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Artigo - princípios do Código Civil

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na vida das partes. Invocando-se este princípio pode-se evitar a inserção de cláusulas que prejudiquem o interesse social em nome do individual, por exemplo. [49]
Com relação à atenuação do princípio da autonomia da vontade, a 1ª Jornada de Direito Civil promovida pelo Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal diz:
Art. 421: A função social do contrato, prevista no art. 421 do novo Código Civil, não elimina o princípio da autonomia contratual, mas atenua ou reduz o alcance desse princípio quando presentes interesses metaindividuais ou interesse individual relativo à dignidade da pessoa humana.
Vê-se que a dignidade da pessoa humana e os interesses metaindividuais foram, acertadamente, colocados acima do interesse individual, valorizado, sobremaneira, na codificação anterior.
Orlando Gomes [50] entende que há três casos em que a violação da função social do contrato deve levar à ineficácia superveniente do contrato. São elas: lesão à dignidade da pessoa humana, impossibilidade de obtenção da finalidade última visada pelo contrato e ofensa a interesses coletivos.
Por fim, cumpre consignar que a concepção moderna de função social do contrato surge para agregar princípios clássicos do contrato, quais sejam, da autonomia da vontade, de sua força obrigatória, da intangibilidade do seu conteúdo e da relatividade de seus efeitos. Como princípio novo, não vem se justapor aos demais, mas sim desafiá-los e em certas situações impedir que prevaleçam, diante do interesse social que deve predominar. [51]
Outro princípio norteador do novo Código Civil é o da Operabilidade, verdadeiro elastério ao poder de interpretação do exegeta. Por este princípio, o direito deve ser visualizado no caso concreto, para que ganhe maior efetividade.
Surgem assim, as chamadas "cláusulas gerais", vale dizer, conceitos indeterminados inseridos na nova codificação que requerem uma valoração objetiva do julgador, tendo por base os valores vigentes na sociedade atual. [52]
Miguel Reale explica:
Não menos relevante é a resolução de lançar mão, sempre que necessário, de cláusulas gerais, como acontece nos casos em que se exige probidade, boa-fé ou correção (corretezza) por parte do titular do direito, ou quando é impossível determinar com precisão o alcance da regra jurídica. É o que se dá, por exemplo, na hipótese de fixação de aluguel manifestamente excessivo, arbitrado pelo locador e a ser pago pelo locatário que, findo o prazo de locação, deixar de restituir a coisa, podendo o juiz, a seu critério, reduzi-lo [...]. [53]
Logo, diante de conceitos juridicamente abertos, de conteúdo indeterminado, como os conceitos de boa-fé e bons costumes, pode o julgador analisar o caso concreto para relativizar a aplicação da norma, diante de contextos socioeconômicos e culturais distintos, em que há valores sociais e culturas diferenciados. Daí, se busca imprimir maior efetividade a justiça [54]
Quis o Código Civil de 2002, ao contrário da codificação anterior, adotar um sistema aberto (dinâmico), que lhe dê mobilidade, o que possibilita uma solução para conflitos de interesses, mesmo quando não haja uma solução específica. Destarte, evita-se a constante criação de leis em face das transformações sociais, econômicas e tecnológicas. As cláusulas gerais permitem ao julgador criar soluções, como se depreende dos artigos 421 (Função Social do Contrato) e 422 (Boa-fé objetiva), ambos do Código Civil. [55]
Ao lado das referidas cláusulas, encontram-se os conceitos indeterminados, que também integram os conceitos ditos de equidade. Diferentemente das cláusulas gerais, que instituem direitos e obrigações, nos conceitos indeterminados, o juiz aplica a norma, que é formada por expressão vaga. Veja-se, a título exemplificativo, a hipótese do artigo 188, II, do Código Civil, quando determina que não constituem atos ilícitos aqueles praticados no caso de deterioração ou destruição da coisa alheia ou lesão à pessoa, com finalidade de remover perigo iminente. O magistrado, em face desta situação, apenas preenche a determinação inserida na norma, isto é, constata a existência, no caso narrado, de perigo iminente, que deixa de caracterizar a ilicitude da destruição ou deterioração da coisa. [56]
Por último, tem-se o princípio da eticidade, estribado na compatibilização de valores técnicos alcançados com a codificação anterior, ao lado dos valores éticos implantados pela nova codificação. [57]
A eticidade, ou valorização da ética e da lealdade, impõe-se como princípio norteador do Código Civil e de toda dogmática jurídica. Como leciona José Augusto de Delgado, a ética trazida no novo Código Civil é aquela ética Kantiana:
Ética é o comportamento que confia no homem como um ser composto por valores que o elevam ao patamar de respeito pelo seu semelhante e de reflexo de um estado de confiança nas relações desenvolvidas, quer negociais, quer não negociais. É na expressão Kantiana, a certeza do dever cumprido, a tranqüilidade de boa consciência. [58]
No Direito Civil, há que se reconhecer à existência da boa-fé subjetiva e objetiva, como desdobramentos do princípio da boa-fé, corolário da eticidade prevista pelo legislador de 2.002.
A boa-fé objetiva, ou concepção ética da boa-fé, é a valorização da ética e dos seus atributos, da lealdade, da honestidade, da lisura. A Jornada n. 26 do Superior Tribunal de Justiça concebeu a boa-fé objetiva como a imposição da lealdade no cumprimento dos deveres contratuais.
Neste domínio, as investigações concentram-se apenas na exteriorização da conduta do sujeito, sem se considerar quaisquer aspectos de ordem psicológica ou a intenção da parte em um contrato, por exemplo. O que vale é a exteriorização do ato pelo sujeito. [59]
A boa-fé objetiva pode ser visualizada no artigo 422 do Código Civil, pelo qual "os contratantes são obrigados a guardar, assim na conclusão do contrato, como em sua execução, os princípios da lealdade e da boa-fé". A boa-fé objetiva atua com dúplice função, neste sentido: a de princípio geral do Direito e a de cláusula geral a ser preenchida pelo aplicador do Direito no caso concreto. [60]
Já se reconheceu que a boa-fé objetiva é um preceito de ordem pública [61], portanto inafastável pela vontade das partes contratantes e que deve estar presente em todas as fases contratuais. [62]
A boa-fé objetiva está aliada a deveres anexos, os quais estão implícitos em todos os negócios jurídicos, dispensando expressa previsão. Como deveres anexos, Flávio Tartuce, ao invocar as lições de Judith Martins-Costa e de Clóvis do Couto e Silva, elenca:
a)o dever de cuidado em relação à outra parte negocial;
b)o dever de respeito;
c)o dever de informar a outra parte quanto ao conteúdo do contrato;
d)o dever de agir conforme a confiança depositada;
e)o dever de lealdade e probidade;
f)o dever de colaboração ou cooperação
g)o dever de agir conforme a razoabilidade, a eqüidade e a boa razão. [63]
No tocante às funções da boa-fé objetiva, pode-se destacar: a função de interpretação, a função de controle e a função de integração.
Reza o artigo 113 do Código Civil que na interpretação dos negócios jurídicos, o exegeta deve levar em conta a boa-fé e os usos e costumes do lugar da interpretação. Depreende-se deste dispositivo que a boa-fé atua como meio auxiliar na própria interpretação contratual, ao lado dos usos e costumes.
A boa-fé, neste caso, deve ser analisada à luz do que preceitua, outrossim, o artigo 112 do Código Civil, segundo o qual nas "declarações de vontade se atenderá mais à intenção das partes do que ao sentido literal da linguagem". Este artigo revela a segunda concepção de boa-fé: a noção de boa-fé psicológica, baseada na intenção, designada boa-fé subjetiva.
A segunda função da boa-fé relaciona-se à função controle, estampada no artigo 187 do Código Civil, pelo qual quem contraria a boa-fé comete abuso de direito. A responsabilidade que decorre do Abuso de Direito, por seu turno, é objetiva, dispensando