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Kayser, Wolfgang. Análise e interpretação da obra literária (Coimbra 1963)

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oester than the knoum», E a Cambridge History af
English Litereture dedica todo um capítulo às «Plays
of Uncertain Authorship Attributed to Shekespeere .•.
Se conseguíssemos responder a todas as questões ainda
em aberto, bem diverso seria o quadro dessa época a
surgir aos nossos olhos.
Também na história da literatura espanhola há ainda
problemas de autoria célebres. A Celestine, que tanto
êxito obteve em toda a Europa, na primeira edição
de 1499 abrangia 16 actos, bem como na impressão
de 1501, feita em Sevilha. Na edição sevilhana do ano
seguinte ela compunha-se de 21 actos. Nos versos que
servem de prefácio, Fernando de Rojas é designado
como autor dos últimos 20 actos, enquanto que o pri-
meiro, mais extenso, é atribuído a Juan de Mena ou
a Rodrigo de Cota. Já na época imediata começaram
a surgir dúvidas acerca destas indicações. Depois,
Menéndez y Pelayo fundamentou amplamente a tese
da autoria única, para toda a obra, de Fernando de
Rojas. Na sua obra Estudios y Discursos de crítica
histórica y litererie (edição de 1941, vol, D, 243 e segs.).
entre outros argumentos, lemos: «Seria el más extreordi-
netio de ias milagres litererios, y aun psicológicos, el
que un continuedor lleqese a penetrar de tal modo en 14
concepciôn ajena y a identijicerse de tal suerte con el
espiritu dei primitivo autor y con Ias tipos humanos que
él hebie creedo», Como se vê, nos problemas de autoria
vão integrar-se as questões estéticas e psicológicas maís
profundas. Aliás, a tese de Menéndez y Pelayo não
conseguiu impor-se, e eis aí o milagre. Observações
DA OBRA LITERARIA i7
sintáticas, cuidadosamente feitas, levaram de novo à
convicção de que houve um autor para o primeiro acto
e outro diferente para os seguintes. Resultou ainda
maior o milagre da concordância, desde que se averi-
guou terem sido escritos os actos 17 a 21, presurnivel-
mente, por um terceiro autor. (Vide a obra de
E. Eberwein Zur Deutung mittelelterlichet Existenz,
Bona e Colónia, 1933.)
Menos concordante ainda é a opinião dos inves-
tigadores acerca de um dos romances mais célebres da
literatura mundial, o Lezerillo de Tormes, As três
edições diferentes de 1554 apareceram anónimas. Só
em 1605 é que se designou, pela primeira vez, um autor:
o geral da ordem de São [erónímo, Juan de Ortega.
Dois anos depois, a autoria era atribuída a um outro,
Don Diego Hurtado de Mendoza. Esta atribuição con-
solidou-se, até que, nos fins do século XIX, foi provada
a sua inconsistência. Desde então surgiram muitos
pretendentes, entre os quais encontrou o maior número
de adeptos Sebastián de Horozco. Mais uma vez a
interpretação da obra está dependente do autor em
questão e das referências «autobiográficas». De novo
se invocam últimos princípios como argumentos deci-
sivos. Investigadores como A. Morel-Fano (Btudes sur
I'Espagne) e F. de Haase (An Outline of the Historç
of the Novela Picaresca in Spain) defendem O prin-
cípio de que o autor deveria ter sido o protagonista
dos acontecimentos que descreve. Varnhagen acreditava
ser a Lírica trovadoresca a história vivida pelo autor
- eis a mesma ídeía no romance picaresco. Há muitos
destes exemplos. (Leiam-se, na obra de Fídelíno de
Figueiredo Aristarchos, 2.- edição, Rio de Janeiro, 1941,
pág. 131 e segs., outros exemplos das discussões sobre
i8 ANALISE E INTERPRETAÇÃO
autorias, não provadas, das literaturas portuguesa e
espanhola) .
Em todos os países pululam os enigmas no que se
refere aos séculos XVI e XVII. Nos últimos tempos sur-
giram dúvidas quanto à autoria do romance francês
mais célebre do século XVII, Le princesse de Clêoes.
Antes era considerada como obra de Madame de La
Fayette. Não o tinha, é certo, publicado com o seu
nome, mas parecia indiscutível a atribuição. Mais ou
menos, parecia estar resolvida a questão da colaboração
de Segrais e do Duque de Rochefoucauld - devendo-se
negar a do primeiro e aceitar a do segundo. Apareceu
então, no Metcure de France, a 15 de Fevereiro
de 1939, um artigo de Marcel Langlais, com o ernocío-
nante título: Que! est l'euteut de La Princesse de
Cléves? Como presumível autor indicava-se Fontenelle,
tese apoiada por um sábio como Baldensperger.
(Baldensperger: Complacency and Criticism : La Prin-
cesse de Cléoes. The American Bookman, fali 1944).
Porém, esta mesma tese não encontrou grande apoio
entre outros críticos.
Na Alemanha, descobriu-se, há pouco, outro escritor
a quem foi atribuída, pelo descobridor, categoria não
inferior à do mais importante romancista daquele
século XVIII, Grimmelshausen. (R. Alewyn, Johann Beer,
Leipzig, 1932). Os romances do «novo» autor eram
quase todos conhecidos cada um por si. Revestem-se
agora de carácter documental muito mais importante,
e aparecem como que sob um novo aspecto. Como foi
possível ficar o autor por tanto tempo oculto? B que
se serviu de diversos pseudônimos, prática vulgaríssima
nessa época. Também Grimmelshausen só desde o
século XIX é conhecido como figura literária. Até em
DA OBRA LITERARIA 49
tempos modernos existe um pseudónimo célebre, que
ninguém ainda conseguiu desvendar, por forma irre-
Iutável. Um dos romances mais interessantes do Roman-
tismo alemão apareceu com o título de Nachtwachen.
Von Bonaventura. Bonaventura é, claramente, um pseu-
dónimo. As nossas ideias acerca de Brentano, Schelling,
E. T. A. Hoffmann, Caroline Schleqel muito se modí-
ficariam se tivessem razão as hipóteses que pretendem
ver num deles o autor do romance. É certo, porém,
ter mais consistência a tese de Franz Schultz que atribui
o romance a um insignificante escrevinhador, chamado
Wetzel, que, por sorte, teria conseguido uma vez realizar
alguma coisa de grande.
Podemos distinguir três técnicas diversas no uso
de pseudônimos:
1) O uso de um nome absolutamente diferente do
próprio, por ex.: Fllínto Elísio, em vez de Francisco
Manuel do Nascimento. Muitos nomes célebres da
literatura são pseudónimos: Moliêre (Jean-Baptiste
Poquelín}, Voltaire (Françoís Maríe Arouet), George
Eliot (Mary Ann Evans}, Novalis (Fríedrích von
Hardenberg), Jeremias Gotthelf (Albert Bitzíus ) , etc.
2) O anagrama: o novo nome é formado por uma
nova combinação de letras do verdadeiro nome. O nome
da Natonio, que aparece no Cristal, segundo a maneira
de ver de Delfim Guimarães, é anagrama de António
e parece-lhe conter alusão a Sã de Míranda, que usava
este nome. Um anagrama engenhoso foi o usado pelo
poeta alemão do século XVII, Kaspar Stíeler, que, com
as letras do seu nome, compôs o de Peilkarastres.
Anagrama é também o nome de Voltaire em vez de
Arouet I (e) i(eune}.
50 ANALISE E INTERPRETAÇÃO
3) O críptónímo: as primeiras letras do nome ver-
dadeiro compõem um outro nome, com o qual o autor
se encobre e, parcialmente, se revela. Crísfal é um
desses críptónímos, formado de Cristóvão Falcão.
Em quase todos os países se encontram compilados
em grandes dicionários os resultados das pesquisas para
a identificação das obras publicadas anonimamente ou
sob pseudónimo.
Excurso: Determinação do Autor
por meio do Texto
Tarefa de exame muito frequente nas Universidades
de vários países é ter de determinar um autor só por
meio do texto de uma obra. É certo não ter esta tarefa
a finalidade última da interpretação adequada da obra
de arte como tal, mas sim utilizar o texto para um fim
especial, isto é, a identificação do autor. Porém,
enquanto não for reconhecida como ideal a história da
literatura sem nomes, continuará o conceito da perso-
nalidade do autor a ser um dos fundamentais na história
da literatura. Assim, esta tarefa resulta de justificada
e significativa importância. Simultâneamente fornece
dados elucidatívos sobre o investigador, pois terá oca-
sião de provar o seu tacto literário, a sua erudição, o
seu conhecimento dos instrumentos da profissão e a
sua habilidade em manejá-los, Compreende-se que se
reconheça o valor de tal tarefa, não só para prova de