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Kayser, Wolfgang. Análise e interpretação da obra literária (Coimbra 1963)

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completo, tão impregnado
de emoção, que nunca mais podem perder-se. Não é
a tradição retórica que lhes sustenta a vida, e talvez
nem sempre a cultura literária do poeta moderno.
Raramente se poderá marcar quais os caminhos que
o conduziram à tradição. Mas as fórmulas conser-
varn-se: e damos só um pequeno exemplo, uma poesia
de C. F. Meyer, como prova da continuidade da tra-
dição daquela imagem do veado ferido junto da fonte.
1M WALDE
Es f1immert in den Ãsten,
Der Bírke Stamm erblinkt,
Nun weiss ich, dass irn Westen
Díe Sonne purpurn sinkt.
Dort muss ein Meer von Gluten
Der Abendhimmel seín,
Híer rinnt ein stilles Bluten
Um mich auf Moos und Stein.
[NO BOSQUE
Hâ cíntílações nos ramos,
Da bétula o tronco fulgura;
Agora sei que o ocidente
O sol que morre purpura.
Deve ser todo ele um mar
De brasas o céu da tarde,
Que em musgo e pedras deitado
Vejo correr sangue que arde.)
(Trad. de P. Quintela I
106 ANALISE E INTERPRETAÇÃO
Pode dizer-se que esta poesia não é compreensível
se a não virmos como tendo por fundo aquela tradição.
O poeta sentiu-o decerto e modificou por duas vezes
ainda a poesia. Damos a versão definitiva.
ABENDROT 1M WALDE
In den Wald bin ich geflüchtet.
Ein zu Tod qehetztes wua
Da die letzte Glut der Sonne
Lânqs den glatten Stâmmen quillt.
Keuchend líeq' ich. Mie zu Seíten
Blutend síehe, Moas und Stein.
Strôrnt das Blut aus meinen Wunden?
Oder ísts der Abendschein?
[ENT ARDECER NO BOSQUE
A este bosque me acolhi.
Bicho que à morte fugia,
Quando o braseiro do sol
P'los lisos troncos corria.
Sangram a meu lado o musgo
E a pedra em que jazo, ofegante.
É sangue das minhas F'rídas?
Ou é luz do sol distante?)
(Trad. de P. Quintela I
o leitor sabe agora tratar-se de um animal, acossado
de morte, e que se esvai junto da fonte, na floresta.
Mas há ainda muita coisa obscura, sobretudo o impulso
que levou a modelar o motivo: somente pela história
do topo é que se descobre o núcleo íntimo da poesia,
isto é, a secreta referência ao martírio de um eu
solitário.
DA OBRA LITERÁRIA 107
De todas partes e de todas as literaturas têm che-
gado, nos últimos tempos, subsídios para a investigação
de topos, que E. R. Curtius soube canalizar para o
verdadeiro caminho. É de esperar que assim seja
finalmente tratada sistemàtícarnente uma área que foi
descurada com prejuízo da história da literatura do
humanismo e do cultismo: a emblemétice,
Por emblema entende-se um sinal a que está ine-
rente um determinado sentido; é, portanto, uma espécie
de alegoria. Para a poesia foi de incalculável impor-
tância a colecção de Emblemeta. publicada pelo huma-
nista italiano Alciatus, pela primeira vez, em Milão,
no ano de 1522. Não é demasiado chamar-lhe um
livro-base da poesia européia entre a Renascença e o
Pré-romantísmo. Esta obra foi muitas vezes publi-
cada - do século XVI conhecem-se hoje quase cem
edições diferentes - e foi imitada continuamente. Da
Alemanha nomeemos as colecções de Gabriel Rol-
lenhagen, Nucleus Emblematum select .• Colônia, 1611-
-1613. e [oachím Camerarius, Symbolorum et Emble-
matum IV Partes. Nuremberga, 1590-1604; da Espanha
os Emblemas Moreles que [uán de Orozco editou
em 1589 e seu irmão Sebastián em 1610. As colecções
do inglês Francis Quarles e do holandês [acob Cats,
ambas do séc, XVII, transformaram-se em livros de
cabeceira da burguesia.
Alciatus apresenta dúzias de imagens, grosseira-
mente gravadas, a que junta um texto latino, em verso,
explicando o significado de cada uma. Nas anotações
latinas seguintes, em prosa, são-nos apresentadas, com
copiosa erudição. inúmeras citações de escritores clás-
sicos - precioso trabalho preparatório para a investi-
gação de topos!
108 ANALISE E INTERPRETAÇÃO
Encontramos lá, por exemplo, um animal estranho.
Pelos versos que o acompanham compreende-se niti-
damente tratar-se dum camaleão; o sentido porém encon-
tra-se já no título: in adulatores (contra os lisonjeiros).
O cama leão é pois o símbolo da lisonja. Ou encon-
tra-se a imagem de um homem, de pé, no meio da
água, a olhar para cima, para os ramos de uma árvore
carregados de frutos. É Tántalo, que aparece aqui como
símbolo da eueritie e, em seguida, fazem-se citações
de Petrónio Árbitro, Horácio, Cornélío Galo, Aquiles
Estácío, etc. Desta maneira foram moralizados emble-
màticamente inúmeros mitos antigos, e também pará-
bolas da Bíblia.
Esta emblernátíca era intimamente familiar aos
poetas da época do Barroco e ao público culto. Com-
preendía-se logo numa poesia qualquer referência alu-
siva, e a literatura estava cheia delas. Damos apenas
dois exemplos de época mais adiantada. O poeta
alemão Christian Günther diz numa poesia à sua
amada:
Eín grünes Feld
Díent meinem Schílde
Zum Wappenbílde,
Bei dern ein Palrnenbaum zweí Anker hãlt.
(Um campo verde
Serve ao meu escudo
De brasão.
Nele. uma palmeira sustém duas âncoras).
Na poesia O Ciúme, de Barbosa du Bocage, a
segunda estrofe começa com os versos:
Alterosas, frutíferas Palmeiras.
Vós. que na glória equivaleis aos Louros.
DA OBRA LITERARIA 109
Vós, que sois dos Heróis mais cobiçadas
Que áureos Diadernas, que reais Tesouros,
Escutai meus tormentos, meus queixumes ...
o leitor moderno não percebe bem porque é que
Günther quer a todo o risco pôr no seu brasão uma
palmeira, árvore que, na Alemanha, é bastante rara;
nem por que será ainda que Bocage considera as pal-
meiras as árvores mais desejáveis e por que exalará
o poeta o seu queixume precisamente junto delas.
A emblemática dá-nos a resposta. Em Alciatus encon-
tra-se a imagem de uma palmeira. Os versos que a
acompanham terminam com o «Gnome, quee complec-
titur totius Emblemetis sententiem :
...... mentis
qui constantis erít, preemia digna Feret.
A palmeira é o símbolo da constentie, da fidelidade.
Por isso Günther a escolhe para símbolo do seu brasão;
os leitores de então compreendiam o fino significado
da poesia de Bocage e porque este escolhia precisa-
mente as palmeiras para se lamentar da infidelidade
da amada. Muitas subtilezas nas obras poéticas, ainda
até em épocas mais adiantadas, só se tornam compreen-
síveis quando a emblemática nos é familiar.
4. A Fábula
o termo fábula serve, primeiro, para designar as
narrativas de animais, com sentido didáctíco, de que
Esopo é considerado o mítico antepassado A ciência
da literatura usa-o ainda noutra acepção.
110 ANALISE E INTERPRETAÇÃO
Quando se reproduz o «conteúdo» de uma obra
dos géneros pragmáticos, quer dum drama, quer dum
romance, quer duma balada, etc., a reprodução é sempre
mais curta do que a obra. O resumo do conteúdo
atende unilateralmente ao decorrer dos acontecimentos,
e de todas as partes da obra, das descrições, conversas,
reflexões, etc., extrai somente, e sob forma de relato,
o que é importante para a estrutura da acção, (Na
obrigação de concentração e unilateralidade reside o
valor pedagógico das narrativas do conteúdo, tão usuais
na escola, enquanto que, para a educação artística, como
já se viu, o seu valor é reduzido.)
Se se tenta limitar o decurso da acção à extrema
simplicidade, ao esquema puro, obtém-se precisamente
aquilo que a ciência da literatura costuma designar
como a «fábula» de uma obra. Na prática, quando nos
vetamos a este trabalho, reconhece-se muitas vezes
que é necessário inverter a ordem do «conteúdo».
A obra começa, talvez, no meio do decurso da acção
e, mais tarde, por circunstâncias que então são dignas
de discussão, volta ao princípio. A maneira de trabalhar
a fábula pertence às questões técnicas que cada autor
tem de resolver. Além disso, ao tentar determinar a
fábula, descobre-se não terem validade alguma para o
esquema da acção toda a concretização e toda a fixação
individual no espaço e no tempo. Repete-se agora, no
campo mais vasto de toda a obra, a mesma coisa que
se deu ao extrair O motivo.
Tentemos, por exemplo,