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Artigo - princípios do Código Civil

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sacrificando-se, destarte, o valor da certeza. [05]
Em sentido oposto, Ricardo Fiuza [06] alega que se reveste de maior gravidade ter-se uma codificação defasada, sujeita a constantes reformas, caso ela não se valha de uma interpretação flexível para o seu texto. A questão do arbítrio e da discricionariedade judicial resolve-se com o duplo grau de jurisdição, com a garantia da pluralidade de instâncias e a composição coletiva dos tribunais.
Destarte, pode-se concluir que os principais avanços do Código Civil são de ordem principiológica e metodológica, que serão analisadas no presente artigo.
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2. O Código Civil de 1.916 (Lei 3.701, de 01 de janeiro de 1.916).
A falta de sistematização do Direito Civil no século XVIII, influenciada pelo movimento racionalista, favoreceu o processo de unificação do direito privado. A unificação, neste contexto, além de representar sensível avanço legislativo, traduziria também os anseios da burguesia, temerosa quanto às pretensões intervencionistas do Estado. [07]
O Código Napoleônico é a gênese deste processo. Aliás, na França, a receptividade do Code [08] Napoléon operou-se com tamanha intensidade que se teve a sensação de que, após sua edição, todo Direito Civil Francês foi apagado da história e reescrito pela nova codificação.
Norberto Bobbio, citado por Pablo Stolze e Rodolfo Pamplona Filho, infere:
a miragem da codificação é a completude: uma regra para cada caso. O Código é para o juiz um prontuário, que lhe deve servir infalivelmente, e do qual não pode se afastar. [09]
As codificações só surgem quando o Direito se encontra suficientemente amadurecido. Há necessidade, para se codificar, de um profundo substrato estrutural, de um conjunto de leis anteriores, de maturidade, bem como de técnicos capazes de captar as necessidades jurídicas de seu tempo. [10]
Toda lei nasce, sob certos aspectos, defasada, pois o legislador espelha-se na sua história, no seu próprio passado para confeccioná-la. Programa leis para fatos sociais que o cercam, e é cada vez mais difícil prever condutas humanas, posto que elas se alteram a cada tempo, fator outro que leva à constante defasagem dos códigos.
A tendência à codificação do Direito, fundada nas sólidas compilações do Direito Romano, tem como sua maior expressão o Corpus Iuris Civilis de que resultaram as Ordenações Ibéricas, retomadas no século XIX, com a Codificação Francesa da era Napoleônica, seguida de países como a Suíça e a Alemanha, ganhando entre nós novo impulso depois da Constituição de 1.934, com o Código de Minas, o Código de Águas, o Código de Menores, o Código Florestal, o Código Brasileiro de Ar e a própria Consolidação das Leis Trabalhistas. [11]
Não prospera, de igual forma, a tese defendida pelos adeptos às reformas parciais do texto, invocando em seu exemplo o Código Civil Francês (1.804) e o Código Civil Alemão (BGB – 1.900), que estão em pleno vigor há mais de um século. Tais legislações, como é sabido, foram modificadas e atualizadas com o passar dos anos, e as atualizações sendo inseridas no próprio corpo do texto, de sorte que eles nunca desatualizaram. No Brasil, a atecnia aliada à desorganização legislativa cuidou de editar sucessivas leis extravagantes versando sobre tema tratado no Código Civil de 1.916, sendo que, em vez de se inserirem no texto codificado, simplesmente alterando ou complementando dispositivos, essas leis revogaram artigos e até mesmo capítulos inteiros do Código transformando-o em verdadeira "colcha de retalhos". [12]
Ademais, algumas leis revogaram tacitamente dispositivos, o que causou verdadeiros duelos interpretativos nos tribunais. O mesmo se diga dessa questão de dispositivos revogados pelos usos e costumes. Mesmo os dispositivos que quedaram no desuso pela sociedade e, por conseguinte, de pouco emprego nos tribunais, necessitavam ser extirpados do ordenamento jurídico, o que ensejava a busca por uma nova codificação. [13]
Nota-se a salutar imprescindibilidade de elaboração de um novo Código, que rompesse com a ideologia trazida pela Codificação de Beviláqua, superasse a defasagem legislativa gerada pelo Code até então vigente, mas não abandonasse a experiência acumulada ao longo de um século e mantivesse grande parte da estrutura e das disposições do Código anterior, no sentido de repetir tudo o que ainda houvesse de útil no Código de 1.916. [14]
Em 2.002, quando o Código Civil de 1.916 foi revogado pelo seu sucessor, este já se encontrava em desarmonia com os parâmetros sociais da atualidade. Vale citar como exemplos, as arcaicas disposições do Direito de Família (alterado pela Lei 6.515, de 26 de dezembro de 1.977, que regulamentou a Emenda Constitucional n. 9, de 28 de julho de 1.977, Lei do Divórcio, que derrogou vários artigos do Código Civil) e as sucessivas Leis do Inquilinato, em detrimento das disposições do extinto Código.
Os institutos deste diploma foram edificados para uma sociedade agrária, individualista, com a população basicamente rural, o que tornava premente a necessidade de ruptura com a legislação vigente e introdução de uma nova base civil voltada aos anseios atuais proclamados pela sociedade. Francisco Amaral, ao comentar a ideologia reinante no Código Civil revogado, infere que o direito de família sancionava o patriarcalismo doméstico da sociedade que o gerou, traduzido no absolutismo do poder marital e no pátrio poder. Tímido no reconhecimento da filiação ilegítima, valorizava a falsa moral reinante ao seu tempo. Essencialmente individualista, assegurou o direito de propriedade de forma absoluta e ampla, de acordo com os parâmetros agrários de seu tempo. No mesmo sentido, conferiu ampla liberdade de contratação, amparada pela ultravalorização da autonomia da parte. Tanto a propriedade quanto o contrato exprimem reflexos do liberalismo. Enfim, o diploma civil de 1916 exprimia a mentalidade reinante à época, qual seja, capitalista colonial. [15]
Assim, pode-se afirmar que o código marca a tendência ideológica de seu tempo, necessitando abranger todos os aspectos da complexa e multifacetária cadeia de relações privadas. Código, para Stolze e Pamplona Filho, é "um sistema de regras formuladas para reger, com plenitude e generalidade, todos os aspectos das relações privadas, proporcionando a segurança necessária às relações sociais". [16]
Neste contexto, surge o Código Civil de 1.916, que reunia 1.807 artigos e era antecedido pela Lei de Introdução ao Código Civil (inicialmente, tratava-se da Lei n. 3.071/16, a qual foi ulteriormente revogada pelo Decreto-Lei n. 4.657/42). Os Códigos Francês de 1.804 e Alemão de 1.900 exerceram forte influência na elaboração deste diploma legal, tendo sido adotadas várias de suas concepções. [17]
Foi o referido Código elaborado em sua concepção original por Clóvis Beviláqua em 1.899, discutido por longos anos no Congresso Nacional e tendo recebido influência de Ruy Barbosa.
Tal codificação representou para a época grande avanço, constituindo-se no mais completo diploma legal. Suas ideias eram indiscutivelmente aceitas, pois traduziam os anseios burgueses que dominavam a vida social.
Com a 1ª Guerra Mundial, iniciou-se a era da intervenção do Estado na economia, com a consequente restrição da autonomia privada, pelo chamado dirigismo contratual. A mulher galgou seus direitos e começou a participar do mercado de trabalho. A família brasileira começou a romper os laços com o paternalismo do período colonial e monárquico. [18] A sociedade, assim, clamava por uma legislação civil de cunho mais social, voltada aos interesses da coletividade. Aduz Arnoldo Wald:
Embora avançada para sua época, o Código Civil de 1.916 foi envelhecendo, especialmente depois da Segunda Guerra Mundial (1.939-1.945), em virtude das grandes transformações econômicas e sociais sofridas pelo País. Efetivamente, a população que era, na sua maioria rural, passou a ser, em grande parte, urbana, e a industrialização do País veio complementar a produção agrícola, que também se modernizou.