Caderno Didático de Farmacologia Geral
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Caderno Didático de Farmacologia Geral


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Com os conhecimentos farmacológicos e fisiológicos atuais, a segurança de um 
anestésico é muito grande, pois alguns fatores aumentam ainda mais esta margem de 
segurança, tais como: exame pré-anestésico do paciente, medicação pré-anestésica, 
monitoração permanente da anestesia, acompanhamento pós-anestésico. 
 Para cada tipo de intervenção cirúrgica, espécie animal e indivíduo a ser tratado, 
há um agente anestésico mais indicado, visando aumentar ainda mais esta margem de 
segurança. 
Æ Conceito: A Anestesia Geral é um estado de inconsciência, insensibilidade, 
reversível e controlável, produzida pela administração de um fármaco ou um grupo de 
fármacos. Há diminuição da sensibilidade a estímulos provenientes do meio e diminuição 
das respostas a estes estímulos. Dependendo da dose do fármaco pode haver depressão 
do SNC em diversos níveis: sedação, hipnose, analgesia, relaxamento muscular, amnésia 
e bloqueio da resposta neuro-humoral ao estresse anestésico-cirúrgico. 
 Os anestésicos gerais são fármacos depressores do SNC que atuam de forma 
generalizada sobre o córtex, os centros sub-corticais e medulares. 
 
14.6 - Medicação Pré-Anestésica 
 A medicação pré-anestésica pode reduzir os efeitos excitatórios indesejáveis 
produzidos durante o estágio de indução anestésica. Tem como objetivo avaliar 
clinicamente o paciente; planejar a anestesia e prescrever a medicação adequada. A 
medicação pré-anestésica diminui a ansiedade do paciente, induz suavemente a 
anestesia, com o mínimo de estresse físico e psicológico, reduz a quantidade de 
anestésico necessária a cirurgia, induz também a amnésia para acontecimentos no 
período pré-operatório imediato e ainda alivia a dor pré-operatória, quando existente. 
 Os benzodiazepínicos são os agentes com propriedades ansiolítica, sedativo-
hipnótica e amnésica mais utilizados, suplantando os barbitúricos por serem mais bem 
tolerados e mais efetivos. Têm várias opções de administração e duração de ação; menor 
risco de depressão cardiorespiratória na dose terapêutica e um antagonista farmacológico 
específico, o flumazenil. O diazepam (oral e injetável) é o fármaco de escolha e o mais 
prescrito, além do midazolam (intramuscular). 
Outros agentes pré-anestésicos são menos utilizados, tais como analgésicos 
opióides (morfina); anticolinérgicos (atropina e escopolamina); butirofenonas (droperidol). 
O hidrato de cloral é um hipnótico que tem uma relativa segurança em pacientes 
pediátricos. 
 O uso criterioso de fármacos pré-anestésicos faz com que o paciente chegue na 
sala de cirurgia com um grau mínimo de apreensão, sedado e cooperativo, sem efeitos 
adversos. Por outro lado a sedação excessiva e a amnésia prolongada podem aumentar 
a ansiedade de alguns pacientes. 
 Jamais um paciente deve ser anestesiado sem a aplicação da 
medicação pré-anestésica William Wallace Muir III, 1970 
 
14.7 - Estágios da Anestesia Geral 
Os estágios ou planos de anestesia geral foram obtidos por GUEDEL (1920) com a 
utilização do éter etílico, e serviram de base para a anestesia geral por longo tempo. 
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Farmacologia Geral Veterinária 
Æ Estágio I \u2013 Analgesia e movimentos voluntários. Vai do início da administração até a 
perda da consciência. Ainda há comando do paciente. 
Æ Estágio II \u2013 Delírio e movimentos involuntários. Ocorre a liberação de catecolaminas 
do SNA. Vai da perda de consciência até o estabelecimento de uma respiração regular. 
Ocorre dilatação pupilar, taquicardia, vômitos e salivação. 
A Indução Anestésica é o período decorrido desde o início da administração até o 
momento do final do estágio II (isto é: estágio I + II = indução anestésica). Se a indução 
anestésica é rápida o período de excitação é encurtado. Na maioria das vezes se evita o 
uso de fármacos anestésicos com período de indução longa. 
Æ Estágio III \u2013 Anestesia Cirúrgica. Este estágio é subdividido em 4 planos: 
9 Plano 1 \u2013 superficial; 
9 Planos 2 \u2013 moderado; 
9 Plano 3 \u2013 ideal, também dito plano cirúrgico; 
9 Plano 4 \u2013 profundo. 
 No plano 4 ocorre relaxamento muscular, respiração lenta e regular, perda 
progressiva de reflexos (ocular, palpebral, mandibular, podal e retal \u2013 ano-retal (eqüinos)). 
Æ Estágio IV - Paralisia Respiratória. Paralisia e morte. Ocorre parada respiratória e 
cardíaca. Dilatação pupilar. 
 
 O despertar da anestesia obedece à ordem inversa da indução! 
 
Não há nenhum agente anestésico seguro; não há nenhum procedimento 
anestésico seguro; há apenas anestesistas seguros Robert Smith 
 
 
Sedare dolorem opus divinum et 
Sedar a dor é coisa divina 
 
 
Observação: Atualmente devido ao uso de diferentes protocolos anestésicos, 
utilizando inúmeros fármacos associados na pré-anestesia e durante a anestesia, 
até mesmo no período de recuperação do animal, estes estágios e planos aqui 
descritos são difíceis de serem observados conforme proposto por Guedel, 
servindo apenas como uma referência ao leitor de como a anestesia evoluiu.
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15. ANESTÉSICOS GERAIS INALATÓRIOS 
15.1 \u2013 Características Gerais 
 Os principais agentes são o Óxido Nitroso, Halotano, Enflurano, Isoflurano, 
Sevoflurano e Desflurano. 
Os anestésicos voláteis são líquidos a temperatura ambiente e relativamente 
solúveis no sangue, líquidos celulares e tecido adiposo. 
 Principais vantagens: 
9 A principal forma de eliminação é pela expiração, não sendo necessário a 
mobilização metabólica; 
9 O controle da anestesia é fácil e facilmente revertido, podendo-se superficializar 
a anestesia a qualquer momento; 
9 Custo relativamente baixo e de fácil armazenamento. 
 Como desvantagens pode-se citar: 
9 Alguns são irritantes aos tecidos; 
9 Alguns explosivos e inflamáveis; requerem controle por anestesista; 
9 Alguns formam produtos tóxicos resultantes da oxidação, como o peróxido; 
9 Outros são miocardiotóxicos e hepatotóxicos. 
 
15.2 - Mecanismos de Ação 
 Ocorre depressão generalizada no SNC em especial do Sistema Reticular 
Ascendente, causando insensibilidade e inconsciência. 
Diversas teorias procuram explicar esta depressão: 
9 A potência anestésica é intimamente relacionada com a lipossolubilidade e não 
com a estrutura química. 
9 As teorias mais antigas postulam a interação com a bicamada lipídica. Recente 
trabalho favorece a interação com canais iônicos da membrana, acionada por ligantes. 
9 A maioria dos anestésicos aumenta a atividade dos receptores GABAA inibitórios 
e muitos inibem ativação de receptores excitatórios, como os receptores para glutamato e 
nicotínicos da acetilcolina. 
Outras teorias: 
Teoria neurofisiológica >>> Diminuição na transmissão sináptica Gânglio Cervical 
Superior > inibindo o SRAA 
 
Teoria bioquimica >>> Diminuição na produção de ATP pela mitocôndria com redução das 
oxidações celulares > reduzindo consumo de 02 cerebral 
 
Interação com canais iônicos da membrana, acionada por ligantes 
 
Teoria dos microcristais ou hidratos >>> Interação entre moléculas do Anestésico/água 
>>> Microcristais \u2013claratos > estabilizando membrana 
 
Aumento da atividade receptores GABAa inibitórios e inibição da ativação receptores 
excitatórios Glutamato / Nicotínicos para Acetilcolina 
 
CAUSA OU CONSEQÜÊNCIA? 
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 15.2.1 - Efeitos dos Anestésicos Sobre o Sistema Nervoso: 
9 Ao nível celular, o efeito dos anestésicos é inibir a transmissão sináptica, não 
sendo importante na prática quaisquer efeitos sobre a condução axonal. A liberação de 
transmissores excitatórios e a resposta dos receptores pós-sinápticas são inibidas. A 
transmissão sináptica inibitória mediada pelo GABA é aumentada pela maioria dos 
anestésicos. 
9 Embora todas as partes do SNC sejam afetadas pelos anestésicos, os principais 
alvos parecem ser o tálamo, córtex e hipocampo. 
9 A maioria dos agentes anestésicos