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1 2 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ................................................................................... 4 2 INTRODUÇÃO À BIOENERGÉTICA ................................................ 5 2.1 Fontes de Energia ........................................................................... 6 2.2 Aspectos Biofísicos da Bioenergética ............................................. 7 3 O METABOLISMO ............................................................................ 9 3.1 As vias metabólicas ....................................................................... 10 3.2 Metabolismo: vias catabólicas e vias anabólicas .......................... 11 3.3 Regulação do metabolismo ........................................................... 13 3.4 Enzimas......................................................................................... 15 3.5 A molécula de ATP ........................................................................ 15 3.6 O NADPH transporta energia na forma de força redutora ............. 19 4 GLICÓLISE ...................................................................................... 20 4.1 Visão geral da geração de energia ................................................ 20 4.2 A geração de energia bioquímica é um processo em dois estágios 21 4.3 Via glicolítica ................................................................................. 23 5 O CICLO DE KREBS....................................................................... 32 5.1 Funções do ciclo do ácido cítrico .................................................. 32 5.2 Ciclo do ácido cítrico ..................................................................... 34 6 FOSFORILAÇÃO OXIDATIVA ........................................................ 39 6.1 A transferência de elétrons ao longo da cadeia de transporte de elétrons .................................................................................................. 41 6.2 Síntese de ATP ............................................................................. 44 6.3 Saldo de ATP ................................................................................ 44 6.4 Controle da síntese de ATP .......................................................... 45 6.5 Inibidores da cadeia transportadora de elétrons ........................... 45 6.6 Desacopladores da transferência de elétrons e termogênese ...... 46 7 Metabolismo dos lipídeos ............................................................. 47 3 7.1 Degradação de Triacilgliceróis: (do depósito) ............................... 48 7.2 Degradação de ácidos graxos ....................................................... 48 7.3 Sistema utilizado para transporte de radicais acila ....................... 49 7.4 β-Oxidação ou ciclo de Lynen ....................................................... 49 7.5 Corpos cetônicos: Acetona, Acetoacetato, β-Hidroxibutirato ........ 52 8 Metabolismo de proteínas ............................................................. 53 8.1 Metabolismo dos aminoácidos e das proteínas............................. 54 8.2 Transaminação e Desaminação .................................................... 57 8.3 Síntese da ureia ............................................................................ 58 8.4 Catabolismo da cadeia carbonada dos aminoácidos .................... 61 9 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................... 63 4 1 INTRODUÇÃO Prezado aluno! O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma pergunta, para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em tempo hábil. Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que lhe convier para isso. A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser seguida e prazos definidos para as atividades. Bons estudos! 5 2 INTRODUÇÃO À BIOENERGÉTICA A bioenergética se refere ao estudo das transformações de energia que ocorrem nas células. Como as células são compostas por substâncias químicas, cada transformação realizada por elas, seguindo os princípios físico-químicos, obedece às leis da termodinâmica. Isso inclui transformações de energia em átomos, como a transferência de elétrons, e a formação de ligações químicas que geram compostos mais complexos. Para permanecer viva, a célula precisa obter energia e manter o equilíbrio. Para atingir esse objetivo, ela realiza diferentes tipos de trabalho, como o químico, exemplificado pela síntese proteica; o osmótico, representado pela regulação do conteúdo hídrico; e o mecânico, característico de alguns tipos celulares, como o trabalho de movimentação. Para obter energia e manter a vida, os organismos são interdependentes, tendo como origem inicial a energia derivada da luz solar. Essa interdependência permite a troca de energia entre os seres vivos e a matéria através do meio ambiente. A energia pode ser adquirida pelos nutrientes, que são alimentos fornecidos pela natureza e, após processados, podem gerar ATP. Por sua vez, os seres humanos, ao produzirem energia, geram calor que é compartilhado com o meio ambiente. Outro exemplo dessa interdependência é a necessidade da fotossíntese para a eliminação do excesso de dióxido de carbono produzido durante o metabolismo aeróbico. Durante a fotossíntese, o CO2 é consumido e, em troca, é produzido o oxigênio (GALANTE; ARAÚJO, 2019). De acordo com a maneira de obtenção de energia, os seres vivos podem ser classificados como: • Fototróficos: conseguem retirar a energia de que necessitam diretamente da luz solar; • Quimiotróficos: obtêm a sua energia pela oxidação de compostos encontrados no meio ambiente; 6 • Quimiolitotróficos: organismos quimiotróficos que conseguem oxidar compostos inorgânicos; • Quimiorganotróficos: seres vivos que conseguem oxidar compostos orgânicos. 2.1 Fontes de Energia De acordo com as leis da física, a energia não pode ser criada do nada, apenas transformada de uma forma para outra. Sem energia, não é possível realizar trabalho; assim, se uma célula não dispõe de energia, ela perde suas funções vitais, o que pode levar à sua morte. Existem diversas fontes de energia, entre as quais se destacam: Fonte: Corsino, 2019. Essas moléculas que fornecem energia atuam em conjunto com enzimas, facilitando as interações moleculares necessárias para desempenhar diversas funções biológicas essenciais. Elas estão presentes em diferentes ciclos metabólicos, como o ciclo da ureia, o ciclo de Krebs e até mesmo em processos mais especializados, como o da rodopsina. O ATP é, sem dúvida, a molécula de energia mais importante, formando um sistema vital com o ADP para o transporte e armazenamento de energia. 7 Essa molécula é gerada por três processos principais que atuam como “produtores” de energia, contribuindo para a sua síntese: 1. O sistema ATP-PC ou sistema de FOSFOGÊNIO; 2. Glicólise anaeróbica; 3. O sistema aeróbico. No ciclo de Krebs, os três processos principais de produção de energia aparecem de forma integrada. A energia liberada durante a quebra das substâncias alimentares, bemanimais, que, portanto, não conseguem utilizar a acetil-CoA como um precursor gliconeogênico. Nos animais, a oxidação peroxissômica é responsável pelo encurtamento de ácidos graxos muito longos (com mais de 20 carbonos). Os ácidos graxos de cadeia longa entram nos peroxissomos sem a necessidade de carnitina e são convertidos em suas respectivas acil-CoA. A oxidação dessas acil-CoA longas é catalisada por uma acil-CoA oxidase, que reduz o oxigênio a água oxigenada, a qual é posteriormente decomposta em água e oxigênio pela ação da catalase. 52 7.5 Corpos cetônicos: Acetona, Acetoacetato, β-Hidroxibutirato Na ausência de carboidratos suficientes, o organismo utiliza quantidades maiores de gordura para gerar energia, superando a capacidade de processamento, o que resulta em uma oxidação incompleta. Isso ocorre porque os mamíferos não possuem uma via metabólica que converta ácidos graxos, especialmente aqueles armazenados como lipídios, em glicose. O acúmulo de intermediários ácidos pode levar à acidose, desequilíbrio eletrolítico e desidratação. A cetogênese, um processo que ocorre principalmente nas mitocôndrias do fígado, converte a acetil-CoA em acetoacetato ou β-hidroxibutirato. O acetoacetato pode sofrer descarboxilação espontânea, gerando acetona. Esses compostos são conhecidos como corpos cetônicos, e sua formação é chamada de cetogênese. Os corpos cetônicos são fontes de energia metabólica importantes para diversos tecidos periféricos, especialmente para o coração e os músculos esqueléticos. Em condições normais, o cérebro utiliza exclusivamente a glicose como fonte de energia, uma vez que os ácidos graxos não conseguem atravessar a barreira hematoencefálica. No entanto, durante períodos prolongados de jejum, os corpos cetônicos se tornam a principal fonte de energia para o cérebro. Esses corpos cetônicos são formas hidrossolúveis dos ácidos graxos. Eles são liberados na corrente sanguínea, e tanto o acetoacetato quanto o β- hidroxibutirato são utilizados como fontes de energia pelos tecidos fora do fígado, especialmente pelo coração e pelos músculos esqueléticos. A acetona, por outro lado, é eliminada pelos pulmões. Os corpos cetônicos funcionam como transportadores de carbonos oxidáveis (provenientes da acetil-CoA) do fígado para outros órgãos. Quando a glicose não está disponível, o organismo recorre à gliconeogênese, que utiliza principalmente o oxaloacetato derivado de aminoácidos. Isso impede a oxidação da acetil-CoA pelo ciclo de Krebs, levando ao acúmulo de acetil-CoA, que se condensa para formar corpos cetônicos. Essa 53 situação ocorre em casos de ingestão drástica de carboidratos (como em jejum ou dietas restritivas) ou em distúrbios do metabolismo dos carboidratos, como no diabetes. Quando a produção de corpos cetônicos excede a capacidade de utilização pelos tecidos fora do fígado, ocorre uma condição chamada cetose, caracterizada por altos níveis de corpos cetônicos no plasma (cetonemia) e na urina (cetonuria). Um sintoma típico em indivíduos com cetose é o hálito com odor de acetona. Como os outros dois corpos cetônicos são ácidos, a cetonemia pode levar à acidose, resultando em uma diminuição do pH sanguíneo. Em casos de cetose severa, o cérebro pode obter uma parte significativa da energia que necessita por meio da oxidação dos corpos cetônicos. 8 METABOLISMO DE PROTEÍNAS As proteínas são as moléculas orgânicas mais abundantes nas células, representando cerca de 50% ou mais do peso seco delas. Estão presentes em todas as partes das células e desempenham funções essenciais para a lógica celular. Devido à sua relevância tanto qualitativa quanto quantitativa, as proteínas têm sido extensivamente estudadas, revelando segredos sobre sua síntese e utilização metabólica. Os α-aminoácidos que compõem peptídeos e proteínas possuem um grupo funcional ácido carboxílico (-COOH), um grupo amino (-NH2) e um hidrogênio (-H) ligados ao carbono-α. Além disso, grupos-R (cadeias laterais) distintos estão associados a esse carbono, o que torna o carbono-α dos aminoácidos tetraédrico ou assimétrico, exceto no caso da glicina, onde o grupo- R é um hidrogênio. A diferença entre os aminoácidos reside exatamente em suas cadeias laterais (grupos-R). 54 As proteínas são macromoléculas de alto peso molecular, formadas por polímeros de compostos orgânicos simples conhecidos como α-aminoácidos. Nas moléculas de proteínas, os aminoácidos se conectam covalentemente, formando longas cadeias não ramificadas por meio de ligações peptídicas, que ocorrem entre o grupo amino (-NH2) de um aminoácido e o grupo carboxílico (- COOH) de outro, com a liberação de uma molécula de água durante a reação. (NELSON; COX, 2014). Existem 20 aminoácidos conhecidos (Alanina, Arginina, Aspartato, Asparagina, Cisteína, Fenilalanina, Glicina, Glutamato, Glutamina, Histidina, Isoleucina, Leucina, Lisina, Metionina, Prolina, Serina, Tirosina, Treonina, Triptofano e Valina) que compõem as proteínas. A síntese desses aminoácidos é controlada por mecanismos genéticos, que envolvem a replicação do DNA e a transcrição do RNA. Metade dos aminoácidos é sintetizada pelo organismo para atender às necessidades celulares. Aqueles que não podem ser produzidos pelo corpo devem ser obtidos através da dieta e são chamados de aminoácidos essenciais, enquanto os que são sintetizados internamente são conhecidos como aminoácidos não essenciais. 8.1 Metabolismo dos aminoácidos e das proteínas A fração de energia metabólica obtida a partir de aminoácidos, sejam eles provenientes da dieta proteica ou de proteínas teciduais, varia muito de acordo com o tipo de organismo e as condições metabólicas. Carnívoros podem obter até 90% de suas necessidades energéticas imediatamente após uma refeição 55 por meio da oxidação de aminoácidos, enquanto herbívoros podem suprir apenas uma pequena parcela de suas necessidades energéticas por essa via. A maioria dos microrganismos é capaz de absorver aminoácidos do ambiente e utilizá-los como combustível, quando necessário pelas condições metabólicas. No entanto, as plantas raramente ou nunca oxidam aminoácidos para fornecer energia, sendo os carboidratos produzidos a partir de CO2 e H2O durante a fotossíntese geralmente sua única fonte de energia. (NELSON; COX, 2014). Nos animais, os aminoácidos sofrem degradação oxidativa em três diferentes circunstâncias metabólicas: 1. Durante o processo habitual de síntese e degradação de proteínas nas células, alguns aminoácidos liberados da degradação proteica que não são necessários para a nova síntese proteica passam por degradação oxidativa. 2. Quando a dieta é rica em proteínas e aminoácidos, e a ingestão excede as necessidades do organismo para a síntese proteica, o excesso é submetido ao catabolismo, pois os aminoácidos não podem ser armazenados. 3. Durante períodos prolongados de jejum ou em casos de diabetes mellitus descontrolada, quando os carboidratos estão indisponíveis ou não são utilizados de forma adequada, as proteínas celulares são empregadas como fonte de energia. Nessas condições metabólicas, os aminoácidos perdem seus grupos amino, resultando na formação de α-cetoácidos, que são os "esqueletos de carbono" dos aminoácidos. Os α-cetoácidos são então oxidados a CO2 e H2O ou, mais frequentemente, fornecem unidades de três e quatro carbonos que podem ser convertidas em glicose por meio da gliconeogênese, servindo como combustível para o cérebro, músculos esqueléticos e outros tecidos. Assim como no catabolismo de carboidratos e ácidos graxos, os processos de degradação de aminoácidos convergem em vias catabólicas 56 centrais, com os esqueletos de carbono da maioria dos aminoácidos encontrando seu caminho para o ciclo do ácido cítrico. Uma característica importante que distingue osaminoácidos de outros processos catabólicos é que cada aminoácido contém um grupo amino. Portanto, as vias de degradação de aminoácidos incluem uma etapa-chave na qual o grupo α-amino é separado do esqueleto de carbono e direcionado para as vias metabólicas do grupo amino. Figura 25 – Visão geral do catabolismo dos aminoácidos nos mamíferos Fonte: Brown, 2018. Embora os aminoácidos sejam importantes fontes de energia para o metabolismo celular, eles são utilizados apenas em situações de extrema carência energética ou durante exercícios físicos intensos. É crucial destacar que carboidratos e lipídios são melhores produtores de energia, e a mobilização 57 de aminoácidos pode estar relacionada à degradação de proteínas musculares ou plasmáticas, levando o organismo a uma depleção dessas proteínas, o que pode acarretar consequências desastrosas, como atrofia muscular e hipoalbuminemia. A síntese da ureia é um dos processos metabólicos mais importantes, pois impede a formação de amônia tóxica a partir do nitrogênio proteico. Esse processo é exclusivo do fígado, tornando-o o centro da degradação de aminoácidos. Os músculos precisam ajustar o consumo de aminoácidos com a exportação de amônia para o fígado na forma dos aminoácidos glutamina ou alanina, em uma via metabólica extremamente importante que permite o equilíbrio fisiológico, especialmente durante a realização de exercícios físicos. A ureia é a principal forma de excreção do nitrogênio proteico em vertebrados terrestres. Em aves e répteis, o ácido úrico é a principal forma de excreção do nitrogênio proteico; em peixes e larvas de anfíbios, a amônia é excretada intacta, permanecendo em altas concentrações plasmáticas em peixes de água salgada para manter o equilíbrio osmótico. 8.2 Transaminação e Desaminação A maior parte do nitrogênio proteico não é utilizada em vias metabólicas nos seres humanos. Portanto, a remoção do grupo amino (−NH3 +) dos aminoácidos é o primeiro passo metabólico, resultando na formação de amônia (NH3), um composto altamente tóxico que é excretado na forma de ureia pelos rins. O processo de síntese da ureia envolve enzimas tanto citoplasmáticas quanto mitocondriais. A remoção do grupo amino é a reação preparatória para essa síntese e ocorre em todos os tecidos por meio de dois processos diferentes: a transaminação e a desaminação. A transaminação ou aminotransferência é catalisada por enzimas chamadas transaminases ou aminotransferases, que têm como cofator o piridoxal-fosfato, a forma ativa da vitamina B6. (NELSON; COX, 2014). 58 Esse processo metabólico consiste na transferência do grupo amino para o α-cetoglutarato (um cetoácido), formando outro cetoácido e o aminoácido glutamato. Dependendo do aminoácido transaminado, um tipo diferente de cetoácido será formado (por exemplo, a alanina forma o piruvato; o aspartato forma o oxaloacetato), mas sempre o mesmo aminoácido glutamato é produzido. Isso faz com que, após essa reação, uma grande quantidade de glutamato seja gerada no fígado. As principais transaminases presentes nos hepatócitos são a transaminase glutâmico-pirúvica (TGP), também conhecida como alanina aminotransferase (ALT), e a transaminase glutâmico-oxalacética (TGO), ou aspartato aminotransferase (AST). Essas enzimas realizam a transaminação da alanina e do aspartato, respectivamente, mas também atuam sobre outros aminoácidos, embora exista uma transaminase específica para cada tipo de aminoácido. 8.3 Síntese da ureia No fígado, ocorre a produção de uma grande quantidade de um composto nitrogenado atóxico, formado pela conjugação de duas moléculas de amônia com CO2 - a ureia. Essa reação se processa parcialmente no citoplasma e parcialmente na mitocôndria do hepatócito. Na sequência de reações envolvidas na síntese da ureia (Figura 26), há a síntese do aminoácido arginina e a participação dos aminoácidos não codificados ornitina e citrulina. A arginina é consumida em grande quantidade durante a produção de ureia, o que faz com que seja necessária na alimentação de animais jovens, em fase de crescimento. Portanto, embora esse aminoácido seja sintetizado, ele se torna essencial na dieta. As reações do ciclo da ureia podem ser agrupadas da seguinte forma: • Formação do carbamoil-fosfato: Na mitocôndria, ocorre a hidratação de uma molécula de CO2 e uma de NH3 (proveniente da desaminação do 59 glutamato), com o consumo de 2 ATPs, catalisada pela carbamoil-fosfato sintetase I. • Formação da citrulina: O carbamoil-fosfato doa seu grupo carbamoil para a ornitina, que entra na mitocôndria através de um transportador específico, resultando na formação de citrulina. A citrulina é então transportada para fora da mitocôndria pelo mesmo transportador utilizado pela ornitina, em uma reação catalisada pela ornitina transcarbamilase. • Formação do arginino-succinato: No citoplasma, a citrulina incorpora aspartato, com o consumo de 1 ATP. O aspartato é transportado da mitocôndria através do mesmo transportador que facilita a entrada do glutamato, em uma reação catalisada pela arginino-succinato sintase. • Síntese da arginina: O arginino-succinato é clivado, liberando uma molécula de fumarato e uma molécula de arginina. O fumarato gerado é utilizado no Ciclo de Krebs, promovendo uma ativação conjunta do ciclo e da síntese de ureia, um processo frequentemente denominado "Bicicleta de Krebs", catalisado pela arginino-succinato liase. • Síntese da Ureia: A arginina formada sofre a ação da enzima arginase, que catalisa a síntese da ureia e a liberação de uma molécula de ornitina. Essa ornitina retorna à mitocôndria, reiniciando o ciclo. Figura 26 – Ciclo da ureia 60 Fonte: Nelson; Cox, 2014. 61 8.4 Catabolismo da cadeia carbonada dos aminoácidos Diariamente, ocorre uma renovação de aproximadamente 400g de proteínas, o que significa que, ao longo do dia, essa mesma quantidade de proteínas é degradada, enquanto uma quantidade equivalente é produzida, garantindo assim uma certa estabilidade na quantidade total de proteínas no organismo. Essa taxa de renovação, conhecida como taxa de turnover, implica na necessidade de obter aminoácidos essenciais por meio da dieta, além da síntese dos aminoácidos não essenciais. Embora o organismo consiga sintetizar 11 aminoácidos, a arginina, embora produzida, é completamente utilizada no ciclo da ureia, tornando-a indispensável na alimentação. Além disso, a cisteína e a tirosina são sintetizadas a partir da metionina e da fenilalanina (que são aminoácidos essenciais), o que significa que apenas nove aminoácidos são verdadeiramente independentes da dieta (NELSON; COX, 2014). Entretanto, uma dieta balanceada fornece uma quantidade significativa de aminoácidos, sejam eles essenciais ou não, ou favorece uma absorção que sempre supera as necessidades diárias. Assim, o catabolismo dos aminoácidos se intensifica após uma refeição rica em proteínas, resultando na produção significativa de ureia, que é um subproduto da degradação do grupo amino, conforme discutido anteriormente. Os cetoácidos gerados nas reações de transaminação e desaminação têm vários destinos metabólicos, que podem ser classificados em duas categorias principais: 1) cetogênicos e 2) glicogênicos. O grupo cetogênico inclui aqueles que são degradados em acetil-CoA (seja de forma direta ou indireta, na forma de acetoacetil-CoA) e que fornecem energia rapidamente no ciclo de Krebs. Os aminoácidos que pertencem a esse grupo incluem fenilalanina, tirosina, triptofano, lisina, isoleucina, treonina e leucina. A acetil-CoA gerada a partir dos aminoácidos cetogênicos não pode ser convertida em glicose, o que a leva a entrar obrigatoriamente no ciclo de Krebs para a produção de energia. Dessa forma, um excesso no catabolismo desses 62 aminoácidos podedesviar a acetil-CoA para a produção de ácidos graxos, colesterol e corpos cetônicos, de maneira semelhante ao que ocorre com um excesso de acetil-CoA proveniente do catabolismo de carboidratos e lipídios. Os aminoácidos glicogênicos, por outro lado, fornecem intermediários do ciclo de Krebs, como oxaloacetato, fumarato, succinil-CoA e α-cetoglutarato, além do piruvato. Esses produtos podem ser convertidos em glicose por meio da gliconeogênese e, assim, gerar energia para as reações metabólicas celulares. Por esse motivo, os aminoácidos que os produzem são chamados de glicogênicos. Alguns aminoácidos cetogênicos (fenilalanina, tirosina, triptofano, isoleucina e treonina) podem ser utilizados como substratos para a gliconeogênese, além de produzir acetil-CoA, sendo, portanto, classificados como glicocetogênicos. A Figura 27 demonstra esquematicamente a entrada dos aminoácidos no metabolismo energético (NELSON; COX, 2014). Figura 27 – Resumo do catabolismo dos aminoácidos 63 Fonte: Nelson; Cox, 2014. 9 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BROWN, T. A. Bioquímica. 1. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018. CAMPBELL, M. K.; FARRELL, S. O. Bioquímica. 2. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2015. CORSINO, J. Bioquímica. Campo Grande, MS: Ed. UFMS, 2009. GALANTE, F; ARAÚJO, M. V. F. Princípios da bioquímica. 1. ed. São Paulo: Rideel, 2019. KOWALTOWSKI, A. O que é metabolismo?. 1. ed. São Paulo: Oficina de Textos, 2015. LIBERATO, M. C. T. C.; OLIVEIRA, M. S. C. Bioquímica. 2º edição, Fortaleza, 64 2019. MAGALHÃES, A. C.; OLIVEIRA, R. C.; BUZALAF, M. A. R. Bioquímica básica e bucal. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. MARQUES, M. R. F. Bioquímica. 1. ed. revisada — Florianópolis: BIOLOGIA/EAD/UFSC, 2014. MARZZOCO, A.; TORRES, B. B. Bioquímica básica. 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022. MCARDLE, W.; KATCH, F. I.; KATCH, V. L. D. Nutrição para o esporte e exercício. 4. ed. - Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2016. MOTTA, V. T. Bioquímica. 2.ed. – Rio de Janeiro: MedBook, 2011. NELSON, D. L.; COX, M. M. Princípios de bioquímica de Lehninger; [tradução: Ana Beatriz Gorini da Veiga ... et al.]. 6. ed. – Porto Alegre: Artmed, 2014. PINTO, W. I. Bioquímica clínica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. SOHN, J. M. B; LIMA, C. P; SILVA FILHO, B. F. Bioquímica geral: moléculas, reações e processos químicos na manutenção do organismo. 1. ed. Curitiba, PR: Intersaberes, 2022. VOET, D.; VOET, I. G. Bioquímica. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2013.como a energia liberada quando a ligação do fosfato de alta energia da fosfocreatina (PC) é rompida, são utilizadas para resintetizar a molécula de ATP. 2.2 Aspectos Biofísicos da Bioenergética Os seres vivos, em condições normais, podem ser vistos sob a perspectiva da termodinâmica como sistemas abertos, pois permitem a troca de energia com o ambiente. Esses organismos operam por meio de transformações cíclicas, nas quais o estado inicial e o estado final são idênticos, mas o processo é irreversível. Isso significa que, embora os estágios iniciais e finais sejam os mesmos, os estados termodinâmicos ao longo do ciclo não são equivalentes. Assim, ao final de cada ciclo ou função vital, o organismo retorna às mesmas condições termodinâmicas, pronto para repetir o processo (CORSINO, 2009). As trocas e transformações de energia nos organismos são regidas pelos três princípios da termodinâmica, que governam os fenômenos da vida. 1º Princípio de Meyer (ENTALPIA), estabelece-se que a energia é indestrutível e não pode ser criada, podendo apenas ser transformada. A maioria das reações biológicas ocorre sob pressão constante, e a quantidade de energia envolvida é representada pela variação de entalpia (H). Quando o volume permanece constante, a transformação é considerada exergônica e exotérmica, o que a torna espontânea; por convenção, a variação de entalpia é indicada por um sinal negativo (-). Dependendo do tipo de reação, o calor liberado pode ser 8 classificado como calor de combustão, calor de reação ou calor de hidrólise, como ocorre, por exemplo, na combustão da glicose. C6 H12 O6 + 6O2 ⇒ 6CO2 + H= - 637 Kcal/mol Por outro lado, quando a transformação é endergônica ou a reação é endotérmica, ela não ocorre de forma espontânea, sendo representada pelo sinal positivo (+). Em todos os organismos vivos, é possível observar transformações energéticas, como a conversão de energia química dos alimentos em energia térmica (aumento de temperatura), a transformação de energia mecânica (contração muscular) em calor, e a geração de eletricidade (bioeletrogênese). Além disso, a energia luminosa é convertida em energia elétrica no aparelho visual, através do estímulo nervoso pelo nervo óptico. A energia elétrica, por sua vez, pode ser transformada em energia mecânica (contração muscular), enquanto a energia sonora (audição) se transforma em energia elétrica. A energia mental, associada a cálculos e pensamentos, também se converte em energia elétrica, como evidenciado por ondas encefalográficas. Outra forma de energia que pode ser identificada é a energia de concentração, que se manifesta na difusão por osmose (CORSINO, 2009). Todo ser vivo se esforça para manter sua energia interna e, idealmente, sua entalpia em níveis constantes. Os gastos energéticos necessários para o funcionamento dos órgãos são compensados pela ingestão de alimentos, garantindo um equilíbrio entre a energia obtida através da alimentação e o trabalho realizado pelo organismo. 2º Princípio ou Princípio de Carnot (ENTROPIA), esse princípio define as condições necessárias para que uma transformação ocorra e as consequências resultantes. Em essência, toda evolução termodinâmica requer um transporte ou uma transformação de energia. Qualquer um desses aspectos pressupõe a presença de uma fonte de energia rica e outra pobre. Assim, não haverá transporte de materiais para dentro ou para fora da célula sem uma diferença de concentração entre os meios. Essa diferença na energia disponível para realizar trabalho (transporte) é denominada energia livre. 9 Todas as transformações energéticas que ocorrem em um ser vivo simbolizam a própria vida, exigindo necessariamente uma fonte rica e outra pobre em energia. A entropia se manifesta de diferentes maneiras ao longo do ciclo vital. Durante o anabolismo, há um armazenamento de energia, resultando em uma entropia negativa. Em um estágio de equilíbrio, com um gasto de energia igual à receita, a entropia é nula. Já no catabolismo, quando o gasto de energia é maior que a receita, a entropia é positiva. 3º Principio de Wernst (ORDEM E DESORDEM), esse princípio destaca principalmente o valor das estruturas na utilização da energia, permitindo que extensas e intensas transformações bioenergéticas ocorram com o mínimo de perda energética e o máximo de rendimento. A natureza emprega moléculas que atuam como tradutoras, transportadoras e transformadoras de energia. (CORSINO, 2009). 3 O METABOLISMO O metabolismo é considerado uma atividade celular altamente direcionada e coordenada, na qual participam diversos sistemas multienzimáticos. Ele representa a soma de todas as transformações químicas que ocorrem em uma célula ou organismo. As principais funções do metabolismo são: • obter energia química do sol ou de nutrientes do ambiente; • converter as moléculas dos nutrientes e da própria célula em precursores das macromoléculas; • polimerizar os precursores em macromoléculas; • sintetizar e degradar as biomoléculas de acordo com a necessidade celular. O metabolismo desempenha um papel fundamental, pois ajuda os organismos a obter a energia necessária para sua sobrevivência e contribui para a contínua renovação de suas estruturas (GALANTE; ARAÚJO, 2019). 10 3.1 As vias metabólicas Os organismos vivos podem ser classificados em dois grandes grupos com base na forma química do carbono que requerem do ambiente. As células autotróficas são capazes de utilizar o dióxido de carbono da atmosfera como sua única fonte de carbono, construindo todas as suas biomoléculas a partir dele. Exemplos desse grupo incluem as bactérias fotossintetizantes e as células das folhas verdes das plantas. Alguns autotróficos, como as cianobactérias, também podem utilizar nitrogênio atmosférico para sintetizar seus compostos nitrogenados. Em contraste, as células heterotróficas não conseguem utilizar o dióxido de carbono atmosférico e precisam obter átomos de carbono na forma de moléculas orgânicas mais complexas, como a glicose. As células de animais superiores e a maioria dos microrganismos são heterotróficas. Enquanto as células autotróficas são relativamente autossuficientes, as células heterotróficas dependem de produtos gerados por outros organismos, devido à sua necessidade de carbono em formas mais elaboradas. Muitos organismos autotróficos realizam a fotossíntese, obtendo energia da luz solar, enquanto as células heterotróficas adquirem a energia necessária por meio da degradação de nutrientes orgânicos que foram sintetizados pelos autotróficos. Esses dois grupos de organismos coexistem na biosfera, participando de um ciclo vasto e interdependente. Os autotróficos utilizam o dióxido de carbono da atmosfera para formar suas biomoléculas e, durante esse processo, alguns deles liberam oxigênio gasoso, que é expelido para a atmosfera. Em contrapartida, os heterotróficos utilizam os produtos orgânicos dos autotróficos como fonte de nutrientes e devolvem o CO2 para a atmosfera. Dessa forma, o carbono e o oxigênio são constantemente reciclados na biosfera, em um processo que envolve grandes quantidades de matéria e é impulsionado pela energia solar. 11 Além disso, muitas células, como as leveduras, podem viver de maneira aeróbica (na presença de oxigênio) ou anaeróbica (na ausência de oxigênio); esses organismos são chamados de facultativos. A maioria das células heterotróficas, especialmente as de organismos superiores, é também facultativa, mas sempre que o oxigênio está disponível, elas preferem utilizar as vias aeróbicas para oxidar os nutrientes. Nem todas as células de um organismo pertencem à mesma classe. Por exemplo, nas plantas superiores, as células verdes que contêm clorofila são autotróficas e realizam a fotossíntese, enquanto as células das raízes, que nãopossuem clorofila, são heterotróficas. Além disso, as células verdes das folhas atuam como autotróficas durante o dia, quando realizam a fotossíntese, mas à noite se comportam como heterotróficas, obtendo energia pela oxidação dos carboidratos que foram sintetizados durante o dia. 3.2 Metabolismo: vias catabólicas e vias anabólicas O metabolismo consiste em uma série de reações bioquímicas que ocorrem de maneira coordenada e pode ser dividido em duas fases: catabolismo e anabolismo. O catabolismo é a fase degradativa do metabolismo, na qual moléculas orgânicas como carboidratos, lipídios e proteínas, que podem vir do ambiente ou dos reservatórios internos da célula, são quebradas por meio de reações sequenciais. Esse processo resulta na formação de produtos finais menores e mais simples, como ácido láctico, CO2 e amônia. Durante o catabolismo, há uma liberação de energia livre associada à estrutura complexa das grandes moléculas orgânicas. Em determinados pontos de uma via catabólica, a maior parte dessa energia livre é retida na forma de adenosina trifosfato (ATP), uma molécula transportadora de energia química. Isso ocorre por meio do acoplamento de reações enzimáticas, que permite que a energia liberada em reações exergônicas seja utilizada para fosforilar adenosina difosfato (ADP), resultando na formação de ATP. 12 Dessa forma, o ATP atua como uma forma de armazenamento de energia química na célula, podendo ser utilizado conforme necessário, como será discutido na fase do anabolismo. Além disso, parte da energia também pode ser armazenada na forma de átomos de hidrogênio ricos em energia (poder redutor), que são transportados pela coenzima nicotinamida adenina dinucleotídeo fosfato (NADPH em sua forma reduzida). Figura 1 – Catabolismo e anabolismo: as vias de degradação e síntese, respectivamente, do metabolismo celular Fonte: Marques, 2014. O anabolismo, também conhecido como reações de biossíntese ou fase biossintetizadora do metabolismo, envolve a união de pequenas moléculas precursoras, ou unidades fundamentais, para formar polímeros, que são as macromoléculas essenciais das células, como proteínas e ácidos nucleicos. Como a biossíntese resulta em uma maior complexidade em termos de tamanho e estrutura molecular, ela exige átomos de hidrogênio ricos em energia, fornecidos pelo NADPH. Tanto o catabolismo quanto o anabolismo ocorrem 13 simultaneamente nas células, e a taxa de cada um desses processos é regulada de forma independente. 3.3 Regulação do metabolismo Para garantir um controle eficiente do metabolismo, é essencial que o anabolismo e o catabolismo ocorram em compartimentos celulares distintos. Isso permite que as enzimas envolvidas em processos biológicos atuem de maneira eficaz. Assim, o anabolismo e o catabolismo podem ocorrer simultaneamente, com velocidades diferentes e em locais separados dentro da célula. Um dos fatores que ajudam a regular o metabolismo é a presença de enzimas de controle, que desempenham a função de regular a velocidade das reações bioquímicas em uma determinada via metabólica. A atividade dessas enzimas pode ser influenciada por diversos fatores, como modificações covalentes, efetores alostéricos e repressão gênica, entre outros. Os seres humanos têm a capacidade de oxidar os nutrientes disponíveis no ambiente, incluindo carboidratos, proteínas e lipídios (Figura 2). Durante a oxidação desses nutrientes, são liberados prótons que são utilizados na síntese de compostos energéticos, como NADH + H⁺ e FADH₂, além de moléculas energéticas que podem ser utilizadas diretamente, como o ATP). Figura 2 – Apresentação do metabolismo 14 Fonte: Galante; Araújo, 2019. Os processos metabólicos podem ser organizados em etapas, que variam de acordo com a quantidade de nutrientes disponíveis, as condições ambientais (aeróbicas ou anaeróbicas) e o organismo em questão. No caso dos seres humanos, focaremos nos seguintes processos: • Glicólise Essa é a via de degradação da glicose (catabolismo) para a produção de energia, na forma de ATP, que serve como reserva energética para o organismo. O produto gerado pela glicólise, o piruvato, pode passar por um processo químico de descarboxilação, resultando na formação de acetil-CoA, que pode ser utilizado no Ciclo de Krebs. • Ciclo de Krebs Nesta etapa do metabolismo, ocorre o consumo do composto acetil-CoA, que pode ser obtido por meio da degradação de moléculas de glicose, ácidos graxos e aminoácidos. Este processo é considerado uma via anfibólica, pois pode ser utilizado tanto no sentido do anabolismo quanto do catabolismo. • Respiração celular A respiração celular é um processo que permite a transferência e utilização da energia solar, armazenada nos carboidratos, pelos organismos 15 vivos. Esse processo extrai a energia contida nos carboidratos, que é originária da luz solar, e a converte em moléculas de ATP, que são mais facilmente acessíveis para uso energético. 3.4 Enzimas As enzimas são proteínas produzidas pelo próprio organismo e têm a função de catalisar reações biológicas. A sobrevivência de uma célula depende diretamente da realização de reações químicas que devem ser específicas, resultando em produtos determinados e ocorrendo a velocidades adequadas. Os catalisadores são substâncias que aceleram a taxa das reações químicas sem se consumirem durante o processo. Eles atuam na transformação do reagente, conhecido como substrato, em produtos e, após a reação, são regenerados. Devido à sua capacidade de regeneração, não é necessário que estejam presentes em grandes quantidades. A ação catalítica das enzimas, assim como a de outros catalisadores, envolve a redução da energia de ativação necessária para que as reações ocorram. Dentro da enzima, existe uma região específica que participa diretamente da conversão do substrato em produto, chamada de centro ou sítio ativo da enzima (C.A.) (Figura 3). Figura 3 – Ação de uma enzima sobre um substrato Fonte: Galante; Araújo, 2019. 3.5 A molécula de ATP As células realizam três tipos principais de trabalho: químico, que envolve a ativação de reações que não ocorreriam espontaneamente; de transporte, que 16 se refere ao movimento de substâncias através da membrana; e mecânico, que inclui a movimentação de cílios. A molécula de adenosina trifosfato (ATP) atua como a unidade de armazenamento e geração de energia para as atividades biológicas nas células. O ATP é composto por uma base nitrogenada (adenina), um açúcar (ribose) e uma cadeia de três grupos fosfato. A hidrólise do ATP ocorre quando a ligação entre os grupos fosfato é rompida, resultando na liberação de energia livre, além de formar ADP (adenosina difosfato) e um íon fosfato (HPO₄²⁻), frequentemente chamado de P𝑖. Essa reação é considerada exergônica, pois libera energia. A síntese de ATP pode ocorrer de várias maneiras, mas a formação dessa molécula a partir de ADP e P𝑖 requer energia, caracterizando a reação como endergônica. Esse ciclo de produção e hidrólise do ATP é fundamental para o metabolismo celular: a energia capturada na conversão de ADP em ATP provém de reações exergônicas, e a liberação dessa energia ocorre por meio da hidrólise do ATP, que fornece energia nos locais necessários dentro da célula. Figura 4 – Representação da molécula de ATP (adenosina trifosfato). A energia liberada pela hidrólise do ATP geralmente é utilizada na transferência de um grupo fosfato dessa molécula para outra, resultando em uma 17 nova molécula que agora é considerada fosforilada. Esse intermediário fosforilado é menos estável e mais reativo do que a molécula original. A formação desse intermediário é crucial para o acoplamento de energia necessário para a realização do trabalho celular, permitindo que um processoexergônico viabilize um processo endergônico (KOWALTOWSKI, 2018). Onde e quando o ATP é formado? A maior parte da produção de ATP ocorre nas mitocôndrias e nos cloroplastos, que estão presentes nas plantas verdes. Essas organelas possuem uma estrutura de membrana dupla (com uma membrana externa e uma interna) que é essencial para a síntese de ATP. Nos organismos procarióticos, a produção de ATP ocorre de maneira semelhante, mas acontece nas dobras da membrana plasmática. Em ambos os casos, a produção de ATP depende do fluxo ou transporte de elétrons através de uma cadeia transportadora de elétrons. Na mitocôndria, durante a respiração celular, os elétrons gerados a partir do catabolismo das biomoléculas se movem através desses transportadores até o aceptor final, e o oxigênio, sendo este reduzido a água (H₂O). Esse movimento de elétrons através de uma série de transportadores na mitocôndria é conhecido como cadeia respiratória. O transporte de elétrons está acoplado à fosforilação do ADP, e a produção de ATP associada a esse transporte é chamada de fosforilação oxidativa. De maneira similar, o fluxo de elétrons em uma cadeia transportadora de elétrons também ocorre no cloroplasto. Nesse processo, os elétrons são originados da excitação do pigmento clorofila pela luz solar, durante a fase clara da fotossíntese, o que também gera a produção de ATP. Esse tipo de produção de ATP dependente de luz é chamado de fotofosforilação. Além desses dois mecanismos principais de produção de ATP, uma pequena quantidade é gerada no citoplasma celular. Esse tipo de produção geralmente ocorre em algumas vias metabólicas, como a via glicolítica, a partir 18 de sutis modificações químicas em uma molécula intermediária da via. Nesse caso, a produção de ATP é independente da presença de oxigênio ou da luz solar. Esse mecanismo de produção é chamado de fosforilação no nível do substrato. Essa produção de ATP é importante quando células, como as musculares, estão operando em condições anaeróbicas. Em condições normais, essa produção representa apenas uma pequena proporção da energia total requerida pela célula eucariótica (MARQUES, 2014). O ATP pode ser produzido a partir de diferentes estratégias metabólicas, conforme ilustrado na Figura 5. Figura 5 – Diferentes estratégias de produção de ATP nas células Fonte: Marques, 2014. 19 3.6 O NADPH transporta energia na forma de força redutora Outra maneira de transportar energia química das reações catabólicas para as reações biossintéticas que necessitam de energia é na forma de átomos de hidrogênio ou elétrons. Quando a glicose é formada a partir de CO2 durante a fotossíntese, ou quando os ácidos graxos são sintetizados a partir de grupos acetil (acetato) no fígado de um animal, é necessária a atuação de um agente redutor na forma de átomos de hidrogênio para reduzir as duplas ligações a ligações simples. Para serem efetivos como agentes redutores, os átomos de hidrogênio devem possuir uma considerável energia livre. Esses átomos de hidrogênio ricos em energia são obtidos de compostos celulares pela ação das desidrogenases, que catalisam a remoção de átomos de hidrogênio das moléculas combustíveis e sua transferência para a forma oxidada da coenzima nicotinamida adenina dinucleotídeo fosfato (NADP+). Essa transferência de elétrons reduz o NADP+. A forma reduzida, ou transportadora de hidrogênio, dessa coenzima é chamada NADPH e é um transportador de elétrons rico em energia para as reações biossintéticas que requerem esses elétrons. Nesse sentido, a atuação do NADPH é semelhante à do ATP, servindo como transportador de grupos fosfato ricos em energia (MARQUES, 2014). Figura 6 – Transporte de energia química na forma de átomos de hidrogênio, através da NADP+ e da NAD+ (oxidadas), e da NADPH e da NADP (reduzidas). 20 Fonte: Marques, 2014. 4 GLICÓLISE As reações metabólicas que fornecem a energia necessária para que uma célula possa realizar suas atividades fisiológicas, crescer e se dividir são de extrema importância. Os seres humanos e outros animais obtêm sua energia por meio da degradação de moléculas orgânicas ingeridas na forma de alimentos. Carboidratos (especialmente a glicose), lipídios e aminoácidos podem ser utilizados como fontes de energias. 4.1 Visão geral da geração de energia A degradação completa de uma molécula de glicose produz seis moléculas de dióxido de carbono e seis de água: 𝑪𝟔𝑯𝟏𝟐𝑶𝟔 + 𝟔𝐎𝟐 → 𝟔𝑪𝑶𝟐 + 𝟔𝑯𝟐 𝑶 O oxigênio é utilizado durante a reação, de modo que, em termos químicos, o processo é uma oxidação. A oxidação da glicose é uma reação altamente exergônica, produzindo 2.870 kJ de energia para cada mol de glicose degradado. Em termos 21 bioquímicos, isso representa uma quantidade substancial de energia; uma reação endergônica típica catalisada por enzima requer apenas cerca de 10 kJ de energia para converter um mol de substrato em um mol de produto. Portanto, a célula degrada a glicose de modo gradual, liberando menores unidades de energia em diferentes estágios do processo. Esses pacotes de energia são armazenados em moléculas transportadoras ativadas. 4.2 A geração de energia bioquímica é um processo em dois estágios A série de reações que libera a energia armazenada em uma molécula de glicose por meio de etapas sequenciais, transferindo essa energia para moléculas de ATP, pode ser descrita como um processo em duas fases. A primeira fase é chamada de glicólise. Durante essa etapa, cada molécula de glicose, que possui seis carbonos, é degradada em duas moléculas de um composto de três carbonos conhecido como piruvato. A glicólise não requer oxigênio, permitindo que ocorra em todas as células de todos os organismos. No entanto, ela libera menos de 7% da energia total disponível na glicose. A energia liberada é utilizada para sintetizar duas moléculas de ATP, além de gerar duas moléculas de NADH para cada molécula de glicose metabolizada (BROWN, 2018). O segundo estágio do processo requer oxigênio e, portanto, ocorre apenas em condições aeróbicas, em células que realizam respiração. Esse estágio é composto por duas vias interconectadas. A primeira delas é o ciclo do ácido tricarboxílico (ATC), também conhecido como ciclo de Krebs, que completa a degradação das moléculas de piruvato geradas na glicólise. Antes de entrar no ciclo do ATC, o piruvato é convertido em acetil CoA, resultando na produção de mais uma molécula de NADH. Em seguida, o ciclo do ATC degrada o acetil CoA, gerando uma molécula de ATP para cada molécula de acetil CoA, além de três moléculas de NADH e uma de FADH2. O acetil CoA também pode ser derivado da degradação de gorduras armazenadas, permitindo que o ciclo do ATC utilize essa outra fonte de energia. A segunda via é a cadeia de transporte de elétrons, 22 que aproveita a energia contida nas moléculas de NADH e FADH2 para sintetizar três moléculas de ATP para cada NADH e duas moléculas de ATP para cada FADH2. Figura 7 – Os dois estágios do processo bioquímico de geração de energia Fonte: Brown, 2018. Por conseguinte, em resumo, cada molécula de glicose produz 38 moléculas de ATP: • A glicólise produz um total de oito moléculas de ATP: duas moléculas são geradas diretamente durante o processo glicolítico, enquanto as outras seis provêm das moléculas de NADH formadas durante a glicólise. • Mais seis moléculas de ATP são geradas a partir das duas moléculas de NADH produzidas durante a conversão dos dois piruvatos formados na glicólise em duas moléculas de acetil CoA. • Durante o ciclo de Krebs (ATC), são geradas mais duas moléculas de ATP, sendo uma proveniente de cada uma das duas moléculas de acetil CoA. • As 22 moléculas finais de ATP são produzidas a partir das moléculas de NADH e 𝐹𝐴𝐷𝐻2 que também são geradasdurante o ciclo de Krebs (ATC). As 38 moléculas de ATP correspondem a 38 × 30,84 = 1.173 kJ mol–1 de energia. Esta quantidade representa apenas 41% da energia total contida na 23 glicose. O que acontece com o restante? Essa energia é perdida na forma de calor, que, nas criaturas de sangue quente, como os seres humanos, ajuda manter a temperatura corporal (BROWN, 2018). 4.3 Via glicolítica A glicose fornece ATP em condições tanto aeróbicas quanto anaeróbicas. Para produzir ATP, os organismos iniciam o processo de glicólise, utilizando a molécula de glicose como substrato. A glicólise ocorre em todas as células (MAGALHÃES; OLIVEIRA; BUZALAF, 2017). Nas hemácias, que não possuem mitocôndrias, a glicose é metabolizada exclusivamente por meio da glicólise. (RODWELL et al., 2017). A glicólise consiste em uma série de dez reações enzimáticas, nas quais uma molécula de glicose é convertida em duas moléculas de ácido pirúvico (piruvato), resultando em um saldo final de duas moléculas de ATP. Na presença de oxigênio (𝑂2), o piruvato é oxidado a C𝑂2 e água através do ciclo do ácido cítrico (ciclo de Krebs), que está acoplado à fosforilação oxidativa (PINTO, 2017). O processo se inicia com a glicólise, onde a glicose é transformada em piruvato, gerando ATP. O piruvato é então transportado para a mitocôndria, onde é convertido em acetil-CoA, essencial para a continuidade das reações do ciclo de Krebs, que também produzem ATP e C𝑂2 . Após a formação de NADH e 𝐹𝐴𝐷𝐻2 no ciclo de Krebs, essas moléculas são utilizadas na fosforilação oxidativa, resultando na produção de ATP e água na presença de oxigênio. Além da produção de ATP, a glicólise gera nicotinamida-adenina- dinucleotídeo (NADH), considerado um importante carreador de elétrons na oxidação de compostos energéticos, a partir do NAD+ presente no citoplasma. A parte reativa do NAD+ é seu anel de nicotinamida; na oxidação de um substrato, esse anel do NAD+ aceita um íon hidrogênio e dois elétrons. A forma reduzida do carreador é denominada NADH. Na forma oxidada, o átomo de nitrogênio apresenta carga elétrica positiva, sendo representado por NAD+ . A Figura 8 ilustra o NAD+ sendo convertido em NADH. 24 Figura 8 – Conversão NAD+ em NADH Fonte: Sohn; Lima; Silva Filho, 2022. De maneira geral, o processo de glicólise é dividido em duas fases. No Quadro 1, são apresentadas as reações de cada uma dessas etapas da glicólise. Quadro 1 – Reações da glicólise 25 Fonte: Sohn; Lima; Silva Filho, 2022. Primeira fase Nesta fase, a molécula de glicose é convertida em duas moléculas de gliceraldeído-3-fosfato, que correspondem às etapas 1 a 5 apresentadas no Quadro 1. A Figura 9 a seguir ilustra as reações da primeira fase da glicólise. Figura 9 – Reações da primeira fase da glicólise 26 Fonte: Sohn; Lima; Silva Filho, 2022. Na Figura 9, observamos que uma molécula de glicose é fosforilada, formando glicose-6-fosfato, que é convertida em frutose-6-fosfato. Ocorre uma nova fosforilação, gerando frutose-1,6-bisfosfato, que é convertida em gliceraldeído-3-fosfato e di-hidroxiacetona fosfato. Inicialmente, no citoplasma, a glicose é fosforilada pelo ATP para formar glicose-6-fosfato e ADP (etapa 1). Essa reação é catalisada pela enzima hexoquinase. A glicose-6-fosfato é então convertida em frutose-6-fosfato pela fosfoglicoisomerase (etapa 2). Em seguida, ocorre nova fosforilação, sendo a frutose-6-fosfato fosforilada pelo ATP para formar frutose-1,6-bisfosfato e ADP, 27 reação catalisada pela fosfofrutoquinase (etapa 3). Na sequência, a frutose-1,6- bisfosfato é clivada pela aldolase, formando gliceraldeído-3-fosfato e di- hidroxiacetona fosfato (etapa 4). A di-hidroxiacetona fosfato é convertida em gliceraldeído-3-fosfato pela triose fosfato isomerase (etapa 5) (BROWN, 2018). Segunda fase No Quadro 1, a segunda fase da glicólise é composta pelas etapas 6 a 10. Nessa fase, o gliceraldeído-3-fosfato é convertido em 1,3-bisfosfoglicerato, em uma reação catalisada pela gliceraldeído-3-fosfato desidrogenase, que utiliza fosfato inorgânico (P) e NAD+ . Durante essa reação, ocorre a liberação de elétrons, resultando na formação de uma molécula de NADH (etapa 6). Esta é a primeira reação da glicólise que aproveita a energia contida na molécula de glicose, armazenando-a em um carreador ativado (BROWN, 2018). A transferência de um grupo fosfato do 1,3-bisfosfoglicerato para o ADP, resultando em ATP e 3-fosfoglicerato, é catalisada pela fosfoglicerato quinase (etapa 7). O 3-fosfoglicerato é então convertido em 2-fosfoglicerato pela fosfoglicerato mutase (etapa 8). Na etapa 9, a enolase catalisa a remoção de água do 2-fosfoglicerato, resultando na formação de fosfoenolpiruvato. Finalmente, na etapa 10, a piruvato quinase catalisa a transferência do grupo fosfato do fosfoenolpiruvato para o ADP, gerando ácido pirúvico e ATP (BROWN, 2018). Durante essa segunda fase, o gliceraldeído-3-fosfato é convertido em piruvato, resultando na produção de duas moléculas de ATP e uma de NADH. (Figura 10). Figura 10 – Reações da segunda fase da glicólise 28 Fonte: Sohn; Lima; Silva Filho, 2022. Na Figura 10, estão ilustradas as reações químicas que ocorrem na segunda fase da glicólise. Inicialmente, o gliceraldeído-3-fosfato é convertido em 1,3-bisfosfoglicerato, resultando na formação de NADH e H+. Em seguida, o 1,3- bisfosfoglicerato é transformado em 3-fosfoglicerato, gerando ATP. O 3- fosfoglicerato é então convertido em 2-fosfoglicerato, que por sua vez é transformado em fosfoenolpiruvato. Este último é finalmente convertido em ácido pirúvico (piruvato), com a produção adicional de ATP. O piruvato gerado na glicólise pode seguir três caminhos diferentes. Neste capítulo, focaremos no uso do piruvato no processo aeróbico (na presença de 29 O2) para a produção de ATP, através de sua conversão em acetil-CoA. A Figura 11 mostra os possíveis destinos do piruvato no metabolismo energético. Figura 11 — Destinos do piruvato no metabolismo energético Fonte: Sohn; Lima; Silva Filho, 2022 A Figura 11 destaca os possíveis destinos do piruvato no metabolismo energético. No processo anaeróbico, representado em um tom de cinza mais escuro, ocorre a fermentação alcoólica, com a produção de etanol e CO2, ou a fermentação láctica, com a produção de lactato. Já no processo aeróbico, representado em um tom de cinza mais claro, o piruvato é utilizado para a produção de acetil-CoA e CO2. Regulação da glicólise A via glicolítica tem a função de fornecer ATP à célula, sendo regulada para manter a síntese de ATP dentro dos valores necessários para cada tipo celular. A fosfofrutoquinase e a piruvato quinase são pontos de regulação e sofrem inibição quando os níveis de ATP estão elevados. O ATP é um inibidor alostérico da fosfofrutoquinase; portanto, altos níveis de ATP promovem a inibição dessa enzima (PINTO, 2017). Frutose e galactose A frutose e a galactose são monossacarídeos que também podem ser utilizados na produção de ATP. A frutose é frequentemente encontrada na dieta humana, especialmente em frutas e tubérculos. Em geral, a substituição da 30 glicose pela frutose não causa problemas, pois a hexoquinase, que catalisa a conversão da glicose em glicose-6-fosfato, também pode usar a frutose como substrato. Assim, a frutose-6-fosfato resultante é incorporada na terceira reação da glicólise. Outra situação envolve a conversão da frutose em frutose-1-fosfato pela enzima frutoquinase. A enzima frutose-1-fosfato aldolase, por sua vez, transforma a frutose-1-fosfato em gliceraldeído e di-hidroxiacetona fosfato, sendo que esta última é incorporada na via glicolítica. O gliceraldeído é então fosforilado pela triose quinase, resultando na formação de gliceraldeído-3-fosfato, que também participa da via glicolítica (BROWN, 2018). As reações estão ilustradas na 12. Figura 12 – Metabolismo da frutose para a produção de ATP Fonte: Sohn; Lima; Silva Filho, 2022 31 Na Figura 12, na parte “a”, a frutose é transformada em frutose-6-fosfato, que é o substrato da etapa 3 da glicólise. Na parte “b”, a frutose é convertida em frutose-1-fosfato, resultando na produção de di-hidroxiacetona fosfato e gliceraldeído. A di-hidroxiacetona fosfato é então convertida em gliceraldeído-3- fosfato, que também é um substrato da via glicolítica. O gliceraldeído é, por sua vez, transformado em gliceraldeído-3-fosfato, dando continuidade às reações da via glicolítica. A galactose e a glicose são epímeros que se diferenciam apenas pela configuração do carbono 4. As enzimas envolvidas na glicólise são específicas e não reconhecem a configuração da galactose. Portanto, é necessário converter a galactose em galactose-1-fosfato, que é então transformada em glicose-1- fosfato. Em seguida, a glicose-1-fosfato é convertida em glicose-6-fosfato pela ação da fosfoglicomutase, permitindo sua entrada na via glicolítica para a produção de ATP (VOET; VOET, 2013) (Figura 13). Figura 13 – Metabolismo da galactose para a produção de ATP Fonte: Sohn; Lima; Silva Filho, 2022. 32 Na Figura 13, é ilustrado o metabolismo da galactose para a produção de ATP. Inicialmente, a galactose é convertida em galactose-1-fosfato, que posteriormente se transforma em glicose-1-fosfato. Esta, por sua vez, é convertida em glicose-6-fosfato, um substrato da via glicolítica. Assim, a glicose- 6-fosfato gerada a partir da galactose é utilizada na glicólise para a produção de piruvato e ATP. 5 O CICLO DE KREBS O ciclo do ácido cítrico, também conhecido como ciclo de Krebs ou ciclo dos ácidos tricarboxílicos, representa a etapa final comum para a oxidação de moléculas energéticas. Os átomos de carbono entram no ciclo na forma de grupos acetila provenientes de glicose, ácidos graxos, aminoácidos, corpos cetônicos e acetato. O grupo acetila, que se liga à coenzima A (acetil-CoA), é oxidado em oito reações mitocondriais, resultando na liberação de duas moléculas de CO2. Os elétrons de alta energia gerados durante essa oxidação são utilizados para produzir equivalentes redutores na forma de NADH e FADH2. O NADH (nicotinamida adenina dinucleotídeo – forma reduzida) e o FADH2- (flavina adenina dinucleotídeo forma reduzida –) são oxidados, e os elétrons são conduzidos pela cadeia mitocondrial transportadora de elétrons com a liberação de energia conservada na forma de ATP, sintetizado a partir de ADP e de fosfato inorgânico por meio de um processo denominado fosforilação oxidativa. O ciclo também gera diretamente compostos de alta energia (GTP ou ATP). 5.1 Funções do ciclo do ácido cítrico A acetil-CoA é o ponto de interseção das principais vias de oxidação dos combustíveis metabólicos. Ela é gerada diretamente a partir da β-oxidação de ácidos graxos e do acetato (proveniente da dieta ou da oxidação do etanol). A glicose e outros carboidratos são metabolizados na glicólise, resultando na 33 formação de piruvato. Os aminoácidos alanina e serina também podem ser convertidos em piruvato. Este, por sua vez, é oxidado a acetil-CoA pelo complexo da piruvato desidrogenase. Além disso, vários aminoácidos, como leucina e isoleucina, são oxidativos a acetil-CoA. O catabolismo dos corpos cetônicos (como acetoacetato e β-hidroxibutirato) também contribui para a formação de acetil-CoA. Assim, a oxidação da acetil-CoA em CO2 no ciclo do ácido cítrico representa a etapa final das principais vias de oxidação das moléculas metabólicas. As principais funções do ciclo incluem: • Geração de energia: O ciclo do ácido cítrico é a principal fonte de energia para os seres humanos. Ele é responsável pela oxidação completa das moléculas de acetil-CoA, que podem ser originadas da reação catalisada pelo complexo da piruvato desidrogenase, da β-oxidação de ácidos graxos, da oxidação de aminoácidos e etanol, bem como do catabolismo de corpos cetônicos e de qualquer substância que possa ser metabolizada em componentes do ciclo. A cada volta do ciclo, é produzida uma única molécula de nucleotídeo trifosfato (GTP) de alta energia. A maior parte da energia gerada no ciclo provém da remoção de elétrons da acetil-CoA, que são capturados pelo NAD+ e FAD , formando NADH e FADH2. Quando esses dois transportadores de elétrons são oxidados pelo O2 na cadeia respiratória mitocondrial, a energia liberada é convertida em ATP através do processo de fosforilação oxidativa. • Produção de precursores biossintéticos: Alguns intermediários do ciclo do ácido cítrico são removidos e utilizados na síntese de outras substâncias celulares. Por exemplo, a succinil-CoA é um precursor para a síntese do grupo heme. Da mesma forma, o α-cetoglutarato, gerado quando certos aminoácidos são degradados, pode entrar no ciclo e ser transformado em malato, sendo então exportado para o citoplasma. O malato, pela ação da malato desidrogenase, é oxidado a oxaloacetato e usado para sintetizar glicose pelo processo de gliconeogênese. • Fonte de acetil-CoA para a síntese de ácidos graxos e colesterol: Os dois tipos celulares com maior capacidade de síntese de ácidos graxos 34 são os hepatócitos (células do fígado) e os adipócitos (células adiposas). Quase toda a acetil-CoA utilizada para a síntese de ácidos graxos é gerada na mitocôndria pela reação catalisada pelo complexo da piruvato desidrogenase. Os grupos acetila são então transportados para fora das mitocôndrias na forma do intermediário do ciclo do ácido cítrico chamado citrato. A acetil-CoA regenerada a partir do citrato no citoplasma serve como substrato para a síntese de ácidos graxos e colesterol. • Produção de citrato que regula outras vias metabólicas: A concentração de citrato nas células é fortemente influenciada pela carga energética celular. Quando essa carga é alta, o ATP inibe a atividade do ciclo do ácido cítrico, resultando em um aumento nos níveis de citrato. Em situações de alta concentração de ATP mitocondrial, o citrato é transportado para o citoplasma, onde desempenha um papel regulador na glicólise, gliconeogênese e síntese de ácidos graxos. No citoplasma, o citrato inibe a fosfofrutocinase-1 (PFK-1) na glicólise, estimula a gliconeogênese ao ativar a frutose 1,6-bisfosfatase e promove a síntese de ácidos graxos pela ativação da enzima acetil-CoA carboxilase. • Enzimas do ciclo do ácido cítrico participam de mecanismos que lançam equivalentes redutores para a mitocôndria: A glicólise produz NADH no citoplasma, mas este não consegue atravessar a membrana mitocondrial. Para transferir os elétrons do NADH citoplasmático para a cadeia de transporte de elétrons mitocondrial e para a fosforilação oxidativa, são utilizados sistemas de lançadeiras que envolvem enzimas do ciclo do ácido cítrico. 5.2 Ciclo do ácido cítrico O catabolismo de carboidratos e lipídios (ácidos graxos) começa com a conversão desses compostos em fragmentos de dois carbonos, correspondendo ao grupo acetil da molécula de acetil-CoA. O acetil gerado é então oxidado no ciclo do ácido cítrico. Este ciclo é uma via cíclica na qual um dos substratos, o 35 oxaloacetato, é regenerado ao final de cada volta. O ciclo é composto por oito etapas (BROWN, 2018). • Primeira etapa: ocorre a condensação da molécula de acetil-CoA com uma molécula de oxaloacetato (reação catalisada pela enzima citrato sintase), resultando na molécula de citrato (ácido cítrico) (MAGALHÃES; OLIVEIRA; BUZALAF, 2017) (Figura 14). Figura 14 – Reação da primeira etapa do ciclo do ácido cítrico Fonte: Sohn; Lima; Silva Filho, 2022. • Segunda etapa: acontece uma reação de isomerização mediada pela aconitase, que converteo citrato em isocitrato (BROWN, 2018). • Terceira etapa: a enzima isocitrato desidrogenase oxida o isocitrato a o- cetoglutarato, ocorrendo o desprendimento de CO2. Uma molécula de NAD+ é convertida em NADH, liberando H+ no meio reacional. Na Figura 15, estão representadas a segunda e a terceira etapas do ciclo do ácido cítrico. Figura 15 – Reações da segunda e terceira etapas do ciclo do ácido cítrico Fonte: Sohn; Lima; Silva Filho, 2022. 36 Quarta etapa: o a-cetoglutarato passa por um processo de descarboxilação oxidativa, reação catalisada pela enzima a-cetoglutarato desidrogenase, formando-se succinil-CoA, CO, e mais um NADH e H+ (MAGALHÃES; OLIVEIRA; BUZALAF, 2017) (Figura 16). Figura 16 – Reação da quarta etapa do ácido cítrico Fonte: Sohn; Lima; Silva Filho, 2022. • Quinta etapa: o succinil-CoA é convertido em succinato, por meio de uma reação catalisada pela enzima succinil-CoA sintase. Como consequência dessa reação, uma molécula de guanosina trifosfato (GTP) é formada. Essa molécula de GTP equivale energeticamente à molécula de ATP (MAGALHÃES; OLIVEIRA; BUZALAF, 2017). A Figura 17 apresenta a reação da quinta etapa. Figura 17 – Reações da quinta etapa Fonte: Sohn; Lima; Silva Filho, 2022. • Sexta etapa: a succinato desidrogenase oxida o succinato a fumarato, com conversão de FAD em FADH, (Brown, 2018). 37 • Sétima etapa: a fumarase catalisa a hidratação da dupla ligação do fumarato, havendo a produção de malato. Na figura 18, estão representadas a sexta e a sétima etapas do ciclo do ácido cítrico. Figura 18 – Reações da sexta e sétimas etapas do ciclo cítrico Fonte: Sohn; Lima; Silva Filho, 2022. • Oitava etapa: ocorre a regeneração do oxalacetato pela malato desidrogenase com a redução concomitante de um terceiro NAD+ a NADH, liberando-se H+ no meio reacional (VOET; VOET, 2013) (Figura 19). Figura 19 – Reação da oitava etapa do ciclo de krebs Fonte: Sohn; Lima; Silva Filho, 2022. A Figura 20 apresenta uma visão simplificada das substâncias que entram e são geradas durante as reações do ciclo do ácido cítrico. Nela, observa-se que a acetil-CoA reage com o oxaloacetato para formar citrato. Ao longo das reações, são produzidos 3 NADH + 3 H+ , 1 FADH2 e 1 GTP (equivalente a ATP). O oxaloacetato é regenerado ao final do ciclo. Figura 20 – Ciclo do ácido cítrico completo 38 Fonte: Lenhiger, 2018. Dissemos inicialmente que a principal função da respiração aeróbia é formar ATP para as reações celulares. No entanto, até este ponto, temos apenas a formação líquida de quatro moléculas de ATP (2 na glicólise e 2 no ciclo do ácido cítrico). A maior parte da energia produzida está atualmente nas moléculas de NADH e FADH2, que são transportadores de elétrons. Na próxima etapa do processo de respiração celular, toda a energia contida nesses transportadores será utilizada na síntese de ATP. Essa etapa é chamada de fosforilação oxidativa. 39 6 FOSFORILAÇÃO OXIDATIVA A fosforilação oxidativa se divide em duas etapas: a cadeia transportadora de elétrons e a quimiosmose. Estrutura e função da cadeia de transporte de elétrons Agora, vamos analisar os componentes da cadeia de transporte de elétrons e entender como os elétrons são transferidos de um doador, como o NADH ou o FADH2, ao longo dessa cadeia. A cadeia de transporte de elétrons é composta por quatro grandes estruturas, conhecidas como Complexos I a IV, que estão localizadas na membrana interna da mitocôndria. Os elétrons do NADH entram na cadeia através do Complexo I, enquanto os elétrons do FADH2 se conectam ao Complexo II (Figura 21). A transferência de elétrons do Complexo I ou II para o Complexo III requer uma molécula transportadora intermediária, chamada ubiquinona ou coenzima Q (CoQ). A transferência do Complexo III para o Complexo IV é realizada por meio do citocromo c. Finalmente, os elétrons são transferidos para o oxigênio a partir do Complexo IV. Figura 21 – Estrutura da cadeia de transporte de elétrons Fonte: Brown, 2018. Cada um dos quatro complexos é uma proteína composta por várias subunidades, variando de quatro subunidades no Complexo II até 44 no Complexo I. No entanto, as proteínas em si não são as principais responsáveis 40 pela transferência de elétrons. Alguns aminoácidos podem atuar como doadores e aceptores de elétrons, mas dentro das cadeias polipeptídicas, esses aminoácidos não possuem a afinidade por elétrons necessária para permitir a liberação gradual de energia que caracteriza a cadeia de transporte de elétrons. Na verdade, os componentes responsáveis pela ligação dos elétrons nos complexos são grupos prostéticos não proteicos. Os tipos desses grupos são os seguintes: • O Complexo I possui flavina mononucleotídeo (FMN) e oito grupamentos de ferro-enxofre (FeS). Esses grupamentos são formados por átomos de ferro que estão coordenados com átomos de enxofre inorgânico, além de enxofre proveniente de uma cadeia lateral de cisteína em uma das subunidades polipeptídicas do complexo (Figura 21). Um polipeptídeo que contém um grupamento de ferro-enxofre é conhecido como proteína de ferro-enxofre ou proteína FeS. • O Complexo II inclui uma proteína FeS com três grupamentos FeS. • O Complexo III possui uma única proteína FeS e três citocromos. Um citocromo é uma proteína que contém um ou mais grupos prostéticos de heme. Existem diferentes tipos de citocromos, dependendo da sequência de aminoácidos do polipeptídeo e da estrutura exata do grupo heme. Os citocromos presentes no Complexo III são chamados citocromo b562 e citocromo b566, ambos com dois grupos heme, e citocromo c1, que possui um grupo heme. • O Complexo IV inclui dois citocromos adicionais: o citocromo a e o citocromo a3. O citocromo a está ligado a dois íons de cobre, conhecidos como CuA , enquanto o citocromo a3 possui um terceiro íon de cobre, denominado CuB. 41 6.1 A transferência de elétrons ao longo da cadeia de transporte de elétrons Observamos que a cadeia de transporte de elétrons é composta por quatro complexos, onde a CoQ atua como mediadora na transferência de elétrons entre os Complexos I e III, assim como entre os Complexos II e III. O citocromo c, por sua vez, facilita a transferência entre os Complexos III e IV. Agora, vamos analisar essa via em detalhes, começando pelo NADH. Podemos dividir o processo em três etapas, cada uma correspondendo a um complexo distinto (Figura 22). Figura 22 – A transferência de elétrons ocorre na cadeia de transporte de elétrons Fonte: Brown, 2018. Etapa 1 – O complexo NADH-CoQ redutase (Complexo I). O NADH se liga ao Complexo I, liberando dois elétrons que são transferidos para o FMN, reduzindo-o a FMNH2 . Cada transferência de elétrons é acompanhada pela captação de um íon H+ da matriz mitocondrial aquosa. Em seguida, os elétrons são transferidos para os grupamentos FeS do Complexo I, reduzindo os íons Fe3+ (férricos) desses grupamentos a íons Fe2+ (ferrosos). Simultaneamente, ocorre a regeneração do FMN a partir do FMNH2 . Por fim, os elétrons são transferidos dos grupamentos FeS para a CoQ, produzindo a forma reduzida desse composto, chamada ubiquinol (CoQH2) . Portanto, a reação global da etapa I consiste na transferência de um íon H+ do NADH e de um da matriz para a CoQ: 𝑵𝑨𝑫𝑯 + 𝑪𝒐𝑸 + 𝐇+ → 𝐍𝐀𝐃++ 𝐂𝐨𝐐𝐇𝟐 42 Essa reação apresenta uma ΔG0′ de –69,5 kJ mol–1, que é utilizada para transferir quatro íons H+ através da membrana mitocondrial interna, da matriz mitocondrial para o espaço existente entre as duas membranas mitocondriais. Por conseguinte, o Complexo I atua como bomba de prótons. Etapa 2 – O complexo 𝐂𝐨𝐐𝐇𝟐-citocromo c redutase (Complexo III). A CoQH2 é lipossolúvel e, portanto, pode mover-se por dentro da membrana mitocondrial interna. Por conseguinte,ela pode transferir os elétrons que ela transporta para o Complexo III, o próximo componente da cadeia. Dentro do Complexo III, os elétrons são inicialmente transferidos para os grupos heme do citocromo b562, reduzindo o íon Fe3+ contido no grupo heme a Fe2+ (ver Figura 22). Em seguida, os elétrons fluem para o citocromo b566 , e, então, para o grupamento FeS do Complexo III, ao grupo heme do citocromo C1 e, finalmente, para o citocromo c. A reação global pode ser então descrita da seguinte maneira: 𝐂𝐨𝐐𝐇𝟐 + 𝟐𝐜𝐢𝐭𝐜𝟑+ → 𝑪𝒐𝑸 + 𝟐𝐇+ + 𝟐𝐜𝐢𝐭𝐜𝟐+ em que 𝑐𝑖𝑡𝑐3+ e 𝑐𝑖𝑡𝑐2+ são as formas oxidada e reduzida do citocromo c, respectivamente. A energia liberada na etapa 2 é suficiente para bombear mais quatro íons H+através da membrana mitocondrial interna. Etapa 3 – O complexo citocromo c oxidase (Complexo IV). O citocromo c atua como elo entre os Complexos III e IV. Ele transfere inicialmente elétrons para os íons 𝐶𝑢𝐴 , reduzindo 𝐶𝑢2+ (cúprico) a 𝐶𝑢+ (cuproso). Em seguida, os elétrons são transferidos através do grupo heme do citocromo a para o íon 𝐶𝑢𝐵, depois para o grupo heme do citocromo 𝑎3 e, finalmente, para o oxigênio, resultando na formação de 𝐻2 𝑂. A reação global é a seguinte: 𝟐𝐜𝐢𝐭𝐜𝟐+ + 𝟐𝐇+ + ½𝑶𝟐 → 𝟐𝐜𝐢𝐭𝐜𝟑+ + 𝑯𝟐 𝑶 Essa reação, que conclui a oxidação da molécula original de NADH, libera energia adicional, suficiente para transferir dois íons 𝐻+ através da membrana mitocondrial interna. 43 Para entender como o FADH2 se insere na via, precisamos voltar ao início da cadeia de transporte de elétrons. Esse ponto de entrada será chamado de etapa 1*. Etapa 1*. O complexo succinato-CoQ redutase (Complexo II). Na etapa 6 do ciclo de Krebs (TCA), o succinato é oxidado a fumarato pela enzima succinato desidrogenase, que está localizada na membrana mitocondrial interna e está intimamente associada ao Complexo II. Os dois elétrons liberados durante a oxidação do succinato resultam na formação de FADH2 , que imediatamente transfere seus elétrons para os grupamentos FeS do Complexo II. A partir desses grupamentos, os elétrons são transferidos para a CoQ e, em seguida, para os Complexos III e IV, da mesma forma que ocorre com o NADH. Devido à estreita relação entre a succinato desidrogenase e o Complexo II, frequentemente representamos a reação global para a entrada de FADH2 na cadeia de transporte de elétrons da seguinte maneira: Succinato + CoQ → fumarato + 𝐂𝐨𝐐𝐇𝟐 A reação libera energia, porém não o suficiente para transferir qualquer íon H+ através da membrana mitocondrial interna. Essa incapacidade do Complexo II de bombear elétrons através da membrana é responsável pela diferenç a no número de moléculas de ATP que pode ser produzido por molécula de FADH2, em comparação com o NADH. Figura 23 – Transferência de elétrons do FADH2 para o Complexo II da cadeia de transporte de elétrons Fonte: Brown, 2018. 44 6.2 Síntese de ATP O fluxo de elétrons na cadeia respiratória resulta na produção de ATP por meio do processo de fosforilação oxidativa. A teoria quimiosmótica, proposta por Peter Mitchell (1920-1992) em 1961, sugere que esses dois processos estão interligados por um gradiente de prótons na membrana mitocondrial interna. Esse gradiente gera uma força próton-motora, decorrente da diferença de potencial eletroquímico (negativa na matriz), que impulsiona a síntese de ATP (RODWELL et al., 2017). O Complexo V é constituído pela ATP sintase, uma enzima formada por várias subunidades que sintetiza ATP utilizando a energia do gradiente de H+ (FERRIER, 2019). Os prótons retornam à matriz através dos canais de prótons na parte F da ATP sintase. Esse fluxo de prótons está ligado à formação de ATP, que ocorre na unidade F (CAMPBELL; FARRELL, 2015). O oxigênio desempenha um papel indireto na conversão de ADP em ATP; cinco íons H+ entram na mitocôndria porque o oxigênio diminui a concentração desses íons durante a formação de água no Complexo IV (BETTELHEIM et al., 2012). Outro aspecto a ser considerado na produção de ATP é o das duas moléculas de NADH geradas na glicólise, que se encontram fora da mitocôndria. A membrana mitocondrial interna impede a entrada de NADH na matriz mitocondrial, de modo que o NADH produzido pela glicólise não pode entrar diretamente na cadeia de transporte de elétrons. Portanto, os elétrons dessas moléculas de NADH são transferidos para uma molécula capaz de atravessar a membrana mitocondrial interna. A oxidação subsequente dessa molécula transportadora mitocondrial gera NADH ou FADH2 no interior da matriz mitocondrial, os quais podem então entrar na cadeia de transporte de elétrons. 6.3 Saldo de ATP Aproximadamente 2,5 moléculas de ATP são geradas para cada molécula de NADH que entra na cadeia transportadora de elétrons, e cerca de 1,5 45 molécula de ATP para cada molécula de FADH2 (CAMPBELL; FARRELL, 2015). Na glicólise, são produzidas 7 moléculas de ATP (2 ATP diretamente e 5 ATP pela oxidação posterior de 2 NADH, considerando a geração de 2,5 ATP para cada NADH). Na oxidação do piruvato, são formadas mais 5 moléculas de ATP (2 NADH). A oxidação da acetil-CoA promove a produção de 20 moléculas de ATP (6 NADH + 2 FADH2+ 2 𝐺𝑇𝑃), levando em conta a similaridade energética entre ATP e GTP. No total, são produzidas 32 moléculas de ATP. 6.4 Controle da síntese de ATP Em grande parte das condições fisiológicas, o transporte de elétrons está rigidamente acoplado à fosforilação. Em geral, os elétrons não fluem pela cadeia de transporte de elétrons até o oxigênio, a menos que o ADP seja simultaneamente fosforilado a ATP. Quando a concentração de ADP aumenta, a taxa de fosforilação oxidativa se eleva para atender à demanda por ATP. 6.5 Inibidores da cadeia transportadora de elétrons Existem diferentes classes de substâncias que podem afetar o funcionamento da cadeia de transporte de elétrons. Essas substâncias atuam em locais específicos da cadeia, bloqueando a passagem de elétrons. Exemplos incluem o amital, que é um anticonvulsivante e anestésico geral, e o cianeto, utilizado em câmaras de gás durante a Segunda Guerra Mundial e como pesticida na agricultura. Além disso, há substâncias que funcionam como “desconectores” da fosforilação oxidativa, como venenos de serpentes e compostos como 2,4-dinitrofenol e dinitrocresol. Outras substâncias, como a oligomicina, um antibiótico usado como antifúngico, inibem a ATP sintase. 46 6.6 Desacopladores da transferência de elétrons e termogênese Recém-nascidos, animais hibernantes e mamíferos adaptados ao frio precisam de uma produção de energia maior do que a normalmente gerada pelo metabolismo para manter a temperatura corporal. Em condições normais, o transporte de elétrons e a síntese de ATP estão intimamente acoplados, de modo que o calor produzido é mantido no mínimo. No tecido adiposo marrom, a maior parte da energia gerada pela cadeia de transporte de elétrons mitocondrial não é utilizada para sintetizar ATP. Em vez disso, essa energia é dissipada na forma de calor. (Esse tecido tem coloração marrom devido à sua riqueza em mitocôndrias e intensa vascularização.) Aproximadamente 10% da proteína presente na membrana mitocondrial interna é constituída pela termogenina ou proteína desacopladora 1 (UCP-1). A termogenina é uma proteína transmembrana localizada na membrana mitocondrial interna, que contém canais que permitem o retorno de prótons para a matriz mitocondrial sem passar pelo complexo Fo-F1 da ATP sintase. Dessa forma, quando a termogenina está ativa, a energia da oxidação não é conservada na forma de ATP, mas dissipada como calor. A via de dissipação de prótons é ativada quando a temperatura corporal interna começa a diminuir. Esse fato estimula a liberação de hormônios que ativam enzimas que hidrolisam os ácidosgraxos dos triacilgliceróis, os quais, por sua vez, ativam a termogenina. Em adultos, o tecido adiposo marrom está virtualmente ausente, mas em recém- nascidos responde por cerca de 5% do peso corporal (MOTTA, 2011). O processo de geração de calor no tecido adiposo marrom, chamado de termogênese sem tremor induzida pelo frio, é regulado pela noradrenalina (na termogênese com tremor, o calor é produzido pela contração muscular involuntária). A noradrenalina, um neurotransmissor liberado por neurônios especializados com terminações no tecido adiposo marrom, inicia um mecanismo em cascata que hidrolisa as moléculas de gordura. Os ácidos graxos produzidos pela hidrólise dos triacilgliceróis ativam a proteína desacopladora. A 47 oxidação dos ácidos graxos continua até que o sinal da noradrenalina cesse ou até que as reservas de gordura se esgotem. 7 METABOLISMO DOS LIPÍDEOS A maioria dos lipídios presentes no corpo se classifica em várias categorias, incluindo ácidos graxos e triacilgliceróis; glicerofosfolipídeos e esfingolipídeos; eicosanoides; colesterol, sais biliares, hormônios esteroides e vitaminas lipossolúveis. Embora esses lipídios apresentem diferentes estruturas químicas e funções, todos compartilham uma característica comum: a relativa insolubilidade em água. Os lipídios da dieta, absorvidos pelo intestino, e aqueles sintetizados pelo organismo são distribuídos nos tecidos através das lipoproteínas plasmáticas, para uso ou armazenamento. Os triacilgliceróis, também conhecidos como gorduras ou triglicerídeos, são os lipídios mais comuns na dieta, representando cerca de 90% do total. Eles constituem a principal forma de armazenamento de energia metabólica nos seres humanos, representando a maior reserva energética do corpo, em média, 20% do peso corporal, o que equivale a uma massa aproximadamente 100 vezes maior que a do glicogênio hepático. Os triacilgliceróis são armazenados nas células adiposas na forma anidra. Os ácidos graxos, que são armazenados como triacilgliceróis, servem como a principal fonte de energia. Por sua vez, os glicerofosfolipídeos e esfingolipídeos, que contêm ácidos graxos esterificados, estão presentes nas membranas celulares e nas lipoproteínas plasmáticas, formando uma interface entre os componentes lipídicos dessas estruturas e a água ao redor. (MCARDLE; KATCH; KATCH, 2016). Os ácidos graxos poli-insaturados com 20 carbonos dão origem aos eicosanoides, que desempenham um papel importante na regulação de diversos processos celulares. O colesterol, além de conferir estabilidade à bicamada de fosfolipídios das membranas, atua como precursor dos sais biliares, que são compostos semelhantes a detergentes e facilitam a digestão e absorção de lipídios, além de serem precursores dos hormônios esteroides, os quais regulam 48 funções como metabolismo, crescimento e reprodução. As vitaminas lipossolúveis são lipídios que desempenham várias funções essenciais, incluindo a visão, crescimento e diferenciação (vitamina A), coagulação sanguínea (vitamina K), proteção contra danos oxidativos nas células (vitamina E) e regulação do metabolismo do cálcio (vitamina D). 7.1 Degradação de Triacilgliceróis: (do depósito) Os triacilgliceróis (TAG) da dieta são transportados pelos quilomícrons, hidrolisados pela lipase lipoproteica, e os produtos finais da hidrólise são glicerol e ácidos graxos. O glicerol não pode ser reutilizado pelos adipócitos, que não possuem a enzima glicerol quinase, sendo então liberado na circulação. No fígado e outros tecidos, o glicerol é convertido a 1,6 Glicerol 3-Fosfato pela ação do glicerol quinase e, em seguida, transformado em diidroxiacetona fosfato, um intermediário da glicólise ou da gliconeogênese. Os ácidos graxos são degradados através de uma via que ocorre no interior das mitocôndrias. Os ácidos graxos liberados dos adipócitos são transportados pelo sangue ligados à albumina e utilizados pelos tecidos, incluindo fígado e músculos, como fonte de energia; o tecido nervoso e os eritrócitos são exceções, pois obtêm energia exclusivamente da oxidação da glicose. 7.2 Degradação de ácidos graxos Para serem oxidados, os ácidos graxos precisam ser ativados e transportados para a matriz mitocondrial. Essa ativação consiste na conversão dos ácidos graxos a uma forma ativada: Acil-CoA. Esta etapa é catalisada por enzimas acil-CoA sintetases, que estão associadas à membrana externa da mitocôndria: 49 A membrana interna da mitocôndria é impermeável ao acetil-CoA, portanto, apenas os radicais acila são introduzidos na mitocôndria, ligados à carnitina. A carnitina é sintetizada a partir de aminoácidos e está amplamente distribuída nos tecidos animais e vegetais, sendo particularmente abundante nos músculos. 7.3 Sistema utilizado para transporte de radicais acila O sistema usado para transportar os radicais acila consta das etapas 1 a 4: 1. Na face externa da membrana interna, a carnitina-acil transferase I transfere o radical acila da coenzima A para a carnitina. 2. A acil-carnitina resultante é transportada através da membrana interna por uma translocase específica. 3. Na face interna, a carnitina-acil transferase II doa o grupo acila da acil- carnitina para uma coenzima A da matriz mitocondrial, liberando a carnitina. 4. A carnitina retorna ao citossol pela mesma translocase. Dessa maneira, o radical acila dos ácidos graxos é transportado para o interior da mitocôndria, onde ocorre a sua oxidação. 7.4 β-Oxidação ou ciclo de Lynen No processo denominado β-oxidação ou Ciclo de Lynen, a acil-CoA localizada na matriz mitocondrial é oxidada a acetil-CoA, resultando na produção de NADH e FADH2. Essa via metabólica consiste em uma série cíclica de quatro reações, ao final das quais a acil-CoA é reduzida em dois carbonos, que são liberados na forma de acetil-CoA. As reações envolvidas são as seguintes: 50 1. Oxidação da acil-CoA para formar uma enoil-CoA (acil-CoA β-insaturada) de configuração trans, com a conversão de FAD em FADH2 (esta é a única reação irreversível da via); 2. Hidratação da dupla ligação, formando uma 3-hidroxiacil-CoA (isômero L); 3. Oxidação do grupo hidroxila a carbonila, resultando uma β-cetoacil-CoA e NADH; 4. Cisão da β-cetoacil-CoA por reação com uma molécula de CoA, com formação de acetil-CoA e uma acil-CoA com dois carbonos a menos; está acil-CoA refaz o ciclo várias vezes, até ser totalmente convertida a acetil- CoA. A oxidação completa de um ácido graxo requer não apenas o Ciclo de Lynen, mas também o Ciclo de Krebs. Durante o Ciclo de Lynen, o ácido graxo é convertido em acetil-CoA, enquanto no Ciclo de Krebs ocorre a oxidação do radical acetil a 𝐶𝑂2 . A cada volta do Ciclo de Lynen, são gerados 1 FADH2, 1 NADH, 1 acetil-CoA e 1 acil-CoA que possui 2 átomos de carbono a menos que o ácido graxo original. Quando o número de átomos de carbono do ácido graxo é par, a última volta do ciclo de oxidação começa com uma acil-CoA de 4 carbonos, chamada butiril-CoA, resultando na produção de 2 moléculas de acetil-CoA, além de FADH2 e NADH. Para a oxidação completa de uma molécula de ácido palmítico, que contém 16 átomos de carbono, são necessárias 7 voltas no ciclo (considerando que na última volta são geradas 2 moléculas de acetil-CoA), resultando na produção total de 8 acetil-CoA. Figura 24 – Via da β-oxidação ou ciclo de Lynen: 51 Fonte: Marzzoco; Torres, 2022. A oxidação de ácidos graxos não se limita à mitocôndria; ela também ocorre em outras organelas citoplasmáticas, como glioxissomos e peroxissomos. Nos vegetais, a β-oxidação é realizada exclusivamente nos glioxissomos. A acetil-CoA gerada pode ser convertida em glicose devido à presença das enzimas do ciclo do glioxilato nessas organelas. Essas enzimas estão ausentes nas células