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PL 276-2007 - antigo PL 6.960-2002

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do Código, por exemplo, cereal é gênero e feijão é espécie. Se,
entretanto, alguém se obrigasse a entregar uma saca de cereal (quantidade:
uma saca; gênero: cereal), essa obrigação seria impossível de cumprir-se, pois
não se poderia saber qual dos cereais deveria ser o objeto da prestação
jurídica. Nestes termos, é melhor dizer-se: espécie e quantidade. No exemplo
supra, teríamos: quantidade (uma saca); espécie (de feijão). Dessa maneira
que, aí, o objeto se torna determinável, desde que a qualidade seja
posteriormente mostrada.” A alteração sugerida pelo Professor Villaça, mostra-
se em tudo procedente.
9. Art. 246 : A redação do artigo 246, tal como concebida
no anteprojeto original, continha a cláusula final “salvo se se tratar de dívida
genérica restrita”, infelizmente suprimida pelo Senado Federal. A distinção
entre obrigação genérica e obrigação genérica restrita, embora seja
desenvolvida pelos modernos obrigacionistas, já havia sido estudada entre nós
por Teixeira de Freitas, que chegou a inserir no Código Civil Argentino o
seguinte dispositivo: “Art. 893. Quando a obrigação tiver por objeto a entrega
de uma coisa incerta, determinada entre um número de coisas certas da
mesma espécie, ficará extinta se se perderem todas as coisas compreendidas
na mesma por um caso fortuito ou de força maior”. Nesse mesmo sentido é
também a lição do mestre lusitano Antunes Varela: “A determinação do gênero
pode ser limitada, sem que a obrigação deixe de ser genérica. Pode a
obrigação, por exemplo, incidir sobre o livro de determinada edição, sobre o
trigo existente em certo celeiro, sobre o vinho de certa adega, etc. Quanto
maior for o número de elementos ou qualidades escolhidas para identificar o
gênero da prestação, maior será a sua compreensão e menor, por conseguinte,
a sua extensão” (Pires de Lima e Antunes Varela, Código Civil Anotado,
Coimbra, 1987, Vol. I, pág. 549). Assim, a reinclusão dessa cláusula, inclusive
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com a citação exemplificativa, e que constitui objeto da presente proposta,
pretende deixar expresso que o velho princípio do direito romano – genus
nunquan perit, ou seja, o gênero nunca perece, não é absoluto, comportando
exceções. É o caso, por exemplo, voltando ao exemplo citado por Antunes
Varela, de um vinicultor que se obriga a entregar 10 (dez) pipas de vinho de
sua adega. Se, por caso fortuito ou força maior, todas as pipas dessa adega
vierem a perecer, a obrigação estará resolvida, pois deixa de ser possível o seu
cumprimento. Apesar da obrigação ser genérica (entregar 10 pipas de vinho), o
gênero era limitado (vinho de determinada adega). Também não se
compreende qual a razão de se haver mantido a expressão “antes da escolha”,
principiando o artigo, quando, desde o anteprojeto, já se havia corrigido o
equívoco semelhante contido no art. 876 – CC/16 – art. 245 CC/2001.
10. Art. 262: O art. 262, tal como está redigido, além de
não inovar o direito anterior, repete no novo código redação que já era criticada
à luz do CC/16, como observa João Luiz Alves: “A prestação indivisível pode
ser de coisa divisível ou indivisível. No primeiro caso, pode ser descontada a
quota do credor remitente; no segundo, evidentemente, não. O devedor, nesse
caso, tem direito de ser indenizado do valor da parte remitida”. ou seja, se o
objeto da prestação não for divisível, não se poderia falar em desconto. Diz
ÁLVARO VILLAÇA AZEVEDO que se o objeto da prestação for divisível, os
devedores efetuarão o “desconto do valor dessa cota para entregarem só o
saldo aos credores não remitentes. (...) Na obrigação indivisível, como este
desconto é impossível, os devedores têm de entregar o objeto todo, para se
reembolsarem do valor correspondente à cota do credor, que perdoou a
dívida”.
11. Arts. 273, 281, 294, 302: Observa, ainda, o Prof.
ÁLVARO VILLAÇA AZEVEDO, a impropriedade de utilizar-se a palavra
“exceção”, que tem significado técnico específico, previsto na lei processual. O
melhor seria, na opinião do mestre, utilizar-se o vocábulo genérico “defesas”.
12. Art. 283: O novo código repete no artigo expressão
que já era criticada no CC/16, quando se refere ao pagamento ou satisfação da
dívida “por inteiro”, fazendo parecer que o devedor solidário que fez um
pagamento parcial, não teria direito de regresso contra os demais co-
obrigados. João Luiz Alves, ainda em 1917, já se contrapunha à expressão,
afirmando: “O código refere-se a pagamento por inteiro. Se o pagamento, não
for por inteiro, mas de metade ou de dois terços da dívida, perderá o devedor o
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direito de haver dos co-obrigados a sua quota, proporcional a esse
pagamento? Ninguém o afirmará. Por isso, seria preferível a redação sem a
‘clausula por inteiro’.
13. Arts. 299 e 300: A sugestão de alteração dos artigos
299 e 300 é produto de trabalho elaborado pelo advogado MÁRIO LUIZ
DELGADO RÉGIS . Diz ele que “o art. 299, em sua redação original, não
dispôs sobre as modalidades de assunção, querendo parecer referir-se apenas
à segunda modalidade de assunção de dívida (forma delegatória), onde o
consentimento expresso do credor constitui requisito de eficácia do ato. Na
forma expromissória não haveria que se falar em consentimento do credor,
uma vez que é o próprio credor quem celebra o negócio com o terceiro que vai
assumir a posição do primitivo devedor. O artigo também se omitiu de
mencionar os efeitos da assunção delegatória antes do assentimento do
credor, além de se abster completamente de tratar da assunção cumulativa.
Sem falar que o artigo está a exigir, ainda, que a aceitação do credor seja
expressa, não admitindo, em regra a aceitação tácita. Ocorrendo a insolvência
do novo devedor, fica sem efeito a exoneração do antigo . Nesse aspecto , o
dispositivo é também criticado por Luiz Roldão de Freitas Gomes (Da
Assunção de Dívida e sua Estrutura Negocial, 2ª Ed., Rio de Janeiro, Lumen
Juris, 1998), por não haver ressalvado a hipótese de que as partes, aceitando
correr o risco, exonerem o primitivo devedor mesmo se o novo for insolvente à
época da celebração do contrato. A redação original do então parágrafo único
do artigo 299, apesar de praticamente copiada do Código Civil Alemão (art.
415), apresenta-se sem utilidade, “pois se a assunção de dívida não for
concertada, de comum acordo, com o credor, de nada vale sua interpelação
para que manifeste a sua anuência. Se ele não a deu, na fase dos
entendimentos, ou se o devedor não a obteve, não será a interpelação que
mudará seus propósitos “(Luiz Roldão de Freitas Gomes Ob. Cit., p. 288) “ No
que se refere ao art. 300, diz o referido advogado que “as chamadas garantias
especiais dadas pelo devedor primitivo ao credor, vale dizer aquelas garantias
que não são da essência da dívida e que foram prestadas em atenção à
pessoa do devedor, como por exemplo, as garantias dadas por terceiros
(fiança, aval, hipoteca de terceiro), só subsistirão se houver concordância
expressa do devedor primitivo e, em alguns casos, também do terceiro que
houver prestado a garantia. Isso porque, várias das garantias prestadas por
terceiros só poderão subsistir com a ressalva destes. Nesse ponto merece
correção o dispositivo. Já as garantias reais prestadas pelo próprio devedor
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originário não são atingidas pela assunção. Vale dizer, continuam válidas, a
não ser que o credor abra mão delas expressamente. O artigo também silencia
no tocante aos acessórios da dívida”. Daí a necessidade de se alterar a
redação dos dois dispositivos.
14. Arts. 306: A redação atual do art. 306 deixa a desejar.
Tem-se a impressão de estar se referindo à ação do terceiro, mas isso não
seria possível, mormente se o devedor desconhecesse o pagamento por ele
realizado. No caso a referência é aos meios de defesa do devedor junto ao
credor, ilidindo a ação deste, na cobrança de seu crédito. Daí a razão da
modificação proposta.
15. Art. 309: Quanto ao art. 309, estou propondo mera
correção