âmbito familiar. Apesar de tudo, 
PSICODIAGNÓSTICO INTERVENTIVO 191 
Maria nasceu saudável, o pai diminuiu um pouco a bebida, tratou-se 
e melhorou um pouco. Contudo, algum tempo depois faleceu, sendo 
que seu contato com a menina deu-se por um curto período de tempo, 
de aproximadamente 3 anos. A família teve que reorganizar sua vida. 
O desenvolvimento de Maria deu-se sem nenhuma intercorrência. 
Durante o processo psicodiagnóstico foi possível perceber que 
Maria é uma garota inteligente, com recursos para resolver problemas 
do cotidiano. É capaz de reter informações oferecidas pelo ambiente, 
denotando boa capacidade de abstração e generalização de conceitos. 
Apresenta boa coordenação viso-motora fina, adequada percepção 
visual e coordenação têmporo-espacial. É extrovertida, sociável, es- 
tabelecendo relações cordiais e afetivas com as pessoas. A menina, 
entretanto, é insegura, bastante competitiva, comparando-se ao outro 
com a finalidade de assegurar-se de que suas produções são melhores 
que as de seus colegas. Sente-se insatisfeita com aquilo que faz e 
busca compensação de suas insatisfações comparando e desqualifi- 
cando o trabalho de seus colegas. Investe muita energia nisto, o que 
a faz dispersar-se das tarefas escolares, denotando pouca atenção/ 
concentração. Percebe que sua mãe ainda lamenta a ausência do ma- 
rido e sente-se culpada por isso. Procura agradá-la no sentido de 
suprir a lacuna deixada pela morte do pai, mas nota que seus esforços 
são insuficientes. Isto faz com que se sinta ainda mais ansiosa, de- 
samparada e insegura. 
Durante o psicodiagnóstico foi trabalhado com a mãe o fato de 
que o luto pela perda do companheiro ainda era vivido pela família, 
embora isto tivesse acontecido havia bastante tempo. Também foram 
feitas intervenções no sentido de que Maria precisava de mais atenção 
e estímulo, precisava ser vista e atendida em suas necessidades. No 
final do processo, tanto a mãe quanto a criança tinham tido algum 
progresso, mas foi decidido em comum acordo que Maria deveria con- 
tinuar o atendimento, sendo encaminhada para psicoterapia infantil. 
A seguir mostramos algumas das situações que foram focalizadas 
no livro de história, a adoção da primeira filha, a doença do pai e a 
sua morte. 
192 SILVIA ANCONA-LOPEZ 
Logo que se casaram, uma peixinha ainda pequena foi 
morar com eles, essa peixinha se chamava NANI. Nani foi 
tratada pelo casal com muito amor, como se tivesse nasci- 
do da barriguinha da mamãe Fifi. 
PSICODIAGNÓSTICO INTERVENTIVO 193 
Acontece que quando todos estavam comemorando, papai 
Lino começou a se sentir fraco, tão fraco que sabia que a 
qualquer momento poderia ser levado por uma correnteza 
mais forte. Sua tristeza foi tanta que Lino começou a pro- 
curar algas distantes que possuíam um néctar especial que 
o faziam esquecer disso. Depois de tomar esse néctar, papai
Lino voltava para casa irritado e brigava com a mamãe Fifi. 
194 SILVIA ANCONA-LOPEZ 
PRIKA ainda era pequena quando chegou uma correnteza mais 
forte e levou embora o papai Lino, que já não tinha mais força 
para nadar. Já faz tempo que isso aconteceu, mas a tristeza ainda 
é grande no coral dos peixinhos. 
PSICODIAGNÓSTICO INTERVENTIVO 195 
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	Capítulo X
	Mary Dolores Ewerton Santiago
	I. Introdução
	II. Fundamentos da devolução psicodiagnóstica
	III. A técnica de devolução e suas possibilidades
	IV. O uso de histórias na psicoterapia de crianças
	V. A utilização do livro de história como procedimento devolutivo no psicodiagnóstico interventivo de crianças
	Referências bibliográficas