Prévia do material em texto
CARDÁPIOS E DIETAS ESPECIAIS Sumário FACULESTE ............................................................................................ 2 INTRODUÇÃO ......................................................................................... 3 A GASTRONOMIA HOSPITALAR ........................................................... 6 TIPOS DE DIETAS HOSPITALARES ...................................................... 7 CONCEITO GASTRONÔMICO HOSPITALAR: COMFORT FOOD ........ 8 PERCURSO METODOLÓGICO ............................................................ 11 MATERIAIS E MÉTODOS ..................................................................... 21 RESULTADOS ...................................................................................... 23 DISCUSSÃO .......................................................................................... 25 A GASTRONOMIA HOSPITALAR AUXILIANDO NA REDUÇÃO DOS ÍNDICES DE DESNUTRIÇÃO ENTRE PACIENTES HOSPITALIZADOS........ 34 A APLICAÇÃO DA GASTRONOMIA HOSPITALAR EM PACIENTES DESNUTRIDOS ............................................................................................... 35 A GASTRONOMIA HOSPITALAR AUXILIANDO NA REDUÇÃO DOS ÍNDICES DE DESNUTRIÇÃO ENTRE PACIENTES HOSPITALIZADOS........ 36 REFERÊNCIAS ..................................................................................... 38 FACULESTE A história do Instituto FACULESTE, inicia com a realização do sonho de um grupo de empresários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos de Graduação e Pós-Graduação. Com isso foi criado a FACULESTE, como entidade oferecendo serviços educacionais em nível superior. A FACULESTE tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicação ou outras normas de comunicação. A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. INTRODUÇÃO Desde os primórdios de sua existência, o ser humano mantém relação positiva com a alimentação. A mesma está por vezes associada a momentos de prazer e celebração. A ocasião de uma refeição é tida como uma oportunidade de estabelecer relações pessoais e estreitar laços familiares (LAGES, 2013). A dieta hospitalar tem papel importante na manutenção do aporte de nutrientes ao paciente internado, bem como na preservação do seu estado nutricional, atuando como auxiliar terapêutico em doenças crônicas e agudas, além de fazer parte da experiência de internação podendo atuar como atenuante da angustia causada pela separação do paciente do seu ambiente familiar, relações de trabalho, visto que responde a aspectos psicosenssoriais de reconhecimento individual e coletivo (GARCIA, 2006). A aceitação e satisfação por parte do paciente da dieta hospitalar está intimamente relacionada à qualidade sensorial da refeição oferecida. As dietas hospitalares devem considerar a relação do paciente com o alimento, tendo como prioridade suas preferências e hábitos individuais, portanto, a escolha dos alimentos que estimulam e satisfazem o paladar é uma escolha prática (LAGES, 2013). Dada a grande prevalência de complicações nutricionais e os efeitos negativos no tratamento, recuperação e qualidade de vida dos pacientes internados, é importante que se busque novas formas de proporcionar uma ingestão alimentar adequada em nutrientes e contribuir para minimizar os problemas oriundos da internação hospitalar. Atualmente os aspectos da dieta hospitalar têm sido amplificados, seguindo tendências da gastronomia, visando aliar a prescrição dietética e as restrições alimentares a refeições atraentes e saborosas, tornando a dietoterapia uma experiência agradável principalmente aos olhos e ao paladar (SOUZA, et. al 2011). Os hospitais são estruturas complexas e dispendiosas que têm sido alvo de reflexão para se adequarem a novas demandas. Definida por prover leitos, alimentação e cuidados de enfermagem constantes, circunscritos em uma terapia médica, a instituição hospitalar tem por objetivo recuperar a saúde do paciente (GARCIA, 2006). Gastronomia hospitalar é a arte de conciliar a prescrição dietética e as restrições alimentares de clientes à elaboração de refeições saudáveis, nutritivas, atrativas e saborosas, a fim de promover a associação de objetivos dietéticos, clínicos e sensoriais e promover nutrição com prazer (JORGE, 2012). Oferecer serviços com qualidade não é mais um privilégio para poucos, mas uma obrigação de todos aqueles que desejam manter sua atividade sustentável no longo prazo. Para se adaptar às demandas do mercado, o segmento hospitalar obriga- se a buscar alternativas na forma de fazer a gestão, com um olhar na redução de custos e outro na manutenção da qualidade da assistência oferecida (MIGOWSKI et al., 2012). Desde a antiguidade a associação entre alimentação, dietética e saúde é descrita como recurso terapêutico. Com o surgimento e a evolução dos hospitais, apresentaram-se avanços clínicos, aliados às ações de hospitalidade e hotelaria para a promoção da qualidade de vida dos clientes (JORGE, 2005). A dieta hospitalar tem como principal objetivo preservar e/ou recuperar o estado nutricional do paciente internado. Dessa forma, desempenha relevante papel coterapêutico em doenças crônicas e agudas, assim como na experiência de internação, uma vez que, atendendo a atributos psicossensoriais e simbólicos, de reconhecimento individual e coletivo, pode atenuar o sofrimento gerado por esse período em que o paciente está separado de suas atividades desempenhadas na família, na comunidade e nas relações de trabalho (MESSIAS et al., 2011). Apesar da preocupação com o aspecto nutricional do paciente hospitalizado, pouca atenção tem sido dada à alimentação hospitalar. As constatações da incidência de desnutrição intra-hospitalar e de seu impacto na morbidade e mortalidade, em estudos iniciados na década de 70, levaram ao desenvolvimento e aperfeiçoamento de métodos para diagnóstico e tratamento da desnutrição em pacientes hospitalizados. A intensa produção científica sobre o impacto da hospitalização no estado nutricional e sobre suporte nutricional não se refletiu com a mesma intensidade na preocupação com a alimentação hospitalar. Todavia, o combate à desnutrição ainda é importante nesse meio e a alimentação hospitalar deve ser estudada como um dos problemas a serem enfrentados no bojo das ações de atenção nutricional (GARCIA, 2006). Desnutrição é um termo amplamente difundido que pode ser definido como um estado de nutrição no qual a deficiência de energia, proteína ou outros macro e micronutrientes causa efeitos indesejáveis ao organismo, com consequências clínicas e funcionais (SOUZA et al., 2011). Sousa (2011) destaca que em meio a todos os fatores causais atribuídos à desnutrição intra-hospitalar, a alimentação é considerada um fator circunstancial pelas mudanças alimentares, troca de hábitos e horário das refeições. A dieta oferecida, em muitos hospitais, é inadequada em relação a diversos aspectos, como os sensoriais. Esse fator contribui para a diminuição da ingestão alimentar dos pacientes (MESSIAS et al., 2011). A diminuiçãoda doença e de fatores relacionados ao serviço oferecido. Em um estudo realizado na cidade de Curitiba, que entrevistou 216 pacientes com o objetivo de determinar as características da qualidade requerida no que se refere à alimentação durante a internação hospitalar, observou-se que o sabor, a temperatura, a variação do cardápio, a higiene dos alimentos oferecidos, a cortesia no atendimento realizado pela copeira e a aparência dessas ao servir a refeição, bem como a aparência visual da bandeja de refeição e a disponibilidade de utensílios adequados para alimentação, são características que assumem alto grau de importância no conceito de qualidade da refeição servida. Outro estudo, realizado em Santa Catarina, avaliou os restos alimentares do almoço e do jantar dos pacientes antes e após a implantação do sistema de hotelaria hospitalar para o setor privado. O principal resultado encontrado com essas modificações foi a diminuição dos restos de alimentos deixados pelos pacientes do setor particular no almoço, refeição em que foram observadas as principais mudanças, como inclusão da sobremesa, substituição da carne de segunda qualidade para de primeira, do acondicionamento da salada em potes individuais com sachês de azeite, vinagre e molho italiano, uso de prato de vidro para retirar a comida do utensílio de inox e talheres embalados individualmente. Observou-se que a qualidade da matéria-prima, variedade do cardápio, apresentação e utensílios utilizados para servir as refeições e também a atenção da equipe às preferências alimentares do paciente influenciaram positivamente na diminuição dos restos de alimentos. O conhecimento da arte de cozinhar para proporcionar maior prazer a quem come é um poderoso instrumento de trabalho do qual o profissional deve lançar mão para elaborar dietas saborosas e melhorar a adesão dos pacientes. O preparar dos alimentos destinados a pacientes em dieta especial exige habilidade e conhecimentos básicos sobre técnicas culinárias e ingredientes que podem tornar uma dieta mais facilmente aceita pelo paciente. Assim, dietas líquidas, semipastosas ou pastosas, sem sal, com exclusão de gordura etc., precisam ser trabalhadas para se tornarem mais apetecíveis. Em dietas de consistência líquida, líquido-pastosa ou pastosa, deve-se ter em conta a monotonia, pois são dietas de aparência semelhante, independentemente dos ingredientes utilizados. Nesses casos, indicam-se espessantes industriais, mucilagens, gelatinas e farináceos que imitem ou criem formas/estruturas para os alimentos, estimulando sua ingestão. Ao restringir ingredientes como gordura, glúten, leite, ovos, com funções específicas quanto à textura, à forma e à consistência, devem ser utilizadas outras substâncias com propriedades gastronômicas semelhantes. Em dietas com redução ou exclusão de gordura, açúcar ou sal, o sabor pode sofrer alterações. Utilizar especiarias e condimentos pode compensar a ausência de outros ingredientes, gerando percepções tão saborosas quanto as originais. Quando as possibilidades de variação dos ingredientes são excluídas, resta ainda procurar dar à montagem da bandeja do paciente uma apresentação estética, por meio da louça, dos talheres, do guardanapo, da disposição dos alimentos no prato etc. A aceitação da alimentação por parte do paciente internado é decisiva para uma ação efetiva da terapia nutricional. A evolução da gastronomia pode, portanto, permitir que dietas hospitalares, conhecidas pela insipidez, participem da terapêutica, agregando prazer ao valor nutricional do alimento. REFERÊNCIAS Mikkelsen BE, Beck AM, Lassen A. Do recommendations for institutional food service result in better food service? A study of compliance in Danish hospitals and nursing homes from 1995 to 2002-2003. Eur J Clin Nutr 2007; 61(1):129- 134. Council of Europe. Committee of Ministers. Resolution on food and nutritional care in hospitals; 2003. [cited 2009 Apr 16]: [about 6 p]. [document on the Internet]. Available from: https://wcd.coe.int/ViewDoc.jsp?id=85747. Lassen KO, Olsen J, Grinderslev E, Kruse F, Bjerrum M. Nutritional care of medical inpatients: a health technology assessment. BMC Health Serv Res 2006; 2(6):7. Kondrup J. Proper hospital nutrition as a human right. Clin Nutr 2004; 23(2):135- 137. Stanga Z, Zurfluh Y, Roselli M, Sterchi AB, Tanner B, Knecht G. Hospital food: a survey of patients' perceptions. Clin Nutr 2003; 23(3):241-246. Hartwell HJ, Edwards JSA, Symonds C. Foodservice in hospital: development of a theoretical model for patient experience and satisfaction using one hospital in the UK National Health Service as a case study. Journal of Foodservice 2006; 17(5-6):226-238. Bender AE. Insitutional malnutrition. Br Med J 1984; 288(6411):92-93. Cardello AV, Bell R, Kramer M. Attitudes of consumers toward military and other institutional foods. Food Qual Prefer 1996; 7(1):7-20. Fottler MD, Ford RC, Bach SA. Measuring patient satisfaction in healthcare organizations: qualitative and quantitative approaches. Best Pract Benchmarking Healthc 1997; 2(6):227-239. Schiller MR, Miller-Kovach K, Miller MA. Patient satisfaction: a mark of quality. In: Schiller MR, Miller-Kovach K, Miller MA, organizadores. Total quality management for hospital nutrition services. Gaithersburg, Maryland: Aspen Publishers; 1994. p. 22-32. Demário Rl, Sousa AA, Salles RK. Comida de hospital: percepções de pacientes em hospital público com proposta de atendimento humanizado. Cien Saude Colet 2010; 15(Supl. 1):1275-1282. Poulain JP. Etat des lieux: Comité de Liaison Alimentation Nutrition. In: Ricour C, Zazzo Jean-Fabien. Rapport Ricour. Mise em place d´une politique nutritionnelle dans lês dans lês etablissements de sante. Rapport de mission de Monsieur le Professeur Claude RICOUR Décembre 2002. Paris: Ministère de la Santé; 2002. p. 1-9. Garcia RWD. A dieta hospitalar na perspectiva dos sujeitos envolvidos em sua produção e em seu planejamento. Rev Nutr 2006; 19(2):129-144. Vogelzang JL, Roth-Yousey LL. Standards of professional practice: measuring the beliefs and realities of Consultant Dietitians in Health Care Facilities. J Am Diet Assoc 2001; 101(4):473-480. Witte SJ, Escott-Stump S, Fairchild MM, Papp J. Standards of practice criteria for clinical nutrition managers. J Am Diet Assoc 1997; 97(6):673-678. Beck AM, Balknas UN, Furst P, Hasunen K, Jones L, Keller U, Melchior JC, Mikkelsen BE, Schauder P, Sivonen L, Zinck O, Øien H, Ovesen L; Council of Europe (the Committee of Experts on Nutrition, Food Safety and Consumer Health of the Partial Agreement in the Social and Public Health Field). Food and nutritional care in hospitals: how to prevent undernutrition-report and guidelines from the Council of Europe. Clin Nutr 2001; 20(5):455-460. Beck AM, Balknäs UN, Camilo ME, Furst P, Gentile MG, Hasunen K, Jones L, Jonkers-Schuitema C, Keller U, Melchior JC, Mikkelsen BE, Pavcic M, Schauder P, Sivonen L, Zinck O, Øien H, Ovesen L; hoc group on Nutrition Programmes in Hospitals, Council of Europe. Practices in relation to nutritional care and support - repot from the Council of Europe. Clin Nutr 2002; 21(4):351-354. Flanel DF, Fairchild. Continuous quality improvement in inpatient clinical nutrition services. J Am Diet Assoc 1995; 95(1):65-74. Brasil. Lei nº 8.234, de 17 de setembro de 1991. Dispõe sobre a regulamentação da profissão de nutricionista. Diário Oficial da União 1991; 18 set. Brasil. Ministério da Saúde (MS). Secretaria de Assistência à Saúde. Manual Brasileiro de Acreditação Hospitalar. Série Normas e Manuais Técnicos. 3ª ed. Brasília: Ministérioda Saúde (MS); 2002. Vogelzang JL, Yousey LLR. Standards of professional practice: measuring the beliefs and realities of Consultant Dietitians in Health Care Facilities. J Am Diet Assoc 2001; 101(4):473-480. Farias LO, Vaitsman J. Interação e conflito entre categorias profissionais em organizações hospitalares públicas. Cad Saude Publica 2002; 18(5):1229- 1241. Sousa CF. Aceitabilidade da dieta hospitalar em pacientes de um serviço público. In: Simpósio de Ensino de Graduação; 2007; Piracicaba. Prieto DB, Leandro-Merhi VA, Mônaco DV, Lazarini ALG. Intervenção nutricional de rotina em pacientes de um hospital privado. Rev Bras Nutr Clin 2006; 21(3):181-187. Garcia RWD, Leandro-Merhi VA, Pereira AM. Estado nutricional e sua evolução em pacientes internados em clínica médica. Rev Bras Nutr Clin 2004; 19(2):59- 63. Monteiro JP, Santos SFC, Cunha DFC. Food intake of a typical brasilian diet among hospitalized malnourished patients. Clin Nutr 2000; 19(1):55-59. Poulain JP, Proença RPC. O espaço social alimentar: um instrumento para o estudo dos modelos alimentares. Rev Nutr 2003; 16(13):245-256.do apetite também pode ser influenciada por causas além da doença. A aceitação da alimentação está relacionada à diminuição do apetite em função da doença, do tratamento medicamentoso, do ambiente, da presença ou ausência de acompanhante e dos aspectos sensoriais dos alimentos (DEMARIO et al., 2010). A composição química do alimento não é suficiente para produzir no homem vontade de se alimentar. É necessário tornar os alimentos atraentes. Antigamente os hospitais eram atendidos por leigos, irmãs de caridade; o risco em relação à alimentação era amenizado com alimentos chamados de “dieta” (com pouco sal, sem gordura, sem tempero), daí o conceito de "comida de hospital" que se reflete até os dias de hoje. Atualmente, a expressão comida de hospital, habitualmente associada à imagem negativa da área de nutrição hospitalar, tem se tornado cada vez menos frequente. O conceito de hotelaria vem sendo incorporado na área hospitalar fazendo com que aquela ideia de ambiente com cheiro de remédio e comida sem gosto seja completamente distorcida (JORGE, 2005). A GASTRONOMIA HOSPITALAR Oferecer comidas mais saborosas, coloridas e com temperos diferentes é uma tendência em alguns hospitais particulares da capital do Estado de São Paulo. Além de pôr na bandeja vários tipos de alimento, geralmente as refeições vêm com entrada, prato principal, sobremesa e suco. Os nutricionistas estão mimando ainda mais os pacientes deixando que eles tenham menus individualizados, escolhendo suas refeições, dentre algumas opções (ISKANDARIAN, 2010). O uso de ingredientes locais, de preferência não industrializados, frutas e legumes da época e referências culturais da culinária também são essenciais na gastronomia hospitalar. A comida também não pode ser muito exótica ou diferente do que o paciente está habituado a comer. A familiaridade, neste caso, faz toda a diferença (HOSPITAL ALIANÇA, 2012). A gastronomia hospitalar nasceu a partir de uma via dupla: o esforço dos nutricionistas em oferecer uma alimentação mais prazerosa e o desafio dos chefes de cozinha em adaptar as tendências gastronômicas a esse ambiente. Sabe-se que a apresentação do prato, o sabor e o aroma podem proporcionar maior prazer ao paciente. Uma comida saborosa e de aspecto atraente tem valor terapêutico, auxiliando no tratamento (HOSPITAL ALIANÇA, 2012). O investimento em atendimento cresceu muito nos últimos anos, tornando-se um diferencial de mercado e fazendo com que o usuário se sinta cada vez mais cliente e menos paciente. Os profissionais de nutrição têm investido bastante para mudar o velho conceito de que comida de hospital é horrível e sem graça (JORGE, 2005). A visão de dieta hospitalar está sendo ampliada e adaptada às tendências inovadoras da gastronomia no mercado globalizado de alimentação e nutrição e a busca por aliar a prescrição dietética e as restrições alimentares de clientes a refeições atrativas e saborosas é o desafio para integrar as unidades de nutrição e dietética (UNDs) a um sistema de hotelaria aprimorado (JORGE, 2005). Para o paciente que tem restrição ao sal, por exemplo, usa-se alecrim, tomilho, manjericão e cheiro verde na composição dos pratos. Ervas finas realçam o sabor dos pratos substituindo o sal (ISKANDARIAN, 2010). A alimentação encerra também o sentido de satisfazer aspectos emocionais, psicológicos e motivacionais dos indivíduos, fazendo com que essa experiência se torne positiva ou não, em função de como ela se desenvolve. A sua importância é tão significativa, que muitas vezes ela é capaz de manter ou não a fidelização da clientela. Além das funções nutricionais e higiênicas, a alimentação hospitalar deve apresentar outras funções - a função hedônica e a função social, ou seja, o alimento deve propiciar prazer e situar o ser humano no seu espaço social (JORGE, 2005). TIPOS DE DIETAS HOSPITALARES As dietas hospitalares podem ser: - Hipossódica: Restrição de sal e alimentos salgados como presunto, salsicha, bacalhau, salame, caldo Knorr, etc. Indicada para hipertensos; - Diabetes: Evita o açúcar e também o sal, aliada à dieta hipossódica, pois a maioria dos pacientes diabéticos também apresenta problemas cardiovasculares; - Branda: Alimentos mais cozidos do que o normal, com teor mínimo de gordura e sem fritura. Indicada para pessoas com problemas digestivos em geral e para o pós-operatório; - Pastosa: Alimentos em forma de papa. Esta dieta é, muitas vezes, também associada à hipossódica, pois é indicada para pacientes com problemas cardiovasculares, hipertensos e com dificuldade de deglutição (disfagia); - Líquida: Sopas liquidificadas. Indicadas a pacientes com dificuldades na deglutição; - Insuficiência renal: Dieta bastante restrita. Além do sal, pode-se restringir outros alimentos (PIMENTEL, 2004). CONCEITO GASTRONÔMICO HOSPITALAR: COMFORT FOOD Cada pessoa guarda na memória pelo menos uma comida que a remete à infância. Pode ser o bolinho de chuva da vovó, os churros dos passeios no parque, o nhoque de domingo ou ainda as almôndegas roubadas de cima do fogão, comidas com as mãos antes mesmo de irem para a mesa. O tempero feito em casa e o aconchego do lar dão toques emocionais à comida, o que, muitas vezes, pode gerar um deleite maior do que o sabor sofisticado da alta gastronomia. A comfort food, nova tendência na gastronomia, tenta resgatar esses sentimentos relacionados à comida e agradar o paladar e a alma (LOPES, 2008). Comfort Food significa uma alimentação nostálgica e confortável que nos remete a sabores que nos relacionam à infância, a um determinado período de nossas vidas ou até mesmo a uma viagem que fizemos. Visando a alimentação saudável, o conceito busca alcançar e reproduzir sabores e texturas de pratos feitos por pessoas que marcaram épocas em nossas vidas através desta gastronomia (SOUSA, 2012). Polenta com carne moída, bolinho de arroz, mingau de aveia, bolo de fubá, biscoitinhos doces, canja de galinha, geleias ou até mesmo o simples arroz com feijão são conhecidos em restaurantes chiques e badalados como comfort food ou pleasant food (comida prazerosa) (GRSA, 2015). Novos conhecimentos e tecnologias podem ser utilizados para ampliar e resgatar estas experiências com benefícios para a saúde. Adaptar as preparações que nos fazem lembrar o passado pode ser uma maneira ainda mais gostosa de relembrar os bons hábitos da infância. Por exemplo, o açúcar refinado dos bolos pode ser substituído pelo mascavo; o bolinho de arroz frito pode ser preparado no forno; o mingau de aveia com leite integral pode ser preparado com o leite desnatado ou semidesnatado; a canja de galinha pode ser preparada com as partes mais magras e sem a pele; o brigadeiro pode ser preparado com leite condensado light. Com criatividade e novos ingredientes ou técnicas aplicadas a receitas antigas, podemos fazer a releitura das receitas da vovó (GRSA, 2015). A Política Nacional de Humanização (PNH) em seu projeto destaca a necessidade de construir e implementar ações específicas para os diferentes setores de saúde, a fim de responder às necessidades da população de forma integrada à rede de serviços de saúde local e regional. Aliado à necessidade desta nova cultura de atenção, os novos perfis demográficos, de mortalidade e morbidade da população têm exigido abordagens diferenciadas para um atendimento qualificado. Ao lado destas demandas que afetam diretamente o atendimento nos hospitais, a desnutrição intra-hospitalar também é considerada um aspecto preocupante por estudiosos do tema. Diante deste contexto, o cuidado nutricional assume fundamental importância dentro do processo de humanização no ambiente hospitalar, visto que são poucos os indicadores e ações humanizadoras concebidos com os setoresenvolvidos neste cuidado. O termo cuidado é tradicionalmente adotado pela área de enfermagem. Borestein et al., ampliando este conceito para a área de saúde, destacam que o cuidado é um encontro estabelecido entre a pessoa que cuida e quem é cuidado, manifestando-se através de ações profissionais disciplinares e interdisciplinares que se dão no processo de interação terapêutica entre os seres humanos. Na nutrição, a American Dietetic Association (ADA) define o cuidado nutricional como um processo de ir ao encontro das diferentes necessidades nutricionais de uma pessoa, o que inclui [...] a avaliação do estado nutricional do indivíduo, a identificação das necessidades ou problemas nutricionais, o planejamento de objetivos de cuidado nutricional que preencham essas necessidades, a implementação de atividades nutricionais [...] e a avaliação do cuidado nutricional. Ainda Boog destaca a necessidade de envolver aspectos sensoriais e psicológicos ao cuidado nutricional. Sousa e Proença adotam os termos cuidado alimentar e nutricional e argumentam que, para a efetivação destes cuidados, é necessário um conjunto de ações articuladas entre os setores de produção de refeições e de atendimento clínico-nutricional. Estas ações consistem em estratégias coletivas que visam não só às ações qualificadas em saúde e nutrição, como também à realização dos profissionais envolvidos pela oportunidade de interação e aprendizagem mútuas no trabalho. Para o presente estudo, embora estes termos não sejam adotados pela legislação que regulamenta o exercício profissional do nutricionista no Brasil, os conceitos apresentados podem auxiliar nas práticas deste profissional dentro do contexto da humanização. A inserção dos nutricionistas nos hospitais é destacada em pesquisa do Conselho Federal de Nutricionistas (CFN). Dos nutricionistas que atuam em nutrição clínica, cerca de 80% estão nos hospitais e clínicas e, dos que atuam na alimentação coletiva, 28% o fazem no setor hospitalar. Em Santa Catarina, 48,4% dos nutricionistas estavam no setor hospitalar, havendo, posteriormente, uma migração para a área de alimentação coletiva, que engloba também outros setores, além do hospitalar. Além dos aspectos referidos, a situação do trabalho deste profissional tem sido objeto de alguns estudos. Os resultados têm revelado falta de comunicação entre as unidades de internação clínica e a produção de refeições, dificultando a interação entre a prescrição e a execução da dieta, bem como a análise da efetividade do tratamento nutricional oferecido. Destaca-se ainda a falta de definição clara de responsabilidades, formação insuficiente dos profissionais de saúde para lidar com os problemas nutricionais, pouca influência sobre a adesão do paciente ao tratamento, falta de cooperação entre a equipe e de envolvimento da gerência dos hospitais, além de acúmulo de atividades ligadas ao gerenciamento de serviços. Estes dados são relevantes para uma reflexão sobre as competências e habilidades que estes profissionais necessitam para o desenvolvimento de ações em alimentação e nutrição qualificadas dentro do contexto de humanização. O desenvolvimento destas ações depende de condições dignas de trabalho e da interação de profissionais com os cuidados ao paciente. A PNH é uma política generalista. Portanto, não apresenta especificidades de ações relacionadas ao cuidado alimentar e nutricional. Baseado nestas considerações, o objetivo do estudo foi identificar as ações de cuidado alimentar e nutricional, considerando a perspectiva de nutricionistas de um hospital de referência para a PNH. PERCURSO METODOLÓGICO A pesquisa apresentou uma abordagem qualitativa. Para Minayo e Sanches, este tipo de abordagem realiza uma aproximação fundamental e de intimidade entre sujeito e objeto, se envolvendo com empatia aos motivos, às intenções, aos projetos dos atores, a partir dos quais as ações, as estruturas e as relações tornam-se significativas. Considerando as características da pesquisa qualitativa e as contribuições para as ciências da saúde advindas dos estudos realizados com grupos, optou-se, para o presente estudo, pela utilização da técnica do grupo focal. O grupo focal é uma técnica de coleta de dados para pesquisa qualitativa inspirada em técnicas de entrevistas não direcionadas e técnicas grupais utilizadas na psiquiatria. Consiste em entrevistas em grupo, sobre um "foco" ou "tópico" específico. Busca colher informações que possam proporcionar a compreensão de percepções, crenças, atitudes sobre um tema, produto ou serviço. Difere da entrevista individual por basear-se na interação entre as pessoas para obter dados necessários à pesquisa. Sua formação deve obedecer a critérios previamente determinados pelo pesquisador, de acordo com os objetivos da investigação, cabendo a esse a criação de um ambiente favorável à discussão, que propicie aos participantes manifestar suas percepções e pontos de vista. O presente estudo foi desenvolvido no período de abril a agosto de 2006, com a equipe de nutricionistas que atua em um hospital público no município de Florianópolis (SC). O hospital, referência na PNH, apresenta 260 leitos exclusivos do Sistema Único de Saúde e dentre as ações que integram a Política de Humanização interna do hospital destacam-se 22 programas voltados para os trabalhadores da instituição e 42 programas e ações voltados aos usuários do sistema de saúde. A equipe de nutricionistas é composta por treze profissionais, do sexo feminino. Atuam em diferentes setores: uma na gerência geral da unidade de alimentação e nutrição, duas na unidade de produção de refeições e dez nas unidades de internação clínica e ambulatório. O referencial teórico possibilitou a elaboração de um modelo de análise abordando-se aspectos conceituais, práticas e éticas da assistência prestada aos pacientes, culminando na categoria "Ser nutricionista para um atendimento humanizado". A partir da pergunta norteadora, "O que é ser nutricionista para um atendimento humanizado?", buscou-se compreender as seguintes ações da prática destes profissionais. (1) avaliação do paciente: aspectos clínicos relacionados ao histórico clínico nutricional; (2) planejamento do cuidado nutricional: aspectos clínicos referentes à prescrição dietética, bem como medidas que possibilitem ao paciente atingir suas necessidades nutricionais; (3) implementação do cuidado nutricional: aspectos relacionados à produção de refeições, modificações necessárias para tornar o alimento aceitável pelo paciente e educação nutricional ao paciente e à família e (4) avaliação do cuidado nutricional: aspectos relacionados ao monitoramento da ingestão alimentar, alteração do comportamento alimentar ao monitoramento dos dados clínicos e nutricionais. As treze nutricionistas foram divididas em dois grupos, estabelecendo-se como critério o tempo de serviço no hospital, respeitando-se as recomendações de homogeneidade e número de participantes. A análise do conteúdo (AC)foi utilizada como técnica para sistematização das informações obtidas, agrupando-as em unidades de significado. Posteriormente, o conteúdo foi analisado e discutido com o auxílio do referencial teórico sobre o tema. O projeto da pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética de Pesquisa com Seres Humanos (CEPSH) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A fim de assegurar o anonimato das participantes, foram utilizadas as letras "Nut", seguida por algarismos cardinais (Ex: Nut 1; Nut 2), durante a descrição das narrativas nos resultados e discussão. A equipe de nutricionistas, com relação ao tempo de formação, é composta por três profissionais com menos de dez anos de formação, seis estão na faixa de dez a 21 anos e quatro há mais de vinte anos.Quanto ao aprimoramento profissional, seis profissionais realizaram especialização na área de nutrição clínica, uma em administração, uma em gerência da qualidade de produção de refeições, uma em gerontologia, uma em saúde pública e uma em terapia nutricional. A análise do conteúdo revelou que, apesar das nutricionistas terem preocupação com a qualidade do cuidado prestado ao paciente, há predomínio de ações fragmentadas, não sistematizadas e dificuldades de interação com a equipe. A avaliação clínico-nutricional é uma das primeiras ações realizadas na prática dos nutricionistas e faz parte do protocolo de atendimento do hospital. Ocorre, geralmente, nas primeiras horas de internação do paciente. Observam-se, primeiramente, os dados clínicos, bioquímicos, antropométricos e sociais, registrados pela equipe de enfermagem no prontuário. A avaliação do estado nutricional tem como objetivo identificar os distúrbios nutricionais, possibilitando uma intervenção adequada para auxiliar na recuperação ou manutenção do estado de saúde do indivíduo. Utilizam-se métodos objetivos (antropometria, composição corpórea, parâmetros bioquímicos e consumo alimentar) e métodos subjetivos (exame físico a Avaliação Subjetiva Global), recomendando-se a associação destes indicadores para obter um adequado diagnóstico nutricional. Estas ações, quando realizadas conjuntamente pela equipe de saúde, podem auxiliar no cuidado nutricional, na evolução clínica e prevenção da desnutrição hospitalar. Os conhecimentos em nutrição, a clareza de papéis e as responsabilidades da equipe são imprescindíveis neste processo. Destaca-se que a competência técnico-científica também faz parte da humanização. A PNH, além da incorporação de novas tecnologias e a especialização dos saberes, visa como princípio básico ao fortalecimento do trabalho em equipe, fomentando a multidisciplinaridade. Há uma preocupação das nutricionistas em utilizarem os dados obtidos pela equipe de enfermagem: Quando o paciente vem da enfermaria normalmente a enfermagem recebe ele e já pesa e mede, só que às vezes eles só perguntam pro paciente. Quando você vai ver os dados não batem, porque foi um dado referido. Às vezes a pessoa não se pesa e não se mede há muito tempo e dá diferença. É importante que as medidas antropométricas sejam coletadas pela equipe de saúde, pois quando referidas pelo paciente nem sempre são fidedignas. Wyszynski et al., investigando o estado nutricional de pacientes hospitalizados na Argentina, constataram que somente em 38,8% dos hospitais estudados houve registros sobre o estado nutricional e apenas 12% dos pacientes lembravam de seu peso usual e atual. Com relação à obtenção dos dados bioquímicos, observam-se dificuldades para estabelecer parcerias entre médicos e nutricionistas. Como exemplo, as nutricionistas referem que os exames frequentemente solicitados pelos médicos e disponíveis no prontuário são hemograma, proteína total e albumina. Outros exames são solicitados somente em casos específicos: Têm médicos que aceitam nossos pedidos, outros não. Normalmente os médicos mais jovens ou mais abertos, que sabem a importância, aceitam melhor. Após a observação do prontuário, as nutricionistas procuram saber como o paciente está e como se sente em relação à doença, objetivando a adequação da dieta às suas necessidades alimentares e nutricionais e a sua condição de vida. Os dados sociais também compõem as informações. É perguntado ao paciente se já esteve internado, se é portador de doença crônica ou se possui acompanhante. Para verificar o consumo alimentar per capita, especialmente de açúcar e óleo, costuma-se perguntar se mora sozinho ou com outras pessoas ou mesmo se é morador de rua: Quando eu vou conversar com ele, no primeiro momento eu faço algumas perguntas, como ele está como está se sentindo, como é a relação dele com o alimento, o que ele costuma comer, o que gosta e o que não gosta, o que aceita ou não aceita, como é que estava se alimentando em casa, se estava se alimentando ou não, pra ter uma ideia da disponibilidade de alimentos na casa dele, procuro perceber como ele está em relação à doença dele, se ele sabe realmente o que ele tem. Para o registro das informações, é utilizado um formulário específico (histórico de nutrição), usualmente anexado ao prontuário do paciente, constando de dados gerais, história alimentar, análise dietética, avaliação nutricional e conduta dietoterápica. Porém, as profissionais afirmam que o formulário é extenso, tornando-se de difícil aplicação, considerando o número de pacientes por nutricionista e o tempo necessário para a sua aplicação: Quando a gente está com trinta leitos, sem condições de fazer histórico, pelo menos colhemos as informações principais, para auxiliar na adequação da dieta. Nós temos o formulário oficial, que deveríamos aplicar em todos os pacientes, mas é muito grande, toma muito tempo, como a gente normalmente é uma para trinta leitos, não dá. No Canadá, Labonté e Ouelét analisaram o tempo necessário para os dietistas (título equivalente ao nutricionista no Brasil) desenvolverem suas atividades em hospitais e constataram que os dietistas dedicam pouco tempo ao preenchimento de formulários contendo dados clínicos nutricionais do paciente. No Brasil, a relação entre o número de nutricionistas e o número de leitos foi estabelecida pela Resolução nº 201/98 do Conselho Federal de Nutricionistas, que recomenda uma nutricionista para cinquenta, trinta ou quinze leitos, conforme o nível de complexidade da assistência prestada ao paciente. Na França, Guy-Gran revelou insuficiência de profissionais e uma grande heterogeneidade na proporção de dietistas/número de leitos. A média encontrada foi de 1 dietista /117 leitos. No Brasil, em estudo comparando-se um hospital público e outro privado, constatou-se a relação de 1 nutricionista/36 e 44 leitos, respectivamente32. A priorização do atendimento e a necessidade de reformulação das ações de trabalho são relatadas pelas profissionais, considerando os limites apresentados: A gente visita a todos, mas avalia aqueles que a gente julga mais graves, que precisam de maior atenção. Pra isso, não tem padronização ainda. Então, cada um na clínica vê o paciente que é mais grave. A gente prioriza. Os outros, você visita, mas dependendo da patologia ou até mesmo de como ele está evoluindo, não é necessária uma avaliação diária. O histórico nutricional e as orientações dietoterápicas para a alta têm sido objeto de reformulação. No que diz respeito ao histórico nutricional, a proposta baseia-se na aplicação de um instrumento para agilização da avaliação nutricional, a avaliação subjetiva global (ASG), no intuito de otimizar o cuidado nutricional. Aquino destaca a importância da realização da triagem nutricional e afirma que é o primeiro passo para o atendimento ao indivíduo hospitalizado e seu desenvolvimento deve ser realizado a partir da identificação dos fatores associados ao risco de desnutrição na população. A partir das informações que compõem a avaliação clínico-nutricional, o processo de planejamento e implementação do cuidado nutricional, referido pela equipe, objetiva prescrever uma dieta de acordo com as necessidades ali mentares e nutricionais dos pacientes: O planejamento ocorre de imediato, quando você conhece o paciente. Nem todo o paciente necessita de cálculo de necessidades. Por exemplo, uma cirurgia de hérnia, se o paciente não for diabético ou hipertenso, é uma dieta normal. Já um paciente que já traz no diagnóstico disfagia por alimentos sólidos, aí eu tenho que fazer um trabalho melhor. Faço os cálculos por Harris Benedict (fator injúria e atividade), acompanho a ingestão, calculo peso diariamente. A prescrição da dieta é realizada pelos médicos. Havendonecessidade de alterações, as nutricionistas comunicam-se com o médico responsável. Entretanto, algumas profissionais, sobretudo as com menos tempo de serviço, relataram dificuldades de parceria com os médicos, destacando que alguns não aderem ao trabalho multidisciplinar. Revelaram, ainda, sentir insegurança com relação à autonomia das suas ações: Eu procuro conversar, mesmo sem ter muita abertura, registro no prontuário o que eu acho, mas nem sempre sou atendida, e, muitas vezes, fica como está. Até porque eu não posso tomar nenhuma atitude, modificar sozinha. Não sei até quando isso é correto, não sei até onde vai nossa autonomia. Boog, em estudo sobre as dificuldades encontradas por médicos e enfermeiros na abordagem de problemas alimentares, considera que o nutricionista é habilitado por formação para adequar as orientações alimentares à realidade dos pacientes. De fato, esta ação é reconhecida pela legislação que rege a profissão e implica, necessariamente, a conjugação de saberes de nutricionistas, enfermeiros, médicos e outros profissionais da equipe. Outro aspecto destacado pela equipe está relacionado ao encaminhamento das alterações de dietas para o setor de produção de refeições: Oficialmente, as alterações do dia começam a vigorar a partir do café da tarde, só que quando se trata de uma dieta de evolução, e a gente vê que já dá pra fazer na hora do almoço, a gente já fala pra copeira, não espera chegar a tarde. Então isso às vezes é pra tentar adiantar o serviço. Por exemplo, a dieta era líquida restrita e já foi liberada líquida completa, porque eu vou esperar até a hora do lanche, se a gente vê que ele já pode comer melhor? Se o paciente estava em dieta zero e já pode comer, a gente não vai esperar até a tarde pra dar comida pra ele. Embora a solicitação de alteração e a liberação de dieta sejam operacionalizadas antecipadamente, visando melhorar a aceitação da alimentação pelo paciente, podem-se acarretar dificuldades para o setor de produção: Têm coisas que as copeiras pedem na hora do almoço, mas não dá tempo de descongelar, daí fica para o jantar. Mas elas também perdem os pedidos. Às vezes, chega pedido de alteração às onze da manhã e nessa hora já está tudo feito, não tem como mudar. Mas, se por um lado há uma preocupação com a adaptação da dieta, o gerenciamento do tempo destas atividades gera distanciamento de outras ações também relacionadas com a atenção ao paciente, conforme relatado pelas nutricionistas das unidades de internação clínica: Não dá tempo pra acompanhar todos os pacientes. Há muito pra fazer, ver sonda, prontuários, registrar, conversar com médicos, copeiras, orientações de alta. Tem que supervisionar copeira, fazer atividades burocráticas aqui embaixo [na produção de refeições] e muitas vezes não dá tempo, fora as coberturas extras que a gente tem que fazer, sempre tem alguém de folga ou férias, emergência, enfim! Beck et al. evidenciam um distanciamento deste profissional dos aspectos técnicos e educacionais em favor de conhecimentos administrativos e gerenciais. O nutricionista, tanto nas instituições hospitalares quanto em outros setores, lida com situações de trabalho diversificadas e com diferentes graus de complexidade, demandando destes profissionais exigências cognitivas e psíquicas1. Com relação à individualização da dieta, este aspecto parece ser um desafio para os profissionais envolvidos com a produção das refeições. Há dificuldades de se perceber o paciente no processo produtivo, pois o fluxo dos alimentos segue a lógica da padronização e da divisão do trabalho: Definido qual é nosso plano dietoterápico, coloca-se no mapa de dietas, encaminhamos para a copeira. Como o cardápio é padronizado e é trabalhado com médias por tipo de dieta, aquele paciente vai entrar pra produção no rol das dietas brandas, pastosas. O cardápio segue um padrão dentro da alimentação normal e dentro dele tem as preparações que são feitas de acordo com pedidos extras, pelas preferências ou necessidades deles. A gente percebe ali embaixo [na produção de refeições que tem pessoas diferentes internadas quando tem pedidos diferentes, se não a gente olha e é tudo igual. Por exemplo, uma dieta branda é toda igual, você não vê uma pessoa, e sim um monte de dietas. A não ser quando tem o pirão ou o peixe frito do Sr. João. A humanização também é caracterizada pelo atendimento destas individualidades, considerando que a inapetência ou a rejeição aos alimentos pode comprometer o tratamento. Desta forma, é fundamental considerar que o ato de se alimentar é parte da construção de identidades culturais e sociais e envolve emoção, memória e sentimentos, que refletem a qualidade simbólica do alimento. Na instituição, as nutricionistas consideraram que, apesar de ser um hospital público, e apresentar restrições financeiras, existe grande variedade de alimentos disponíveis. Na falta de determinado produto, as profissionais comunicam-se com a família do paciente ou com a direção do hospital no intuito de obtê-lo, buscando desta forma a individualização do atendimento. O acompanhamento da aceitação da dieta é uma das ações consideradas importantes dentro do processo de avaliação do cuidado alimentar e nutricional. Através do acompanhamento, é possível identificar alterações a serem realizadas, dependendo das necessidades nutricionais (redução ou aumento da oferta de nutrientes), preferências ou aversões alimentares do paciente: Estaremos acompanhando se isso deu certo, se a aceitação é boa, e mesmo que seja boa, se precisa acrescentar algum suplemento, tirar alguma coisa. Às vezes têm pacientes obesos que não estão internados pra fazer dieta de emagrecimento, mas a gente reduz as calorias necessárias. Aí é o acompanhamento do dia a dia que é essa visita diária. Se o paciente tem algum grau de desnutrição ou está caminhando pra isso, eu entro com suplemento, modifico alguma preparação, aumento a oferta calórica. Entretanto, para analisar a efetividade do tratamento e, dessa forma, avaliar sua própria conduta, há necessidade de realizar a avaliação continuada para controle mais racional do tratamento e recuperação do estado de saúde e nutrição do paciente. No entanto, para as nutricionistas, o sucesso do tratamento, depende de outros fatores: A avaliação está num conjunto de coisas que a gente faz, desde o início do tratamento. O sucesso do tratamento, ou o cumprimento do objetivo, também depende de outros fatores, que não só nós, porque entre a informação sair lá de cima [unidade de internação] e passar para a cozinha, nesse meio campo, aí acontece muita coisa. O planejamento e o tratamento caminham juntos com a produção. Não adianta você saber tudo sobre o paciente, as preferências, aversões, se você não passa isso pra frente. Alguns estudos têm destacado que a aceitação da alimentação por parte do paciente internado envolve aspectos relacionados à patologia, às características das refeições oferecidas e ao ambiente. Além destes aspectos, a aceitação da alimentação está relacionada aos profissionais envolvidos no cuidado alimentar e nutricional. A subnutrição é considerada um sério problema entre pacientes hospitalizados, a qual leva a um aumento na morbimortalidade. Fornecer alimentos e bebidas apropriadas e adequadas a eles é parte do cuidado nutricional, por meio do qual é possível otimizar o aporte proteico e energético. O acesso a uma variedade de alimentos seguros e saudáveis é um direito humano fundamental. O cuidado nutricional adequado, incluindo a qualidade da alimentação, tem efeitos benéficos na recuperação dos pacientes e na sua qualidade de vida. De acordo com Stanga et al., a dieta hospitalar pode melhorar a qualidade da internação do paciente. A apresentação darefeição, a variedade de produtos e o local físico são os fatores primários que contribuem para a percepção negativa do usuário e para atitudes em relação às refeições de instituições. Geralmente, o público observa os hospitais como instituições, tendo a visão de que as mesmas são menos favorecidas em recursos. A imagem negativa da refeição hospitalar é generalizada e, portanto, não necessariamente relacionada aos alimentos por si só. A avaliação da satisfação do usuário de serviços hospitalares tem sido valorizada na busca da qualidade do atendimento. A percepção da qualidade tem sido apontada como um fator determinante para a competitividade e a sobrevivência das organizações de saúde, o que requer a adoção de modelos adequados para medir a satisfação dos clientes. Por meio de questionamento a usuários acerca da satisfação com o cuidado nutricional, é possível se obter noções das fragilidades do serviço. Demario et al. apontam em seu estudo, a dificuldade de os pacientes opinarem sobre mudanças na alimentação ou nas rotinas durante a internação. Alguns estudos observaram que o contexto da hospitalização transforma os papéis sociais dos indivíduos. Garcia aborda também a importância do paciente intervir em seu tratamento como aspecto fundamental na dieta hospitalar e na atenção nutricional. O processo de trabalho deve fluir entre divisões e departamentos, a fim de organizar o processo, sendo necessário que as estruturas segmentadas tenham tarefas bem delimitadas e definidas, mas que mantenham conexões entre si. É necessário que haja uma interligação e uma dependência entre os segmentos, embora seja relevante a distinção de atividades dentre os mesmos. A qualidade da alimentação hospitalar, o atendimento nutricional e a participação do paciente em seu tratamento alimentar e nutricional são fundamentais para a qualidade do atendimento hospitalar, o objetivo do projeto é validar proposições de referência sobre o tema pela comunidade científica brasileira, considerando também suas opiniões sobre as proposições. MATERIAIS E MÉTODOS Trata-se de um estudo de validação qualitativa de proposições pela comunidade científica. O modelo proposto foi fundamentado em estudos, na legislação brasileira que regulamenta a atividade do nutricionista na área hospitalar e no Manual de Acreditação Hospitalar. Foi composto por proposições acompanhadas de uma escala Likert de cinco pontos (discordo totalmente, discordo parcialmente, não tenho opinião, concordo parcialmente e concordo totalmente). Abaixo da escala, o entrevistado poderia completar com sua opinião, no caso de discordar parcialmente, concordar parcialmente e discordar totalmente. Considerou-se aprovado a proposição com concordância total e parcial maior ou igual a 70%, este critério de aceitação foi selecionado porque representa uma concordância geral 2 vezes maior que o número de não concordância. A confirmação da proposta do modelo de atenção nutricional ao paciente hospitalizado foi avaliada por opinião da comunidade científica da área de nutrição clínica. O modelo proposto foi aplicado na forma de um questionário, por via eletrônica, a pesquisadores, docentes e profissionais cadastrados na Plataforma Lattes, uma base de dados organizada e gerenciada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) do Ministério de Ciência e Tecnologia do Brasil, com o objetivo de compartilhar e integrar as informações de instituições e agências de fomento da comunidade científica brasileira. Os entrevistados foram convidados a participar da pesquisa por correio eletrônico e recebiam um código de identificação com acesso on-line ao questionário interligado a uma base de dados (MySQL) e alojado no site da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo . O MySQL é um sistema de gerenciamento de banco de dados que utiliza a linguagem SQL (Structured Query Language - Linguagem de Consulta Estruturada) como interface. O questionário foi constituído por diferentes aspectos do cuidado nutricional sendo a parte aqui analisada a referente à satisfação do usuário, às dietas hospitalares e ao planejamento e metas de serviço. Para a descrição de metas do SANH foram solicitadas 5 prioridades, as quais foram organizadas em categorias e analisada a frequência. Como critério de inclusão para a seleção da amostra considerou-se necessário estar acessível à correspondência eletrônica, estar vinculado a uma instituição hospitalar e/ou universidade, desenvolver pesquisa ou ministrar disciplinas na área de nutrição clínica, dispor de titulação além da graduação e aceitar participar da pesquisa. Pesquisadores da área de nutrição clínica que trabalham exclusivamente com animais foram excluídos da amostra. Todos os sujeitos que se enquadraram nos critérios foram convidados a participar, constituindo assim a amostra do estudo. RESULTADOS De 284 questionários enviados, 100 foram respondidos, totalizando a adesão de 32,5%. Participaram da pesquisa nutricionistas (74%), médicos (25%) e biólogo (1%); a maioria deles (63%) graduados há mais de 20 anos, com título de doutor (67%), sendo o restante, 26% mestres e 7% especialistas. Predominaram participantes de instituições públicas (74%) e vinculados a universidades (84%) e 16% eram de instituições de saúde. Todas as proposições foram aprovadas (Tabela 1). A concordância total delas teve adesão mínima de 70% (Proposição C) e máxima de 93% (Proposição J). A soma das concordâncias (parcial e total) teve adesão mínima de 88% (Proposição H) e adesão máxima de 97% (Proposição A). Dentre as proposições aceitas, houve as que tiveram concordância total maior ou igual a 90% (Proposição I e J); aquelas entre 80 e 90% (Proposições A, B, F, G e K) e as entre 80 e 70% (Proposições C, D, E e H). Dentre as proposições que abordam a participação do usuário em seu tratamento alimentar (Proposições A, B, C e D), a mais polêmica foi a C. Os entrevistados que argumentaram sobre esta proposição alegaram nem sempre ser possível um acordo com o paciente em seu tratamento, apesar da condição ser desejável. Mencionaram dificuldades relacionadas à capacidade de compreensão do paciente sobre seu tratamento e da importância que este dá a este aspecto. Houve indicações de que mesmo com a discordância do paciente é necessário intervir. Outros referiram não ser necessário o acordo com o paciente, mas sim a ciência de seu tratamento. A segunda proposição de maior discussão foi a A, inclusa no mesmo tema. Metade dos que concordaram parcialmente referiram ser possível a modificação da dieta hospitalar, desde que as alterações sejam alcançáveis pelo SANH; a outra metade considera que o paciente é quem deve se adaptar as regras do hospital e que a decisão final deve ser do profissional. Nas alegações sobre o poder de participação do usuário expostas na Proposição B houve a ressalva quanto aos limites do SANH em atender as demandas do paciente e também o baixo grau da escolaridade do mesmo foi mencionado como uma dificuldade. A inclusão de um sistema de avaliação da satisfação do usuário realizado por outro setor hospitalar foi tema da Proposição D. Os comentários daqueles que se manifestaram sobre este item, procuraram defender a capacidade do próprio SANH para avaliar a satisfação do usuário. Os comentários consideraram que o rigor do método, a parceria com outros setores, a dificuldade de que outro serviço se envolva, entre outros motivos, justificam que o SANH possa se responsabilizar por esta tarefa. A maioria das alegações sobre a necessidade de um manual de dietas próprio para o SANH (Proposição E) destaca a necessidade de flexibilidade para a individualização da dieta. Alguns alegaram que o manual de dietas consiste de uma condiçãoideal, porém, nem sempre alcançável. A qualidade das características organolépticas, a variedade e a boa apresentação das preparações e dos cardápios (Proposição F) foram contrapostas com aspectos microbiológicos e de higiene, com a composição da dieta, incluindo o atendimento às necessidades nutricionais, bem como com o atendimento às prescrições. Por outro lado, a proposição da degustação de dietas, como controle da qualidade sensorial (Proposição G) ser exercida pelo nutricionista, foi polêmica. A metade defende um rodízio desta tarefa com a finalidade de evitar viés. Produzir suplementos nutricionais no SANH, além dos industrializados (Proposição H), foi considerado uma tarefa difícil pelas deficiências de infraestrutura, pelos cuidados exigidos no preparo e pela dificuldade de se atingir metas nutricionais e qualidade físico-química. Aspectos de infraestrutura relacionados à alimentação, como local e utensílios para alimentação, e também os horários de refeições são o conteúdo da Proposição I. Muitos adendos relacionados a este tema demonstram a necessidade de parcerias com a enfermagem, a terapia ocupacional e a administração do hospital. Sobre as cozinhas especializadas (dietética, experimental) (Proposição K) aqueles que não concordaram totalmente alegam inviabilidade desta estrutura. A proposição de menor conflito foi a J. Possivelmente por ser consensual a necessidade de controles e análises estatísticas nos SANH. As 5 prioridades de um SANH, questão aberta que compunha o questionário, foram categorizadas e quantificadas por ocorrência (Tabela 2). DISCUSSÃO As proposições de qualificação e de participação do paciente na alimentação hospitalar foram aprovadas pela comunidade científica, embora as alegações refletissem dificuldades em inserir a teoria na prática do serviço. Nas alegações apresentadas pelos entrevistados que emitiram opiniões, parece predominar a visão de que o paciente deve adequar-se às necessidades do serviço e não o contrário, justificado pela limitação de seus conhecimentos e supervalorizando a decisão profissional sobre a dieta. As dificuldades do nutricionista em delimitar seu campo de autonomia profissional nas instituições de saúde, de alcançar um status perante a equipe e de ser reconhecido, podem explicar de certa maneira a postura encontrada neste estudo, valorizando a intervenção técnica e impositiva mais do que a visão do paciente sobre suas demandas. Muitos estudos reivindicam uma visão mais flexível e humanística da alimentação hospitalar e a entendem como um aspecto mais amplo do que propriamente atender as necessidades biológicas. No estudo de Prieto et al.constatou-se a importância da participação do paciente no tratamento nutricional, principalmente na adequação alimentar e dietética, uma vez que, durante a internação, observa-se uma redução da ingestão alimentar mediante os aspectos envolvidos na hospitalização. A participação do paciente poderia ser considerada para enfrentar a baixa ingestão alimentar durante a hospitalização, causa da perda de peso e de complicações clínicas. Observam-se dificuldades em relação às atividades que exigem a individualização das dietas hospitalares e as que exigem a padronização. Ou seja, argumenta-se positivamente ora para um serviço extensivamente padronizado, em que a realidade não possibilita atender a demanda de individualização, ora para a necessidade de flexibilização, considerando-se a condição ideal de individualizar o atendimento nutricional. A padronização de um manual de dietas, por definição, existe para melhorar a qualidade da assistência, racionalizar o serviço e reduzir seus custos. No entanto, a flexibilização desta, assim como a inclusão de opções nos cardápios de rotina, devem estar nas diretrizes do atendimento nutricional. A internação se apresenta como uma ruptura com o cotidiano e com os hábitos, fazendo com que o paciente procure se adaptar e aceitar as normas para a recuperação da sua saúde, revelando, possivelmente, falta de identificação da alimentação hospitalar com a sua história alimentar. Porém, refere que existe um caminho a ser percorrido, que atenda as individualidades de forma a conduzir as rotinas hospitalares o mais próximo possível das rotinas do cotidiano doméstico. Aspectos nutricionais são responsáveis por atingir as necessidades nutricionais, aspectos higiênicos por prevenir que o alimento represente um risco à saúde e fatores psicossensoriais estão relacionados às características organolépticas, ou seja, os efeitos que o alimento desperta através de sensações visuais, táteis, olfativas, térmicas, tranquilizantes ou estimulantes, além do aspecto simbólico de ordem cultural, histórica e individual. Todos estes aspectos constituem, juntos, categorias da qualificação da alimentação hospitalar. A qualidade sensorial da alimentação é monitorada pela degustação das dietas. Trata-se de um encargo do nutricionista, que deveria ser valorizado e implementado nas rotinas de serviço. Incluídos nesta mesma temática "a valorização dos aspectos sensoriais da alimentação hospitalar" estão os suplementos nutricionais produzidos pelo próprio serviço. Seriam aquelas preparações da culinária local, produzidas para aumentar o aporte energético e/ou de outros nutrientes, que podem representar um atributo adicional para a sua aceitação, por fazerem parte de um repertório alimentar reconhecido e que carrega valores simbólicos associados. Sabe-se que o suplemento nutricional consiste em alternativa necessária diante de condições de hipermetabolismo, perda de peso, baixa aceitação alimentar, entre outras situações clínicas, e vários estudos mostram a sua importância na evolução do estado nutricional. No entanto, suplementos manipulados não são os mais valorizados nos serviços e os entrevistados ressaltaram dificuldades de infraestrutura para esta atividade. Cozinhas experimentais com a valorização dos aspectos culinários, a realização de testes de degustação, investimento em pessoas para um atendimento mais humanizado, ações educativas e estratégias de envolvimento do paciente e de funcionários, horários adaptáveis de refeições, refeitórios de pacientes, são meios para o estabelecimento de melhorias na qualidade dietética e sensorial da alimentação. Donabedian sugere que a avaliação da satisfação do paciente seja objetivo fundamental no estudo para a qualificação da assistência à saúde. Observa-se grande variabilidade nas formas de se mensurar a satisfação dos usuários e os resultados, em geral, tendem a trazem altas taxas de satisfação. Este fenômeno é conhecido como efeito de "elevação" das taxas de satisfação e é observado mesmo quando as expectativas sobre os serviços são negativas. O fato tem sido alvo de questionamentos acerca de sua validade, já que é pouco provável o alcance de um nível de excelência em todo e qualquer serviço. Do ponto de vista metodológico, fatores como a relutância em expressar reações negativas é conhecido como viés de gratidão, e trata-se da omissão de questionamentos e de críticas negativas dos usuários, observado principalmente nos serviços da rede pública. Este viés também pode ocorrer em situações onde foi criado um vínculo ou afinidade com alguns dos profissionais que participam do cuidado nos casos de internações. Pode também refletir uma postura de gratidão frente ao pesquisador. Neste caso, o resultado é distorcido. Nos achados deste estudo verificou-se que os aspectos metodológicos para as pesquisas de satisfação não mereceram a devida atenção que este objeto demanda. Embora a maioria das opiniões dos participantes alegue a autossuficiência na avaliação da satisfação do usuário, evidencia-se a importância desta avaliação ser realizada por outros serviços a fimde evitar vieses que ocultem ou distorçam os resultados da avaliação da satisfação do usuário do SANH. Vale destacar que paralelamente ao entorno alimentar, considerado como aqueles aspectos relacionados ao oferecimento e ao ambiente, como utensílios, bandeja, local de apoio para a bandeja, refeitório, horário das refeições, entre outros aspectos que possam contribuir para melhorar as condições de alimentação do paciente, é importante a participação da equipe nessa rotina do paciente. A formação da equipe é fundamental na atenção adequada aos pacientes hospitalizados, no estímulo alimentar e até mesmo no suporte para garantir que o paciente seja alimentado, sobretudo aqueles com mais dificuldade para o auto cuidado. Com relação às prioridades recomendadas, a condição estrutural dos SANH foi à prioridade mais mencionada pelos participantes quando questionados, seguida da qualidade da dieta hospitalar, a avaliação e o acompanhamento do estado nutricional. No que se refere às condições físico estruturais, Lassen et al. apontam para aquelas relacionadas aos custos e às dificuldades de gestão de mão-de-obra e as que envolvem aspectos de qualidade, voltados às questões de higiene dos alimentos e das preparações. Adquirir facilidades tecnológicas disponíveis pode melhorar a qualidade do trabalho desenvolvido. No entanto, a limitação financeira de instituições pode representar um obstáculo à adequação físico estrutural. A qualidade da alimentação hospitalar remete a uma reflexão sobre quais seriam os indicadores de qualidade da alimentação hospitalar. Sousa e Proença se referem aos atributos nutricionais, higiênicos, psicosensoriais e simbólicos para a garantia da qualidade da alimentação hospitalar. Estudo realizado com trabalhadores envolvidos no processo de planejamento e produção da alimentação hospitalar observou a valorização do aspecto nutricional em detrimento dos aspectos sensoriais e simbólicos. Neste sentido, indicadores devem ser desenvolvidos para orientar a qualificação da alimentação hospitalar, numa perspectiva que inclua valores técnicos e simbólicos. As demais prioridades atribuídas ao SANH representam aproximadamente um terço do total. Deste, predominou a atenção ao paciente e, particularmente, a avaliação e o monitoramento do estado nutricional, os quais são, de fato, prioridades essenciais do serviço. A existência de um SANH se justifica para atender o paciente. Apesar de estar em destaque, esta prioridade deve ser mais valorizada nos critérios de qualificação de um SANH. O relacionamento com a equipe multiprofissional e a atualização e a aplicação do conhecimento científico são categorias complementares. Participar de uma equipe multiprofissional pressupõe troca de conhecimento. Neste sentido, seria um avanço que os SANH tivessem acesso a bases de consulta científica e que as instituições criassem instâncias de apoio e valorização para atualização do conhecimento aplicado nas ações do serviço. As proposições relacionadas à satisfação do usuário e às dietas hospitalares foram aceitas pela comunidade científica e podem ser consideradas para a qualificação dos SANHs. Todavia, se faz necessário o desenvolvimento de estratégias para que se possa superar as dificuldades operacionais e implementar as proposições consideradas adequadas. A condição estrutural do SANH, a qualidade da dieta hospitalar, a avaliação e o acompanhamento do estado nutricional do paciente e a integração em equipes multiprofissionais devem estar presentes no planejamento e nas metas de um SANH. Espera-se que o presente estudo possa auxiliar os nutricionistas da área hospitalar a organizarem metas apropriadas para o SANH e que futuros estudos desenvolvam estratégias para isso. De acordo com Castro e Santos 2012, a gastronomia é a ciência que integra culinária, bebida e demais ingredientes usados no preparo dos alimentos, utensílios necessários, bem como as peculiaridades culturais agregadas a ela. Para Souza et al 2011, “a gastronomia é definida como o conhecimento fundamentado de tudo o que se refere ao homem, na medida em que ele se alimenta, com o objetivo principal de zelar pela sua conservação, mantendo saudável a espécie, por meio da melhor alimentação possível, qualitativa e quantitativamente”. Já Castro (2012) apud Brillat-Savarin (1995) conceitua gastronomia como um “ato do nosso julgamento pelo qual damos preferência às coisas agradáveis ao nosso paladar em detrimento daquelas que não tem qualidade”. A gastronomia utiliza-se de técnicas criativas de apresentação das refeições, e combinações de diferentes ingredientes e temperos que modificam o sabor do alimento a fim de manter a cultura alimentar e ambiente social ao qual o indivíduo está inserido. Desta feita, as refeições hospitalares devem ser elaboradas de forma a considerar que o paciente está fora do seu âmbito social, o que por si só pode influenciar negativamente a ingestão alimentar (LAGES, 2013) Visto isso, nota- se que a boa qualidade sensorial do alimento é fator primordial para que o indivíduo consuma um alimento, pois este naturalmente não se alimenta pensando apenas na sua nutrição. O conceito de alimentação ligada à saúde tem por base diversos conhecimentos que fazem dela um pilar fundamental da medicina, sendo o primeiro recurso utilizado na terapêutica médica. Portanto, se pensarmos em um paciente retido em um local diferente do seu lar, e que necessite de tratamentos especiais percebeu-se a importância de cuidar de sua alimentação (SOUZA et al, 2011). A dieta hospitalar tem papel importante na manutenção do aporte de nutrientes ao paciente internado, bem como na preservação do estado nutricional, atuando como auxiliar terapêutico em doenças crônicas e agudas, além de fazer parte da experiência de internação podendo atuar como moderador da angustia causada pela separação do paciente do seu ambiente familiar, relações de trabalho, visto que responde a aspectos psicosenssoriais de reconhecimento individual e coletivo (GARCIA, 2006). A aceitação e satisfação por parte do paciente da dieta hospitalar estão intimamente relacionadas à qualidade sensorial da refeição oferecida. As dietas hospitalares devem considerar a relação do paciente com o alimento, tendo como prioridade suas preferências e hábitos individuais, portanto a escolha dos alimentos que estimulam e satisfazem o paladar é uma escolha prática. (LAGES, 2013). Autores defendem a alimentação hospitalar como elemento fundamental dos cuidados hospitalares que são ofertados aos pacientes; assim sendo deve integrar qualidade higiênico-sanitaria e sensorial, atendendo as necessidades nutricionais e psicossosiais. Visto isso, destaca-se a necessidade de modificação de consistência, temperatura, disposição de nutrientes, sabor e apresentação as dietas (REIS, et al). As dificuldades encontradas para implantação da gastronomia nas dietas hospitalares são verificadas em diferentes aspectos, que seguem desde o diagnostico preciso das necessidades dos pacientes e suas expectativas, até a representação fiel em produtos saudáveis, atraentes, nutricionalmente íntegro, e, sobretudo, que contribua com a manutenção ou recuperação do estado nutricional do paciente (SOUZA et al, 2011). Em muitos hospitais a dieta oferecida é inadequada em diversos aspectos inclusive os sensoriais, portanto há diminuição da ingestão alimentar por parte dos pacientes. Estudos demonstram que a falta de temperos, a temperatura fria, falta de molho e a monotonia dos cardápios são os fatores negativos mais citados pelos entrevistados. Além disso, a consistência dos alimentos muitas vezes prejudica a ingestão alimentar (MESSIAS, 2011). Dadas a grande prevalência de complicações nutricionais e os efeitos negativos no tratamento,recuperação e qualidade de vida dos pacientes, é importante que se busque novas formas de proporcionar uma ingestão alimentar adequada em nutrientes e contribuir para minimizar os problemas oriundos da internação hospitalar. Atualmente os aspectos da dieta hospitalar têm sido amplificados, seguindo tendências da gastronomia, visando aliar a prescrição dietética e as restrições alimentares a refeições atraentes e saborosas, tornando a dietoterapia uma experiência agradável principalmente aos olhos e ao paladar (SOUZA, et. al 2011). A atenção ao estado nutricional adequado e qualidade da alimentação contribui de maneira benéfica na recuperação dos pacientes e melhora da sua qualidade de vida. A gastronomia torna o ato de comer uma experiência prazerosa, e uma fonte de satisfação. Sendo assim a aceitação da alimentação hospitalar está relacionada à diminuição de complicações, dor advinda da doença ou mesmo do tratamento empregado, aumento da ingestão alimentar, fator que contribui para diminuir as perdas nutricionais no período de internação, além de ser fator decisivo para uma atuação efetiva da terapia nutricional. Essa aceitação da alimentação pode ser facilitada pela implantação de cardápios que visem atender as necessidades e expectativa do paciente, e melhoramento de dietas restritas, tornando-as mais atrativas e harmoniosas (MESSIAS, 2011; SOUZA et al, 2011). A alimentação é importante para a recuperação da saúde do paciente, além de se destacar como um elemento de conforto e qualidade. Entretanto, por restrições econômicas algumas unidades hospitalares vêm diminuindo os gastos com a aquisição de alimentos, e a utilização de técnicas gastronômicas poderá ser uma alternativa para melhorar os aspectos sensoriais das refeições e reduzir os custos pela diminuição do desperdício alimentar. A redução da ingestão dietética é comum no ambiente hospitalar, e pode ser influenciada por fatores como a condição patológica, a falta de apetite, a quantidade e a qualidade da refeição, e o tempo da internação. Tais fatores isolados ou em associação podem afetar o estado nutricional, resultando na desnutrição que atinge de 30 a 50% dos pacientes adultos internados em hospitais dos países ocidentais, e está relacionada ao aumento da morbimortalidade. Assim, o quadro de desnutrição pode ser iniciado ou agravado durante a internação na ausência de uma refeição atraente e nutricionalmente adequada. Há algumas décadas, as refeições servidas nas unidades hospitalares eram consideradas desagradáveis por apresentarem pouca atração visual, visto que sua produção era realizada por irmãs de caridade e leigos no assunto, que no intuito de promover a recuperação da saúde, excluía vários alimentos que afetavam as características sensoriais e nutricionais das preparações. A gastronomia hospitalar surgiu para mudar os conceitos e as atitudes sobre as dietas servidas, trabalhando os aspectos sensoriais dos alimentos como a cor, o aroma, o sabor, a textura e a temperatura, para que estes sejam agradáveis nas dimensões visuais, olfativas, gustativas, táteis e auditivas dos pacientes. Neste contexto, a gastronomia proporciona uma apresentação atraente e harmoniosa do prato, além de aliar à qualidade nutricional da refeição, adequando a oferta de nutrientes essenciais a cada paciente. Assim, ela pode ser um instrumento para melhorar a aceitação dos alimentos oferecidos, despertando através da imagem, o desejo e o prazer de comer, e consequentemente contribuir para a recuperação do estado de saúde. A GASTRONOMIA HOSPITALAR AUXILIANDO NA REDUÇÃO DOS ÍNDICES DE DESNUTRIÇÃO ENTRE PACIENTES HOSPITALIZADOS Desnutrição é um termo amplamente difundido, que pode ser definido como um estado de nutrição no qual a deficiência de energia, proteína ou outros macro e micronutrientes causa efeitos indesejáveis ao organismo, com consequências clínicas e funcionais. A ocorrência da desnutrição em pacientes hospitalizados é um problema de saúde pública que tem sido descrito há muito tempo, e seu impacto no curso das doenças é considerado um problema clínico significativo. A prevalência da desnutrição em ambiente hospitalar varia de 20% a 50% em diferentes estudos, conforme critérios utilizados. Os pacientes podem estar desnutridos no momento da admissão ao hospital e muitos desenvolvem a desnutrição durante a hospitalização. Isso pode ser prevenido se uma atenção especial for dada ao estado nutricional dos pacientes. A desnutrição hospitalar está associada ao aumento significativo da morbidade e mortalidade, do tempo e do custo da hospitalização. Diferentes fatores colaboram para a desnutrição em pacientes hospitalizados. Enquanto alguns casos são consequências das doenças, outros decorrem da ingestão inadequada, devida à perda de apetite, inabilidade de ingestão de alimentos ou má-absorção, em casos de doenças que afetam os órgãos digestivos. Um longo período, ou mesmo um curto período sem a ingestão adequada de alimentos, pode causar danos de funções orgânicas. A dieta hospitalar é importante por garantir o fornecimento de nutrientes ao paciente internado e, assim, preservar ou recuperar seu estado nutricional. Também é importante por atenuar o sofrimento gerado nesse período em que o indivíduo está separado de suas atividades e papéis desempenhados na família, na comunidade e nas relações de trabalho, além de encontrar-se ansioso dado o próprio adoecimento e aos procedimentos hospitalares, muitas vezes, pouco compreendidos. É necessário trabalhar a alimentação dos pacientes, elaborando-a não só no sentido de suprir suas necessidades básicas de manutenção ou recuperação da saúde, mas propiciando bem-estar físico e mental. Atualmente, a visão da dieta hospitalar está sendo ampliada e adaptada às tendências da gastronomia, e a busca de aliar a prescrição dietética e as restrições alimentares a refeições atrativas e saborosas é um desafio que exige aprimoramento técnico e assistência nutricional individualizada. A combinação da dietoterapia com a gastronomia é chamada de gastronomia hospitalar, que deve servir de instrumento para que a dietoterapia seja realizada de forma agradável, principalmente aos olhos e ao paladar. Dada a grande prevalência da desnutrição hospitalar e suas consequências negativas na recuperação e na qualidade de vida dos pacientes, é importante que o profissional nutricionista esteja sempre em busca de novas formas de oferecer a ingestão adequada de nutrientes, contribuindo assim para a minimização desse problema de saúde pública. A APLICAÇÃO DA GASTRONOMIA HOSPITALAR EM PACIENTES DESNUTRIDOS A função terapêutica da alimentação tem evoluído graças ao avanço considerável dos conhecimentos relacionados à dietética e à nutrição, sendo que a pesquisa nessas áreas forneceu e abriu novos pontos de vista acerca da terapia nutricional, ficando cada vez mais claro que a alimentação pode, de fato, apresentar um papel relevante no processo saúde e doença. Entretanto, a comida não é apenas uma substância alimentar, e os alimentos não induzem o homem à vontade de alimentar-se apenas por sua composição química, mas devem também ser atraentes. Alimentar-se é um ato nutricional, e comer é um ato social ligado a usos, costumes, condutas, protocolos e situações. O alimento e a alimentação trazem consigo diversas significações e implicações na vida das pessoas, além de serem fontes de prazer do início ao fim da vida e fazerem parte integrante da manutenção ou da reconstrução da identidade do indivíduo hospitalizado. A GASTRONOMIA HOSPITALAR AUXILIANDO NA REDUÇÃO DOS ÍNDICES DE DESNUTRIÇÃO ENTRE PACIENTES HOSPITALIZADOS A aceitação da alimentação por parte do paciente internado é constituída por uma somatória de fatores inerentes ao estado