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Kayser, Wolfgang. Análise e interpretação da obra literária (Coimbra 1963)

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uma determinada função
não está nitidamente ligada a uma categoria gramatical,
para poder realízar-se. Para todos os trabalhos estí-
lísticos é lei fundamental que todas as formas linguisticas
podem ter mais de um significado, e que a mesma
função pode ser levada a efeito por meio de formas
diversas. Charles Bally formulou assim esta verdade
na sua obra Le 1angage et la oie (pág. 121): «On ssit
que dans toutes les langues, un même signe a notme-
lement plusieurs oeleurs, et que cheque osleur est
exprimée par plusieuts signes». Mostra Bally como Iun-
ciona diferentemente, conforme os respectivos casos,
por exemplo o adjectivo substantivado. Dámaso Alonso
cita versos de San Juán de Ia Cruz (La poesia de
San Juán de Ia Cruz, Madrid, 1942, pág. 183):
I Oh noche que guiaste,
Oh noehe, amable más que Ia alborada:
Oh noehe que juntaste
Amado eon amada,
Amada eu el Amado transfonnadal
e nota: «Aqui Ias verbos introducidos por relativo
pueden inducimos a erros. En reelided, eses seciones
verbetes tienen sólo una [unciôn adjetiva (10 mismo
que amable), y el esquema es el siguiente: oh noche
guiadora, emeble, unidore, transformadoral Pura excle-
maeión sin verbo». Em vez de «función adjetiva» diría-
mos nós, de preferência, «[unciôn etributioe», para
distinguir, por uma terminologia rigorosa, os diferentes
pontos de vista da morfologia e da sintaxe.
DA OBRA LITERARIA 163
Mostra-se também no substantivo a força de subor-
dinar, de certa forma, outras categorias gramaticais.
Tem-se chamado a um estilo caracterizado por tal
predomínio do substantivo «estilo nominal», e opõe-se-
-lhe o tipo do «estilo verbal». (Mais tarde se falará
de tais classes de tipos.) A linguagem da ciência, por
exemplo, é apresentada como tipicamente verbal.
A linguagem do velho Goethe evidencia manifesta
tendência para substantivar o adjectivo:
Alles Verqãnqlíche
1st nur ein Gleichnis;
Das Llnzulãnqlíche,
Hier wirds Ereignis;
Das Llnbeschreibliche,
Híer íst es getan;
Das Ervtq-Wetblíche
Zíeht uns hínan,
( Coro final de Fausl 11)
[Tudo O que morre e passa
É símbolo somente:
O que se não atinge.
Aqui temos presente;
O mesmo indescritível
Se realiza aqui;
O feminino eterno
Atrai-nos para si.]
(Tr.d. de A,ostinho d'Orne llas j
Em muitas obras das línguas germamcas revela-se
uma tendência para substantívar o infinito, fenómeno
que, em regra, soa com dureza a ouvidos portugueses.
Contudo, este traço estilístico encontra-se também em
obras portuguesas: ao folhear a lírica de Antero,
164 ANALISE E INTERPRETAÇÃO
depara-se-nos; O pulsar, o remoinhar, ao rolar, ao correr,
o viver (frequentemente), com rir, o fulgir, do saber,
meu pensar, um bramir, no ruir, etc.
Às vezes maneiras especiais da formação das pala-
vras podem chamar-nos a atenção como traço esti-
lístico, Assim, acumulam-se nos textos teóricos os
substantivos terminados em -ão (resp. -on, -son, -tion,
-ione, -ung, -ty).
Novas e expressivas combinações (de substantivos
e adjectivos) formavam um dos traços estilísticos
mais evidentes na nova linguagem poética criada por
Klopstock no século XVIII. Apontamos, apenas, alguns
versos do seu discípulo Hõlty:
Wann, Friedensbote, der du das Paradíes
Dern müden Erdenpilger entschlíessest, Tod,
Wann führst du mich mit deinem goldnen
Stabe gen Hímmel, zu rneiner Heimat?
O Wasserblase, Leben, zerfleug nur baldl
Du gabest wenig lãchelnde Stunden mir
Und viel Trãnen, Qualenmutter
Warest du mír, seít der Kindheít Knospe
Zur Blume wurde, Pflücke sie weg, o Tod,
Díe dunkle Blumel Sínke, du Steubqebein,
Zur Erde, deiner Mutter, sinke
Zu den verschwisterten Erdgewürmen!
[Quando, ó Anjo da paz, que abres o paraíso
Ao cansado peregrino da terra, ó Morte,
Quando é que me levas c'o teu bastão
De ouro 'pra o céu, minha pátria?
Ó bolha de água, Vida, desfaz-te breve I
Escassas horas rídentes tu me deste
E muitas lágrimas; mãe d08 martírios
Foste para mim, desde que o botão
DA OBRA LITERÁRIA 165
Da juventude se fez: flor. Colhe-a, ó Morte,
A flor escura! Tomba e regressa, carcaça de pó,
A terra, tua mãe, aos vermes
Terrenos, teus irmãos!]
(Tr ad. de 1'. Qulutela)
Contribuíram para o florescimento deste meio estí-
lístico na linguagem poética alemã daquele tempo as
relações então mais estreitas com a poesia inglesa. As
célebres combinações, por exemplo, das baladas inqle-
sas publicadas por Percy (lilly-white hends, liue-lonq
iointer-niqht] encontram exacta reprodução nas baladas
alemãs de Hõlty, Bürger, Stolberg, etc.
Em todas as línguas os diminutivos são fáceis de
reconhecer e fáceis de interpretar. Neste ponto, parece
existir, finalmente, uma forma com um único significado.
Mas na verdade as coisas não são tão simples como
a designação indica. Na maior parte das vezes, dímí-
nutivos não querem designar a pequenez do objecto,
mas sim exprimir, em primeira linha. a afeição do que
fala; pertencem menos à perspectiva óptica do que à
emocional. Na lírica popular, bem como na literatura
infantil e ainda na literatura mística, são recursos estí-
lísticos frequentemente empregados.
No Simbolismo. encontra-se muita vez a concretí-
zação de abstractos: «Die Schele des Schteckens zer-
bricht»; « ... les plis [eunes de Ia pensée», Aparecem,
frequentemente. casos semelhantes na linguagem extra-
-literária: «com pavor crescente». «a honra manchada»:
«um êxito formidável». etc. De novo se verifica como
com o simples apurar de factos se ganhou ainda pouco.
A concretízação pode intensificar-se até à personí-
Hcação. Para a linguagem de Antero são típicas as
166 ANALISE E INTERPRETAÇÃO
ebstracções personificadas, como Forma, Ilusão, Cons-
ciência, etc.
A personificação de coisas é aliás meio estilístico
frequente; na linguagem diária existe muita coisa
latente que é actualizada pelos poetas. Para a lia-
guagem infantil a personificação é simplesmente caracte-
rística.
Com os verbos, como com os substantivos e adjec-
tivos, a acumulação, peso e posição predominante
podem impor o cunho a um texto. Fala-se então de
estilo verbal:
Vê-se o vapor do Inferno
Nos ares negrejar;
Ali rebentam, crescem
Mil plantas venenosas,
Mil serpes tortuosas
Ouvem-se ali silvar;
Rochedos escabrosos
As nuvens ameaçam:
Raios por eles passam,
Medrosos de os tocar ...
(8ocAGE)
Por vezes distingue-se um determinado grupo de
verbos (p. ex., os de movimento) de forma predorní-
nante.
Dentro do estrato da palavra, é, ainda e finalmente,
de importância o vocabulário. Em geral, denunciam-se
já pelo vocabulário obras do cultismo, do romantismo,
da mística, etc. Como a ciência da estílistíca, também
a ciência linguística se interessa por estas observações.
Para ambas são material importante os glossários duma
determinada obra ou da obra total de um escritor. Para
os poetas máximos já se solucionou a tarefa, mais ou
DA OBRA LITERARIA 167
menos fidedignamente (Dante, Shakespeare, Corneille,
Racine, Lessing, Goethe, entre outros mais).
No seu trabalho sobre Le lenque poética de Gônqore,
Dámaso Alonso prestou especial atenção ao vocabu-
lário cultista do poeta. Ajudaram~no nisso as críticas
contemporâneas e posteriores da linguagem cultista.
Na Alemanha em 1750 houve uma situação semelhante:
no livro de Schoenaích, Neologisches Worterbuch. era
citado todo o vocabulário que, nas obras poéticas de
Klopstock e da geração moderna, parecia censurável
a este iluminista. Muito daquilo que impressionava
e surpreendia no vocabulário do simbolismo francês
encontra-se na obra de Jacques Plowert: Petit Glosseite
pour servir à I'intelliqence des euteurs décedents et
symbolistes (Vanier, 1888).
Com as «palavras preferidas» de um poeta ou de
uma época não é forçoso tratar-se sempre de neolo-
gismos. Com razão, recentes investigações estílisticas
costumam dedicar de novo toda a atenção a este com-
plexo de perguntas. Cheqou-se já a valiosos resultados,