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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO ESCOLA DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO E SAÚDE NA INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA ROSELAINE PONTES DE ALMEIDA PREVENÇÃO E REMEDIAÇÃO DAS DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM: adaptação do modelo de Resposta à Intervenção numa amostra brasileira Guarulhos 2012 UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO ESCOLA DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO E SAÚDE NA INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA ROSELAINE PONTES DE ALMEIDA PREVENÇÃO E REMEDIAÇÃO DAS DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM: adaptação do modelo de Resposta à Intervenção numa amostra brasileira Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Educação e Saúde na Infância e na Adolescência da Universidade Federal de São Paulo como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Ciências Orientadora: Profa. Dra. Mônica Carolina Miranda Guarulhos 2012 Almeida, Roselaine Pontes Prevenção e Remediação das Dificuldades de Aprendizagem: adaptação do modelo de Resposta à Intervenção numa amostra brasileira / Roselaine Pontes de Almeida. – Guarulhos, 2012. 104 f. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de São Paulo, Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, 2012. Orientadora: Mônica Carolina Miranda Título em inglês - Prevention and Remediation of Learning Difficulties: adaptation of Response to Intervention model in a Brazilian sample. 1. Dificuldades de Aprendizagem. 2. Prevenção. 3. Resposta à Intervenção 1. ROSELAINE PONTES DE ALMEIDA PREVENÇÃO E REMEDIAÇÃO DAS DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM: adaptação do modelo de Resposta à Intervenção numa amostra brasileira Aprovado em: ________, ___________________________ de 2012. BANCA EXAMINADORA _________________________________________________ Prof a. Dr a. Mônica Carolina Miranda Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP Orientadora _________________________________________________ Prof a. Dr a. Ana Luiza Gomes Pinto Navas Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo _________________________________________________ Prof a. Dr a. Rosario Silvana Genta Lugli Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP _________________________________________________ Prof a. Dr a. Alessandra Gotuzo Seabra Universidade Presbiteriana Mackenzie 4 Aos meus pais, João e Rosa. Às crianças com dificuldades de aprendizagem e seus professores. 5 AGRADECIMENTOS À Deus, por sua presença em minha vida. À minha família, pelo apoio e paciência. À Dra. Mônica Carolina Miranda, pelo acolhimento, confiança e acompanhamento competente deste trabalho. Meus sinceros agradecimentos, respeito e admiração. Às Dras. Ana Luiza Navas e Rosário Silvana Genta Lugli, pelas valiosas contribuições durante o exame de qualificação. Às queridas Carolina Mattar Julien de Toledo Piza e Carolina Cunha Nikaedo, pelo companheirismo, pelas discussões e construções e por terem incentivado de todas as maneiras possíveis o desenvolvimento deste trabalho. Aos docentes e discentes do Programa de Pós-Graduação em Educação e Saúde na Infância e na Adolescência, com quem compartilhei momentos agradáveis de reflexão e crescimento acadêmico e profissional. A toda equipe da EEVC de Guarulhos, especialmente às professoras que contribuíram sobremaneira para que este trabalho fosse realizado. Às crianças participantes do estudo e suas famílias. Às colegas do Ambulatório de Distúrbios de Aprendizagem do Núcleo de Atendimento Neuropsicológico Infantil Interdisciplinar (NANI), pelas discussões, ajudas e por todo aprendizado que me proporcionaram. Aos amigos Arlley Parreira, Josué Lima Nóbrega Junior, Giselle Rodotá e Thiago da Silva Gusmão Cardoso, pela ajuda e incentivo sempre presentes. À Capes Reuni, pelo apoio financeiro para a realização deste projeto. 6 “O senhor é o meu rochedo, e o meu lugar forte, e o meu libertador; o meu Deus, a minha fortaleza, em quem confio; o meu escudo, a força da minha salvação, e o meu alto refúgio.” (Salmos 18:2) 7 RESUMO O modelo RTI (do inglês Response to Intervention) visa prevenir e remediar dificuldades de aprendizagem (DA), baseado na implementação de um sistema integrado de detecção precoce e progressivos níveis de apoio ao estudante. A presente pesquisa teve por objetivo adaptar e implementar o modelo de Resposta à Intervenção (RTI) ao contexto educacional brasileiro. Para isso, a pesquisa foi realizada através de dois estudos. O Estudo I foi voltado para a adaptação e implementação da Camada 1 do modelo, que se caracteriza como uma intervenção coletiva em nível instrucional. Esse estudo teve 2 etapas: 1) adaptação do modelo com a capacitação das professoras de 1º ano do Ensino Fundamental e 2) implementação da Camada 1 da RTI pelas professoras capacitadas, em suas salas de aula. Na etapa 1 participaram 2 professoras de uma escola pública de Guarulhos - SP, sendo a capacitação das professoras permeada por dois conceitos centrais: a instrução explícita e a sistematização do treino de habilidades. Na etapa 2 as professoras aplicaram as orientações pedagógicas em pelo menos 3 dias da semana, 20 minutos por dia, em 26 alunos da Turma A e 25 da Turma B. Todos os alunos foram avaliados coletivamente antes e após o período de intervenções através da versão brasileira do The Reading Decison Test (RDT). O Estudo II foi voltado à implementação da Camada 2 da RTI, correspondente à aplicação da intervenção suplementar remediativa, que inclui instruções suplementares em componentes curriculares e comportamentais. Conforme o modelo original, a Camada 2 é direcionada a um grupo alvo, neste caso, aos alunos que, apesar da intervenção inicial realizada na Camada 1 da RTI (Estudo I) apresentaram desempenho e taxa de progresso abaixo da média de seus pares de mesma idade. Participaram, assim, 10 crianças cujo desempenho ficou abaixo de um desvio- padrão à média da amostra do estudo de normatização do RDT e que obtiveram no mínimo três classificações “ruim” ou “muito ruim” nas habilidades avaliadas pelo Protocolo de Caracterização do Desempenho Escolar do Aluno, preenchido pelas professoras. Estes estudantes foram avaliados antes da intervenção, individualmente, através das Provas de Avaliação dos Processos de Leitura, bem como através de outras habilidades cognitivas como Consciência Fonológica e Funções Executivas. A intervenção ocorreu em grupo, na própria escola, aplicada pela pesquisadora deste estudo, três dias da semana, com duração de aproximadamente 40 minutos cada. Consoante com o modelo original, a RTI serviu a dois propósitos: a) fornecer instrução precoce aos estudantes com dificuldades; b) fornecer meios eficazes de avaliar e intervir nas necessidades dos alunos. Espera-se que este trabalho contribua para a discussão sobre abordagens e estratégias de melhoria do ensino e auxilie os educadores e as escolas nos processos de identificação e prevenção das DA, disponibilizando um material que permita o debate sobre formas mais eficazes de avaliar e intervir em busca de melhores resultados para todos os estudantes. Palavras-chave: Dificuldades de Aprendizagem, Prevenção, Remediação, Resposta à Intervenção. 8 ABSTRACT The model Response to Intervention (RtI) aims to prevent and remediate learning difficulties, based on the implementation of an integrated system of early detection and progressivedemonstrando que programas interventivos bem desenhados resultam em melhorias significativas para a maioria dos alunos com dificuldades nesta área do conhecimento (NJCLD, 2005). Desta forma, RTI tem o aval de muitos pesquisadores e organizações profissionais e governamentais (FLETCHER et al., 2004; FUCHS et al., 2003), pois tem representado mudança nas práticas educacionais nos contextos onde têm sido implementada, uma vez que objetiva melhorar o desempenho de todos os alunos e obter melhores resultados comportamentais em crianças com DA e TA. Os modelos RTI ainda fornecem um processo de melhoria e estrutura para as equipes escolares na concepção, implementação e avaliação das intervenções educativas (KLOTZ e CANTER, 2007). Vale ressaltar que análises e revisões de muitos estudos focados nesta metodologia (por exemplo BATSCHE et al., 2005; FUCHS e FUCHS, 2005; KAVALE, HOLDNACK e MOSTERT, 2005; STRANGEMAN et al., 2006; FLETCHER et al., 2009; VAUGHN e FUCHS, 2003) informam a obtenção de resultados promissores, que encorajam a replicação destes trabalhos em culturas e contextos diferentes. Embora países do mundo inteiro já reconheçam a necessidade de acompanhamento especial para crianças e adolescentes com necessidades educacionais especiais, no Brasil ainda não há uma política nacional de identificação e acompanhamento dessas crianças, o que torna ainda mais complexo o exercício de intervenção precoce (NAVAS e WEINSTEIN, 2009). Considerando que a RTI é um modelo que pode proporcionar a oportunidade de estudantes com dificuldades serem identificados e cuidadosamente monitorados, sendo um método capaz de melhorar a aprendizagem no ensino geral e reduzir os encaminhamentos para profissionais especializados (NRCLD, 2007), acreditamos que testar a aplicabilidade deste modelo no Brasil é importante, uma vez que RTI pode ser um norteador de condutas 38 mais eficazes de um trabalho diferenciado com as crianças, na medida em que contempla todos os estudantes através da oferta da instrução de alta qualidade e permite reflexões que orientem as decisões educacionais, incluindo as decisões sobre a eficácia e intensidade da instrução e intervenção, elegibilidade para os programas de apoio ao ensino e a elaboração de programas educativos diferenciados. 39 3 OBJETIVOS 3.1 Objetivo Geral O presente estudo tem como objetivo adaptar e implementar o modelo de Resposta à Intervenção ao contexto educacional brasileiro. 3.2 Objetivos Específicos Adaptar as Camadas 1 e 2 do modelo RTI para alunos do Ensino Fundamental. Desenvolver a intervenção da Camada 2. Realizar a implementação em escolas públicas do Estado de São Paulo. Analisar a adequação do modelo, no que concerne às Camadas 1 e 2 no contexto educacional brasileiro. 40 4 ESTUDO I: ADAPTAÇÃO E IMPLEMENTAÇÃO DA CAMADA 1 DA RTI 4.1 Método Conforme os objetivos propostos, esse estudo contemplou a adaptação e implementação da Camada 1 do modelo RTI, que em português será, a partir desse momento, “Resposta à Intervenção”. Para isso foram realizados os seguintes passos: adaptação/ implementação da Camada 1, realizada em 2 etapas: a primeira etapa compreendeu a adaptação do modelo com a capacitação das professoras de 1º ano do Ensino Fundamental e a segunda etapa consistiu na implementação da Camada 1 da RTI pelas professoras capacitadas, em suas salas de aula. 4.1.1 Caracterização da amostra O estudo foi realizado em uma escola pública do Estado de São Paulo, selecionada por conveniência. A instituição pertence à região Leste do município de Guarulhos e está situada em um bairro carente. No Plano de Gestão, formulado no ano de 2012, a clientela escolar foi descrita como vinda de baixa renda. No que se refere ao contexto socioeconômico da comunidade, o bairro no qual a escola está localizada conta com cinco instituições cujo objetivo é manter as crianças fora das ruas, oferecendo, no contraturno das aulas, comida, abrigo, atividades escolares e lúdicas. Essas instituições são muito procuradas pelos alunos e, para participar das atividades oferecidas nestes locais, as crianças necessariamente precisam frequentar a escola assiduamente. Os alunos frequentam a escola vestidos com uniformes escolares. O uso de pelo menos a camiseta do uniforme é observado e controlado pelos inspetores da escola, uma vez que os alunos recebem três camisetas no início de cada ano letivo. A escola é da rede pública estadual, mas ocupa parte do prédio da empresa Cummins Brasil Ltda., que cedeu, além de parte do prédio da escola, uma sala de informática e doou dez computadores. A quadra de esportes é cedida em horários pré-determinados para realização de 41 atividades físicas. O prédio tem dois andares, seis salas de aula, cozinha, ginásio, sala de leitura e salas de Coordenação Pedagógica, Secretaria e Diretoria. A escola atua no segmento do Ensino Fundamental I (1º ao 5º ano) e atende cerca de 320 alunos. No total, a escola funciona com onze classes em dois períodos: manhã e tarde. Cada série tem uma ou duas turmas e cada sala de aula tem aproximadamente 30 estudantes. Na administração, a escola conta com uma diretora e uma coordenadora pedagógica, ambas com 40 horas de trabalho semanais; três funcionários na limpeza, duas merendeiras e dois auxiliares de serviços gerais (secretaria). Dos quinze professores que atuam na escola, dez são efetivos. Os projetos desenvolvidos na escola, além de nortear o trabalho da equipe escolar, revelam a dinâmica de funcionamento da instituição: o envolvimento pessoal e do coletivo, a organização da equipe, a elaboração e a execução de todos os projetos contidos no Plano Escolar, além da disponibilidade e participação (imposta ou não) de todos os funcionários da escola. O Regimento Escolar dispõe sobre os sistemas de avaliação interna, organizada pela escola, e externa, organizada pelos órgãos centrais de administração, subsidiados por procedimentos contínuos de observação e registros, tendo como objetivo o acompanhamento sistemático do processo ensino-aprendizagem, consoante com os objetivos e metas estabelecidos: do desempenho da equipe gestora, dos professores, dos alunos e dos demais funcionários nos diferentes momentos do processo educacional; da participação da comunidade nas atividades propostas; da execução do planejamento curricular. Define, também, a sistemática de avaliação do rendimento do aluno através de registros realizados por sínteses bimestrais e finais em cada componente curricular, identificando os alunos com rendimento satisfatório ou insatisfatório em fichas de avaliação individuais, sendo consideradas todas as atividades desenvolvidos pelo aluno, bem como a escala a ser utilizada, a saber: A – atingiu plenamente os objetivos – rendimento satisfatório; B – atingiu todos os objetivos – rendimento satisfatório; C – atingiu os objetivos essenciais – rendimento satisfatório; D – atingiu parte dos objetivos essenciais – rendimento insatisfatório; E – não atingiu os objetivos essenciais – rendimento insatisfatório. Dada a caracterização da escola, foram escolhidas, aleatoriamente, duas professoras que lecionavam para o 1º ano do Ensino Fundamental (denominadas aqui Turma A e Turma B) durante o período vespertino de aulas. Levando em consideração que o objetivo do estudo 42 é adaptar/ adequar o modelo, foram escolhidas duas professoras da escola a fim de evitar vieses nessa fase. As duas participantes tinham formação em nível superior, sendo que a professora da Turma A era formada em pedagogia, atuava há 17 anos como docente e tinha 49 anos de idade; a professora da Turma B era licenciada em matemática, além de tercursado magistério, atuava há 24 anos como docente e tinha 48 anos de idade. Vale ressaltar que todos os profissionais da escola, mesmo os que não participaram diretamente do estudo, foram informados da natureza básica da pesquisa que estava sendo realizada. 4.1.2 Etapa 1: Capacitação das Professoras A capacitação das professoras para aplicação da RTI foi elaborada levando-se em conta os pressupostos básicos do modelo, mas com adaptações em face das condições socioeconômicas de nosso país e da particularidade de nosso sistema de educação. O modelo RTI deve seguir uma estrutura que inclui: a) o rastreio universal dos estudantes, ou seja, a RTI é implementada em toda a escola ou a nível distrital no início do ano letivo; b) níveis de intervenção; c) monitoramento do progresso dos estudantes, e d) intervenções baseadas em dados curriculares (FUCHS e FUCHS, 2005; MELLARD e JOHNSON, 2007). Diante do objetivo de adequar a RTI à realidade do sistema público brasileiro de educação, priorizou-se um dos pressupostos básicos do modelo, que é a promoção da reestruturação didática das aulas, com vistas a novas práticas pedagógicas, embasadas cientificamente e baseadas em instruções explícitas e sistemáticas. Desta forma, elaborou-se, nessa etapa do estudo, um curso de capacitação para professores, que teve como meta o esclarecimento e discussão de conceitos e estratégias pedagógicas, a execução de atividades práticas e a elaboração de um cronograma de atividades a serem aplicadas pelas professoras na etapa 2 do estudo. Por tratar-se da aplicação da RTI em turmas de 1º ano, a reestruturação didática das aulas foi voltada à alfabetização e visou novas práticas pedagógicas baseadas na instrução explícita e sistemática das habilidades de leitura, incluindo a manipulação mental de elementos linguísticos correspondentes à Consciência Fonológica (consciência de palavras, de sílabas, de fonemas, rimas e aliterações), ampliação do vocabulário, reconhecimento de letras 43 e desenvolvimento de habilidades lexicais. Para tal, realizou-se a estruturação da capacitação em sucessivos passos, como segue: 1) Discussão de conceitos e práticas pedagógicas: com intuito de promover a leitura compartilhada e o debate de ideias, alguns textos foram selecionados para serem estudados durante os encontros. Os textos escolhidos tratavam de temas referentes à alfabetização, tais como os elementos preditores do bom desempenho em leitura e escrita, práticas de ensino, dificuldades no processo de aprendizagem, identificação de sinais dos problemas de aprendizagem, além de metodologias e instrumentos de avaliação. 2) Elaboração e execução de atividades para treino das habilidades: baseando-se nos pressupostos da RTI algumas atividades de consciência fonológica, vocabulário, e reconhecimento de letras foram elaboradas, outras foram extraídas e adaptadas de Capovilla e Capovilla (2007), Micheletti et al. (2002), Marques et al. (2001), Baqués (2006a; 2006b). Para consciência fonológica foram apresentadas tarefas por blocos de habilidades, para facilitar o entendimento das professoras e promover o desenvolvimento e a sistematização de atividades a serem realizadas posteriormente com os alunos. Desta forma, as habilidades ficaram divididas em: Consciência de Palavras, Consciência Silábica, Consciência Fonêmica, Rimas e Aliterações. De forma geral, as atividades foram baseadas em Santos, Navas e Pereira (1997), que sugerem estimulação através de atividades que envolvam parlendas, cantar músicas usando apenas uma vogal de cada vez, língua do P, poesias rimadas e ritmadas e falar palavras ao contrário. a) Consciência de Palavras: as instruções e atividades consistiram na segmentação de frases, contagem do número de palavras de uma frase associando movimentos corporais (como bater palmas), segmentação de sentenças em palavras e verificação do comprimento de palavras (exemplo: Ontem joguei bola no clube - quantas palavras têm essa frase? Qual a menor palavra? E a maior?), completar frases ditas pela professora (exemplo: Gosto de ir ao parque toda vez que...) e substituir nas frases as pseudopalavras (palavras inventadas) por palavras reais (exemplo: Ontem no almoço eu comi “supela”). b) Consciência Silábica: as atividades envolveram marcação de sílabas em canções (batendo palmas a cada sílaba), contagem de sílabas em nomes próprios, síntese e segmentação de palavras (associando movimentos corporais como pular, contar nos dedos, de acordo com o número de sílabas das palavras), identificação da sílaba inicial, medial e final da palavra, contagem de sílabas durante a nomeação oral de figuras, formação de novos vocábulos através de atividades de manipulação silábica envolvendo adição ou subtração de 44 sílaba (exemplo: macaco – ca = caco; carro + ça = carroça) e transposição silábica (exemplo: “tala” que, invertendo as sílabas, fica “lata”). c) Consciência Fonêmica: as atividades envolveram a identificação do fonema de cada letra, como a classificação de figuras (exemplo: “aranha” começa com “a”. Das palavras “boneca”, “azul” e “tijolo”, qual também começa com “a”?), escolha de figuras cujos nomes começassem com o mesmo fonema de uma figura modelo, substituição de vogais em palavras de músicas conhecidas (exemplo: “a sapa na lava a pá”, “e sepe ne leve pé”, e assim por diante), adição de fonemas em palavras (exemplo: Como fica a palavra “eu” se acrescentarmos o som /s/ na frente?). d) Rimas: atividades a partir de músicas, poesias, histórias, parlendas e rimas com nomes próprios (exemplo: Não confunda João com mamão), solicitação de atenção por parte da criança para que se atentasse às palavras que rimavam num poema ou canção e, após a leitura realizada pela professora, ou ao cantarem uma música, identificação de palavras que rimassem com alguma palavra alvo, identificação de figuras cujos nomes rimassem, brincadeiras de classificação de figuras que rimassem (exemplo: colocar na caixa azul todas as figuras que rimassem com “coração”, colocar na caixa amarela todas as figuras que rimassem com “bota” e colocar na caixa vermelha todas as figuras que rimassem com “palhaço”). e) Aliterações: assim como nas rimas, foram desenvolvidas tarefas envolvendo classificação de figuras conforme a sílaba inicial, produção oral de palavras que aliteravam (exemplo: dizer nomes de frutas que começava com “ma”) e escolha de figuras cujos nomes aliterassem com um modelo. f) Ampliação do Vocabulário: a ampliação do repertório de palavras dos alunos foi estimulada por meio de instrução direta do vocabulário e o contato repetido com palavras novas, pela identificação de palavras desconhecidas e a descoberta do sentido delas no texto ou canção, pelo aprendizado de palavras úteis e importantes, pela associação de palavras (sinônimos), produção oral envolvendo diferentes usos para as palavras (exemplo: pegar – pegar um objeto, pegar um resfriado, pegar o ônibus), pela nomeação de figuras e objetos pertencentes à sala de aula, nomeação do maior número possível de palavras para diferentes itens (exemplo: o que pode voar, coisas que brilham, coisas que podem ser compradas em um supermercado), objetos que possam ser usados para uma mesma função (exemplo: objetos que servem para sentar: banco, cadeira, poltrona). Outras instruções envolvendo habilidades igualmente importantes para aprendizagem e desenvolvimento da leitura e da escrita, como sequenciamento, atenção e percepção, foram 45 estimuladas. Desta forma, as professoras foram instruídas a desenvolver atividades que contemplassem o sequenciamento de ideias, estimulando, durante a demonstração de figuras ou após a contação de histórias, a identificação de cenas que indicassem “o que aconteceu primeiro”, “o que aconteceu depois” e “o que aconteceu por último”; a utilizar jogos de seteerros para que as crianças percebessem as diferenças entre as figuras; a oferecer aos alunos tarefas cujo objetivo fosse pintar da mesma cor figuras que estivessem em uma mesma posição na folha, além de atividades com labirintos e tarefas que estimulassem a percepção de figura-fundo. A capacitação das professoras ocorreu na própria escola durante todo o mês de fevereiro/2011, na sala e horário destinados à Hora de Trabalho Pedagógico Coletivo (HTPC) (período destinado a reuniões semanais que duram um total de 2 horas). Assim, esse período de formação continuada ocorreu em quatro encontros de cerca de duas horas cada. Outros encontros esporádicos para esclarecimentos de dúvidas e revisão de procedimentos ocorreram durante todo o estudo. Durante os encontros, além da leitura de textos e o debate de ideias, houve momentos para a exposição de situações pessoais das professoras em sala de aula, como forma de compartilhar experiências de sucesso e fracasso. Esses relatos permitiram a troca de vivências entre as docentes, a sugestão de ideias, de estratégias de trabalho e de atitudes que pudessem contribuir em cada caso, além da solidariedade entre as profissionais. Também houve a prática de exercícios, elaboração conjunta de atividades, sequências didáticas e a adaptação de tarefas às demandas de cada turma. As profissionais puderam desenvolver, em conjunto com a pesquisadora, um planejamento de atividades, organizando um cronograma com os temas a serem desenvolvidos durante os meses de aplicação da Camada 1 da RTI. 4.1.3 Etapa 2: Implementação do modelo RTI em Sala de Aula Nessa etapa, e diante dos objetivos da Camada 1 do modelo RTI, que é uma intervenção a nível instrucional com aplicação coletiva, na qual todos os alunos se beneficiam da instrução, os alunos que frequentaram regularmente as aulas receberam a intervenção em pelo menos três vezes por semana, 20 minutos por dia. Assim, a Camada 1 foi aplicada a 51 crianças, estudantes de 1° ano. A Turma A tinha 26 alunos (14 meninas e 12 meninos) e a Turma B tinha 25 alunos (11 meninas e 14 meninos). 46 Como a aplicação da intervenção instrucional pressupõe avaliação por meio de medidas de desempenho que permitam o monitoramento do progresso dos estudantes participantes, nesta etapa do estudo, as crianças foram avaliadas antes e após o período de intervenção com a versão brasileira do The Reading Decision Test (RDT), traduzido e adaptado para o português por Pinheiro (2011). O teste foi desenvolvido para avaliação dos estágios iniciais da aquisição de leitura, através do método de decisão lexical, em que a criança deve distinguir entre estímulos reais e não reais. É composto por três subtestes de leitura: letras, palavras e sentenças. Nesta pesquisa, aplicamos os subtestes de Leitura de Letras e de Leitura de Palavras. a) Leitura de Letras: avalia a capacidade da criança distinguir entre letras reais e formas inventadas. É formado por 20 letras reais e 20 pseudoletras, dispostas em 4 colunas. Na aplicação, é solicitado às crianças marcarem com um tick as letras que elas reconhecerem como sendo verdadeiras, e com um “X” as que elas não reconhecerem (Anexo A). A correção é feita de acordo com o número total de respostas corretas. b) Leitura de Palavras: avalia a capacidade da criança distinguir entre palavras reais e palavras inventadas (pseudopalavras). É formado por 20 palavras reais e 20 pseudopalavras, dispostas em 4 colunas. De forma similar ao subteste Leitura de Letras, é solicitado às crianças marcarem com tick as palavras que ela reconhecerem como sendo verdadeiras, e com um “X”, as que elas não reconhecerem (Anexo B). Os critérios de correção também obedeceram ao número total de respostas corretas As formas 1 e 2 dos subtestes foram aplicadas de forma que em uma mesma sala de aula algumas crianças realizaram a forma 1, e outras, a forma 2. Este procedimento foi adotado com intuito de evitar a comunicação entre os alunos, uma vez que as folhas de respostas eram diferentes. A aplicação foi coletiva, com duração aproximada de 10 minutos, nas próprias salas de aula, com carteiras dispostas em fileiras, respeitando uma distância média a fim de evitar influências entre os participantes. Adicionalmente, as professoras responderam ao Protocolo de Caracterização de Desempenho Escolar dos Alunos (PCDEA) (Anexo C). Este protocolo é uma adaptação do Questionário de Desempenho Acadêmico preenchido pelo professor (não publicado), elaborado pela Dra. Pascale Engel de Abreu e colaboradores do grupo de pesquisa em Memória Operacional, Aprendizado e Efeitos Ambientais. O objetivo do PCDEA é investigar, junto aos professores, as impressões gerais sobre os alunos, além do desempenho acadêmico de cada estudante nas áreas de Leitura (decodificação e compreensão), Escrita 47 (ortografia, redação, traçado/ caligrafia), Matemática (numeração, contas, compreensão de problemas) e Linguagem Oral (expressão, compreensão), além de Ciências, História e Geografia. Neste estudo, no entanto, as professoras só preencheram itens referentes à leitura, escrita, linguagem e matemática, cujo ensino é foco no primeiro ano de escolarização formal. Assim, o desempenho de cada aluno pôde ser classificado como “muito ruim”, “ruim”, “suficiente”, “bom” e “muito bom”. Além do desempenho escolar, este protocolo também permite investigar dados adicionais sobre os alunos, como, por exemplo, se frequentaram a pré-escola, além de suspeitas de problemas neurológicos, emocionais ou sensoriais. No que se refere à aplicação do modelo RTI, as crianças participantes desta etapa do estudo receberam, durante os meses de março, abril, maio e início de junho de 2011, intervenção a nível instrucional, aplicada por suas próprias professoras. Nas primeiras aplicações destas técnicas, as atividades foram realizadas sob a supervisão e com a participação da pesquisadora, a fim de garantir a correta aplicação das tarefas. A pesquisadora teve encontros com as professoras dois dias por semana durante essa etapa da pesquisa, para acompanhar o cumprimento do cronograma de atividades, esclarecer dúvidas e coletar o relato das dificuldades apresentadas. Ao final do período da intervenção instrucional, todos os alunos realizaram novamente os subtestes Leitura de Letras e Leitura de Palavras do RDT. Nesta ocasião, os alunos que responderam a forma 1 dos subtestes na avaliação pré-intervenção realizaram, então, a forma 2; da mesma maneira, os alunos que fizeram a forma 2 na avaliação pré-intervenção realizaram a forma 1 na avaliação pós-intervenção.. Seguindo o mesmo procedimento da avaliação pré-intervenção, os testes foram aplicados coletivamente nas próprias salas de aula onde as crianças estudavam, em uma única sessão de cerca de 10 minutos, no mês de junho de 2011. 4.2 Aspectos Éticos Todos os procedimentos do presente estudo foram aprovados pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), sob o protocolo n° 0003/2011 (Anexo D). Inicialmente realizou-se contato com a escola para apresentação, junto à equipe gestora, do projeto de pesquisa e aprovação pela direção por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) (Anexo E). As professoras participantes 48 receberam todas as informações a respeito dos objetivos e procedimentos da pesquisa. A seguir, foi solicitada assinatura do TCLE (Anexo F) como condição de participação no estudo. Em relaçao aos pais/ responsáveis pelas crianças de cada turma, a pesquisadora realizou uma reunião a fim de esclarecer os objetivos e procedimentos gerais da pesquisa, solicitando a autorização da criança no estudo através da assinatura do TCLE (Anexo G). Às crianças cujos pais autorizaram a participação na pesquisa foram esclarecidos os pressupostos do estudo e, perguntado se concordavam emparticipar da pesquisa. As que concordaram, assinaram o Termo de Assentimento Livre e Esclarecido (TALE) (Anexo H). 4.3 Análise dos Dados Inicialmente foram realizadas análises qualitativas, verificando as adaptações necessárias à implementação do modelo em relação à amostra selecionada e às etapas de desenvolvimento do estudo. Análises quanto à adequação do modelo, bem como às dificuldades e/ ou facilidades do processo também foram realizadas, baseadas nos relatos das professoras. Na análise quantitativa, caracterizou-se o desempenho de todos os alunos nos Testes de Leitura de Letras e de Leitura de Palavras do RDT, considerando escores brutos, por meio do cálculo de z-scores e gráficos antes e após a implementação da intervenção instrucional. Também foi realizada análise de frequência para os resultados do PCDEA. A análise quantitativa dos dados foi realizada através do Statistic Package for the Social Science (SPSS) para Windows (Versão 20, SPSS Inc.©, Chicago, Illinois). 4.4 Resultados Desde o primeiro contato da pesquisadora com a escola - ocasião em que o projeto de pesquisa foi apresentado - tanto a equipe gestora quanto as professoras das turmas selecionadas para participar da pesquisa demonstraram interesse em participar do estudo. As docentes comentaram que a abordagem preventiva do projeto era interessante, pois na opinião de ambas, prontidão, maturidade e atendimento individualizado são requisitos básicos para as crianças dominarem a leitura e escrita. Embora algumas opiniões das professoras não estivessem em total consonância com alguns pressupostos que embasam a pesquisa, estas foram respeitadas e consideradas. 49 A boa receptividade da equipe escolar e a postura adotada pela pesquisadora favoreceram o diálogo e a convivência harmoniosa durante todo o estudo. Durante a etapa de adaptação da RTI, todo o processo de implementação do modelo na escola foi explicitado e discutido com as professoras, que concordaram em participar da capacitação e se comprometeram a reunirem-se com a pesquisadora semanalmente após essa formação, para acompanhamento do processo de aplicação do modelo. No que se refere à participação dos funcionários da escola, no presente estudo, a colaboração foi de ordem mais prática, e menos participativa, ou seja, os profissionais não acompanharam a implementação da RTI, mas foram receptivos com a pesquisadora e disponibilizaram vários espaços da escola (como a biblioteca, a sala de informática, a sala da coordenação e da direção) para utilização sempre que necessário. Durante a capacitação das professoras, muitos dos conceitos apresentados não eram familiares às docentes. Desta forma, foram levantadas dúvidas que diziam respeito à forma de aplicação das tarefas, ao período de tempo que deveria ser destinado para cada atividade, bem como à forma de sistematização e periodicidade da intervenção preventiva. Em contrapartida, algumas das atividades apresentadas na capacitação já faziam parte da rotina de trabalho das professoras, cabendo à pesquisadora mediar o debate decorrente dos relatos das profissionais quanto à eficácia da estratégia e da forma como ela tem sido aplicada em sala de aula. Durante o período de intervenção instrucional, uma das dificuldades comentadas pelas professoras referia-se ao período de aplicação das atividades, pois elas consideravam que vinte minutos era um período muito curto para que todos concluíssem as tarefas. Também tiveram dificuldade para organizar os alunos em grupos, pois utilizavam o sistema de trabalho em dupla de crianças (geralmente um aluno “forte” com um aluno “fraco”). A figura 3 ilustra as habilidades estimuladas nesta etapa do estudo. 50 Figura 3 - Habilidades estimuladas na Camada 1 da RTI (2012, p. 50). A pirâmide representa os níveis de intensidade em que as habilidades foram estimuladas, quando comparadas entre si. Nas avaliações realizadas para obtenção de medidas de desempenho e do progresso dos estudantes participantes, considerou-se os escores nos subtestes Leitura de Letras e Leitura de Palavras do RDT, bem como a classificação no PCDEA, preenchido pelas professoras. O desempenho das crianças no RDT, antes e após a aplicação da Camada 1, estão representados na Figura 4 - Leitura de Letras (LL) e na Figura 5 - Leitura de Palavras (LP). 51 Figura 4 - Desempenho dos estudantes das Turmas A e B nas avaliações pré e pós-intervenção do subteste Leitura de Letras do RDT (2012, p. 51) Figura 5 - Desempenho dos estudantes das Turmas A e B nas avaliações pré e pós-intervenção do subteste Leitura de Palavras do RDT (2012, p. 51) 1,51,00,50,0-0,5-1,0-1,5 Turma Fase A B 1 - Pré 2 - Pós 1 - Pré 2 - Pós Z escore Desempenho das Crianças no Pré e Pós-teste do Subteste LL 1,51,00,50,0-0,5-1,0-1,5 Turma Fase A B 1 - Pré 2 - Pós 1 - Pré 2 - Pós Z escore Desempenho das Crianças no Pré e Pós-teste do subteste LP Avaliações pré e pós-intervenção – subteste LL do RDT Avaliações pré e pós-intervenção – subteste LP do RDT 52 Em relação aos resultados dos estudantes no subteste Leitura de Letras, verificamos que, na etapa prévia à implantação da intervenção, 9 alunos da Turma A e 13 alunos da Turma B apresentaram desempenho próximo a menos 1 desvio-padrão em relação à média esperada no RDT (PINHEIRO, 2011). Já na etapa pós-intervenção, observamos que esses índices reduziram-se, tanto na Turma A (n=4) quanto na Turma B (n=4), indicando que muitas crianças avançaram, passando de uma zona de risco para uma zona de normalidade. Já no subteste Leitura de Palavras, verificamos que houve maior concentração de estudantes da Turma A (n=7) nos índices próximos a menos 1 desvio-padrão, enquanto que na Turma B (n=1) esse índice foi menor durante a etapa pré-intervenção. Já na pós-intervenção, observamos que esse índice reduziu na Turma A (n=2) e foi nulo na Turma B (n=0). No que se refere às classificações dos alunos no PCDEA verificou-se que em Leitura, conforme sumariado na Tabela 1, os estudantes da Turma A obtiveram classificações ruim e muito ruim em Decodificação: 23,06% (n=6) e Compreensão: 19,22 (n=5). Na Turma B esses índices foram de 12% (n=3) tanto para Decodificação quanto para Compreensão. Tabela 1 – Classificação do desempenho acadêmico das crianças em relação às habilidades de Leitura Turma Classificação Decodificação Compreensão A Muito Ruim 11,53% (n=3) 11,53% (n=3) Ruim 11,53% (n=3) 7,69% (n=2) Suficiente 11,53% (n=3) 15,38% (n=4) Bom 53,88% (n=14) 53,86% (n=14) Muito Bom 11,53% (n=3) 11,53% (n=3) B Muito Ruim 4% (n=1) 4% (n=1) Ruim 8% (n=2) 8% (n=2) Suficiente 36% (n=9) 28% (n=7) Bom 40% (n=10) 56% (n=14) Muito Bom 12% (n=3) 4% (n=1) (2012, p. 52) Nas habilidades de escrita, os alunos da Turma A obtiveram classificações ruim ou muito ruim em todos os itens avaliados, sendo 11,54% (n=3) em Ortografia e Caligrafia e 23,08% (n=6) em Redação. Na Turma B 12% (n=3) dos estudantes obtiveram essas classificações em Ortografia e Redação e 8% (n=2) em Caligrafia, conforme sumariado na Tabela 2. 53 Tabela 2 – Classificação do desempenho acadêmico das crianças em relação às habilidades de Escrita Turma Classificação Ortografia Redação Caligrafia A Muito Ruim 3,85% (n=1) 23,08% (n=6) 3,85% (n=1) Ruim 7,69% (n=2) 0% (n=0) 7,69% (n=2) Suficiente 15,38% (n=4) 30,77% (n=8) 15,38% (n=4) Bom 34,61% (n=9) 46,15% (n=12) 30,77% (n=8) Muito Bom 38,46% (n=10) 0% (n=0) 42,3% (n=11) B Muito Ruim 4% (n=1) 4% (n=1) 4% (n=1) Ruim 8% (n=2) 8% (n=2) 4% (n=1) Suficiente 8% (n=2) 48% (n=12) 12% (n=3) Bom 40% (n=10) 40% (n=10) 32% (n=8) Muito Bom 40% (n=10) 0% (n=0) 48% (n=12) (2012, p. 53) Em relação às habilidades de matemática, as classificações ruim e muito ruim foram em 7,69% (n=2) dos alunos em Numeração, 11,53% (n=3) em Contase 15,38% (n=4) em Compreensão de Problemas na Turma A; já na Turma B, essas classificações corresponderam a 8% (n=2) em Numeração e Contas e 12% (n=3) em Compreensão de Problemas, conforme apresentado na Tabela 3. Tabela 3 – Classificação do desempenho acadêmico das crianças em relação às habilidades de Matemática Turma Classificação Numeração Contas Compreensão de Problemas A Muito Ruim 0% (n=0) 3,84% (n=1) 7,69% (n=2) Ruim 7,69% (n=2) 7,69% (n=2) 7,69% (n=2) Suficiente 15,38% (n=4) 19,23% (n=5) 26,92% (n=7) Bom 53,85% (n-14) 50% (n=13) 57,69% (n=15) Muito Bom 23,07% 19,23% (n=5) 0% (n=0) B Muito Ruim 0% (n=0) 4% (n=1) 4% (n=1) Ruim 8% (n=2) 4% (n=1) 8% (n=2) Suficiente 8% (n=2) 20% (n=5) 20% (n=5) Bom 76% (n=19) 60% (n=15) 64% (n=16) Muito Bom 8% (n=2) 12% (n=3) 4% (n=1) (2012, p. 53) 54 No que concerne às habilidades de Linguagem Oral, as classificações obtidas pelos estudantes estão sumariadas na Tabela 4. Na Turma A, as classificações ruim ou muito ruim foram verificadas em 19,22% (n=5) dos estudantes tanto nas habilidades de Expressão quanto de Compreensão. Na Turma B, 12% (n=3) dos estudantes obtiveram essas mesmas classificações nas duas habilidades. Tabela 4 – Classificação do desempenho acadêmico das crianças em relação às habilidades de Linguagem Oral Turma Classificação Expressão Compreensão A Muito Ruim 11,53% (n=3) 11,53% (n=3) Ruim 7,69% (n=2) 7,69% (n=2) Suficiente 3,84% (n=1) 15,38% (n=4) Bom 46,15% (n=12) 46,15% (n=12) Muito Bom 23,07% (n=6) 30,76% (n=8) B Muito Ruim 8% (n=2) 0% (n=0) Ruim 4% (n=1) 12% (n=3) Suficiente 12% (n=3) 4% (n=1) Bom 48% (n=12) 52% (n=13) Muito Bom 28% (n=7) 32% (n=8) (2012, p. 54) 4.5 Discussão Para que a RTI fosse implementada no Brasil, algumas adaptações fizeram-se necessárias, considerando as especificidades de nossa realidade socioeconômica e de nosso sistema de ensino. Em junho de 2005, o NJCLD preparou um relatório cujo objetivo era examinar os conceitos, benefícios e questões práticas associadas à RTI. O documento oferece uma breve descrição do modelo, elencando os componentes estruturais e funcionais necessários à sua implementação. Nele, os autores esclarecem que antes da implementação algumas decisões devem ser tomadas no que tange à estrutura específica e aos componentes básicos a serem incluídos no programa. A primeira consideração prévia à implementação é em relação ao tempo, no sentido de haver reflexão sobre os ajustes diários necessários na sala de aula para que a intervenção aconteça, além da periodicidade da avaliação da resposta do estudante, bem como o próprio período estipulado para cada nível de intervenção. Há que se considerar, também, o regimento 55 institucional, para que formações de professores e reuniões da equipe colaboradora sejam incluídas no calendário escolar. Para atender a essa recomendação, foi elaborado (e posteriormente apresentado à equipe gestora da escola) um cronograma de atividades, prevendo os objetivos e detalhando cada etapa do projeto. Outros aspectos importantes da implementação bem sucedida da RTI dizem respeito à separação de um espaço na escola para avaliações individuais ou em pequenos grupos, e à disponibilização de suporte financeiro para aquisição de materiais necessários às intervenções, incluindo dispositivos tecnológicos e recursos humanos (contratação de terapeutas para a Camada 3, por exemplo). Em nosso estudo, os recursos físicos foram disponibilizados pela equipe escolar e parte do material de intervenção foi coberto pela quota semanal de cópias a que cada professora tinha direito. O material utilizado na capacitação das professoras foi levado pela pesquisadora. No que se refere às dificuldades ou facilidades do processo, através do relato das professoras observamos que houve envolvimento, interesse, aceitação e participação das docentes em todas as etapas deste estudo. Ressalta-se, porém, que acolheram o projeto como uma “solução para o trabalho no primeiro ano”, uma vez que, segundo informações de uma das professoras, não havia orientações bem definidas quanto à obrigatoriedade ou não de alfabetizar os alunos nesta etapa escolar. Para implementação da RTI em sala de aula ressalta-se que, independentemente da forma como a escola o implementou, o modelo deve seguir uma estrutura que inclui: a) o rastreio universal dos estudantes; b) níveis de intervenções; c) monitoramento do progresso dos estudantes, e d) intervenções baseadas em dados curriculares e de pesquisa (FUCHS e FUCHS, 2005; MELLARD e JOHNSON, 2007). Desta forma, no que tange às adaptações realizadas durante a presente pesquisa, estas foram elaboradas considerando as especificidades do sistema de educação brasileiro e visando preservar minimamente a estrutura básica do modelo. Como já mencionado, no modelo original de RTI o rastreio dos estudantes é universal, ou seja, a RTI é implementada em toda a escola ou a nível distrital no início do ano letivo, assim é possível determinar quais alunos estão “em risco” por não encontrarem-se na média de seus pares de mesma idade e nível de escolaridade. Em nosso estudo, ainda que a triagem não tenha sido realizada em todas as classes da escola, esta foi realizada em todos os estudantes das duas salas participantes. É importante considerar, no entanto, que na ocasião de implementação da RTI em larga escala no Brasil, a triagem universal deve ser levada em conta, pois tem sido considerada um dos principais meios para identificar crianças de risco 56 para DA (MELLARD, MC KNIGHT e WOODS, 2009; COMPTON et al., 2010) e, por esta razão, é um dos componentes centrais da RTI (BRIDGES, CATTS, 2011). Em outros contextos também é realizada uma triagem universal de comportamento, visando identificar comportamentos de risco nas crianças. Essa triagem é baseada na observação dos estudantes nos diversos ambientes da escola (sala de aula, corredor, parque infantil, dentre outros espaços) e em avaliações de medidas de disciplina e eficácia da gestão da sala de aula e do clima da escola (JOHNSON-GROS, 2008). No presente estudo, a triagem realizada ocorreu no nível acadêmico, sendo que o comportamento dos alunos foi avaliado através de um inventário respondido pelas professoras. Há recomendação, ainda, de que a intervenção em todos os níveis, seja permeada por avaliações de monitoramento - um processo pelo qual as práticas de instrução são periodicamente avaliadas e ajustadas com base em dados da resposta do estudante a avaliações breves, de rápida aplicação e fácil manuseio (JOHNSON-GROS, 2008). Em nosso estudo isso não foi realizado devido aos objetivos de adaptação do modelo e não análise de sua eficácia. Johnson-Gros (2008) pontuam que, para os professores, os dados provenientes destas avaliações auxiliam na determinação de mudanças em currículos, materiais ou procedimentos instrucionais. Em razão da adaptação, essa revisão didática não ocorreu e as professoras não tiveram parâmetros específicos para autoavaliação, recebendo apenas o feedback da pesquisadora a respeito de sua atuação. De qualquer forma, no modelo original a avaliação pode ser baseada em desempenho no final da intervenção, o crescimento ao longo da intervenção, ou ambos (FUCHS, 2003). A intervenção baseia-se na instrução direta e explícita de conhecimento acadêmico e estratégias sistemáticas em componentes curriculares específicos (JOHNSON-GROS, 2008). No presente estudo essas diretrizes foram consideradas, de forma que incluímos na avaliação instrumentos padronizados, que oferecem medidas de habilidades de leitura e escrita. De forma importante, ainda, foi utilizado o RDT, que é um instrumento que avalia a aquisição das habilidades básicas de leitura de forma rápida, eficaz e com baixo custo, e que pode ser administrado coletivamente por educadores e, como afirmaPinheiro (2011), proporciona o estabelecimento de medidas de detecção e intervenção precoce, diminuindo os impactos causados no desenvolvimento da criança. A análise dos resultados dos estudantes nos testes padronizados mostrou que no subteste Leitura de Letras do RDT houve um alto índice de crianças que apresentaram desempenho próximo a menos um desvio-padrão à média da amostra do estudo de Pinheiro (2011). Este resultado é esperado, uma vez que a avaliação foi conduzida no início do ano 57 letivo e as crianças encontravam-se no princípio do processo de alfabetização. Escaraboto (2007) refere que no início do ano letivo os professores ainda estão conhecendo seus alunos e, neste processo, diversas variáveis contribuem para maior heterogeneidade do grupo, como o fato de algumas crianças advirem de outras escolas e cidades, as expectativas sobre a adaptação da criança na escola, além de outras concepções que permeiam as relações escolares. Desta forma, a ênfase do trabalho docente recai sobre conteúdos curriculares associados mais à construção da identidade dos alunos e menos relacionados diretamente à leitura e escrita. No que se refere aos resultados obtidos na pós-intervenção dos dois subtestes do RDT, observamos melhora de desempenho dos estudantes das duas turmas. Podemos supor, a partir destes resultados, que as crianças avançaram no reconhecimento de letras em decorrência do treino de identificação e reconhecimento de letras, ocorrido durante o período de intervenção. Entretanto, este resultado também pode ser interpretado como evidência de validade relacionada a mudanças do desenvolvimento nos sujeitos avaliados (ANASTASI e URBINA, 2000). As classificações de desempenho dos estudantes nas áreas de leitura, escrita, matemática e linguagem oral, analisadas a partir do PCDEA, permitiram identificar as crianças que apresentavam dificuldades nestas habilidades. Observamos que, com exceção de duas crianças (um aluno da Turma A e um aluno da Turma B), que ficaram com pontuação menos um desvio-padrão em relação à média da amostra do estudo de Pinheiro (2011) no RDT, todos os outros alunos que obtiveram as piores classificações nas habilidades avaliadas através do PCDEA foram os mesmos que apresentaram desempenho rebaixado nos testes. Esse dado está de acordo com a afirmação de Mellard, McKnight e Woods (2009), que pontuam que a avaliação dos educadores contribui na decisão se os alunos necessitam ou não de algum nível de intervenção, pois esclarecem se o estudante está ou não acompanhando o currículo. Isso ainda indicou que os resultados nas avaliações padronizadas não se distanciam muito da percepção geral que o professor tem a respeito do desempenho de seus alunos. Os resultados deste estudo corroboram dados da literatura que sugerem que o risco de uma criança apresentar dificuldades na leitura e escrita pode ser reduzido quando instruções sistemáticas, de alta qualidade, envolvendo habilidades de consciência fonológica, reconhecimento de palavras e vocabulário são fornecidas pelo professor em sala de aula (TORGESEN, 2002; COMPTON et al., 2010). Neste sentido, concordamos com Fuchs (2003), quando este afirma que avaliar a capacidade de resposta à instrução em um contexto da sala de aula tem a vantagem de haver 58 um quadro normativo no próprio ambiente de avaliação, ou seja, a capacidade de resposta de um aluno pode ser comparada com o padrão médio de respostas dos demais estudantes daquela classe. Por fim, vale ressaltar que nos EUA cada escola deve ter uma Equipe de Apoio a Professores, cuja função é informar ao docente as referências de cada aluno dentro dos primeiros vinte dias do ano letivo, acompanhar a implantação da RTI e fornecer feedback aos docentes sobre sua atuação, enfocando as principais problemáticas observadas e fornecendo um plano de melhoria das ações em sala de aula (JOHNSON-GROS, 2008), É importante considerar que essa rede de apoio favorece a implementação da RTI de forma mais estruturada e eficaz, sendo uma importante recomendação para que o modelo possa ser futuramente implementado em larga escala no Brasil. 59 5 ESTUDO II: ADAPTAÇÃO E IMPLEMENTAÇÃO DA CAMADA 2 DA RTI 5.1 Método Neste estudo foi realizada a adaptação e implementação da Camada 2 do modelo RTI, que destina-se a oferta de intervenção suplementar. Esta intervenção é suplementar em tempo e em conteúdo e deve ocorrer em pequenos grupos (no máximo seis crianças), cujo objetivo é permitir um acompanhamento mais direcionado e individualizado àqueles alunos que não responderem à intervenção da Camada 1, sendo realizada por um profissional de apoio (e não pelo professor titular da sala), que pode ser um professor de reforço ou outro docente que já faça parte do corpo de funcionários da escola. No presente estudo, no entanto, a Camada 2 foi aplicada pela pesquisadora, devido aos objetivos, ou seja, analisar a adequação da adaptação do modelo. 5.1.1 Caracterização da amostra Sendo o Estudo II uma continuação do estudo anterior, foi realizado na mesma escola pública do Estudo I. A intervenção suplementar foi direcionada a um grupo alvo, neste caso, aos alunos que, apesar da intervenção inicial realizada na Camada 1 da RTI (Estudo I), não alcançaram progresso na aprendizagem. Assim, preencheram os critérios para participar deste estudo os alunos que obtiveram nos testes do RDT pontuação inferior à média da amostra do estudo de Pinheiro (2011) em mais de 1 desvio-padrão e que obtiveram no mínimo três classificações nas categorias “ruim” ou “muito ruim” em quaisquer das habilidades avaliadas pelo PCDEA. Desta forma, participaram deste estudo 10 alunos, sendo 6 da Turma A (2 meninas e 4 meninos) e 4 da Turma B (todos meninos). A média de idade dos alunos da Turma A foi de 6,6 anos (desvio padrão = 0,56) e a média de idade da Turma B foi de 6,5 anos (desvio padrão = 0,46). 5.1.2 Instrumentos e Procedimentos 60 5.1.2.1 Protocolo de avaliação Assim como na fase anterior, a aplicação da Camada 2 da RTI também pressupõe monitoramento do progresso dos estudantes, o que é possível através da mensuração do desempenho por meio de avaliações. Desta forma, as crianças foram submetidas, antes e após o período de intervenções a um protocolo de avaliação cognitiva, que incluiu os seguintes instrumentos: 1) Provas de Avaliação dos Processos de Leitura (PROLEC) (CAPELLINI, S. A.; OLIVEIRA, A. M.; CUETOS, F., 2010). Foram aplicados os seguintes subtestes: a) Nome ou Som das Letras: o subteste é composto por 20 estímulos (letras isoladas), dispostos em três colunas. O objetivo desta tarefa é investigar se a criança conhece todas as letras. Para tal, a criança deve nomeá-las ou dizer seu som correspondente. O teste é precedido de três estímulos-treino, para que a criança compreenda o que deve fazer. b) Leitura de Palavras e Pseudopalavras: o subteste tem como objetivo comparar o desenvolvimento das rotas de reconhecimento de palavras (fonológica e lexical), analisando o grau de desenvolvimento que a criança alcançou nessas rotas. Assim, é solicitada à criança a leitura de uma lista de 60 estímulos (20 palavras de alta frequência, 20 palavras de baixa frequência e 20 pseudopalavras), com diferentes tipos de sílabas que variam em graus de complexidade. c) Igual - Diferente em Palavras e Pseudopalavras: o subteste é composto por 20 pares de estímulos (metade palavras e a outra metade pseudopalavras), que somente se diferenciam em uma letra. Os estímulos são dispostos em duas colunas. O objetivo é que a criança diga se estes pares de estímulos são iguais ou diferentes. O teste é precedido de dois pares de estímulos-treino, para que o avaliador certifique-se que a criança compreendeu as instruções. A correção de todosos subtestes do PROLEC é feita de acordo com o número de respostas corretas. Em todos os subtestes, foi considerada a pontuação total da criança. 2) Consciência Fonológica: instrumento de avaliação sequencial (CONFIAS) (MOOJEN et al., 2007). O CONFIAS é divido em duas partes: a primeira corresponde à consciência de sílabas e a segunda refere-se ao nível do fonema. As tarefas envolvem síntese, segmentação, identificação, produção, exclusão e transposição silábica e fonêmica. O teste contém 70 itens, sendo 40 no nível da sílaba e 30 no nível do fonema. É atribuído 1 ponto para cada acerto e a pontuação é calculada de acordo com o número de respostas corretas para 61 cada subitem: sílaba, fonema e total. Os escores do CONFIAS relacionam-se às hipóteses de escrita propostas por Ferreiro e Teberosky (1991) e o desempenho da criança pode ser classificado em: pré-silábico, silábico, silábico-alfabético e alfabético. 3) Breve Inventário das Funções Executivas (BRIFE) (CARIM; MIRANDA; BUENO, 2012). O BRIFE é um instrumento de avaliação das funções executivas que reflete aspectos da vida diária de crianças e adolescentes entre 5 e 18 anos de idade. É composto por três versões: a escala para pais, a escala para professores e a versão pessoal, sendo que no presente estudo somente foi utilizada a escala para professores. Esta escala é composta de 86 questões e para cada questão o professor deve assinalar dentre as alternativas: N para “nunca”; A, para “algumas vezes” e C para “constantemente” qual a frequência que a criança apresenta o comportamento problema. O BRIFE oferece uma mensuração global do funcionamento executivo (FEG) assim como dois índices: regulação do comportamento e metacognição. O índice de regulação do comportamento (IRC) inclui três domínios: inibição, flexibilidade e controle emocional, enquanto que o índice de metacognição (IM) inclui cinco domínios: iniciativa, memória operacional, planejamento/ organização, organização do material e monitoramento. Os escores do questionário são expressos em escores padrão e ranks de percentis. 5.1.2.2 Adaptação e Implementação da Intervenção A intervenção suplementar foi composta por 4 blocos de atividades que incluíram: o treino explícito e progressivo de atividades de Reconhecimento de Letras (Bloco 1), Consciência Fonológica (Bloco 2), Vocabulário (Bloco 3), Percepção, Atenção e Memória (Bloco 4). As atividades foram planejadas com base na literatura da área e considerando outros programas de intervenção desenvolvidos por pesquisadores brasileiros e estrangeiros. Baseada em Carvalho (2010), a proposta de tarefas foi apresentada em ordem crescente de complexidade e desenvolvida em pequenos grupos, de modo a favorecer a interação entre as crianças e estimular sua participação. Bloco 1 - Reconhecimento de Letras: as atividades tiveram início com a música “Alfabeto” (CD ‘Eliana é Dez’), para facilitar o conhecimento das letras por parte das crianças, além de contextualizar, de forma lúdica, as atividades descritas a seguir: 62 a) Atividades Táteis e Cinestésicas com Letras i) Sentadas em duplas, as crianças receberam um conjunto de letras móveis; em seguida, pedimos que, juntas, separassem as letras que reconhecessem como sendo do seu nome e escrevessem seus nomes com essas letras; ii) As crianças receberam folhas com o alfabeto; pedimos que contornassem e pintassem as letras que reconhecessem como pertencentes ao seu nome e que, em seguida, escrevessem seu nome na folha com lápis preto; iii) Em grupos, as crianças receberam massa de modelar. Após ouvirem a pronúncia do nome das letras (uma por vez), pedimos que fizessem a representação da forma bastão maiúscula de cada letra com a massa de modelar; iv) Em uma caixa rasa com areia pedimos às crianças para desenharem com o dedo as letras aprendidas; em letras texturizadas, pedimos que passassem o dedo nas letras em alto relevo, com diferentes texturas (lisa, macia, áspera), sentindo sua forma; v) As crianças receberam folhas com letras do alfabeto e cola colorida; pedimos que contornassem as letras com a cola colorida e, após a secagem (com a letra em alto relevo), que passassem a mão pelas letras, sentindo sua forma; vi) As crianças, com os olhos vendados, receberam letras móveis dentro de um saco plástico; pedimos que pegassem uma letra por vez e que tentassem identificá-la pelo toque; vii) As crianças receberam letras em alto relevo grafadas em cartões; pedimos que uma criança por vez pegasse um cartão, passasse o dedo sobre a letra, a nomeasse e, em seguida, dissesse o nome de algo que começasse com aquela letra. Caso a criança encontrasse dificuldade para responder, os colegas poderiam ajudá-la; viii) As crianças receberam uma folha com figuras cujos nomes começavam com P, C, M e V; pedimos que contornassem e pintassem: de azul as figuras que começavam com P, de vermelho as figuras que começavam com V, de amarelo as figuras que começavam com M e de verde as figuras que começavam com V. b) Arrumando as malas para viajar Soltando a imaginação: pedimos às crianças que imaginassem que fariam uma viagem. Esta viagem poderia ser para qualquer lugar e o destino foi escolhido pela turma. Após escolherem e votarem no destino, demos a seguinte instrução: “antes de viajarmos, precisamos arrumar nossas malas, mas... atenção! Só podemos levar na mala objetos que começam com a letra “C”. O que cada um vai levar?”; pedimos, então, que as crianças dissessem, uma por vez, o que pretendiam levar na viagem. 63 c) Língua do “P” A atividade foi realizada com a música “A Língua do “P” (faixa 8 do CD ‘Os Grandes Sucessos de Patati Patatá’). As crianças ouviram a música e cantaram com a pesquisadora. Depois, dissemos às crianças algumas frases na língua do “P” e pedimos que elas as repetissem, como por exemplo: “p-va p-mos p-can p-tar!”. “P-a p-go p-ra, p-ba p-ten p-do p- pal p-mas.” Para que a brincadeira ficasse mais divertida, escolhemos algumas crianças para que elas falassem uma frase curta e pedimos aos colegas da classe que a ajudassem a dizer a frase na língua do “P”. Bloco 2 - Consciência Fonológica: a sequência de habilidades e de algumas tarefas foi baseada em Capovilla e Capovilla (2007) e Freitas, Alves e Costa (2007), e incluíram atividades de: a) Consciência de Palavras i) Segmentação de frases em palavras I (extraída de Freitas, Alves e Costa, 2007, p. 46): dissemos uma frase (exemplo: O menino toca piano), pausadamente, batendo uma vez com o pé no chão para cada palavra produzida. Pedimos às crianças que repetissem, batendo também com os pés, e indicassem, no final, o número de palavras da frase (quatro). Repetimos o exercício com outras frases. ii) Segmentação de frases em palavras II (adaptada de Freitas, Alves e Costa, 2007): colocamos no quadro negro da sala uma imagem (Figura 6) que representava alguém praticando uma determinada ação (um menino bebendo água) e perguntamos às crianças o que estava acontecendo na imagem; em seguida, pedimos que explicassem a cena, usando apenas quatro palavras. Para isso, utilizamos quatro círculos recortados em papel e solicitamos que as crianças fizessem de conta que cada uma das formas representava uma palavra; fixamos os círculos no quadro negro e explicamos às crianças que os círculos representavam a frase de quatro palavras elaborada por elas. 64 Figura 6 - Atividade de Consciência de Palavras I Podemos explicar o que está acontecendo nesta imagem com apenas 4 palavras. Vamos fazer de conta que cada círculo deste é uma palavra. Adaptada de Freitas, Alves e Costa (2007) A seguir, explicamos às crianças que a frase iria ficar maior e, assim, acrescentamos um círculo à direita dos demais. Pedimos às crianças que repetissem a frase: “O menino bebe água” e que, em seguida, acrescentassem uma palavra à frase,para “preencher” o último círculo (ex.: “O menino bebe água gelada”). O exercício continuou com outras imagens, de forma que o número de palavras variou em cada frase. Também desenvolvemos essa atividade omitindo palavras no interior de frases. Depois, trabalhamos a substituição de palavras nas frases - atividade na qual foi apresentada uma imagem que representava a mesma ação da Figura 6, mas com um protagonista diferente: (exemplo: “O cachorro bebe água”). iii) Segmentação de frases em palavras III (extraída de Capovilla e Capovilla, 2007, p. 103): pronunciamos uma frase e, em seguida, repetimos a frase, omitindo a última palavra. Pedimos, então, às crianças, que dissessem a palavra que faltou (que foi omitida) (exemplo: “O dia está bonito. O dia está ...”, e a criança deveria dizer “bonito”). Ao final da atividade, discutimos a atividade com as crianças e perguntamos se elas perceberam que as frases têm várias partes dentro; assim, esclarecemos às crianças que essas partes são as palavras e que toda frase pode ser dividida em palavras. iv) Segmentação de sentenças em palavras e verificação do comprimento de palavras (extraída de Capovilla e Capovilla, 2007, p. 107): pronunciamos uma frase e, em seguida, pedimos às crianças que dividissem essa frase em palavras (exemplo: na frase “Mamãe 65 cantou”, a criança deveria dizer as palavras separadas, “Mamãe”, “cantou”); Depois, pedimos às crianças que verificassem quais eram as menores e as maiores palavras das frases (exemplo: na frase “A menina saiu”, a criança deveria dizer que a menor palavra é “a” e que a maior palavra é “menina”). Ao final da atividade, discutimos a atividade com as crianças e perguntamos se elas perceberam que em toda frase há palavras que são maiores do que outras; assim, esclarecemos às crianças que toda frase pode ser dividida em palavras e que existem palavras que são maiores do que outras; v) Segmentação de frases em palavras IV (extraída de Freitas, Alves e Costa, 2007, p. 47): distribuímos uma folha com figuras representando ações e contendo vários retângulos ao lado das imagens (Figura 7). Depois, junto com as crianças, fizemos a leitura de cada imagem e pedimos que contassem o número de palavras da frase produzida para cada figura (exemplo: depois de ouvirem a frase “O menino lê” (conforme a primeira imagem), as crianças deveriam contar o número de palavras (três) e pintar a mesma quantidade de retângulos ao lado da figura). Figura 7 - Atividade de Consciência de Palavras II Extraída de Freitas, Alves e Costa (2007, p. 47) vi) Substituição de palavras (extraída de Capovilla e Capovilla, 2007, p. 119): pronunciamos uma frase e, em seguida, pedimos às crianças que fizessem a substituição da última palavra por uma outra palavra (exemplo: na frase “O menino comeu doce”, a criança 66 deveria substituir a palavra doce por qualquer outra que se encaixasse na frase, como, por exemplo: “O menino comeu macarrão”). vii) Substituição de pseudopalavras por palavras (extraída de Capovilla e Capovilla, 2007, p. 124): dissemos às crianças que elas ouviriam frases com palavras “esquisitas”, que não existem de verdade e que elas deveriam corrigir a frase, trocando a palavra que não existia por uma que existe (exemplo: na frase “A galinha bota telos”, a criança deveria substituir a palavra telos por “ovos”). b) Rima i) Produção oral de palavras que rimam (adaptada de Capovilla e Capovilla, 2007, p. 127): cantamos junto às crianças a cantiga popular “Borboletinha” e, em seguida, pedimos que prestassem atenção nas palavras que terminavam com o mesmo som (exemplo: borboletinha e cozinha). Depois, pedimos às crianças que identificassem outras palavras da música que rimassem (exemplo: borboletinha, cozinha, madrinha) e que explicitassem o som final igual em todas essas palavras (inha). Nesta atividade, as crianças puderam sugerir frases para adicionar à cantiga, indicando palavras que rimavam com borboletinha; ii) Identificação de figuras cujos nomes rimam (extraída de Capovilla e Capovilla, 2007, p. 133): as crianças receberam folhas com figuras cujos nomes terminavam com “to” (gato, rato, pato), “la” (bola, cola, sola) e “ta” (bota, carta, gota); pronunciamos junto às crianças o nome de cada figura (para certificar-se de que todos as reconheciam e as nomeavam corretamente); em seguida, pedimos que ligassem as figuras que terminassem com o mesmo som; iii) Identificação e reconhecimento de figuras cujos nomes rimam: as crianças receberam folhas com figuras e seus nomes correspondentes; pronunciamos junto às crianças o nome de cada figura (para certificar-se de que todos as reconheciam e as nomeavam corretamente); em seguida, pedimos que se atentassem à terminação das palavras escritas e que pintassem da mesma cor as palavras que rimavam; iv) Reconhecimento de figuras cujos nomes rimam: as crianças receberam folhas que continham figuras e, ao lado de cada figura, um quadradinho em branco; pedimos às crianças que pintassem da mesma cor os quadradinhos correspondentes às figuras que rimavam; v) Classificação de figuras conforme a terminação de seus nomes falados (adaptada de Capovilla e Capovilla, 2007, p. 139): as crianças receberam cartões com figuras cujos nomes rimavam de três formas diferentes, com as terminações: “ão”, “ta” e “ço”; posteriormente, colocamos em cima de uma mesa três caixas com cada terminação afixada na frente da caixa (para facilitar a visualização pelas crianças); pedimos às crianças, uma de cada vez, que 67 olhassem com atenção seus cartões e, em seguida, dissessem o nome da figura, enfatizando a sílaba final da palavra; depois, pedimos às crianças que colocassem cada cartão na caixa correspondente à terminação que rimasse com o nome da figura. c) Aliteração i) Produção oral de palavras que aliteram (extraída de Capovilla e Capovilla, 2007, p. 157): contamos às crianças estórias curtas com aliterações (exemplo: “O sapo solitário sumiu silenciosamente na sombra da samambaia da sala”); após a leitura da estória, enfatizamos que as palavras “sapo”, “solitário”, “sumiu”, “silenciosamente”, “sombra”, “samambaia” e “sala” começam com o mesmo som /s/; depois, pedimos às crianças que falassem palavras que começassem com o mesmo som. Continuamos a atividade com outros sons (no nível da sílaba e no nível do fonema); ii) Ida às compras: apresentamos às crianças duas imagens (uma de um cachorro e outra de um sapo); depois, pedimos que nomeassem as figuras e dissessem a sílaba inicial de cada uma delas; na sequência, fixamos as imagens, separadas, na parede, uma de cada lado e, junto a cada imagem, colocamos um saco grande de plástico, aberto; em seguida, explicamos às crianças que os dois animais (representados nas figuras) eram muito amigos e resolveram ir às compras juntos, mas havia um problema: o cachorro só poderia escolher objetos cujos nomes começassem com “ca” e o sapo só poderia escolher objetos cujos nomes começassem com “sa” e, para isso, eles iriam precisar da ajuda das crianças. Então, fornecemos às crianças uma caixa contendo imagens em cartões (a maioria começava com “ca” e “sa” (caderno, caneta, camiseta, sacola, sapato, sabonete), mas algumas representavam vocábulos iniciados por outras sílabas (livro, picolé, garrafa); pedimos às crianças que, seguindo as regras da brincadeira, escolhessem os cartões para cada animalzinho e os colocassem no saco correspondente. Ao final, verificamos junto com as crianças se cada saco continha os cartões corretos; iii) Escolha de figuras cujos nomes aliteram com um modelo (extraída de Capovilla e Capovilla, p. 181): as crianças receberam folhas com figuras; em seguida, pedimos que pintassem apenas a figuras cujos nomes aliteravam com uma figura modelo; d) Consciência Silábica i) Marcação de sílabas em canções (adaptada de Capovilla e Capovilla, 2007,p. 186): cantamos, junto às crianças, a música Atirei o Pau no Gato (faixa 4 do CD ‘A Galinha Pintadinha 2’), batendo palmas a cada sílaba cantada; depois, perguntamos às crianças se elas se recordavam que, em outra atividade, dividimos as frases em partes menores: as palavras e, 68 esclarecemos que, nesta atividade, as próprias palavras também estavam sendo divididas em partes menores, que chamamos de sílabas; ii) Contagem de sílabas em nomes próprios (extraída de Capovilla e Capovilla, 2007, p. 190): pedimos às crianças que falassem seu nome, uma por vez, e que a turma toda batesse palmas para cada sílaba dos nomes dos colegas; simultaneamente à execução da tarefa, afixamos na parede uma cartolina com várias colunas numeradas (de 2 a 4) e pedimos às crianças que nos dissessem a quantidade de sílabas de cada nome e nos ajudassem a escrevê- los na coluna correspondente à quantidade de sílabas de cada um; iii) Contagem de sílabas durante a nomeação oral de figuras e classificação conforme seu comprimento (adaptada de Capovilla e Capovilla, p. 194, 199): colocamos uma pilha de cartas contendo figuras no centro da sala; em seguida, pedimos às crianças que retirassem uma carta do monte, uma por vez, e dissessem o nome da figura; depois, pedimos que todos juntos repetissem o nome da figura pausadamente, batendo palmas para cada sílaba da palavra. Para tornar a brincadeira mais interessante, colocamos sacos plásticos numerados de 1 a 4 e pedimos às crianças que organizassem cada carta dentro de um saco, fazendo a correspondência entre a quantidade de sílabas da palavra contida no cartão e a numeração do saco; iv) Síntese silábica (extraída de Capovilla e Capovilla, 2007, p. 213): com as crianças em formato de círculo brincamos de “Teia de Aranha”; explicamos que seria dito a cada uma delas uma palavra dividida em duas partes, e elas deveriam juntar as partes, dizendo como ficava a palavra. Com um novelo de lã, dissemos uma sílaba e depois uma palavra (com um segundo de intervalo) (exemplo: “ma” – “caco”); a seguir, dissemos, então, as duas partes juntas e uma nova palavra foi formada. Depois, dissemos outro conjunto de sílaba–palavra, e passamos, então, o novelo para uma criança em qualquer ponto da roda, enquanto ainda segurávamos a ponta da linha; pedimos à criança que repetisse as duas partes e formasse uma palavra, segurando, então, a sua parte da linha. Quando a criança não conseguia formar a palavra, ela podia ser ajudada. Com outro conjunto de sílaba-palavra, o novelo foi passado para outra criança; formando-se, assim, uma teia com o novelo. Ao final, todas as crianças ergueram a teia sobre suas cabeças e cantaram a música da aranha (A Dona Aranha subiu pela parede,/ veio a chuva forte e a derrubou./A chuva já passou e o sol já vem surgindo,/ e a Dona Aranha na parede vai subindo). Outras palavras utilizadas na atividade: 1) po-lenta; 2) em-balada; 3) brin-cadeira; 4) a-pegada; 5) de-colar; 6) ge-ladeira; 7) na-morada; 8) xi-cara; 9) ar-mário; 10) ma-caco; 11) em-purrar; 12) ca-netinha; 13) tre-nó; 14) a-mar; 15) cai-xote; 69 16) es-colinha; 17) más-cara; 18) chi-cotada; 19) sa-pato; 20) em-quadrado; 21) ba-leia; 22) ci-garra; 23) na-morar; 24) es-colar; 25) re-vista; 26) cor-tina; 27) ca-lendário; 28) ad-vento. e) Identificação e Consciência Fonêmica i) Identificação do fonema inicial para classificação de figuras: as crianças receberam folhas contendo figuras; em seguida, pedimos que pintassem: de vermelho a borda das figuras que começassem com /v/, de azul a borda das figuras que começassem com /a/ e de roxo a borda das figuras que comecem com /r/; ii) Dominó com figuras (extraída de Capovilla e Capovilla, 2007, p. 228-231): explicamos às crianças as regras do jogo, que são semelhantes ao do dominó tradicional, porém esclarecemos que esse dominó não era de números, mas sim de figuras, e que o objetivo era juntar as figuras cujos nomes tinham o mesmo som no início; pronunciamos junto às crianças o nome de cada figura (para certificar-se de que todos as reconheciam e as nomeavam corretamente); iii) Escolha de figuras cujos nomes começam com o mesmo som de uma figura modelo (extraída de Capovilla e Capovilla, 2007, p. 235): as crianças receberam folhas contendo figuras; em seguida, pedimos que pintassem as figuras cujos nomes começassem com o mesmo som de uma figura modelo (exemplo: figura-modelo: navio; figuras com o mesmo som inicial: neve, natal, nó, nenê, nadar, nariz, nozes; figuras com sons iniciais diferentes: injeção, lavar, tênis, abridor, trator); iv) Substituição de vogais em palavras (extraída de Capovilla e Capovilla, 2007, p. 246): cantamos, junto às crianças, músicas familiares trocando as vogais das palavras (exemplo: na música “O sapo não lava o pé/ não lava porque não quer/(...)” cantamos a música trocando todas as vogais por “a”, assim, a música ficou: “a sapa naa lava a pá/ naa lava parca naa car/ (..)” Depois, cantamos novamente trocando as vogais por “e”, por “i”, por “o” e por “u”; Seguindo a atividade anterior, formulamos frases e perguntas “nas línguas do a, e, i, o, u”, ou seja, substituindo todas as vogais das palavras pela vogal escolhida (exemplo: “Adivinhe a fruta que estou falando na língua do A: ABACAXÁ [abacaxi]”; “Adivinhe que animal é este, falando na língua do U: JUCURU [jacaré]; “Descubra esta frase na língua do E: VECÊ É BENETE [você é bonito]; pedimos às crianças para adivinharem qual era a palavra ou a frase correta. Bloco 3 - Vocabulário: foi composto por atividades extraídas e adaptadas de Micheletti et al. (2002), Marques et al. (2001) e Gonçalves (2010), que referiam à: 70 a) Nomeação de Objetos e Figuras i) Nomeação rápida de figuras: mostramos às crianças algumas figuras; em seguida, pedimos que elas as nomeassem o mais rápido que conseguissem; ii) Nomeação de itens que podem ser comprados em diferentes ambientes: explicamos às crianças que falaríamos uma palavra (um estabelecimento) e, em seguida, pedimos que dissessem tudo que pudesse ser comprado nestes locais (exemplo: supermercado: bolacha, arroz, feijão, refrigerante; papelaria: caderno, lápis, cartolina; padaria: pão, sonho, leite); iii) Nomeação rápida de palavras: pedimos às crianças que falassem o maior número possível de palavras para cada item, o mais rápido que conseguissem: a) o que pode voar; b) animais e c) instrumentos que escavam túneis; d) coisas que brilham. Depois, pedimos que nomeassem rapidamente: e) qualidades possíveis de um lugar, objeto, pessoa e f) ações possíveis dentro de um ambiente ou situação; b) Associação de Ideias – categoria semântica Associação de palavras: pedimos às crianças que falassem palavras que se associavam a outra palavra (exemplo: “carro” - passageiro, viagem, estrada, volante). Outras palavras utilizadas: hospital, professor, bola; c) Situações Imaginárias Viagem à montanha gelada (adaptada de Gonçalves, 2010): Contamos às crianças (em primeira pessoa) aventuras que se vive nas férias quando se viaja para algum lugar frio; descrevemos histórias de diversos lugares como acampamentos, fogueiras, lugares para se abrigar do frio; criamos um cenário simbólico para que as crianças imaginassem como era esse lugar; em seguida, pedimos que dissessem o que desejariam levar caso fossem viajar para um lugar com essas características. d) Diferentes significados de uma mesma palavra Sinônimos: explicamos às crianças que falaríamos uma palavra e que essa poderia ter vários significados, dependendo do contexto onde fosse empregada; depois, pedimos que nos ajudassem a pensar nos diferentes significados possíveis para essa palavra (exemplo: pé – de moleque, de pato, de pessoa). Outras palavras utilizadas na atividade: dente (de leite, de alho), creme (de barbear, de leite), bolha (de sabão, de machucado). e) Partes que formam o todo Composiçãodo todo: explicamos às crianças que falaríamos uma palavra e que, em seguida, elas deveriam dizer as partes que compunham o todo (exemplo: carro – rodas, portas, buzina, freios). Outras palavras utilizadas na atividade: bicicleta, livro, gato, casa. f) Descobrindo palavras através de pistas contextuais 71 Descobrindo palavras: explicamos às crianças que daríamos algumas pistas e elas deveriam descobrir sobre qual lugar estávamos falando (exemplo: “Estive onde havia carteiras, cadeiras, lousa e giz” [esteve em uma sala de aula]). Outras frases utilizadas na atividade: “Estive onde havia muitos animais selvagens em jaula.” [esteve em um zoológico]; “Estive onde havia remédios, médico e enfermeira.” [esteve em um hospital]. Dando sequência a atividade anterior, explicamos às crianças que, agora, daríamos algumas pistas que diziam respeito a alguém ou a alguma coisa; em seguida, pedimos que adivinhassem a que ou a quem a dica se referia (exemplo: “Ela acendeu para deixar o quarto claro.”[luz]); Outras frases utilizadas na atividade: “Ela apertou mais, para não cair a calça.” [cinto]; “Ela desligou, achando que o programa que estava assistindo havia terminado.” [televisão]; “Ela pintou para ficar loira.” [cabelo]; “Colocou água ao ver que estava murchando.” [planta/ flor]; “Ele limpou para enxergar melhor o que estava lendo.” [olhos]. Bloco 4 - Percepção, Atenção e Memória: as atividades foram extraídas e adaptadas de Baqués (2006a, 2006b) e referiam-se a tarefas de: a) Atenção Seletiva Prestando atenção na estória: explicamos às crianças que faríamos a leitura de uma estória e que elas deveriam prestar atenção em uma determinada palavra (exemplo: na leitura de “Os Três Porquinhos”, escolhemos a palavra “casa”); depois, pedimos às crianças que, toda vez que ouvissem a palavra “casa”, ficassem em pé. b) Identificação Semântica Identificando o elemento intruso: as crianças receberam folhas contendo figuras; em seguida, pedimos que identificassem, dentre cada fileira de figuras, o elemento não pertencente ao conjunto (exemplo: na fileira contendo figuras de banana, maçã, sapato e melancia, a criança deveria identificar as figuras de banana, maçã e melancia e recusar a figura de sapato); simultaneamente à execução dessa atividade, pedimos às crianças que dessem um nome ao grupo de elementos (no exemplo acima, seria “fruta”). Outros grupos de figuras utilizadas na atividade: 1) elefante, girafa, martelo, canguru [conjunto animais]; 2) relógio, pulseira, colar, sabonete [conjunto objetos]; 3) chá, cadeira, leite, café [conjunto bebidas]; 5) geladeira, mecânico, dentista, desenhista [conjunto profissões]. c) Identificação de Semelhanças e Diferenças entre Objetos i) Semelhança e diferença entre elementos: explicamos às crianças que falaríamos um par de palavras e elas deveriam dizer uma semelhança e uma diferença entre elas (exemplo: mesa e cachorro – semelhança: os dois elementos têm quatro pernas/ patas; diferença: um elemento é objeto e o outro é animal). Outros pares de palavras utilizadas na atividade: 72 banana e maça [semelhança: ambas são frutas; diferença: uma tem pintinhas, enquanto a outra não tem], calça comprida e saia [semelhança: ambas são roupas; diferença: uma pode ser vestida pela cabeça, enquanto a outra só pode ser vestida pelos pés]; ii) Comparação entre colegas: pedimos às crianças que se comparasse com um colega e descrevesse três diferenças e três semelhanças existentes entre si. d) Atividades de fechamento Preenchendo frases com lacunas: explicamos às crianças que falaríamos algumas frases com lacunas e elas deveriam preenchê-las com uma palavra que desse sentido à frase (exemplo: “Ricardo gostava muito de ------ com sua irmã.” [brincar]). Outras frases utilizadas na atividade: “Ontem no almoço comi --------- com minha prima.”[macarrão/ arroz]; “Nas próximas férias eu e meus --------- viajaremos para o interior.”[pais, amigos]; “Quando vou ao parque brinco de ------------ até me cansar!” (balanço; pega-pega]. e) Jogo dos 7 erros: Identificando diferenças entre figuras: as crianças receberam folhas com o jogo dos 7 erros; em seguida, pedimos que observassem com atenção as duas figuras (dispostas uma ao lado da outra) e que identificassem e marcassem as diferenças entre elas. f) Percepção figura-fundo: Descobrindo figuras escondidas: as crianças receberam folhas contendo figuras sobrepostas (Figura 8); em seguida, pedimos que identificassem e pintassem as figuras descobertas. Figura 8 - Atividade de percepção figura-fundo Pinte todos os espaços marcados com pontinhos e veja quem aparece! Extraída de Gordo (1993, p. 112) 73 g) Atividades mnemônicas i) Previsão de situações: formulamos perguntas às crianças antes da leitura de parágrafos e textos, fazendo pausas entre parágrafos durante a leitura e perguntando: “O que vocês acham que vai acontecer?”; depois, pedimos que recontassem as histórias lidas (questionando “Quem?”, “Quando?”, “Onde?”, “Como?”, “Por quê?” e “Quanto?”) ii) Correções sintáticas (adaptada de Seabra e Capovilla, 2009, p.77 e 78): explicamos às crianças que falaríamos uma frase, esclarecendo que algumas poderiam estar incorretas; em seguida, pedimos que nos ajudasse a identificar essas frases, corrigindo-as (exemplo: “Escola gosto eu da”) [eu gosto da escola]. Outras frases utilizadas na atividade: “Meu irmã bebeu leite” [minha irmã bebeu leite]; “Meus azuis são olhos” [meus olhos são azuis]; “Andou de ela carro” [ela andou de carro]. É importante ressaltar que, além da adaptação de atividades, algumas foram criadas para o presente estudo. As atividades foram realizadas coletivamente, com as crianças sentadas em cadeiras, em forma de círculo, ou em pé; algumas atividades foram realizadas em duplas ou pequenos grupos, enquanto outras foram coletivas. Mesmo nas atividades coletivas, todos os alunos eram solicitados a participar. Semelhantemente às instruções fornecidas por Carvalho (2010) em seu programa de intervenção, a pesquisadora do presente estudo propunha uma tarefa e nomeava o aluno que deveria responder. Caso o aluno não soubesse responder a tarefa, todos poderiam ajudar. Não raras vezes, alguns alunos respondiam a tarefa antes do aluno que era solicitado. Nesses casos, a pesquisadora pediu para que eles esperassem o colega que fosse nomeado responder a próxima tarefa, de modo que todos pudessem participar. Todas essas intervenções ocorreram na biblioteca da escola, durante o período de aulas, nos meses de agosto, setembro, outubro e começo de novembro/ 2011. O caráter lúdico das atividades e o material de apoio utilizado foram priorizados para despertar o interesse e a motivação das crianças. 5.2 Aspectos Éticos Todos os procedimentos do presente estudo foram aprovados pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Unifesp, sob o protocolo n° 0003/2011 (Anexo D) e todos os pais/ responsáveis autorizaram a participação das crianças através da assinatura do TCLE (Anexo G); as crianças também assentiram em participar através da assinatura da TALE (Anexo H). 74 5.3 Análise dos Dados Neste estudo realizou-se análise qualitativa, verificando as adaptações necessárias à implementação da Camada 2 da RTI em relação à amostra selecionada e às fases de desenvolvimento do estudo. Na análise quantitativa, realizou-se verificação do Indice de Mudança Fiel (Reliable Change Index-RCI), significativo para α = 0,05, z > 1,96, a fim de verificar mudanças de desempenho após a intervenção nos subtestes do PROLEC e do CONFIAS; caracterizou-se o desempenho no BRIFE por meio do cálculo de z-scores e gráficos. A análise quantitativa dos dados foi realizada através do Statistic Package for the Social Science (SPSS) para Windows (Versão 17.0, SPSS Inc.©, Chicago, Illinois). 5.4 Resultados Neste estudo, assim como no Estudo I, algumaslevels of student support. This research was aimed to adapt and implement the model RtI to the Brazilian educational context. For this, the research was conducted through two studies: Study I was aimed at the adaptation and implementation of the Tier 1 model, which is characterized as a collective intervention instructional level. This study had two phases: 1) An adaptation of the model, with the training of teachers of the first grade of Elementary School; 2) Implementation of Tier 1 of RtI by trained teachers, in their classrooms. In step 1, 2 teachers a public school in Guarulhos, São Paulo attended, and their training permeated by two central concepts: Explicit instruction and systematic skills training. On step 2, teachers implemented the pedagogical orientations in at least, thrice a week, 20 minutes per day. This method was used on 26 students from “Classroom A” and 25 students from “Classroom B”. All students were collectively evaluated before and after the period of the intervention, by the Brazilian version of The Reading Decision Test (RDT). Study II was aimed at the implementation of the Tier 2 RTI, corresponding to the implementation of additional remedial action, which includes supplemental instruction in curricular and behavioral components. As the original model, Tier 2 is directed to a target group, in this case, Students, despite the initial intervention conducted on “Tier 1 of RTI” (Study I), performance, and the below average progress rate of their same age group colleagues. In that study, 10 of the children who participated, had a performance that was below average standards diversion of the study sample standardization of RDT, and have received at least three ratings bad or very bad in the skills that were measured by the “Protocol of Scholastic Performance”, completed by teachers. These students were evaluated before the intervention, individually, through assessments of reading processes, as well as through other cognitive skills, such as phonological awareness and executive functions. The group intervention occurred at the school, applied by the researcher of this study, thrice a week, with each session lasting about 40 minutes. Consistent with the original model, RTI served two purposes: a) Providing early instruction to struggling students; b) Provide effective means to assess and intervene in the student’s needs. Hopefully, this work will contribute to the discussion of approaches and strategies for improving teaching and assisting the educators and schools in the processes of identification and prevention of learning difficulties, providing relevant material that allows the debate on the most effective ways to assess and intervene in the search of better results for all students. Keywords: Learning Difficulties, Prevention, Remediation, Response to Intervention. 9 LISTA DE FIGURAS Figura 1 - Modelo de Componentes de Leitura........................................................................24 Figura 2 - Modelo de intervenções acadêmicas e comportamentais em níveis cada vez mais intensivos..................................................................................................................................35 Figura 3 - Habilidades estimuladas na Camada 1 da RTI.........................................................50 Figura 4 - Desempenho dos estudantes das Turmas A e B nas avaliações pré e pós-intervenção do subteste Leitura de Letras do RDT......................................................................................51 Figura 5 - Desempenho dos estudantes das Turmas A e B nas avaliações pré e pós-intervenção do subteste Leitura de Palavras do RDT...................................................................................51 Figura 6 - Atividade de Consciência de Palavras I ..................................................................64 Figura 7 - Atividade de Consciência de Palavras II..................................................................65 Figura 8 - Atividade de percepção figura-fundo.......................................................................72 Figura 9 - Habilidades estimuladas na Camada 2 da RTI.........................................................74 Figura 10 - Desempenho das crianças no BRIFE.....................................................................75 10 LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Classificação do desempenho acadêmico das crianças em relação às habilidades de Leitura.......................................................................................................................................52 Tabela 2 - Classificação do desempenho acadêmico das crianças em relação às habilidades de Escrita........................................................................................................................................53 Tabela 3 - Classificação do desempenho acadêmico das crianças em relação às habilidades de Matemática................................................................................................................................53 Tabela 4 - Classificação do desempenho acadêmico das crianças em relação às habilidades de Linguagem Oral........................................................................................................................54 Tabela 5 - RCI e escore pré e pós-teste por participante nos sub-testes do PROLEC..............76 Tabela 6 - Escores pré e pós-testagem e classificação da hipótese de leitura por participante nos subtestes do CONFIAS.......................................................................................................77 11 LISTA DE ABREVIATURAS BRIFE - Breve Inventário das Funções Executivas CEE - Conselho Estadual de Educação CF – Consciência Fonológica CONFIAS - Consciência Fonológica: instrumento de avaliação sequencial DA - Dificuldades de aprendizagem EUA - Estados Unidos da América FEG – Funcionamento Executivo Global HTPC - Hora de Trabalho Pedagógico Coletivo IDEA - Individuals with Disabilities Education Act IM – Índice de Metacognição IRC – Índice de Regulação do Comportamento LL – Leitura de Letras LP – Leitura de Palavras MEC - Ministério da Educação e Cultura MO – Memória Operacional NCLB - No Child Left Behind Act NJCLD - National Joint Committee on Learning Disabilities NRCLD - National Research Center on Learning Disabilities PCDEA - Protocolo de Caracterização de Desempenho Escolar dos Alunos PCN - Parâmetros Curriculares Nacionais PISA - Programa Internacional de Avaliação de Alunos 12 PROLEC - Provas de Avaliação dos Processos de Leitura RCI - Reliable Change Index RDT - Reading Decision Test RTI - Resposta à Intervenção SAEB - Sistema de Avaliação da Educação Básica SAP - Sala de Apoio Pedagógico SEE - Secretaria de Estado da Educação SEF - Secretaria de Educação Fundamental SNC - Sistema Nervoso Central SPSS - Statistic Package for the Social Science TA - Transtornos de Aprendizagem TALE – Termo de Assentimento Livre e Esclarecido TCLE - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido UNIFESP - Universidade Federal de São Paulo 13 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO......................................................................................... 16 2 REVISÃO DA LITERATURA............................................................ 19 2.1 Pressupostos Teóricos............................................................................ 19 2.1.1 Dificuldades de Aprendizagem............................................................. 19 2.1.2 Aquisição e Desenvolvimento das Habilidades Acadêmicas................ 21 2.1.3 Prevenção e identificação precoce das dificuldades de aprendizagem. 27 2.2. O Modelo de Resposta à Intervenção..................................................adaptações foram necessárias para que o modelo RTI fosse implementado. As adaptações realizadas ocorreram nos aspectos referentes à estrutura de espaço e tempo das intervenções, assim como nos pressupostos de triagem comportamental e de monitoramento de desempenho dos estudantes. No que se refere à implementação da intervenção suplementar, a Figura 9 ilustra as habilidades estimuladas nesta etapa do estudo. Figura 9 - Habilidades estimuladas na Camada 2 da RTI (2012, p. 74). Legenda - P, A, M (Percepção, Atenção, Memória) A pirâmide representa os níveis de intensidade em que as habilidades foram trabalhadas, quando comparadas entre si. 75 Esta intervenção no modelo original é aplicada nos cinco dias letivos da semana e dura aproximadamente 40 minutos por dia. Em nosso estudo foi aplicada em três dias da semana, de forma que o tempo estimado de 40 minutos diários foi preservado. Em relação à análise do comportamento, avaliado a partir do BRIFE, a Figura 10 demonstra os resultados obtidos pelas crianças na escala para professores. Verificou-se que, de maneira geral, as crianças obtiveram altos escores na maior parte das habilidades avaliadas pelo questionário, o que significa problemas de comportamento. Figura 10 - Desempenho das crianças no BRIFE (2012, p. 75) A análise acerca do desempenho das crianças antes e após a intervenção permite demonstrar a evolução do grupo. O desempenho das crianças nas avaliações pré e pós- intervenção nos subtestes do PROLEC estão representados na Tabela 5. Verificou-se que no subteste Identificação de Letras todas as crianças mostraram escores significativamente melhores após o período de intervenção; o mesmo ocorreu nos resultados do subteste Igual - Diferente em Palavras e Pseudopalavras, exceto para uma criança. Já em relação aos resultados obtidos no subteste Leitura de Palavras e Pseudopalavras, verificou-se que a maior parte dos estudantes apresentaram evolução na avaliação pós- intervenção, com exceção de 2 crianças (20%) que não obtiveram pontuação 76 significativamente maior no reconhecimento de palavras e pseudopalavras, permanecendo com pontuação igual a 0. Tabela 5 – RCI e escore bruto nas avaliações pré e pós-intervenção por participante nos subtestes do PROLEC Participante Identificação de Letras Igual/Diferente Palavras e Pseudo- Palavras Pré Pós RCI Pré Pós RCI Pré Pós RCI 1 6 7 3,44* 11 17 14,28* 0 0 0 2 13 17 13,7* 16 18 4,76* 49 57 8,16* 3 8 17 9,18* 15 16 2,38* 0 8 8,16* 4 15 17 6,89* 13 15 4,76* 0 12 12,24* 5 0 3 10,34* 9 11 4,76* 0 0 0 6 16 19 10,34* 14 19 11,9* 41 53 12,24* 7 4 13 31,03* 18 19 2,38* 0 3 3,06* 8 2 9 24,13* 15 17 4,76* 0 3 3,06* 9 7 15 27,58* 18 18 0 0 9 9,18* 10 3 16 44,88* 17 18 2,38* 0 4 4,08* (2012, p. 76). Legenda – RCI (Reliable Change Index), Índice de Mudança Fiel. * significativo para α = 0,05, z > 1,96 No que concerne à análise do desempenho das crianças em Consciência Fonológica (CONFIAS), nota-se que o desempenho dos estudantes melhorou tanto no subteste de fonemas quanto no subteste de sílabas (Tabela 6). Na classificação quanto à hipótese de escrita, verificou-se que 80% dos participantes (n=8) foram classificados como Pré-silábicos, 10% (n=1) como Silábicos e 10% (n=1) como Silábico-alfabéticos. Após a intervenção 50% (n=5) dos estudantes avançaram para a hipótese Alfabética de escrita e 30% (n=3) avançaram para a hipótese Silábico-alfabética, indicando progresso do nível de escrita, enquanto que somente 20% (n=2) dos estudantes permaneceram na hipótese Pré-silábica. 77 Tabela 6 – Classificação e escore nas avaliações pré e pós-intervenção por participante nos subtestes do CONFIAS Sílaba Fonema Sílaba Fonema P Pré Pré Classificação Pós Pós Classificação 1 15 5 Pré-silábico 22 11 Pré-silábico 2 26 10 Silábico 39 25 Alfabético 3 18 9 Pré-silábico 32 22 Alfabético 4 23 3 Pré-silábico 35 16 Silábico-alfabético 5 18 10 Pré-silábico 32 17 Silábico-alfabético 6 13 6 Pré-silábico 29 25 Alfabético 7 12 3 Pré-silábico 16 9 Pré-silábico 8 30 17 Silábico-alfabético 37 27 Alfabético 9 20 8 Pré-silábico 32 24 Alfabético 10 14 9 Pré-silábico 28 21 Silábico-alfabético (2012, p. 77). Legenda – P (Participante) 5.5 Discussão Assim como ocorreu na Camada 1, na Camada 2 da RTI algumas adaptações fizeram- se necessárias para que o modelo pudesse ser implementado no grupo de crianças participantes do estudo, tendo em vista que a realidade educacional brasileira diverge em muitos aspectos do contexto onde a RTI foi criada, como anteriormente mencionado. Desta forma, adaptações ocorreram na estrutura de espaço e tempo das intervenções, assim como nos pressupostos de triagem comportamental e de monitoramento de desempenho dos estudantes. No que se refere ao tempo, considerando que a intervenção proposta neste estudo ocorre fora do ambiente de sala de aula, a periodicidade destes encontros foi pensada analisando-se a viabilidade da retirada do aluno de suas aulas regulares para participar da intervenção suplementar. Neste sentido, esta intervenção, que originalmente é aplicada nos cinco dias letivos da semana e dura aproximadamente 40 minutos por dia, foi aplicada em três dias da semana, de forma que o tempo estimado de 40 minutos diários foi preservado. Quanto ao espaço para realização das avaliações e intervenções, o relatório de recomendações para implementação da RTI, produzido em 2005 pelo NJLD, explana que a separação de um espaço na escola para tais atividades viabiliza a boa implementação do modelo. Contudo, por falta de estrutura física do prédio escolar, uma sala especialmente 78 reservada para estes fins não existia, sendo necessário realizar as avaliações e intervenções ora na biblioteca da escola, ora na sala de informática. Da mesma forma que no Estudo I, a triagem comportamental dos estudantes participantes deste estudo não ocorreu; também não foram realizadas avaliações periódicas de monitoramento entre os períodos pré e pós-intervenção, sendo considerados como medida de desempenho os resultados dos estudantes no protocolo dos testes aplicados antes e após a intervenção. Como a intervenção não foi realizada pelas professoras titulares dos alunos, sempre que possível havia troca de informações entre a pesquisadora e as professoras, a respeito do desempenho das crianças tanto na intervenção quanto em sala de aula. A adoção desse tipo de postura é recomendada pelo próprio NJCLD (2005), que explana que parcerias deste tipo favorecem a eficácia do projeto. Entretanto, assim como no Estudo 1, discussões mais aprofundadas sobre a implementação da RTI ficaram inviabilizadas pela ausência da participação ativa de outros membros da equipe escolar neste processo. Apesar de a análise da eficácia do modelo não ser foco do presente estudo, os resultados obtidos no PROLEC mostram que a maior parte das crianças avançou significativamente nas habilidades avaliadas pelo instrumento após o período de intervenção suplementar. A partir deste conjunto de dados, podemos presumir que a intervenção contribuiu de forma positiva para elevar o nível dos processos léxicos e de identificação de letras. As crianças que não avançaram foram consideradas com dificuldades na aprendizagem. No que concerne à análise do desempenho no CONFIAS, é importante notar que 50% dos participantes avançaram para a hipótese alfabética de escrita após o período de intervenção suplementar. Este dado nos mostra que, para metade das crianças, a estratégia alfabética tem sido bem sucedida, indicando que elas compreenderam a natureza da escrita convencional (FERREIRO e TEBEROSKY, 1991) – um requisito fundamental para a participação autônoma das crianças nos mais diversos contextos de leitura e escrita (CORREA, 2011). Outra observação interessante é que tantona avaliação pré quanto na avaliação pós- intervenção, as crianças demonstraram melhor desempenho nas tarefas de consciência silábica, em relação às tarefas de consciência fonêmica. Este dado é consoante com a literatura, que aponta que as habilidades de análise fonológica no nível do fonema se desenvolvem em maior extensão posteriormente à alfabetização (MOUSINHO e CORREA, 2009). 79 Mousinho e Correa (2009) referem que a consciência silábica é uma habilidade importante para o aprendizado inicial da escrita do português brasileiro. Isso pode ser notado no desempenho das crianças na avaliação pós-intervenção do CONFIAS, na qual os maiores escores em consciência silábica referem-se a classificações em níveis mais elevados quanto à hipótese de escrita. Em relação à análise do comportamento executivo das crianças com DA, avaliados pelo BRIFE, verificamos que os resultados encontrados em nosso estudo confirmam dados já apontados pela literatura, que refere que tais dificuldades quase sempre estão associadas a problemas comportamentais (STEVANATO, et al., 2003; LINHARES et al., 1993; PACHECO, 2005). 80 6 DISCUSSÃO GERAL E CONCLUSÕES Consideráveis evidências têm demonstrado que utilizar como referência os estudos com foco sobre a neurobiologia da aprendizagem para se repensar práticas educacionais e utilizar abordagens consistentes com a ciência cognitiva da leitura, que estejam em consonância com princípios científicos atualizados, são importantes para o estabelecimento de processos mais eficientes de alfabetização (ARAÚJO, 2011). Devido a um quadro heterogêneo de problemas capazes de alterar as possibilidades de aprendizagem de uma pessoa, a identificação precoce e o diagnóstico das DA constituem-se processos difíceis, nem sempre precisos, que muitas vezes culminam no encaminhamento de crianças para avaliações e intervenções com profissionais especializados. Embora países do mundo inteiro já reconheçam a necessidade de acompanhamento diferenciado para esses estudantes, no Brasil ainda não há uma política nacional de identificação e acompanhamento dessas crianças, o que torna ainda mais complexo o exercício de intervenção precoce (NAVAS e WEINSTEIN, 2009). Desta forma, a presente pesquisa teve como objetivos principais adaptar e implementar as Camadas 1 e 2 da RTI ao contexto educacional brasileiro. Na primeira parte desta dissertação foi apresentado um panorama geral da realidade atual da educação brasileira. Vimos, nesta introdução, que, ainda que a educação básica tenha sua importância reconhecida, grande parcela dos estudantes brasileiros ainda apresentam baixas competências nas principais habilidades acadêmicas. Essa realidade é bastante preocupante e, para Andrade (2010), decorre de assunções teórico-empíricas equivocadas no que diz respeito às DAs e ao problema da “síndrome do encaminhamento”. Para a autora, tais equívocos resultam numa quase ausência de ferramentas pedagógicas que permitam ao professor identificar as crianças de risco para TA, uma vez que os instrumentos atualmente disponíveis são testes clínicos de aplicação individual, relativamente demorada, que não respondem às demandas das escolas e dos educadores. Em outros contextos, tais problemas têm sido discutidos à luz de modelos de prevenção, cujos resultados de sucesso tem inspirado a determinação rigorosa de que a identificação correta e precoce de crianças da educação infantil e séries iniciais em risco de desenvolverem dificuldade de leitura, requerem atendimento imediato, antes que problemas significativos a impeçam de trilhar o caminho do desenvolvimento normal das habilidades (MELLARD, MC KNIGHT e WOODS, 2009; COMPTON et al., 2010). 81 Nos EUA, há mais de uma década, as agências locais de educação de todo o país vêm passando por mudanças sistêmicas visando cumprir as diretrizes da lei No Child Left Behind, de 2001, e da lei Individuals with Disabilities Education, de 2004 (EHREN, et al., 2006). Estas leis enfatizam, dentre outros pressupostos, a importância da boa formação dos professores, com práticas baseadas em evidências científicas, de forma que estes profissionais devam ser preparados para atenderem a todas as crianças e estejam aptos a identificarem aquelas que apresentarem DA, sentindo-se preparados para prestarem atendimento diferenciado aos alunos que dele necessitarem. Discussões nestes níveis, ainda que necessárias, são recentes no Brasil. Na atualidade, uma política nacional de prevenção e acompanhamento destes estudantes é ausente em nosso país. Neste sentido, partilhamos do reconhecimento da importância de que leis federais sejam aprovadas, oferecendo diretrizes nacionais de trabalho com estes estudantes, contudo, Klotz e Canter (2007) salientam que, mesmo que regulamentações federais ofereçam um norte, cada estado ou município necessita desenvolver seus próprios procedimentos, com base em seus regulamentos, para disponibilizar recursos que atenda às necessidades de sua população estudantil. Mesmo em contextos onde a discussão encontra-se em níveis mais avançados, até bem pouco tempo a identificação dos alunos ocorria por meio de uma abordagem de discrepância entre o que era esperado para a faixa etária ou nível de escolaridade da criança, e seu desempenho, ou seja, esperava-se a criança “falhar”, para depois intervir, como ainda ocorre no Brasil. Entretanto, hoje sabemos que uma abordagem RTI tem o potencial de identificar precocemente as dificuldades e intervir para minimizá-las antes que as consequências acadêmicas e comportamentais sejam mais prejudiciais à criança. Alguns estudiosos (NCJLD, 2005) afirmam que o conceito de RTI sempre foi o foco do processo ensino-aprendizagem da educação geral e que refina iniciativas educativas anteriores, uma vez que a instrução (estratégias, métodos, intervenções, currículo) utilizada neste modelo conduz à aprendizagem e aumentam o progresso do estudante, através da melhoria de seu desempenho acadêmico. O pressuposto-base da RTI é que, quando ensino de qualidade e intervenção às dificuldades são fornecidas precocemente, estudantes sem TA ou sem prejuízos intelectuais obtém progressos satisfatórios (FUCHS, FUCHS e SPEECE, 2002). Quanto à implementação do modelo em nosso contexto, mesmo nos EUA até alguns anos atrás a RTI ainda era uma abordagem nova para muitos educadores, pesquisadores e governantes. Em função disso, ainda que seja um sistema multicamadas bem integrado 82 (JOHNSON-GROS, 2008), ela configurou-se e apresenta-se como um modelo dinâmico, cujos aspectos são modificados de acordo com o regimento interno de cada instituição (MELLARD, MC KNIGHT e WOODS, 2009; JOHNSON-GROS, 2008) ou de cada contexto específico. Desta forma, todo o processo de implementação da RTI na escola participante da presente pesquisa foi realizado respeitando as diretrizes internas que regem a instituição e a dinâmica de trabalho da equipe ali atuante. Pesquisas sobre RTI têm focado principalmente os estudos de intervenção, que investigam a eficácia das estratégias de ensino e dos materiais utilizados, entretanto, há poucas informações descritivas sobre tais estratégias e materiais utilizados – o que dificultou a processo de adaptação e de implementação em nossa amostra. Em contrapartida, os estudos de campo têm explorado as práticas reais aplicadas na implementação dos diferentes níveis de intervenção, enfocando a quantidade de estudantes e os períodos de tempo necessários às instruções em cada nível (NJICLD, 2005). É importante ter clareza de que a implementação da RTI em contextos diversos inclui a variação de uma série de fatores, como a seleção e fidelidade das intervenções, as decisões sobre os prazos, os critérios de movimento entre as camadas, bem como recursos destinados às intervençõese à capacitação da equipe escolar. Essas modificações farão que com que o modelo varie quanto à flexibilidade e rigidez de certos critérios, o que certamente afetará a possibilidade de generalização e replicação dos resultados. Contudo, vale ressaltar que a comparação de execução e eficácia da RTI em diferentes abordagens não tem sido explorada, representando um importante e promissor campo de pesquisas (FUCHS e FUCHS, 2006) que pode contribuir trazendo respostas quanto às taxas de sucesso dos alunos após cada nível de intervenção, a padrões ou normas de referência para implementação de cada camada, bem como os instrumentos de rastreio mais sensíveis na identificação dos estudantes com dificuldade. Consoante com o modelo original, a RTI serviu a dois propósitos: fornecer instrução precoce aos estudantes com dificuldades e fornecer meios eficazes de avaliar e intervir nas necessidades dos alunos (FUCHS e FUCHS, 2006). Desta forma, a RTI demonstrou ser uma alternativa de trabalho com estudantes com DA em nossa amostra. Diferentemente da atual abordagem utilizada com esses estudantes no Brasil (oferecidas nas SAP), a oferta de intervenções na RTI é baseada primordialmente na grade curricular e em pesquisas científicas (JOHNSON-GROS, 2008). Neste sentido, a SAP é uma estrutura dentro das políticas públicas que poderia ser aproveitada na implementação da RTI em larga escala no Brasil. Desta forma, faz-se necessária a condução de novos estudos que 83 subsidiem os pressupostos de avaliação e intervenção em todos os níveis do modelo em nosso contexto, permitindo, assim, a investigação mais fidedigna da eficácia da RTI em grupos mais amplos e diferenciados. 84 7 REFERÊNCIAS ADAMS, Marilyn Jager. Beginning to read: thinking and learning about print. Cambridge: The MIT Press, 1991. ADAMS, Anne-Marie; GATHERCOLE, Susan E. Phonological working memory and speech production in preschool children. Journal of Speech and Hearing Research, (38)2: 403-414, Apr. 2005. 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Atualmente não existe no Brasil programas de acompanhamento especial para crianças e adolescentes com necessidades educacionais especiais, tão pouco há uma política nacional de identificação e acompanhamento dessas crianças, desse modo a implementação desse programa oferecerá a possibilidade de identificação e intervenção precoce para essa população. Essa pesquisa está sendo desenvolvida dentro do Programa de Pós-Graduação em Educação e Saúde na Infância e Adolescência e tem como pesquisadora responsável Roselaine Pontes de Almeida, sob orientação da Profa. Dra. Mônica Carolina Miranda. Os alunos que participarem da pesquisa inicialmente farão avaliações de leitura e serão submetidos a práticas pedagógicas baseadas na instrução explícita e sistemática das habilidades de leitura de forma coletiva, aplicada pelo próprio professor numa primeira etapa. Numa segunda etapa, os alunos que não responderem bem a essa intervenção serão submetidos a um nível suplementar de instrução intensificado. A divulgação da pesquisa terá finalidade acadêmica, esperando contribuir para um maior conhecimento do tema estudado. As atividades realizadas não envolvem qualquer risco para o sujeito e os dados pessoais serão mantidos em sigilo, de tal forma que nenhum dos alunos ou professor poderá ser identificado. Aos participantes cabe o direito de retirar-se do estudo em qualquer momento, sem prejuízo algum. Para tal, solicitamos a autorização desta instituição para coleta de dados, e para aplicação do estudo. O material não oferecerá riscos de qualquer ordem aos participantes e à instituição. Qualquer dúvida poderá ser esclarecida, pelo telefone. De acordo com estes termos, favor assinar abaixo. ..................................................... ................................................................ Roselaine Pontes de Almeida Profa. Dra. Mônica Carolina Miranda Pesquisadora responsável Orientadora Responsável Universidade Federal de São Paulo Telefone de contato: (11) 5549-6899 99 Pelo presente instrumento, que atende às exigências legais, o(a) senhor(a) __________________________________________, representante da instituição, após a leitura da CARTA DE INFORMAÇÃO AO SUJEITO DE PESQUISA (acima), está ciente dos procedimentos propostos. Não restando quaisquer dúvidas a respeito do lido e explicado, firma seu CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO de concordância para que seus dados possam integrar pesquisas na área. Fica claro que a instituição pode, a qualquer momento, retirar seu CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO e deixar de participar do estudo alvo da pesquisa e fica ciente que todo trabalho realizado torna-se informação confidencial, guardada por força do sigilo profissional. São Paulo,....... de ..............................de.................. ________________________________________ Assinatura do representante da instituição 100 ANEXO F CARTA DE INFORMAÇÃO AOS PROFESSORES Estamos conduzindo um estudo cujo titulo é “Prevenção e remediação das dificuldades de aprendizagem: aplicação do Modelo de Resposta à Intervenção numa amostra brasileira”. O objetivo do estudo é testar a eficácia do modelo de resposta a Intervenção em uma amostra de estudantes brasileiros. Esse modelo tem por objetivo promover o aperfeiçoamento acadêmico dos estudantes através da instrução de alta qualidade aos alunos e permite identificar precocemente as dificuldades de aprendizagem, o que nos auxilia a selecionar as crianças que necessitam de um tipo diferenciado de instrução e pensar sobre os possíveis benefícios na organização de currículos escolares apropriados às necessidades atuais. Para tanto, a participação do professor no estudo será da seguinte forma: 1) na fase 1 ocorrerá a capacitação do professor. Essa capacitação será realizada na própria escola, durante um mês, cujo objetivo é fornecer reestruturação didática das aulas que consistirá na aplicação de princípios da instrução explícita dos elementos necessários à alfabetização. O professor será, então, orientado a fornecer a seus alunos instruções declarativas providas de conceitos, categorias e símbolos acerca dos traços fonológicos, lexicais, gramaticais e pragmáticos da língua. 2) na fase 2 o professor aplicará essa metodologia na sala de aula, ou seja, os alunos serão expostos a instruções explícitas e sistemáticas das habilidades de leitura, que serão fornecidas pela própria professora da sala e terão duração média de 20 minutos por dia e ocorrerão três vezes por semana. Tais procedimentos não oferecem risco algum a integridade física ou mental do participante, nem tampouco beneficio direto. Em qualquer etapa do estudo, você terá acesso aos profissionais responsáveis pela pesquisa para esclarecimento de eventuais dúvidas. A principal investigadora é a pesquisadora Roselaine Pontes de Almeida, que pode ser encontrada no telefone 9344-7779 e email roselainepontes@gmail.com. Se tiver alguma consideração ou dúvida sobre a ética da pesquisa, entre em contato com o Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) – Rua Botucatu, 572 – 1º andar – cj 14, 5571-1062, FAX: 5539-7162 – e- mail: cepunifesp@epm.br. Durante o processo, está garantida a liberdade de consentimento a qualquer momento e o participante pode deixar de participar do estudo, sem qualquer prejuízo à continuidade de seu tratamento na Instituição. Não haverá despesas pessoais para o participante em qualquer fase do estudo, incluindo exames e consultas. Também não há compensação financeira relacionada à sua participação. Se existir qualquer despesa adicional, ela será absorvida pelo orçamento da pesquisa. As informações obtidas serão analisadas em conjunto com as de outros voluntários, não sendo divulgada a identificação de nenhum participante. Você tem o direito de ser mantido atualizado sobre os resultados parciais das pesquisas ou de resultados que sejam do conhecimento dos pesquisadores. Os dados obtidos no estudo serão confidenciais, mantidos noslimites garantidos pela lei. Serão utilizados somente com finalidades científicas e podem ser publicados em revistas e outros meios de divulgação científica. Nas publicações, todos os cuidados serão tomados para que nenhum dos participantes possa ser identificado. Pessoas não envolvidas no estudo não terão acesso às informações. mailto:cepunifesp@epm.br 101 TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Acredito ter sido suficientemente informado a respeito das informações que li, ou que foram lidas para mim, descrevendo o estudo “Prevenção e remediação das dificuldades de aprendizagem: aplicação do modelo de resposta à intervenção numa amostra brasileira.” Discuti com a pesquisadora Roselaine Pontes de Almeida sobre a minha decisão em participar nesse estudo. Ficaram claros para mim quais são os propósitos do estudo, os procedimentos a serem realizados e as garantias de confidencialidade e de esclarecimentos permanentes. Ficou claro também que minha participação é isenta de despesas. Concordo voluntariamente em participar deste estudo e sei que poderei retirar o meu consentimento livre e esclarecido a qualquer momento, antes ou durante o estudo, sem penalidades ou prejuízo pessoais. Estou ciente de que a pesquisadora estará à disposição para esclarecimento de qualquer dúvida. _____________________________________ Data ___/___/____ Assinatura do participante _____________________________________ Data ___/___/____ Assinatura da testemunha Declaro que obtive de forma apropriada e voluntária o Assentimento Livre e Esclarecido deste participante para a participação neste estudo. ______________________________ Data / / Pesquisadora: Roselaine Pontes de Almeida 102 ANEXO G CARTA DE INFORMAÇÃO AOS PAIS/RESPONSÁVEIS As informações expostas a seguir serão fornecidas para a participação voluntária de seu (sua) filho(a) neste estudo, cujo titulo é “Prevenção e remediação das dificuldades de aprendizagem: aplicação do Modelo de Resposta à Intervenção numa amostra brasileira”. O objetivo do estudo é testar a eficácia do modelo de resposta a Intervenção em uma amostra de estudantes brasileiros. Nesse modelo, são realizadas duas camadas de intervenção: na camada 1 o professor é capacitado a praticar novas práticas pedagógicas baseadas na instrução explícita e sistemática das habilidades de leitura, a seguir ele será orientado a fornecer a seus alunos instruções declarativas providas de conceitos, categorias e símbolos acerca dos traços fonológicos, lexicais, gramaticais e pragmáticos da língua necessários a alfabetização. Assim sendo, a metodologia é aplicada na própria sala de aula em que a criança estuda pelo professor da criança, terão duração média de 20 minutos por dia e ocorrerão três vezes por semana. Na camada 2 os alunos que tiverem desempenho inferior quando comparado com alunos da mesma sala de aula, terão intervenções em pequenos grupos. Tal procedimento também será realizado na própria escola, pela pesquisadora do presente estudo. Nesta fase, os alunos serão submetidos a uma intervenção suplementar intensificada, com instruções explícitas e sistemáticas que visem o desenvolvimento da leitura. Estas instruções terão duração de 40 minutos por dia, ocorrerão 5 dias por semana em uma sala destinada a esse fim. As crianças serão avaliadas, ainda, com testes de leitura em ambas as camadas, periodicamente. Esses testes são simples e consistem da identificação de letras e palavras (reais e inventadas). A duração média da aplicação é de 10 minutos na camada 1 e também na camada 2. Tais procedimentos não oferecem risco algum a integridade física ou mental do participante, nem tampouco beneficio direto. Em qualquer etapa do estudo, você terá acesso aos profissionais responsáveis pela pesquisa para esclarecimento de eventuais dúvidas. A principal investigadora é a pesquisadora Roselaine Pontes de Almeida, que pode ser encontrada no telefone 9344-7779 e email roselainepontes@gmail.com. Se tiver alguma consideração ou dúvida sobre a ética da pesquisa, entre em contato com o Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) – Rua Botucatu, 572 – 1º andar – cj 14, 5571-1062, FAX: 5539-7162 – e- mail: cepunifesp@epm.br Durante o processo, está garantida a liberdade de consentimento a qualquer momento e o participante pode deixar de participar do estudo, sem qualquer prejuízo à continuidade de seu tratamento na Instituição. As informações obtidas serão analisadas em conjunto com as de outros participantes, não sendo divulgado a identificação de nenhum participante. O participante também tem o direito de ser mantido atualizado sobre os resultados parciais das pesquisas, quando em estudos abertos, ou de resultados que sejam do conhecimento dos pesquisadores. Não haverá despesas pessoais para o participante em qualquer fase do estudo, incluindo exames e consultas. Também não há compensação financeira relacionada à sua participação. Se existir qualquer despesa adicional, ela será absorvida pelo orçamento da pesquisa. Em caso de dano pessoal, diretamente causado pelos procedimentos ou tratamentos propostos neste estudo (nexo causal comprovado), o participante tem direito a tratamento médico na Instituição, bem como às indenizações legalmente estabelecidas. mailto:cepunifesp@epm.br 103 Os dados obtidos nas avaliações serão confidenciais, mantidos nos limites garantidos pela lei. Serão utilizados somente com finalidades científicas e podem ser publicados em revistas e outros meios de divulgação científica. Nas publicações, todos os cuidados serão tomados para que nenhum dos participantes possa ser identificado. Pessoas não envolvidas no estudo não terão acesso às informações. TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Acredito ter sido suficientemente informado a respeito das informações que li ou que foram lidas para mim, descrevendo o estudo “Prevenção e remediação das dificuldades de aprendizagem: aplicação do Modelo de Resposta à Intervenção numa amostra brasileira”. Eu discuti com a pesquisadora Roselaine Pontes de Almeida sobre a minha decisão em participar nesse estudo. Ficaram claros para mim quais são os propósitos do estudo, os procedimentos a serem realizados, seus desconfortos e riscos, as garantias de confidencialidade e de esclarecimentos permanentes. Ficou claro também que minha participação é isenta de despesas. Concordo voluntariamente em participar deste estudo e poderei retirar o meu consentimento a qualquer momento, antes ou durante o mesmo, sem penalidades, prejuízos ou perdas de qualquer benefício que eu possa ter adquirido, ou no meu atendimento neste serviço. --------------------------------------------------------------------------------------------- Assinatura do paciente/representante legal Data / / --------------------------------------------------------------------------------------------- Assinatura da testemunha Data / / para casos de pacientes menores de 18 anos, analfabetos, semi-analfabetos ou portadores de deficiência auditiva ou visual. (Somente para o responsável do projeto) Declaro que obtive de forma apropriada e voluntária o Consentimento Livre e Esclarecido deste paciente ou representante legal para a participação neste estudo. --------------------------------------------------------------------------------------------- Assinatura do responsável pelo estudo Data / / 104 ANEXO H TERMO DE ASSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Acredito ter sido suficientemente informado a respeito das informações que li, ou que foram lidas para mim, descrevendo o estudo “Prevenção e remediação das dificuldades de aprendizagem: aplicação do modelo de resposta à intervenção numa amostra brasileira.”Discuti com a pesquisadora Roselaine Pontes de Almeida sobre a minha decisão em participar nesse estudo. Ficaram claros para mim quais são os propósitos do estudo, os procedimentos a serem realizados e as garantias de confidencialidade e de esclarecimentos permanentes. Ficou claro também que minha participação é isenta de despesas. Concordo voluntariamente em participar deste estudo e sei que poderei retirar o meu consentimento livre e esclarecido a qualquer momento, antes ou durante o estudo, sem penalidades ou prejuízo pessoais. Estou ciente de que a pesquisadora estará à disposição para esclarecimento de qualquer dúvida. _____________________________________ Data ___/___/____ Assinatura do participante _____________________________________ Data ___/___/____ Assinatura da testemunha Declaro que obtive de forma apropriada e voluntária o Assentimento Livre e Esclarecido deste participante para a participação neste estudo. ______________________________ Data / / Pesquisadora: Roselaine Pontes de Almeida30 2.2.1 Perspectiva Histórica............................................................................. 30 2.2.2 Diretrizes............................................................................................... 31 2.2.3 Estrutura e Componentes da RTI.......................................................... 33 3 OBJETIVOS............................................................................................... 39 3.1 Objetivo Geral........................................................................................ 39 3.2 Objetivos Específicos.............................................................................. 39 4 ESTUDO I: ADAPTAÇÃO E IMPLEMENTAÇÃO DA CAMADA 1 DA RTI................................................................................... 40 4.1 Método..................................................................................................... 40 4.1.1 Caracterização da Amostra.................................................................... 40 4.1.2 Etapa 1: Capacitação das Professoras.................................................... 42 4.1.3 Etapa 2: Implementação do modelo RTI em Sala de Aula................... 45 4.2 Aspectos Éticos....................................................................................... 47 4.3 Análise dos Dados................................................................................... 48 4.4 Resultados............................................................................................... 48 4.5 Discussão................................................................................................. 54 5 ESTUDO II: ADAPTAÇÃO E IMPLEMENTAÇÃO DA CAMADA 2 DA RTI................................................................................... 59 5.1 Método..................................................................................................... 59 5.1.1 Caracterização da Amostra.................................................................... 59 5.1.2 Instrumentos e Procedimentos............................................................... 59 5.1.2.1 Protocolo de avaliação........................................................................ 60 5.1.2.2 Adaptação e Implementação da Intervenção...................................... 61 5.2 Aspectos Éticos....................................................................................... 73 5.3 Análise dos Dados................................................................................... 74 5.4 Resultados............................................................................................... 74 5.5 Discussão................................................................................................. 77 14 6 DISCUSSÃO GERAL E CONCLUSÕES.................................... 80 7 REFERÊNCIAS................................................................................. 84 8 ANEXOS.................................................................................................. 93 15 1 INTRODUÇÃO A educação básica é considerada na atualidade um dos grandes objetivos da sociedade brasileira. Neste cenário, o papel da escola como promotora do desenvolvimento da leitura e da escrita torna-se crucial, uma vez que ela possibilita que indivíduos de diferentes faixas etárias e níveis socioeconômicos tenham acesso ao universo da cultura e do conhecimento (BARBOSA et al., 2009), além da formação comum indispensável ao pleno exercício da cidadania (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2009). A importância da educação formal é ressaltada nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) (MEC/SEF, 1999), que preconiza que o exercício da cidadania implica a efetiva participação do indivíduo na vida social, resguardada a sua dignidade e a igualdade de direitos. Depreende-se daí que a inclusão escolar e social efetivas são possíveis apenas com o domínio da leitura e da escrita (SEABRA, 2009), já que é a partir destas aquisições que o aprendiz poderá obter a maior gama de informações e conhecimentos numa sociedade letrada e tecnológica, como aquela em que atualmente vivemos (BARBOSA et al., 2009). Assim, cresce a necessidade de que o processo de escolarização seja eficaz para a maior quantidade possível de pessoas (NIKAEDO, 2006; BARBOSA et al., 2009). Contrariando as expectativas da sociedade, o baixo nível educacional da população tem sido classificado como um dos maiores e mais graves problemas atuais do Brasil (ARAÚJO, 2011). Os índices estatísticos, provenientes das avaliações nacionais do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e da Prova Brasil, bem como das internacionais, como a do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), vêm denunciando, há alguns anos, a baixa qualidade e eficácia da educação em nosso país, principalmente a pública (CARVALHO, 2007). Os níveis rebaixados dos alunos brasileiros em competências de leitura, escrita e matemática, nestas avaliações oficiais, revelam que o sistema atual de ensino não tem sido suficientemente eficaz para garantir a aprendizagem de todas as crianças que entram na escola (CARVALHO, 2007), o que têm aumentado as preocupações em identificar as razões pelas quais algumas crianças enfrentam dificuldades no processo de escolarização. Sabe-se que essas dificuldades durante a aquisição ou desenvolvimento de competências podem atrasar ou reduzir sua consecução e ocorrem por influência de vários fatores (CAPOVILLA, 2011). Neste sentido, é importante identificar a origem dos problemas, 17 para que medidas que visem minimizá-los e até extingui-los possam ser adotadas o mais precocemente possível. Quando se caracteriza como um problema acadêmico pontual, decorrente de questões emocionais e comportamentais ou de inadequações de fatores ambientais, como baixo envolvimento da família, falta de apoio dos pais ou problemas originários do ambiente físico ou social da escola e que podem ser resolvidos de forma espontânea ou por meio de mediação adequada (MOOJEN, 1999), tais problemas são denominados Dificuldades de Aprendizagem (DA). Por outro lado, quando nos referimos a dificuldades mais específicas a certos domínios cognitivos, persistentes, de origem intrínseca ao indivíduo, decorrentes de variáveis neuroanatomofisiopatológicas, elas constituem Distúrbios ou Transtornos de Aprendizagem (TA), como é o caso da dislexia, da discalculia, da disortografia e da disgrafia (CAPOVILLA, 2011; CAPELLINI et al., 2007). Uma questão importante a ser considerada é que existem diferentes terminologias para DA e TA, não existindo consenso quanto às variadas definições (SALLES, 2005). Neste sentido, vale ressaltar que, embora muitas crianças experienciem alguma dificuldade na aprendizagem, nem todas têm transtornos mais específicos (ANDRADE, 2010). A esse respeito, Andrade (2010) salienta que diferenciar dificuldade de transtorno é uma tarefa importante, porém difícil para os professores, uma vez que há ausência de critérios claros que permitam ao professor identificar alunos com dificuldades e separá-los do grupo de risco para transtornos específicos. Somado a esses fatores está o crescente número de alunos com rebaixado desempenho em leitura, cujas dificuldades muitas vezes são confundidas com sinais de dislexia. Essa falsa percepção tem contribuído para o encaminhamento frequente e desnecessário de muitas crianças que são inadequadamente consideradas como tendo TA (ANDRADE, 2010; ANDRADE, PRADO e CAPELLINI, 2011), um fenômeno denominado “síndrome do encaminhamento”. Andrade (2010) e Andrade, Prado e Capellini (2011) ressaltam que, atrelados à falta de identificação do problema e da síndrome do encaminhamento está a “rotulação” indevida, que pode gerar problemas de estigma e autoestima às crianças, prejudicando ainda maisseu desempenho na escola. A prevenção destes problemas tem sido apontada por evidências científicas como um fator de extrema importância no combate às DA, uma vez que sinais sutis de dificuldades mais graves na leitura e escrita podem ser identificados em estudantes na fase pré-escolar e início de alfabetização (FUKUDA e CAPELLINI, 2011). Assim, a prevenção das DA deveria ser priorizada devido às grandes chances de sucesso que a criança pode apresentar no caso de 18 sua dificuldade ser precocemente identificada, além da presença de maior neuroplasticidade nos primeiros anos da infância, ou seja, à maior adaptação funcional ou estrutural que permite a aquisição do conhecimento (CASELLA, AMARO JUNIOR e DA COSTA, 2011). Da mesma forma, sabemos que a criação e disponibilização de programas de intervenção eficazes para a alfabetização são cruciais para o desenvolvimento da sociedade brasileira (CASELLA, AMARO JUNIOR e DA COSTA, 2011; BARBOSA et al., 2009). Em nosso país, entretanto, o modelo usual de ensino espera a criança falhar para intervir, dando pouca ênfase à prevenção e identificação precoce. Também as intervenções baseadas em pesquisas científicas são abordagens muitas vezes desconsideradas (CUNHA e HECKMAN, 2011). Somada a estes fatores, a carência de modelos de intervenção em nível preventivo em nosso país resulta na lacuna deste tipo de trabalho na literatura especializada, sendo o esse o tema da presente dissertação. Um dos modelos de intervenção em nível preventivo que tem demonstrado melhor eficácia para os estudantes nos contextos nos quais têm sido implementados, são os programas baseados na Resposta à Intervenção (BATSCHE et al., 2005). A Resposta à Intervenção (do inglês Response to Intervention), também conhecida pela sigla RTI, pode ser definida como um processo de tomada de decisões de ensino baseado no sucesso ou falha do estudante em situação de risco durante a intervenção especializada (STRANGEMAN et al., 2006). Assim, a RTI permite identificar estudantes com DA e determinar a necessidade de intervenção precoce. Dessa forma, o objetivo do presente estudo foi a adaptação e a implementação do modelo RTI no contexto brasileiro. Atendendo aos principais pressupostos da RTI, essa pesquisa foi realizada em dois estudos principais. O Estudo 1 foi voltado para a adaptação da RTI ao contexto educacional público brasileiro e à implementação da intervenção coletiva em nível instrucional, correspondente à Camada 1 do modelo. O Estudo 2 foi voltado à implementação da Camada 2 da RTI, que corresponde à aplicação da intervenção suplementar no grupo de crianças com DA, identificadas no Estudo 1. Espera-se que este trabalho contribua para a discussão sobre propostas e estratégias baseadas numa abordagem de RTI e auxilie os educadores e as escolas nos processos de identificação e prevenção das DA, disponibilizando um material que permita o debate sobre formas mais eficazes de avaliar e intervir em busca de melhores resultados para todos os estudantes. 19 2 REVISÃO DA LITERATURA Esta revisão de literatura é uma introdução teórica geral que fundamenta cada um dos estudos que integram a presente dissertação. Pretende-se, neste capítulo, apresentar o delineamento conceitual para a compreensão desta pesquisa, considerando as definições e modelos teóricos que embasam o estudo da aquisição e desenvolvimento da leitura e da escrita em crianças e que contemplem as DA. O percurso teórico desta revisão se inicia com a delimitação de pressupostos teóricos e conceitos de base referentes à aquisição e desenvolvimento de habilidades acadêmicas e DA nestes processos. Em seguida, serão abordadas as diretrizes e pressupostos teóricos do modelo RTI, contemplando tópicos em prevenção e identificação precoce das DA. 2.1 Pressupostos Teóricos 2.1.1 Dificuldades de Aprendizagem A terminologia “Dificuldade de Aprendizagem” surgiu da necessidade de identificar um grupo de crianças que apresentava problemas no processo de aprendizagem formal (RIBEIRO, 2008). Alguns autores afirmam que, para compreendermos a definição de DA é importante, antes, conceituar o termo aprendizagem, o qual foi definido por Rotta (2006, p.117) como “um ato de plasticidade cerebral, modulado por fatores intrínsecos (genéticos) e extrínsecos (experiência).” Nesta perspectiva, DA é o resultado de qualquer falha intrínseca ou extrínseca no processo de aprendizagem (ROTTA, 2006). Diz respeito, portanto, a situações em que as dificuldades apresentadas por um aluno são significativamente maiores que as da maioria de seus pares de mesmo nível etário (JIMÉNEZ, 1997). Como esse tipo de problema tem atraído o interesse de estudiosos e pesquisadores dos mais diversos campos de atuação e estudos, tais como medicina, psicologia, pedagogia, dentre outros, muitas teorias envolvendo as DA tem sido elaboradas em várias áreas do conhecimento. Assim, diferentes perspectivas conceituais têm sido utilizadas para 20 compreender essas dificuldades, o que tem gerado diversas definições ao termo, além de variadas proposições de modelos de avaliação e métodos de intervenção (SALLES, 2005). Dada essa multiplicidade de enfoques, há controvérsias teóricas não só no que diz respeito às definições e conceituações das DA, como também na descrição de um perfil característico do quadro, o que pode retardar a identificação das crianças com estes problemas e o início do processo de intervenção (SALLES, 2005). Apesar da falta de consenso sobre muitos aspectos envolvidos nas DA, algumas abordagens concordam que diferentes variáveis influenciam a aprendizagem escolar de um indivíduo, tais como as características individuais desta pessoa, incluindo processos cognitivos básicos; questões psicossociais como motivação, habilidades sociais, comportamentos de ansiedade, depressão ou atenção; influência de fatores neurobiológicos (fontes neurais e genéticas), comportamentais e fatores ambientais, como as circunstâncias sociais e econômicas em que o aprendiz está envolvido, além das influências da qualidade da escola e das diferentes metodologias de ensino adotadas para o ensino dos conteúdos acadêmicos (FLETCHER et al., 2009), incluindo, portanto, fatores relacionados com a escola, com a família e com a própria criança (ROTTA, 2006). Sumariamente, dentre os fatores relacionados à escola destacam-se as condições físicas do ambiente de sala de aula, as condições pedagógicas de seleção metodológica e material didático, além da qualificação, dedicação e motivação do corpo docente. Os fatores familiares referem-se à escolaridade dos pais, à dinâmica familiar e às condições socioeconômicas da família, além da qualidade de estímulos ofertados à criança. No que diz respeito aos aspectos pessoais, relacionados à criança, estão os fatores físicos, como dificuldades sensitivo-sensoriais, percepto-motoras, patologias endócrinas, como desnutrição e outras doenças crônicas ou problemas emocionais, como timidez, ansiedade, insegurança, baixa autoestima e baixa motivação para aprender (ROTTA, 2006). Assim, o debate estende-se para além das questões de aprendizagem. Alguns autores, apoiados no pressuposto da multicausalidade das DA, questionam se essas dificuldades dizem respeito essencialmente a problemas na aprendizagem ou se são problemas no ensino, uma vez que o ato de ensinar envolve a escolha de recursos e estratégias pedagógicas, a opção por um determinado método de ensino, além de ser regida por orientações e diretrizes institucionais e governamentais (DORNELES, 1999). Mediante a inexistência de um critério que seja amplamente aceito pelos investigadores da área, é importante ressaltar que a definição de DA que utilizaremos neste trabalho é a de Rotta (2006), que a concebe como um termo genérico que abarca um grupo 21 heterogêneo de problemascapazes de alterar as possibilidades de aprendizagem de uma pessoa, independentemente de suas condições neurobiológicas. A expressão Transtorno de Aprendizagem será, portanto, reservada àquelas dificuldades primárias ou específicas, decorrentes de alterações no Sistema Nervoso Central (SNC) (ROTTA, 2006), como é o caso, por exemplo, da dislexia. No que se refere à incidência, as DA atingem aproximadamente de 15 a 20% das crianças brasileiras das séries iniciais - razão pela qual tem sido considerada um importante problema social, principalmente porque sabe-se que, se as estatísticas de vários países forem consideradas, estes números são capazes de chegar a 50% dos escolares nos primeiros seis anos de escolaridade (ROTTA, 2006). Para o Ministério da Educação e Cultura (MEC) As manifestações de dificuldades de aprendizagem na escola apresentam-se como um contínuo, desde situações leves e transitórias que podem se resolver espontaneamente no curso do trabalho pedagógico até situações mais graves e persistentes que requerem o uso de recursos especiais para a sua solução. Atender a esse contínuo de dificuldades requer respostas educacionais adequadas envolvendo graduais e progressivas adaptações do currículo (MEC/SEF, 1999, p.33). Essas adaptações curriculares constituem possibilidades de atuação frente às DA, uma vez que é entendido que o ensino para a criança com dificuldade requer a adaptação do currículo regular, para torná-lo apropriado às peculiaridades destes alunos. Desta forma, exclui-se a ideia de formulação de um novo currículo, uma vez que objetiva-se transformar o currículo comum em algo dinâmico, passível de ampliação, para que atenda realmente a todos os estudantes (MEC/SEF, 1999). 2.1.2 Aquisição e Desenvolvimento das Habilidades Acadêmicas As DA são responsáveis por diversos problemas, dentre os quais estão o fracasso e a evasão escolar. Como mencionado anteriormente, as DA podem ser gerais, ou seja, podem ocorrer concomitantemente em várias áreas do conhecimento (ou disciplinas acadêmicas) ou podem ser específicas, como em leitura ou escrita, por exemplo. Sabemos que a aprendizagem da leitura e da escrita constituem um dos objetivos fundamentais dos primeiros anos de escolaridade e, nessa condição, é a base que sustenta a aquisição de conhecimentos posteriores, mais complexos, permitindo ao sujeito, segundo Barbosa et al. (2009), um bom desenvolvimento de outras habilidades cognitivas. 22 Dockrell e McShane (2000) pontuam que, nas dificuldades em leitura, é possível que esta esteja relacionada muito mais ao tipo de material utilizado do que ao modo como se aprende. Desta forma, compete-nos esclarecer as definições e os processos de aquisição e de desenvolvimento destas habilidades. Antes, porém, faz-se necessário ressaltar que, devido ao interesse de diversas áreas sobre esse tema, as definições acerca da leitura e da escrita dependem da perspectiva teórico- metodológica adotada em cada investigação. Neste trabalho, utilizaremos a abordagem da Psicologia Cognitiva. A Psicologia Cognitiva, na abordagem de Processamento da Informação, propõe modelos cognitivos dos processos mentais superiores, que esclarecem como a informação é processada na mente humana. Nesta perspectiva, a leitura e a escrita são definidas como atividades mentais extremamente complexas e sofisticadas, compostas por múltiplos fatores interdependentes (SALLES, 2005), sendo a maioria deles automáticos e não conscientes para um leitor fluente (PATRÃO, 2010). Segundo O´Malley et al. (2002), a aquisição e o desenvolvimento da capacidade de leitura correspondem a um processo dinâmico que ocorre ao longo do tempo de vida de um sujeito, requerem complexas adaptações do sistema nervoso e necessitam de estimulação e orientação externas (FOORMAN et al., 1998). Salles (2005) complementa que a leitura envolve dois processos fundamentais: o reconhecimento de palavras (acesso ao léxico mental) e a compreensão do que é reconhecido. O reconhecimento visual de palavras inclui, além do domínio da correspondência grafofonêmica e estratégias fônicas, também a capacidade de aplicar estas habilidades de forma rápida e sem grandes esforços, de tal forma que o reconhecimento da palavra se dê de forma automática, influenciando positivamente na fluência de leitura e na compreensão do que foi lido (HEIN et al., 2010). Durante esse processo, interligam-se processadores fonológico, ortográfico, semântico e contextual (ADAMS, 1991). Os processadores fonológico e ortográfico recebem e processam informações do meio externo, decodificando palavras (SANTOS e NAVAS, 2002), expandindo a memória durante a leitura e ampliando a compreensão do texto (ADAMS, 1991). Dessa forma, leitura é, portanto, o processo de aquisição de informações por meio da palavra escrita, constituindo-se no processo de reconhecimento de palavras, compreensão destas e integração do significado a um contexto (OSTROSKY-SOLÍS et al., 1987). Neste processo utilizamos tanto os sistemas sensorial e motor básicos, como de componentes 23 ortográficos, fonológicos e semânticos, os quais atuam conjuntamente para que haja extração do significado da palavra escrita (LOZANO, RAMIREZ e OSTROSKY-SOLÍS, 2003). Assim, a realização de atividades, como leitura de palavras isoladas ou de textos, recruta, além dos processos supra mencionados, o processamento visual refinado dos sinais gráficos, que realiza uma varredura textual na identificação das partes constituintes da palavra e tendem a levar à fixação, codificação e compreensão – habilidades requisitadas desde que a criança inicia a alfabetização (NAVAS, PINTO e DELISSA, 2009). Capellini et al. (2007) ressaltam que é importante não desconsiderar que, relacionado ao processamento visual, encontra-se o processamento linguístico da leitura, que participa inicialmente da identificação da palavra através da decodificação fonológica, sendo este auxiliado pelo processamento auditivo, que permite a conversão dos sinais gráficos em representações fonológicas. No que se refere à compreensão, Seabra (2011) ressalta que esta habilidade é a essência da leitura. Salles e Parente (2002), explanando sobre a compreensão textual, sintetizam que essa habilidade inclui vários processos cognitivos interrelacionados, dentre eles processos básicos de leitura, como o reconhecimento e extração do significado das palavras impressas, bem como processos cognitivos de alto nível, como capacidade de realizar inferências, habilidades linguísticas gerais, habilidades de memória e conhecimento de mundo, que juntos colaboram para a construção de uma representação macroestrutural do texto. Expandindo esse quadro teórico, Seabra (2011) apresenta o Modelo de Componentes de Leitura (Figura 1), (adaptado de AARON, JOSHI e QUATROCE, 2008), que explicita a natureza componencial da leitura através de três domínios. O Domínio I engloba os componentes cognitivos linguísticos e inclui o reconhecimento de palavras, compreensão e fluência de leitura; o Domínio II engloba componentes psicológicos adicionais e inclui motivação, lócus de controle, estilos de aprendizagem e gênero; o Domínio III engloba os componentes ambientais, incluindo a expectativa do professor, o ambiente em casa, a cultura, o envolvimento parental, o ambiente escolar, a influência dos pares e a língua. 24 Figura 1 - Modelo de Componentes de Leitura Seabra (2011, p. 35) De acordo com Seabra (2011), o modelo é útil na compreensão dos componentes envolvidos na leitura, podendo facilitar a inclusão de instruções adequadas durante o ensino e permitindo a melhor identificação de problemas na aquisição e desenvolvimento desta habilidade. Face a esses processos, a leitura tem sido reconhecida como uma habilidade que influencia o desempenho de linguagem oral, que amplia o vocabulário e aumentao nível de informação e conhecimentos gerais, desenvolvendo o senso crítico, despertando a curiosidade, a sensibilidade e o raciocínio, além de oferecer ao homem a possibilidade de construir seu próprio conhecimento, na medida em que proporciona o acesso a todo acervo de conhecimentos acumulado pela humanidade por meio da escrita (NAVAS, PINTO e DELISSA, 2009). De forma complementar, Tuchman (1999) aponta que a leitura requer, além do processamento visual da palavra escrita (decodificação), também a compreensão de que estes 25 símbolos podem fragmentar-se em elementos fonológicos subjacentes (consciência fonológica) para que, a partir daí, seja extraído seu significado. Consciência Fonológica (CF) é a capacidade de entender a maneira pela qual a fala pode ser segmentada em componentes cada vez menores: frases em palavras, palavras em sílabas, sílabas em fonemas (ALVAREZ, CAETANO e ROMAN, 1999). Complementando essa definição Capovilla e Capovilla (2000) afirmam que CF não é só a consciência de que a fala pode ser segmentada, mas também a habilidade de manipular estes segmentos. Para Santos e Navas (2002), trata-se de uma competência metalinguística que possibilita o acesso consciente aos sons da fala e a reflexão a respeito da estrutura sonora das palavras, percebendo-as como uma sequência de fonemas. Assim, CF é entendida como parte de um processamento fonológico mais amplo que agrega uma série de funções, tais como memória fonológica, discriminação auditiva, nomeação e articulação das palavras. (CAPOVILLA e CAPOVILLA, 2002; SANTOS e NAVAS, 2002), e pode, ainda, ser dividida em consciência suprafonêmica, que diz respeito à consciência de segmentos maiores que fonema, ou seja, às sílabas, rimas, aliterações e palavras, e a consciência fonêmica, que diz respeito especificamente à consciência de fonemas (MORAIS, 1995). Morais (1995) aponta que a consciência suprafonêmica é manifesta como unidades mais discretas da fala, passíveis, portanto, de desenvolvimento espontâneo, diferentemente da consciência fonêmica, que requer instrução explícita. Instrução explícita é o trabalho de explicitação da questão linguística e todos os passos pedagógicos que objetivam garantir aos alunos não somente a exposição, mas também o uso das formas linguísticas das letras do alfabeto na leitura e escrita (ZIMMER, ALVES e SILVEIRA, 2006). Diferentemente do que ocorre na instrução implícita, na qual o aprendizado ocorre de forma automática (e o aprendiz mostra-se inconsciente dos mecanismos envolvidos na instrução), na instrução explícita há uma condição consciente por parte do aprendiz e o conhecimento fica armazenado para ser acessado quando este apresentar alguma dificuldade linguística, sendo possível, portanto, testar hipóteses conscientemente (ELLIS, 1994). A instrução explícita abarca, portanto, todo o procedimento pedagógico utilizado pelo professor visando chamar atenção dos alunos aos detalhes, ressaltar ou revisar aspectos sonoros da língua (DEKEYSER, 1995), que muitas vezes passam despercebidos pela criança e que, consequentemente, deixam de ser processados (como prestar atenção aos diferentes movimentos da nossa boca e da nossa língua ao pronunciarmos as letras do alfabeto que tem 26 sons semelhantes, por exemplo). Desta forma, ainda que exija sistematização, o ensino explícito da consciência fonêmica, tanto quanto da consciência suprafonêmica, é uma estratégia aplicável no ensino regular, que merece atenção e enfoque, como preconizam Capovilla, Gütschow e Capovilla (2004), alertando que o profissional “deve identificar os fatores acessíveis à intervenção imediata, capazes de promover a alfabetização eficaz da criança” (p. 23), não necessitando esperar melhoria de condições extrapedagógicas, que fogem ao alcance da intervenção docente. Santos, Navas e Pereira (1997) salientam que várias brincadeiras infantis, como cantar músicas usando uma vogal de cada vez, parlendas, língua do P, poesias rimadas e ritmadas, falar palavras ao contrário e muitas outras brincadeiras e jogos deveriam ser estimulados na educação infantil com intuito de auxiliar o desenvolvimento das habilidades auditivas, que influenciam na aquisição e desenvolvimento da leitura e escrita. As autoras completam que também as crianças com dificuldades de linguagem seriam beneficiadas com tais práticas, uma vez que minimizam a possibilidade de existência de distúrbios posteriores na linguagem escrita. Dessa forma, há evidências cada vez mais claras de que a CF é uma das habilidades mais fortemente correlacionadas com leitura e escrita, sendo sua estimulação um importante fator interferente no desenvolvimento e posterior consolidação destas habilidades. Outra habilidade do processamento fonológico relacionada ao aprendizado da leitura e da escrita (especialmente em línguas de base alfabética, como é o caso do português brasileiro) é a memória operacional (MO) (ADAMS e GATHERCOLE, 1995). O termo MO refere-se à habilidade de armazenar e manipular informações por um curto período de tempo. Esse espaço flexível de tempo nos permite armazenar informações importantes no curso de atividades mentais complexas (GATHERCOLE e ALLOWAY, 2004). Uma das características mais importantes da MO é que trata-se de um sistema útil e flexível utilizado na vida cotidiana, requisita o sistema atencional, tem capacidade limitada e seu acesso por nós é consciente (GATHERCOLE e ALLOWAY, 2004). Por propiciar manutenção, manipulação e integração de informações a MO tem um papel fundamental em processos cognitivos como a compreensão, a resolução de problemas e o raciocínio. Na aprendizagem, o papel desempenhado pela MO ocorre principalmente nos primeiros anos da infância (GATHERCOLE e ALLOWAY, 2004). Alloway e Alloway (2008) identificaram que a MO em crianças de 5 anos foram os melhores preditores de leitura, escrita e matemática seis anos depois. Além disso, estes estudiosos verificaram que aplicar 27 atividades que envolviam MO no início da escolarização era um importante preditor do sucesso acadêmico posterior. Essas considerações têm importantes implicações para a educação, especialmente para o trabalho interventivo com crianças com DA. Outro dado importante para as implicações educacionais da intervenção em MO é que no trabalho de Alloway e Alloway (2008) o desempenho das crianças não teve relação com o nível de escolaridade da mãe, sugerindo que o desempenho nesta habilidade não é fortemente impactado por fatores socioeconômicos. Gathercole et al. (2006), salientam, contudo, que prejuízos na MO representam uma restrição importante na aquisição de habilidades de leitura e matemática. 2.1.3 Prevenção e identificação precoce das dificuldades de aprendizagem As razões para haver implementação de programas que identifiquem precocemente crianças de risco para DA é que a persistência destes problemas e a falta de tratamento adequado podem ter consequências danosas para o desempenho emocional e comportamental da criança (MUTER, 2001). Essa identificação precoce pode permitir o estabelecimento de uma rede de apoio e comunicação que estarão aptas a darem suporte às necessidades específicas da criança, de forma a atendê-las com precisão e de manejá-las com sensibilidade (MUTER, 2001). É sabido que crianças identificadas no início da escolarização têm bem menos campo educacional para compensar do que aquelas que já arrastam suas dificuldades por dois, três ou mais anos escolares e já experimentaram frustrações excessivas e sentimentos de fracasso por falharem na escola. Crianças nestas condições geralmente têm menor motivação e receptividade (MUTER, 2001), pois transpor uma lacuna de 12 meses é uma tarefa mais fácil e rápida do que compensar muitos anos de escolarização deficiente. Além disso, muitos reforçadores podem ser mais prontamente implementados emcrianças pequenas, podendo ter efeitos promissores na iniciação e manutenção da cooperação e da motivação da criança (MUTER, 2001). Como já mencionado, a aprendizagem de leitura e escrita sofre influência de uma gama de fatores, tais como os psicossociais, afetivos, da escola, ambiente de aprendizagem, tipo e intensidade da instrução, características do professor e recursos no ambiente familiar (MARTURANO, 1999). Neste sentido, os contextos sociocultural, escolar e familiar no qual a criança está inserida podem atuar como fatores de proteção na minimização ou compensação 28 dos déficits de crianças vulneráveis biologicamente para desenvolver problemas de leitura. Da mesma forma, porém, estes contextos podem agravar ou mesmo desencadear dificuldades em crianças não predispostas biologicamente a desenvolver transtornos de leitura e/ou escrita (SALLES, 2005). Tais fatores devem ser considerados e, o mais precocemente possível, identificados, para que comportamentos de risco possam ser minimizados pela intervenção e fatores de proteção sejam ofertados às crianças. No que diz respeito à identificação de comportamentos indicativos de DA, Carvalho (2001) salienta que é preciso consultar os professores, uma vez que nem sempre há concordância entre a avaliação docente, os registros de conceitos na escola, as indicações de aulas de reforço escolar e as reprovações ocorridas no final do ano letivo. Para compreender melhor essa questão, é preciso fazer uma breve nota sobre o sistema de ciclos, vigente em algumas escolas brasileiras. A política de ciclos surgiu como possibilidade de ação frente às altas taxas de evasão escolar e repetência, além de ser uma alternativa ao desperdício de verbas causado pela não fluência do fluxo escolar em decorrência da estagnação dos alunos numa mesma série, principalmente nos anos iniciais da escolarização formal (BERTAGNA, 2003). A pretensão dos ciclos é que todos os alunos possam cumprir os anos de estudos obrigatórios, sem interrupções ou retenções. Desta forma, o poder de reter o aluno intra-séries é retirado da avaliação, em uma tentativa de permitir ritmos diferenciados de aprendizagem em espaços maiores de tempo (FREITAS, 2003) e, nesta lógica, o aluno tem progressão de série automática ou continuada. A progressão continuada ocorre quando a criança avança no percurso escolar, em razão de ter se apropriado, por meio da ação da escola, de novas formas de pensar, agir e sentir. Diferentemente, a promoção automática diz respeito à permanência da criança na unidade escolar, independentemente de ter alcançado progressos na aprendizagem (SÃO PAULO, 1998). No estado de São Paulo a progressão continuada foi instituída pelo Conselho Estadual de Educação (CEE, Deliberação n° 9/97) e adotada pela Secretaria de Estado da Educação (SEE), a partir de 1998, na forma de ciclos para os ensinos fundamental, regular ou supletivo (FREITAS, 2003). Assim, as 1ª, 2ª, 3ª e 4ª séries foram agrupadas em um módulo e as 5ª, 6ª, 7ª e 8ª séries foram agrupadas em outro. 29 A progressão continuada permite uma nova forma de organização escolar, conseqüentemente uma outra concepção de avaliação. Se antes aprovava-se/ reprovava-se ao final de cada série, agora se espera que a escola encontre diferentes formas de ensinar que assegurem a aprendizagem dos alunos e o seu progresso intra e interciclos. (...) A denominação progressão continuada foi adotada, como enfatizam diversos textos oficiais, porque extrapola a compreensão da aprovação automática no sentido apenas de implementação de uma norma administrativa, mas contempla o aspecto pedagógico, a crença de que toda criança é capaz de aprender. Então, sempre ocorrerá progresso de aprendizagem dos alunos. Cada qual tem o direito de se desenvolver no seu ritmo natural e a escola, portanto, deve garantir a aprendizagem do aluno (BERTAGNA, 2003, p. 79-81). Vale ressaltar que nesse sistema o conceito do professor não é mais considerado como único parâmetro para decidir pela reprovação ou progressão do aluno, já que os docentes recebem orientação explícita para não reprovarem mesmo aqueles alunos que não alcançarem os mínimos objetivos esperados para determinado nível escolar. Desta forma, numa tentativa de alteração da lógica da seriação, a autonomia do professor é reduzida e sua avaliação sobre o desempenho de seus alunos, como já mencionado, não tem poder decisivo. Contrariando estes pressupostos, Salles (2005) considera que a avaliação das habilidades de leitura e escrita de crianças nas fases iniciais da escolarização só será completa quando a percepção dos professores a respeito das habilidades e desempenho de seus alunos forem consideradas, uma vez que a sala de aula é um ambiente natural (ecológico) para avaliação, além de ser o local onde dificuldades nestes processos surgem ou são evidenciadas. De forma complementar, Marturano (1999) refere que o baixo desempenho escolar não deveria ser visto isoladamente como sendo um problema pedagógico ou como uma dificuldade individual do aluno, mas sim uma questão que deve ser analisada junto aos contextos de desenvolvimento da criança. Consideradas as avaliações do professor a respeito do desempenho acadêmico de seus alunos, alguns autores ressaltam que, a despeito da dificuldade que o estudante possa apresentar, uma medida inicial que vise sanar o problema deve ser implementada no contexto de sala de aula regular, antes que esse aluno seja encaminhado para serviços especializados. Nos Estados Unidos da América (EUA), entre as décadas de 80 e 90, a existência de um excessivo número de encaminhamentos de estudantes para os serviços de educação especial, em conjunto com preocupações relativas à eficácia dos modelos utilizados para identificar e classificar estes alunos impulsionou o debate e a apresentação de modelos alternativos de trabalho com estes estudantes. O governo, então, procurou encorajar investigadores a pesquisarem e desenvolverem programas que permitissem uma melhor identificação das dificuldades destas crianças, além de intervenções mais eficazes. 30 Consoante com estes propósitos, que demandaram medidas que minimizassem as barreiras ao aprendizado, e tendo como respaldo a legislação norte-americana, muitos pesquisadores tem centrado seus esforços na elaboração e implementação de planos de intervenção preventivos e/ ou remediativos (FLETCHER, et al., 2009). Modelos baseados nessas prerrogativas destacam-se por objetivarem, prioritariamente, identificar precocemente os indivíduos com TA, uma vez que intervenções cada vez mais intensivas são oferecidas àqueles que apresentam DA no início do processo de escolarização. 2.2 O Modelo de Resposta à Intervenção 2.2.1 Perspectiva Histórica Em 1983, Ysseldyke e colaboradores publicaram um artigo indicando uma prática alternativa de trabalho em sala de aula com crianças com DA. Esta intervenção utilizava dados provenientes do desempenho dos alunos para orientar decisões educacionais posteriores. Já nesta época existia uma série de esforços para desenvolver cada vez mais processos de avaliações sofisticados o bastante para identificar os estudantes elegíveis para os serviços especializados de educação, além de identificar medidas que pudessem ser utilizadas por professores em sua rotina para monitorar o progresso dos alunos e avaliar a eficácia das técnicas utilizadas para instruí-los. Estudos realizados com estes objetivos constataram que os estudantes fazem progressos maiores quando seus professores utilizam-se sistematicamente dos dados de seu desempenho (YSSELDYKE et al., 1983; MIRKIN e DENO, 1979; FUCHS et al., 1982). Os autores destes trabalhos ainda sugeriram que a coleta frequente de dados (semanalmente ou quinzenalmente) referentes ao desempenho dos estudantes conduziam decisões mais precisas sobre qual instruçãoofertar. Além disso, dados coletados com menor frequência (uma vez por mês, por exemplo) não ofereciam informações suficientes para que boas decisões fossem tomadas sobre a eficácia da instrução (YSSELDYKE et al., 1983). Estes pesquisadores também verificaram que os encaminhamentos não eram a única e principal forma de atenderem às necessidades educativas especiais das crianças. Assim, argumentaram que o foco dos esforços quando um estudante está exibindo um problema deveria ser ajudar este indivíduo e seu professor, no mínimo, a desenvolver estratégias de intervenção apropriadas, antes de encaminhar esta criança a qualquer especialista ou a 31 qualquer programa de educação especial fora de sua sala de aula regular (YSSELDYKE et al., 1983). Nesta perspectiva, Ysseldyke et al. (1983) salientaram que estudantes com problemas comportamentais e de aprendizagem são vistos mais apropriadamente numa perspectiva ecológica, que considere a contribuição das variáveis entre as crianças da sala de aula, além das variáveis instrucionais. Estes autores ressaltaram que no ambiente de sala de aula o professor teria o parâmetro adequado para identificar os alunos que não acompanham o rendimento médio dos outros estudantes. Desta forma, seria possível que a adoção de uma perspectiva ecológica de análise gerasse intervenções e instruções mais relevantes e eficazes para estes estudantes. As preocupações sobre a insuficiência do ensino e a ausência de critérios eficazes que permitissem identificar estudantes com necessidades específicas de educação acentuaram a necessidade de desenvolver mecanismos alternativos para a identificação desses alunos. Essas ideias originaram a Resposta à Intervenção, também conhecida pela sigla RTI (do inglês Response to Intervention). 2.2.2 Diretrizes Da necessidade de atendimento educacional diferenciado aos estudantes que apresentavam dificuldades na escolarização, foram fomentadas ideias e discussões que culminaram na formulação de documentos que tratam da identificação destes indivíduos (PRESIDENT´S COMISSION ON EXCELLENCE IN SPECIAL EDUCATION, 2002; DONAVAN e CROSS, 2002). A No Child Left Behind Act (NCLB), sancionada nos EUA em 2001, enfatiza a intervenção precoce, a instrução de boa qualidade, bem como a contabilidade dos resultados destes processos. Reafirmando essas prerrogativas, a lei Individuals with Disabilities Education (Idea, 2004) determina que todos os Estados garantam a oferta de educação pública livre e adequada a todas as crianças, incluindo aquelas com TA e quaisquer outras necessidades educativas especiais (FLETCHER et al., 2009). A Idea (2004) aborda o uso da RTI em dois aspectos: primeiro, permite a utilização de dados de RTI como parte de uma avaliação para a educação especial, como meio de identificação e determinação de elegibilidade destes alunos; segundo, cria a possibilidade de 32 utilizar até 15% de seus fundos para financiar a implementação de intervenção precoce nos distritos (NJCLD, 2005; FUCHS e FUCHS, 2006). Analisando a legislação, Klotz e Canter (2007) apontam que tanto a NCLB (2001) quanto a Idea (2004) ressaltam a importância de se proporcionar instrução de alta qualidade, o ensino de base científica e intervenções adequadas às necessidades dos estudantes, assim como manter as escolas responsáveis pelo progresso de todos os alunos em termos de cumprimento das leis. Como visto, em outros contextos educacionais, associações profissionais, grupos de advocacia e agências governamentais formaram grupos de trabalho e forças-tarefa com o propósito de identificarem crianças com TA (YSSELDYKE, 2005), uma realidade ainda incomum em nosso país. Por um longo tempo a educação especial foi a solução utilizada para instruir os alunos com quaisquer necessidades educativas especiais no Brasil. A partir de 2008, no entanto, esta modalidade de ensino foi extinta do nosso sistema educacional, o que tem feito com que muitas crianças sejam encaminhadas a especialistas e, a outras são ofertadas aulas extras em Salas de Apoio Pedagógico (SAP). A SAP é uma modalidade de atendimento educacional destinada a estudantes do ensino fundamental “que apresentem dificuldades de aprendizagem, para os quais tenham sido esgotadas todas as diferentes formas de organização da ação educativa” (SÃO PAULO, 2004, p. 202). Os principais objetivos deste projeto incluem a atuação contínua e paralela ao professor da classe regular, fornecendo-lhe apoio pedagógico e buscando reverter a insatisfação e ineficiência decorrentes das situações de conflito vividas em sala de aula, desenvolvendo ritmos, limites, competência e autoinstrução nos alunos (SÃO PAULO, 2008). Seus componentes práticos incluem ações integradas à educação regular e atendimento na própria unidade educacional de origem do aluno, podendo ser realizadas em sala equipada e organizada especificamente para esse atendimento, bem como em outros ambientes da escola, como pátio, sala de leitura, sala de informática ou quadra poliesportiva (SÃO PAULO, 2008). A prática pedagógica na SAP é organizada em turmas com o mínimo de oito e máximo de doze alunos. Os atendimentos acontecem no contraturno escolar, em cinco horas- aula, distribuídas em no mínimo dois atendimentos por semana, sendo a permanência dos alunos na SAP condicionada aos seus avanços no processo educativo, analisados em conjunto com o professor da classe regular, o professor da SAP e o coordenador pedagógico, ao final de cada semestre letivo (SÃO PAULO, 2008). 33 Ainda no que se refere à discussão legal, vale ressaltar que no Brasil os estudantes com DA e TA não são contemplados nas leis educacionais que tratam da inclusão. Não obstante, já existe um movimento legislativo que acompanha discussões de ações que visem garantir o atendimento educacional diferenciado, preferencialmente na rede pública regular de ensino, a todos os estudantes que dele necessitar. Estas prerrogativas estão postuladas na Lei Estadual nº 5848, de 28 de dezembro de 2010 do Rio de Janeiro, que dispõe sobre medidas para identificação e tratamento da dislexia na rede estadual de educação, objetivando a identificação precoce e o acompanhamento dos estudantes disléxicos, além de prever a capacitação permanente de educadores para que tenham condições de identificar nos estudantes os sinais da dislexia e de outros TA. Assim como o Estado do Rio de Janeiro, alguns municípios aprovaram leis visando diagnóstico e tratamento da dislexia, como é o caso de Curitiba - PR, que prevê por meio da Lei nº 12.569 de 11 de dezembro de 2007, a realização de campanha de esclarecimento sobre o diagnóstico da dislexia na rede municipal de ensino. De forma semelhante, a Lei municipal n◦ 7014/2008 criou no município de Jundiaí - SP o Programa Especial de Diagnóstico da Dislexia na rede municipal de ensino e prevê identificação e atendimento aos alunos da pré-escola e do ciclo I do ensino fundamental (1ª à 4ª séries). Em Campinas - SP, a Lei nº 13.983/2010 institui o programa de diagnóstico e tratamento da dislexia em alunos da rede pública. De acordo com a lei, as escolas devem assegurar às crianças e adolescentes com dislexia o acesso aos recursos didáticos e estratégias de ensino adequadas ao desenvolvimento de sua aprendizagem e o poder executivo deve organizar cursos, seminários e oficinas para capacitar educadores para identificarem o problema em sala de aula. Estas leis, ainda que sejam iniciativas ainda não acompanhadas pela maioria dos estados e municípios, sinalizam a necessidade de debate e da implementação de ações que orientem a prática de educadores com esses alunos, garantindo atendimento às reais necessidades de todos os estudantes. 2.2.3 Estrutura e Componentes da RTI A RTI é um modelo que visa prevenir e remediar DA, baseado na implementação de um sistema integrado de detecçãoprecoce e progressivos níveis de apoio ao estudante. 34 Diferentemente dos modelos de classificação para os TA, que utilizam avaliações administradas em um único momento, a RTI envolve a triagem universal de todos os estudantes da escola e a avaliação da mesma área básica repetidas vezes. Os modelos RTI usam intervenções empiricamente validadas que permitem: a) a identificação precoce de crianças que apresentam problemas acadêmicos e comportamentais, b) o monitoramento do progresso das crianças de risco para desenvolver dificuldades nestas áreas, e c) a oferta de intervenções cada vez mais intensivas, baseadas no progresso da resposta, que é monitorada por avaliações (FLETCHER et al., 2009). Modelos interventivos desta natureza caracterizam-se por considerar que estudantes que não recebem instrução abordando suas necessidades logo no início da escolarização estão sujeitos a desenvolverem dificuldades acadêmicas semelhantes ao que costuma ser observado nos TA (FLETCHER et al., 2009). Assim, aqueles que não responderem positivamente às instruções (identificados em situação de risco) devem ter seu progresso monitorado com medidas baseadas no currículo e receber intervenções em componentes múltiplos cada vez mais intensivos (FLETCHER et al., 2009). Desta forma, a RTI pode ser definida como uma abordagem que usa a resposta dos alunos à instrução de alta qualidade para orientar as decisões educacionais, incluindo as decisões sobre a eficácia e intensidade da instrução e intervenção, elegibilidade para os programas especiais de ensino e a elaboração de programas educativos individuais (BATSCHE et al., 2005). Strangeman et al. (2006) sumariam que RTI é um processo de tomada de decisões de ensino baseado no sucesso ou falha do estudante em situação de risco durante a intervenção especializada. Assim, é utilizada para identificar estudantes com DA e determinar a necessidade de intervenção precoce. Isto é possível através da avaliação da resposta do estudante à instrução de alta qualidade que, de acordo com Batsche et al. (2005), tem sido demonstrada como eficaz para a grande parte dos alunos nos EUA. Nesse sentido, RTI reforça os resultados, e não os déficits dos alunos (KAVALE, HOLDNACK e MOSTERT, 2005) e faz uma ligação clara entre a identificação e a instrução (VAUGHN e FUCHS, 2003). O modelo, a partir desses pressupostos, propõe três níveis (camadas) de intervenção, que dependem da resposta do estudante à instrução, como demonstrado na Figura 2. 35 Figura 2 - Modelo de intervenções acadêmicas e comportamentais em níveis cada vez mais intensivos Adaptado de Fletcher e Vaughn (2009, p.31). Os percentuais representam estimativas do número de crianças que está no mesmo nível (Camada 1) e daquelas que necessitam de instruções intensivas (Camada 2 e Camada 3). Camada 1: intervenção de caráter instrucional, preventivo. É ofertada pelo professor a todos os alunos, através de instruções de alta qualidade, baseadas em evidências científicas. A intervenção é realizada no ensino regular e visa triagem em massa dos estudantes nas competências acadêmicas e comportamentais. Os professores implementam uma variedade de estratégias de ensino (apoiadas em pesquisa científica) e oferecem instruções explícitas em componentes diversos, por no mínimo 15 minutos por dia, três vezes por semana. O monitoramento do desempenho dos estudantes ocorre através de avaliações que incluem componentes curriculares e comportamentais. Essas avaliações de monitoramento servem como guia para a instrução e oferece ao professor um feedback de sua atuação, permitindo-lhe revisar estratégias e reelaborar planos de ensino. Camada 2: intervenção suplementar, remediativa. É ofertada por um profissional de apoio e direcionada aos alunos cujo desempenho e taxa de progresso encontram-se abaixo da média de seus pares da mesma sala de aula, escola ou distrito (considerados “de risco”). A intervenção é contínua, dura de 20 a 40 minutos por dia, ocorre três vezes por semana e inclui instruções suplementares em componentes curriculares e comportamentais. O progresso do estudante é monitorado com frequência para determinar a eficácia da intervenção; a avaliação sistemática é realizada para determinar a fidelidade ou a integridade com que a instrução e as intervenções estão sendo implementadas. Os pais são informados e incluídos no planejamento e acompanhamento do estudante e os professores recebem apoio de outros educadores 36 qualificados durante todo o processo de implementação das intervenções e durante as avaliações de monitoramento dos alunos. Camada 3: intervenção individual, remediativa, intensiva. É ofertada por um especialista que, junto com uma equipe multidisciplinar, avalia a criança para determinar elegibilidade para a educação especial ou serviços relacionados. A avaliação utiliza múltiplas fontes de dados e pode incluir, além de medidas padronizadas, observações feitas pelos pais e professores. A intervenção tem duração de 45 a 60 minutos por dia, ocorre cinco vezes por semana e contempla o monitoramento semanal ou quinzenal do desempenho do estudante. (NJCLD, 2005). É importante esclarecer que o número de camadas de intervenção pode variar de 2 a 4 na RTI, dependendo de onde for implementada. Os níveis variam quanto à intensidade (frequência e duração) e quanto ao tamanho e homogeneidade dos grupos de estudantes (STRANGEMAN et al., 2006). Um exemplo sobre essas variações é que a Camada 2 pode constituir duas etapas hierárquicas ou subcamadas, de forma que um professor trabalhe a intervenção suplementar enquanto outro professor consulta uma equipe multidisciplinar que ajude com estratégias para aquelas crianças, criando, assim, um modelo de quatro camadas (NJCLD, 2005). O uso de uma menor quantidade de camadas é defendida por aqueles que veem a RTI principalmente como um instrumento para rastreio e identificação. Estes alegam que poucas camadas reduz a identificação de falsos negativos (ou seja, a não identificação de crianças com DA). Já os que veem a RTI como uma abordagem para melhorar a instrução e o desempenho de estudantes defendem o uso de mais camadas, justificando que tal procedimento pode permitir uma intervenção mais intensa e produzir menos falsos positivos (ou seja, a identificação de crianças que efetivamente não têm um problema de aprendizagem) (STRANGEMAN et al., 2006). Como muitos modelos, a RTI não é isenta de críticas. Fuchs et al., 2003 pontuam, por exemplo, que a aplicação de RTI em larga escala pode não ser viável se não houver o necessário conhecimento do modelo por parte dos educadores. Outras críticas incidem sobre a falta de parâmetros para aplicação do modelo no ensino médio (MASTROPIERI e SCRUGGS, 2005) e à ênfase da RTI sobre as dificuldades de leitura, em detrimento dos déficits em outras habilidades (KAVALE, HOLDNACK e MOSTERT, 2005; MASTROPIERI e SCRUGGS, 2005). Os críticos também alegam que, ao excluir a habilidade cognitiva geral, a RTI não documenta o insucesso/ fracasso inesperado de aprendizagem, que é uma característica 37 importante na classificação dos TA (KAVALE, HOLDNACK e MOSTERT, 2005). No entanto, Batsche et al. (2005) salienta que, do ponto de vista instrucional, a RTI pode ser utilizada em qualquer assunto acadêmico, para os quais as medidas frequentes de dados estão disponíveis. Apesar das críticas, desde sua criação, a RTI tem sido recomendada por alguns pesquisadores (por exemplo, FUCHS e FUCHS, 2006; FLETCHER et al., 2009), uma vez que tem sido um modelo sugerido como um meio de reduzir as referências para a educação especial, fornecendo instruções bem desenhadas e intervenções de alta qualidade na educação geral (NJCLD, 2005). Outra razão importante para o aumento do interesse pela RTI é a abundância de pesquisas recentes sobre leitura, que vem