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Artigo - princípios do Código Civil

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O Brasil, que era exportador de café e que importava a quase-totalidade dos produtos industrializados, passou a ter uma economia quase auto-suficiente em vários setores, colocando-se entre as quinze maiores potências do mundo. Essas transformações e as novas tecnologias estavam, pois, a exigir uma nova legislação tanto do direito civil como do direito comercial. [19]
O Código Civil de 1.916 permaneceu em vigor por quase 90 anos, o que levou à defasagem do seu texto. Em virtude desse fato, inúmeras leis extravagantes modificaram matérias analisadas pelo diploma (vide Lei do Divórcio e Inquilinato, já citadas). Ao seu lado, outras leis surgiram, cuidando de matérias paralelas, como o Código das Águas, Código de Minas, a nova Lei de Introdução ao Código Civil, a Lei de Registros Públicos, o Código de Defesa do Consumidor.
A própria Constituição de 1.988 inaugurou inovações no Direito de Família, especialmente no que atine à filiação, ao lado da introdução da função social da propriedade no campo dos Direitos Reais.
No tocante à estrutura, o Código Civil de 1916 era dividido em:
a) Parte Geral: continha as normas e princípios gerais aplicáveis à esta parte e à parte especial, produzindo, assim, reflexos em todo ordenamento jurídico. Tratava das Pessoas (Naturais e Jurídicas – sujeitos da relação jurídica), dos Bens (objetos da relação jurídica) e os fatos jurídicos (os quais disciplinavam as formas de criar, modificar e extinguir direitos, tornando possível a aplicação da parte especial);
b) Parte Especial - era subdividida em: Direito de Família, Direito das Coisas, Direito das Obrigações e Direito das Sucessões.
Segundo a doutrina, coube aos pandectistas a ideia de inserir uma Parte Geral no Código Civil, contendo princípios gerais aplicáveis à parte especial. Teixeira de Freitas foi o responsável, no Brasil, na sua Consolidação das Leis Civis (1.858), pela estruturação do Código Civil com Parte Geral. Tal fato se deu antes mesmo do advento do BGB alemão.
Infere-se mencionar, ao final, que o Código Civil de 1.916 é reconhecido por sua clareza e precisão técnica, constituindo-se verdadeira obra de arte legislativa. As evidências apontadas neste artigo no tocante à ideologia norteadora da produção desse codex não têm o condão de não o apreciar como instrumento legislativo elaborado para sua época. Em verdade, a falha foi permitir que o Código de 1916 permanecesse em vigor por longas décadas, oferecendo institutos aplicáveis a uma sociedade capitalista colonial e agrária para regulamentar um contexto totalmente alterado por razões históricas, econômicas, sociais e culturais.
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3. O Código Civil de 2002 (Lei 10.406, de 10 de janeiro de 2002).
Com a mudança estrutural da sociedade, sinalizou-se a necessidade de nova codificação no âmbito civil. O anteprojeto de Código das Obrigações, na década de 1.940, já anunciava os rumos de nossa legislação civil. Em seguida, foi elaborado o Projeto de Código Civil de autoria de Orlando Gomes (1.965) que, após ser revisto, foi encaminhado ao Congresso Nacional. O referido projeto foi abandonado, em face das críticas recebidas e da evolução política do país. [20]
Em 1.969, o eminente jurista Miguel Reale foi convidado para coordenar a Comissão que elaboraria um novo diploma legal, cujo anteprojeto foi publicado em 1.972 e republicado, com nova versão, em 1.974, passando a constituir o projeto n. 634/75, o qual foi discutido durante trinta anos no Congresso Nacional até tornar-se o atual Código Civil. [21]
O projeto foi elaborado pelos professores José Carlos Moreira Alves (Parte Geral), Agostinho de Arruda Alvim (Direito das Obrigações), Sylvio Marcondes (Atividade Negocial), Ebert Chamoun (Direito das Coisas), Clóvis do Couto e Silva (Direito de Família), Torquato Castro (Direito das Sucessões). Compõe-se de duas partes: Parte Geral e Parte Especial. A primeira é dividida em três livros – Das Pessoas, Dos Bens e Dos Fatos Jurídicos. [22] A segunda subdivide-se em cinco livros, a saber: Direito das Obrigações, Direito de Empresa, Direitos Reais, Direito de Família e Direito das Sucessões. [23]
A lenta tramitação no Congresso fez com que o referido código fosse atropelado por leis especiais e pela própria Constituição Federal de 1988, como já salientado. Em decorrência dessa razão, foi levado à Câmara dos Deputados pelo Deputado Ricardo Fiúza, relator da Comissão Especial encarregada da elaboração do novo diploma, o projeto de Lei n.6.960/2002 (atual Projeto de Lei n. 276/2007), havendo proposta de alteração de 183 artigos [24] ainda no período de vacatio legis, visando aperfeiçoar dispositivos do novo Código. [25]
A inércia do Congresso Nacional, que protelou a votação do projeto 634/75 por três décadas, extraiu o brilho da atualidade de alguns institutos do anteprojeto de Miguel Reale, que só não se tornou uma legislação natimorta dado a institutos genialmente elaborados como a eticidade, assentada na boa-fé, a função social, seja ela do contrato ou da propriedade, e as cláusulas gerais. A flexibilidade de interpretação da norma civil, norte seguido pela nova codificação, permite que o direito se modernize, sem que haja excesso de alterações no texto original, com o fim de permanentemente atualizá-la.
Como salienta Venosa, a grandeza de uma codificação reside, entre outros aspectos, justamente no fato de poder adaptar-se, pelo labor diuturno dos magistrados e doutrinadores, aos fatos que estão por vir. Aí está o caráter de permanência de um código, que contribuirá para a efetiva concretização do Direito. [26] Dentro dessa concepção, é possível inferir que o Código atual foi projetado antevendo situações futuras em vários institutos, como, por exemplo, a delineação da função social do contrato e da propriedade como meio de justapor o interesse social ao individual, institutos estes limitadores da autonomia da vontade, princípio que reinou na era liberal. Esses institutos agregam tendências modernas do Direito Civil e, já na década de 1.970, foram trabalhados pelo legislador.
Miguel Reale e Ricardo Fiuza são árduos defensores da necessidade do amadurecimento do texto jurídico de um Código, para que este floresça como lei positiva. Nenhum Código, deste prisma, se faz do dia para noite. Há, como exemplo, o Código Civil da Prússia, que demorou 48 anos para ser concluído. De igual forma, o Código da Áustria, que levou 58 para aprovação. O único que foi concluído rapidamente, por razões históricas específicas, foi o Code Civil Francês (Código Napoleônico), que do primeiro esboço até a promulgação pelo legislativo levou apenas 4 anos. Neste contexto, conclui Ricardo Fiuza que, seguramente, o novo Código Civil não está defasado como alguns propagam, até mesmo porque o texto primitivo do projeto foi várias vezes atualizado. [27]
Consoante enfatizado, há o projeto de Lei n.6.960/2002 (atual Projeto de Lei n. 276/2007), com proposta de alteração de centenas de artigos do Código Civil, via emendas, tais quais: a) ao lado dos direitos do nascituro, assegurar o direito do embrião que, antes de implantado e viabilizado no ventre da mãe, não pode ser considerado nascituro, mas que também é sujeito de direitos; b) criação de novo direito da personalidade – direito à livre orientação sexual. [28] Como direito de personalidade novo, este possui as mesmas características dos demais, quais sejam, absoluto, intransmissível, indisponível, irrenunciável, ilimitado, imprescritível, impenhorável, inexpropriável. Com o reconhecimento do direito à livre orientação sexual, o projeto propõe também o acréscimo de mais um artigo (n. 1.727 – A), que determina que se aplique as regras atinentes à união estável às pessoas do mesmo sexo, desde que maiores e capazes, que vivam em economia comum e não contrariem a ordem pública e os bons costumes; c) com relação à responsabilidade civil do Estado foi proposto que os atos de intervenção no domínio econômico, se causarem dano, gerem o dever de indenizar pelo Estado; d) no artigo 423, a proposta visa acrescentar