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A+Herança+Grega

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como os 
elementos da poesia, afirma o seguinte: "Há outra arte que imita recorrendo apenas a linguagem, 
quer em prosa, quer em verso [...], mas por enquanto tal arte não tem nome4." 
 
A ideia grega de que a música se ligava indissociavelmente a palavra falada ressurgiu, sob 
diversas formas, ao longo de toda a história da música: com a invenção do recitativo, por volta de 
1600, por exemplo, ou com as teorias de Wagner acerca do teatro musical, no século XIX. 
 
A DOUTRINA DO ETOS — A doutrina do etos, das qualidades e efeitos morais da música, 
integrava-se na concepção pitagórica da música como miscrocosmos, um sistema de tons e ritmos 
regido pelas mesmas leis matemáticas que operam no conjunto da criação visível e invisível. A 
música, nesta concepção, não era apenas uma imagem passiva do sistema ordenado do universo; era 
também uma força capaz de afectar o universo — daí a atribuição dos milagres aos músicos 
lendários da mitologia. Numa fase posterior, mais científica, passaram a sublinhar-se os efeitos da 
música sobre a vontade e, consequentemente, sobre o carácter e a conduta dos seres humanos. O 
modo como a música agia sobre a vontade foi explicado por Aristóteles5 através da doutrina da 
imitação. A música, diz ele, imita directamente (isto é, representa) as paixões ou estados da alma — 
brandura, ira, coragem, temperança, bem como os seus opostos e outras qualidades; daí que, quando 
ouvimos um trecho musical que imita uma determinada paixão, fiquemos imbuídos dessa mesma 
paixão; e, se durante um lapso de tempo suficientemente longo ouvirmos o tipo de música que 
desperta paixões ignóbeis, todo o nosso carácter tomará uma forma ignóbil. Em resumo, se ouvirmos 
música inadequada, tornar-nos-emos pessoas más; em contrapartida, se ouvirmos a música adequada, 
tenderemos a tornar-nos pessoas boas6. 
 
Platão e Aristóteles estavam de acordo em que era possível produzir pessoas "boas" mediante 
um sistema público de educação cujos dois elementos fundamentais eram a ginástica e a música, 
 
3
 Platão, República, 10.617. 
4
 Aristóteles, Poética, 1.1447a-b. 
5
 Aristóteles, Política, 8.1340a-b; cf. Platão, Leis, 2.665,70C. 
6
 V. também Platão, República, 3.401D-E. 
 14 
visando a primeira a disciplina do corpo e a segunda a do espírito. Na República, escrita por volta 
de 380 a. C., Platão insiste na necessidade de equilíbrio entre estes dois elementos na educação: o 
excesso de música tornará o homem efeminado ou neurótico; o excesso de ginástica torná-lo-á 
incivilizado, violento e ignorante. "Àquele que combina a música com a ginástica na proporção certa 
e que melhor as afeiçoa a sua alma bem poderá chamar-se verdadeiro músico7." Mas só determinados 
tipos de música são aconselháveis. As melodias que exprimem brandura e indolência devem ser 
evitadas na educação dos indivíduos que forem preparados para governarem o estado ideal; só os 
modos dórico e frígio serão admitidos, pois promovem, respectivamente, as virtudes da coragem e da 
temperança. A multiplicidade das notas, as escalas complexas, a combinação de formas e ritmos 
incongruentes, os conjuntos de instrumentos diferentes entre si, "os instrumentos de muitas cordas e 
afinação bizarra", até mesmo os fabricantes e tocadores de aulo, deverão ser banidos do estado8. Os 
fundamentos da música, uma vez estabelecidos, não deverão ser alterados, pois o desregramento na 
arte e na educação conduz inevitavelmente a libertinagem nos costumes e a anarquia na sociedade9. 
O ditado "deixai-me fazer as canções de uma nação, que pouco me importa quem faz as suas leis" era 
uma máxima política, mas também um trocadilho, pois a palavra nomos, que significa "costume" ou 
"lei", designava também o esquema melódico de uma canção lírica ou de um solo instrumental10. 
Aristóteles, na Política (cerca de 330 a. C.), mostrou-se menos restritivo do que Platão quanto a 
ritmos e modos particulares. Concebia que a música pudesse ser usada como fonte de divertimento e 
prazer intelectual, e não apenas na educação11. 
 
É possível que, ao limitarem os tipos de música autorizados no estado ideal, Platão e 
Aritóteles estivessem deliberadamente a deplorar certas tendências da vida musical do seu tempo: 
ritmos associados a ritos orgiásticos, música instrumental independente, popularidade dos virtuosos 
profissionais. A menos que encaremos estes filósofos como homens tão desligados do mundo real da 
arte que as suas opiniões no domínio da música não têm a menor relevância, devemos relembrar os 
seguintes factos: primeiro, na Grécia antiga a palavra música tinha um sentido muito mais lato do 
que aquele que lhe damos hoje; segundo, não sabemos qual era a sonoridade dessa música, e não é 
impossível que tivesse realmente certos poderes sobre o espírito que não possamos idealizar; 
terceiro, houve muitos momentos históricos em que o estado ou outras autoridades proibiram 
determinados tipos de música, partindo do princípio de que se tratava de uma questão importante 
para o bem-estar público. Havia leis sobre a música nas primeiras constituições de Atenas e de 
Esparta. Os escritos dos Padres da Igreja contêm muitas censuras a determinados tipos de música. E 
mesmo no século XX o assunto está longe de ter sido encerrado. As ditaduras, tanto fascistas como 
comunistas, procuraram controlar a actividade musical dos respectivos povos; as igrejas costumam 
estipular quais as músicas que podem ou não ser tocadas nos serviços religiosos; os educadores 
continuam a preocupar-se com o tipo de música, bem como com o tipo de imagens e textos, a que se 
vêem expostos os jovens de hoje. 
 
A doutrina grega do etos, por conseguinte, baseava-se na convicção de que a música afecta o 
carácter e de que os diferentes tipos de música o afectam de forma diferente. Nestas distinções 
efectuadas entre os muitos tipos de música podemos detectar uma divisão genérica em duas 
categorias: a música que tinha como efeitos a calma e a elevação espiritual, por um lado, e, por outro, 
a música que tendia a suscitar a excitação e o entusiasmo. A primeira categoria era associada ao culto 
de Apolo, sendo o seu instrumento a lira e as formas poéticas correlativas a ode e a epopeia. A 
segunda categoria, associada ao culto de Dioniso, utilizava o aulo e tinha como formas poéticas afins 
o ditirambo e o teatro. 
 
7
 Platão, República, 3.412A. 
8
 Platão, República, 3.398C-399E, e também Leis, 7.812C-813A. 
9
 Platão, República, 4.424C, e também Leis, 3.700B-E. 
10
 Platão, Leis, 7.799E-800B 
11
 Aristóteles, Política, 8.133b-1340a.