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Distúrbios sensoriais, motores e da consciência P6 - “O que será que aconteceu?” 1) Revisar a neuroanatomia da consciência (sistema de ativação reticular ascendente); A consciência depende de duas grandes dimensões: 1. Nível de consciência (vigília) → o quão “acordado” o indivíduo está. 2. Conteúdo da consciência (cognição) → o que ele pensa, sente, percebe e como interage com o meio. Para que uma pessoa esteja consciente, ambos precisam estar íntegros. 🔹 Estruturas que controlam a consciência Depende da integração entre estruturas infratentoriais e supratentoriais, que se comunicam através do Sistema Ativador Reticular Ascendente (SARA). 1. Formação Reticular (tronco encefálico) • Localiza-se na porção superior do tronco encefálico (ponte e mesencéfalo). • Centro da vigília (responsável por manter o cérebro desperto). • Possui neurônios que se projetam para o tálamo e, depois, para o córtex cerebral. • Quando o SARA é ativado → vigília; quando lesionado → coma. 💡 Pense como o “interruptor do cérebro”: liga e desliga o estado de alerta. 2. Tálamo (diencéfalo) • Atua como ponte de integração entre a formação reticular e o córtex. • Responsável por transmitir os impulsos de ativação e organizar a entrada de estímulos sensoriais. o Lesões talâmicas bilaterais → coma. o Lesões unilaterais → sonolência, confusão, desorientação. 3. Córtex cerebral (hemisférios cerebrais) • Processa o conteúdo da consciência — percepção, linguagem, memória, juízo, comportamento. o Lesões corticais difusas (encefalopatias metabólicas, hipóxia, drogas) → rebaixamento global. o Lesões focais (ex: AVC, tumor) → podem alterar o conteúdo sem abolir o nível (paciente acordado, mas confuso). 4. Sistema Ativador Reticular Ascendente (SARA) 🔸 Composição: • Formação reticular (tronco encefálico superior) • Tálamo (núcleos intralaminares) • Córtex cerebral difusamente 🔸 Função: • É responsável por manter o estado de alerta e a vigília. • Quando inibido ou lesionado → rebaixamento progressivo do nível de consciência (de sonolência até coma). 📍 Resumindo: Tronco (formação reticular) ativa o tálamo → tálamo estimula o córtex → consciência mantida. 5. Classificação anatômica das lesões Existe uma linha anatômica imaginária, a tenda do cerebelo (tentório), que divide o encéfalo em dois compartimentos: Local Estruturas Tipo Efeitos Supra tentorial Hemisférios e diencéfalo (tálamo) AVE, tumor, TCE, edema cerebral Rebaixamento progressivo (compressão do tronco ou tálamo) Infra tentorial Tronco encefálico e cerebelo Lesões de tronco, hemorragias de fossa posterior Rebaixamento abrupto, coma profundo e alteração de reflexos do tronco (pupilas, respiração, tônus) 6. Mecanismos que causam rebaixamento do nível de consciência A. Lesão estrutural • Compressão ou destruição de estruturas do SARA (tronco encefálico ou diencéfalo). • Exemplo: herniação cerebral, hemorragia pontina, tumor de tronco. 🧩 Achados clínicos típicos: • Assimetria pupilar, sinais de lateralização, padrão respiratório alterado. • Exemplo clássico: pupila midriática fixa = compressão do III par (hernição uncal). B. Disfunção metabólica/tóxica • Acomete difusamente o córtex e o tálamo, mas poupa o tronco. • Exemplo: hipoglicemia, hiponatremia, hipóxia, hepatopatia, sepse, intoxicação por drogas. 🧩 Achados clínicos típicos: • Pupilas geralmente normais e reativas. • Resposta motora preservada até estágios tardios. • EEG mostra lentificação difusa. 🧠 Lesões estruturais x causas difusas no rebaixamento da consciência 1. Compreendendo o conceito O rebaixamento do nível de consciência (sonolência ao coma) pode ter duas origens: Tipo de causa Local Exemplo Estrutural (focal) Lesão anatômica localizada (supra ou infratentorial) AVE, tumor, TCE, abscesso, herniação Difusa (metabólica/ tóxica) Comprometimento global do córtex ou do tálamo Hipoglicemia, hipóxia, uremia, sepse, intoxicações 2. Lesões estruturais (focais) Essas são lesões localizadas, que comprimem ou destroem estruturas do SARA ou suas conexões. 🔹 Localização anatômica e efeito • Lesões supratentoriais: o Precisam ser extensas para causar coma (ex: grandes AVCs, hemorragias). o Ocorre rebaixamento progressivo do nível de consciência (ex: edema → herniação). o Geralmente há déficit motor focal contralateral, desvio ocular conjugado, ou assimetria pupilar (compressão do III par craniano). • Lesões infratentoriais: o Acometem tronco encefálico ou cerebelo. o Mesmo pequenas lesões podem causar coma profundo, pois o espaço é restrito e o SARA fica ali concentrado. o Tipos: AVE de tronco, hemorragia pontina, tumores de fossa posterior. o Frequentemente há alteração pupilar, respiratória e de nervos cranianos. 3. Dica topográfica clássica de prova 🧩 Coma + sinais neurológicos focais = causa estrutural. 🧩 Coma sem sinais focais = causa difusa (metabólica/tóxica). 4. Detalhes anatômicos importantes Região Estrutura Relação com consciência Formação reticular (mesencéfalo e ponte) Núcleo central do SARA Lesão → coma imediato Tálamo Transmite estímulos do SARA ao córtex Lesão bilateral → coma Córtex cerebral difuso Integra o conteúdo da consciência Lesão difusa → confusão / delirium Bulbo e ponte inferior Áreas abaixo do SARA Lesão → mantém consciência (mas altera respiração e reflexos) 📍 Por isso, uma lesão na metade inferior da ponte ou no bulbo não causa coma, o SARA está acima. 2) Descrever o exame clínico neurológico no paciente com alterações de consciência (escalas de coma, dos reflexos do tronco encefálico, olhar conjugado, motricidade e ritmos respiratórios) e as indicações de intubação ortotraqueal; 1. Etapas iniciais da avaliação A avaliação segue uma sequência fixa que deve ser automática no raciocínio do plantonista e do residente: 1. Avaliar o nível de consciência → Escala de Glasgow (com pupilas). 2. Proteger via aérea → intubar se Glasgow ≤ 8. 3. Fazer exame neurológico direcionado: o Pupilas (diâmetro e resposta à luz). o Movimentos oculares (reflexo oculocefálico e oculovestibular). o Postura e padrão motor (decorticação / descerebração). o Padrão respiratório. 4. Investigar causa estrutural x difusa. 2. Escala de Coma de Glasgow (ECG) Componente Pontuação mínima Pontuação máxima Abertura ocular (O) 1 4 Resposta verbal (V) 1 5 Resposta motora (M) 1 6 Total 3 15 🔹 Glasgow ≤ 8 = coma → indicar intubação orotraqueal para proteção da via aérea. 🔹 Glasgow = 3 (mínimo possível) = coma profundo, prognóstico grave. 3. Escala de Coma de Glasgow Atualizada (com pupilas) A nova versão acrescenta o componente reatividade pupilar, pois ela tem forte valor prognóstico. Reatividade Pupilar Pontuação Pupilas reativas bilateralmente 0 Pupila reativa unilateral -1 Pupilas não reativas bilateralmente -2 🧮 Cálculo: • Some os pontos convencionais da ECG (O + V + M). • Subtraia o valor da reatividade pupilar. 4. Avaliação das Pupilas As pupilas são um dos sinais mais importantes e precoces para o diagnóstico topográfico da lesão. 🧠 Bases anatômicas • Parassimpático (III NC – oculomotor): causa miose (contração). • Simpático: causa midríase (dilatação). Tipo de pupila Lesão provável Explicação Midríase unilateral (anisocoria) Compressão do III NC (ex: herniação uncal, aneurisma de comunicante posterior) Perda da inervação parassimpática ipsilateral Miose bilateral Lesão do diencéfalo, ponte ou bulbo Acometimento do simpático Midríase bilateral fixa Lesão mesencefálica extensa ou hipóxia grave Acometimentobilateral do III NC Pupilas médias e arreativas Lesão mesencefálica central Comprometimento simultâneo de simpático e parassimpático Pupilas reativas e simétricas Causas metabólicas/tóxicas O tronco está preservado! 5. Exame de Fundo de Olho • Papiledema = sinal de hipertensão intracraniana (HIC). • HIC pode causar rebaixamento do nível de consciência por compressão do tronco. • A fundoscopia é obrigatória em todo paciente em coma, antes da punção lombar. 6. Avaliação Motora e Posturas Anormais O padrão motor ajuda a localizar a lesão e avaliar gravidade. Postura Descrição Localização provável da lesão Decorticação (flexora) Flexão dos MS e extensão dos MI Lesão acima do núcleo rubro (mesencéfalo superior ou tálamo) Descerebração (extensora) Extensão rígida de MS e MI Lesão abaixo do núcleo rubro (mesencéfalo inferior ou ponte) Flacidez Ausência de resposta motora Lesão bulbar ou encefálica difusa terminal 📍 Progressão típica: decorticação → descerebração → flacidez → morte cerebral. 7. Padrões Respiratórios no Coma (diagnóstico topográfico) Tipo de respiração Local da lesão Características Cheyne-Stokes Diencéfalo / hemisférios Ciclos de hiperpneia + apneia Hiperventilação neurogênica central Mesencéfalo / ponte alta Respiração profunda e rápida Respiração apnêustica Ponte Inspiração prolongada (“travada”) Respiração atáxica / Biot Bulbo Irregular, terminal, pré-apneia Apneia Lesão bulbar terminal Parada respiratória (necessidade de ventilação mecânica) 8. Diagnóstico pelo exame clínico Achado principal Região comprometida Interpretação Midríase unilateral + hemiparesia contralateral Mesencéfalo (compressão do III NC) Herniação uncal Miose bilateral + postura extensora Ponte Lesão infratentorial Pupilas médias + descerebração Mesencéfalo inferior Lesão central Pupilas reativas + sem lateralização Causa metabólica Coma difuso reversível Papiledema HIC / massa expansiva Pressão intracraniana aumentada 3) Diferenciar e explicar as situações especiais nas alterações da consciência: níveis do coma, delirium, morte encefálica, hipertensão intracraniana, e síndrome de Wernicke-Korsakoff); 🧠 Encefalopatia de Wernicke–Korsakoff 1. Conceito É um espectro clínico de encefalopatia aguda e crônica causada por deficiência de tiamina (vitamina B1). Ela se divide em duas fases: Fase Nome Características Aguda Encefalopatia de Wernicke Emergência neurológica reversível Crônica Psicose de Korsakoff Complicação irreversível com déficit de memória e confabulação 2. Fisiopatologia • A tiamina (B1) é cofator essencial em várias reações do metabolismo da glicose (ex: piruvato desidrogenase, α-cetoglutarato desidrogenase, transcetolase). • Quando há deficiência, as células não conseguem produzir energia (ATP), especialmente em regiões cerebrais com alta demanda metabólica. • Os locais mais afetados são: o Corpos mamilares o Tálamo medial o Hipotálamo o Mesencéfalo (núcleos oculomotores) o Vermis cerebelar 💡 A administração de glicose sem tiamina agrava a lesão, pois ativa a via glicolítica e consome rapidamente a pouca tiamina restante, precipitando o quadro neurológico. 3. Principais causas e fatores de risco • Etilismo crônico (a mais comum) • Desnutrição (idosos, anorexia, neoplasias) • Pós-operatório de cirurgia bariátrica • Hipermese gravídica • Pacientes críticos com nutrição parenteral sem suplementação de tiamina 📍 Resumindo: qualquer paciente desnutrido que recebe glicose sem tiamina → risco de EWK. 4. Quadro clínico 🔹 Fase aguda – Encefalopatia de Wernicke Tríade clássica (mas presente emagudo (horas a dias) • Curso flutuante (piora à noite — “sundowning”) • Déficit de atenção (achado mais sensível) • Pensamento desorganizado • Comprometimento da memória recente e orientação • Alteração do ciclo sono-vigília • Flutuação entre sonolência e agitação 💬 Subtipos clínicos Tipo Características Exemplo de prova Hiperativo Agitado, agressivo, alucinações visuais, risco de auto/heteroagressão “Paciente idoso tenta arrancar sonda e grita à noite” Hipoativo Apático, sonolento, pouco responsivo — forma mais comum e negligenciada “Idoso quieto, pouco interage, dorme demais” Misto Alterna períodos de agitação e apatia Comum em UTI 5. Critérios diagnósticos (CAM – Confusion Assessment Method) O diagnóstico é clínico e feito pelo método CAM, que avalia 4 critérios: Critério Descrição 1⃣ Início agudo e curso flutuante Mudança recente no estado mental, oscilando ao longo do dia 2⃣ Déficit de atenção Dificuldade de manter ou focar atenção 3⃣ Pensamento desorganizado Discurso incoerente, ilógico 4⃣ Alteração do nível de consciência Sonolento, hiperalerta ou rebaixado 📍 Diagnóstico de delirium = critérios 1 + 2 + (3 ou 4). 6. Exames complementares Sempre buscar a causa base: • Hemograma e PCR → infecção. • Eletrólitos (Na, K, Ca), ureia, creatinina, glicemia. • Função hepática e TSH. • Urina tipo I e urocultura. • Rx de tórax e ECG (se suspeita de pneumonia ou drogas cardiotóxicas). • TC de crânio → apenas se: trauma, déficit focal, febre sem foco, sinais meníngeos ou exames normais sem causa aparente. 📌 Neuroimagem NÃO é exame inicial em delirium típico. 7. Tratamento O tratamento é sempre duplo: ➡ 1. Tratar a causa de base ➡ 2. Controlar sintomas e prevenir complicações 1⃣ Tratamento da causa • Corrigir distúrbios metabólicos. • Suspender fármacos desencadeantes (anticolinérgicos, benzo, opioides, corticoides). • Tratar infecção, hipóxia, abstinência ou dor. 2⃣ Medidas não farmacológicas (fundamentais!) • Reorientar o paciente (relógio, calendário, luz natural). • Garantir óculos, aparelho auditivo e contato familiar. • Minimizar ruído, manter luz diurna e ambiente calmo à noite. • Mobilizar precocemente, garantir hidratação e sono. • Retirar sondas, cateteres e contenções sempre que possível. • Evitar benzodiazepínicos (pioram o quadro). 3⃣ Controle da agitação Situação Conduta Agitação leve Reorientação verbal, ambiente tranquilo. Agitação moderada a grave Haloperidol IM (0,5–2 mg, repetir a cada 30–60 min se necessário). Alternativas (VO) Quetiapina 25–50 mg VO – melhor tolerância em idosos. Evitar Benzodiazepínicos (exceto se abstinência alcoólica). 💡 Dica: “H de Haloperidol = H de Hospitalizado agitado”. 8. Prognóstico • Potencialmente reversível, mas quanto mais tardio o diagnóstico, maior o risco de sequelas cognitivas e morte. • Delirium aumenta em até 3x a mortalidade hospitalar. 🧠 Hipertensão intracraniana (HIC) 1. Conceito A hipertensão intracraniana (HIC) é o aumento anormal da pressão dentro do crânio, ou seja, da pressão intracraniana (PIC). Ela ocorre quando há aumento de volume de qualquer componente intracraniano (sangue, líquor ou parênquima cerebral), ultrapassando a capacidade de compensação. 2. Fisiologia normal O crânio é uma caixa rígida contendo: • 80% de parênquima cerebral • 10% de sangue (arterial + venoso) • 10% de líquor 💡 Doutrina de Monro-Kellie: A soma dos volumes intracranianos é constante. Se um componente aumenta, outro deve diminuir (líquor ou sangue venoso) para manter a PIC estável. 3. Pressão de Perfusão Cerebral (PPC) A PPC é o que garante oxigenação do cérebro: PPC = PAM – PIC Parâmetro Valor ideal PPC > 60–70 mmHg PIC normal 5–15 mmHg ➡ Se a PIC sobe, a PPC cai, reduzindo a perfusão → isquemia cerebral. 4. Curva de Langfitt Mostra a relação entre volume intracraniano e pressão (PIC): 🟦 Fase de compensação: • Pequenos aumentos de volume → pouca variação da PIC (alta complacência). 🟥 Fase de descompensação: • Pequeno aumento de volume → grande elevação da PIC (baixa complacência). • Aumenta risco de herniação e morte encefálica. 5. Manifestações clínicas da HIC Sinal / Sintoma Explicação fisiopatológica Cefaleia Estiramento de vasos e meninges Náuseas e vômitos em jato Compressão de centro do vômito bulbar Rebaixamento do nível de consciência Redução da perfusão e edema cerebral Papiledema Aumento da pressão transmitida ao nervo óptico Diplopia / Estrabismo convergente Compressão do VI par (abducente) Crises convulsivas Irritação cortical secundária Déficits focais Compressão de áreas específicas 6. Tríade de Cushing (Tardio de HIC grave) Reflexo de resposta ao aumento da PIC — sinal de descompensação e risco de herniação. Componente Mecanismo Hipertensão arterial Para manter PPC adequada Bradicardia Reflexo vagal à hipertensão Irregularidade respiratória Compressão de centros bulbares 📍 Tríade de Cushing = HIC iminente + risco de morte encefálica. 7. Herniações cerebrais (complicações da HIC) O aumento progressivo da PIC leva ao deslocamento de partes do cérebro para outro compartimento intracraniano. 🔹 Principais tipos e achados: Tipo de herniação Mecanismo Achados clínicos Transtentorial (uncal) Lobo temporal → mesencéfalo Midríase ipsilateral (compressão do III NC) + hemiparesia contralateral Subfalcina Giro do cíngulo → sob a foice do cérebro Deslocamento anterior, pode comprimir artéria cerebral anterior Tonsilar (amigdalar) Cerebelo → forame magno Coma, apneia, parada cardiorrespiratória (compressão bulbar) Central Diencéfalo → tronco Pupilas médias e arreativas, respiração de Cheyne-Stokes 8. Diagnóstico clínico e monitorização 🔹 Avaliação clínica: • Sinais de HIC (cefaleia, vômitos, papiledema, anisocoria, rebaixamento). • Monitorar nível de consciência (Glasgow). • Avaliar pupilas e sinais focais. 🔹 Exames complementares: • Tomografia de crânio sem contraste: o Dilatação ventricular, desvio da linha média, apagamento de sulcos, herniação. • Fundo de olho: papiledema. • Monitorização invasiva da PIC: indicada em TCE grave (Glasgow ≤ 8). ⚕ 9⃣ Conduta inicial (medidas gerais) Antes do tratamento específico, sempre garantir ABC (vias aéreas, ventilação, circulação): Etapa Conduta A – Via aérea Intubação se Glasgow ≤ 8 B – Respiração Evitar hipercapnia; manter PaCO₂ 35–40 mmHg C – Circulação Manter PAM suficiente para PPC > 60 mmHg Cabeceira elevada a 30° Facilita drenagem venosa cerebral Evitar hipoxemia, febre e convulsões Aumentam o consumo metabólico cerebral 10. Tratamento específico da HIC 🔹 Objetivos: • Reduzir a PIC. • Manter PPC > 60 mmHg. • Tratar a causa primária. 11. Medidas clínicas imediatas Medida Mecanismo / Efeito Cabeceira elevada (30°) Facilita drenagem venosa Hiperventilação controlada (PaCO₂ ~30–35 mmHg) Vasoconstrição cerebral → ↓ volume sanguíneo Manitol 20% (0,25–1 g/kg EV) Diurético osmótico → reduz edema e PIC Soro salino hipertônico (3% ou 7,5%) “Puxa” água do parênquima para o intravascular Controle térmico e glicêmico Evitar febre e hiperglicemia (pioram lesão) Sedação e analgesia Reduz consumo metabólico cerebral Evitar hiponatremia Agrava edema cerebral 12. Tratamento cirúrgico Causa Tratamento indicado Hematoma subdural / epidural Craniectomia descompressiva / evacuação cirúrgica Hidrocefalia Derivação ventricular externa (DVE) Tumor / abscesso / edema focal Excisão ou drenagem cirúrgica 13. Controle da pressão arterial Situação Conduta Hipotensão Restaura perfusão (vasopressores, volume) Hipertensão grave(>220/120) Reduz gradualmente para evitar isquemia Meta Manter PPC ≥ 60 mmHg 🧠 Morte encefálica (ME) ⚙ Conceito Morte encefálica é a parada completa e irreversível de todas as funções do encéfalo (córtex e tronco cerebral), em paciente com atividade cardíaca mantida artificialmente. ➡ É morte legal, mesmo com batimentos cardíacos. ➡ Diagnóstico é médico e legal, obrigatório seguir protocolo. 🔹 Etapas do diagnóstico São 4 etapas obrigatórias, feitas de forma sequencial: 1. Pré-requisitos Antes de iniciar o protocolo, o paciente deve atender a todos os critérios abaixo: Pré-requisito Critério exigido Causa conhecida e suficiente AVC extenso, TCE grave, anóxia etc. Tempo de observação hospitalar ≥ 6h (ou 24h se causa anóxica) Exame de imagem compatível TC/RM mostrando lesão grave e irreversível Ausência de fatores confundidores Efeito de sedativos, bloqueadores, hipotermia, distúrbios metabólicos graves Temperatura corporal ≥ 35 °C Evita falso diagnóstico Saturação O₂ ≥ 94% e PAM ≥ 65 mmHg (PAS ≥ 100) Mantém perfusão cerebral Suspensão de drogas depressoras do SNC Aguardar 4–5 meias-vidas Hipernatremia isolada Não impede abertura do protocolo (por diabetes insipidus central) 2. Exame clínico neurológico Realizado por 2 médicos diferentes, sem vínculo com transplante, com intervalo mínimo de 1h. Deve confirmar: • Coma arreativo e aperceptivo (Glasgow = 3) • Ausência de todos os reflexos de tronco cerebral: Reflexo Avaliação Resultado esperado Pupilar (fotomotor) Luz nas pupilas Pupilas fixas, sem reação Córneo- palpebral Toque na córnea Sem piscamento Oculocefálico Movimento da cabeça Olhos imóveis Oculovestibular (prova calórica) Água fria no ouvido Sem movimento ocular Tosse / vômito Aspiração traqueal Ausente Movimentos espontâneos Observação Nenhum 3. Teste da apneia Avalia a inatividade do centro respiratório bulbar. Como fazer: • Pré-oxigenar com FiO₂ = 100% por 10 min → PaO₂ > 200 mmHg. • Desconectar do ventilador, mantendo O₂ por cateter traqueal. • Observar por 10 min. • Colher gasometria arterial. 📍 Teste POSITIVO (confirma ME): PaCO₂ ≥ 55 mmHg (ou ↑ ≥ 20 mmHg acima do basal) sem movimentos respiratórios. 📍 Interromper o teste se: SatO₂