A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
368 pág.
Kayser, Wolfgang. Análise e interpretação da obra literária (Coimbra 1963)

Pré-visualização | Página 15 de 50

da data. Aproveitará o trabalho de
DA OBRA LITERARIA 61
várias gerações de investigadores, enfíleírando deste
modo na tradição da ciência. Pois a finalidade do
ensino universitário não está, na verdade, apenas em
transmitir o que outros conseguiram descobrir, mas
sim em preparar gente capaz de promover o progresso
da ciência. Pertence, pois, ao estudo académico a
iniciação do futuro investigador; por isso a dissertação
ou tese deve fornecer a prova da capacidade de quem
a elabora.
Muitas vezes as teses denunciam, já pela linguagem,
que o autor não atingiu este alvo e segue senda errada.
Um trabalho empolado, cheio de classificações subjectí-
vas como «obra imortal», «imorredoura», «maqní-
fica », etc., denuncia, já pelo estilo, uma maneira de
pensar inadequada. O forum da ciência não se deve
confundir com um salão ou as colunas de um jornal.
Independentemente dos matizes individuais, a linguagem
científica tem características próprias. Cada ciência
possui uma terminologia especial, uma linguagem
técnica. Pode até dizer-se que uma ciência só existe
na medida em que possui uma terminologia própria.
Só assim são transmissíveis problemas e conhecimentos,
só assim se cria uma tradição cíentífic.a Um leigo
pouco entende de um artigo sobre qualquer especia-
lidade; quem não tiver conhecimenos jurídicos não
saberá o que significa um «dolus eventuelis», nem pre-
cisa de o saber. Porém, para o técnico, basta por
vezes só esse termo para ele imediatamente estar ao
par dos factos.
Nos termos técnicos encontram-se condensados
determinados resultados da investigação e do pensa-
mento, que se transmitem de geração em geração.
O facto de que as ciências não existem por si próprias
62 ANALISE E INTERPRETAÇÃO
e de que elas, ao entrar em contacto com círculos mais
vastos, não podem deixar de afrouxar o rigor da sua
linguagem técnica, não afecta em nada a severidade
com que toda a ciência deve compor e usar a sua
terminologia própria.
Ao princípio, a aprendizagem desta linguagem
técnica não deixa de ser difícil e incómoda para o
estudante. Por muito fina que seja a sensibilidade
pedagógica do professor, ser-lhe-à impossível afastar
todas as dificuldades. E no entanto é absolutamente
indispensável que, logo desde o início, o aluno se
esforce por familiarizar-se com a significação dos termos
técnicos e com as realidades que estes envolvem.
Ser-lhe-ão de grande ajuda, em muitos casos, os dicio-
nários, tanto da própria língua como das estrangeiras,
assim como as grandes enciclopédias.
No que toca à ciência da literatura, poderá socor-
rer-se de determinadas obras mais especializadas. No
ano de 1933, Jean Hankiss começou a coligir materiais
para um Dictionneire des notions d'histoire littéreire
que registe e explique todas as expressões técnicas
usadas em francês, alemão, inglês, espanhol e italiano.
Tomar-se-ão em consideração também todos os termos
técnicos das outras línguas que não tenham correspon-
dência numa daquelas citadas. Presentemente, não se
sabe se e quando poderá ser levado a cabo este
empreendimento tão útil e importante. Não faltam,
porém, meios auxiliares já disponíveis quanto à expli-
cação dos termos técnicos da ciência da literatura.
(Encontram-se alguns dos mais importantes na biblio-
grafia que vem no fim do livro).
Qualquer trabalho científico deve enfileirar na tra-
dição da ciência. Para isso é preciso que o autor, antes
DA OBRA LITERARIA 63
de iniciar o trabalho, tenha conhecimento do estado da
investigação em relação ao seu problema, que mais não
seja para evitar um duplo trabalho inútil. Não são
raros os trabalhos «novos» que «descobrem» coisas há
muito conhecidas de todos, menos do autor, e a oriqi-
nalidade na ciência não se prova por não ligar impor-
tância à investigação já feita. Aquele que empreende
um trabalho deve começar por juntar e ler todas as
publicações que possam relacionar-se com o seu tema.
É dever de gratidão e de honestidade indicar no final
do trabalho, em bibliografia à parte, ou nas notas, as
obras consultadas. Para facilitar o exame posterior,
as indicações devem ser o mais completas possível,
isto é, deverá vir indicado o apelido do autor, acom-
panhado do prenome quando aquele possa dar lugar
a confusões, o título exacto e completo da obra, o lugar
onde apareceu e o ano da publicação. No caso de se
tratar de publicações em série, será bom indicar o título
da colecção e o número do tomo. Em artigos de
revistas (ou de publicações comemorativas) é índíspen-
sável indicar, além do título do artigo, o da revista,
o ano da publicação, e, se for possível, o número do
volume.
Se nos referirmos a um passo determinado, como
costuma acontecer nas anotações, deve indicar-se a
página respectiva do trabalho citado. Um «seg.» depois
do número da página significa: a página indicada e a
seguinte; um «segs.» ou «ss.» a indicada e as seguintes.
Se, nas anotações, nos referirmos mais de uma vez ao
mesmo trabalho, não será preciso repetir todas as
indicações bibliográficas. Basta uma referência curta,
exacta, por exemplo o nome do autor, acrescentado de
um loco cito (loco citato) e do número da página. Nas
64 ANALISE E INTERPRETAÇÃO
citações de textos literários é necessário indicar exacta-
mente a edição donde se cita. Em trabalhos científicos
recorre-se exclusivamente a edições críticas.
Dada a abundãncia de trabalhos científicos exis-
tentes, é difícil organizar uma bibliografia tão completa
como seria de desejar. Habitualmente, as grandes
obras de história da literatura trazem largas indicações
bibliográficas. Embora insuficientes, os trabalhos nelas
indicados sempre ajudarão, todavia, a dar um passo
adiante, pois cada um contém bibliografia própria que
já é mais especializada. Nunca, porém, se deve partir
do princípio de que um autor, que anteriormente tratou
do assunto, possuía um conhecimento completo das
espécies bibliográficas respectivas. Por um lado, algum
tempo terá decorrido entre a publicação do último estudo
sobre determinado assunto e a realização do nosso;
por outro, este sempre apresentará aspectos diversos
daquele, que exijam uma exploração bibliográfica tam-
bém em terrenos totalmente diferentes.
O caminho mais seguro, embora complicado e que
requereria grande dispêndio de tempo, seria compulsar
os catálogos nacionais respectivos, onde vem apontada
a totalidade dos livros publicados. Em todos os países
de tradições científicas e com um comércio livreiro
organizado aparecem tais catálogos, geralmente sema-
nais. É também frequente publicarem-se índices bíblio-
gráficos que abrangem seis meses ou um determinado
número de anos.
É certo que, na maior parte dos casos, será apenas
necessário, mas inevitável, recorrer aos últimos anos
destas bibliografias nacionais, porque em quase todos
os países aparecem, periodicamente ou numa visão de
DA OBRA LITERARIA 65
conjunto, bibliografias especializadas referentes aos
estudos críticos da literatura. Como é natural, estas
listas encontram-se sempre atrasadas quanto à produção;
o volume que arquiva, num determinado país, os tra-
balhos críticos do ano de 1930, não pode evidente-
mente sair do prelo neste mesmo ano ou mesmo no
ano seguinte. Trata-se, pois, de recorrer aos catálogos
nacionais para preencher a lacuna existente entre a
última bibliografia técnica e a data da redacção do
nosso trabalho.
A compilação da bibliografia científica é muito
facilitada pelas bibliografias que vêm nas revistas cien-
tíficas e que muitas vezes tomam também em conta as
produções do estrangeiro. Temos de partir do princípio
de que, para qualquer problema duma literatura nacio-
nal, a investigação estrangeira contribuiu com estudos
mais ou menos importantes. São ainda da maior utili-
dade algumas bibliografias técnicas publicadas todos
os anos ou no intervalo de vários anos por revistas
ou instituições científicas. Estas bibliografias abrangem