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Kayser, Wolfgang. Análise e interpretação da obra literária (Coimbra 1963)

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na realidade
estabelece-se grande cópia de relações:
Assim como em selvática alago a•.
As rãs. no tempo antigo Lícia gente.
Se sentem porventura vir pessoa,
Estando fora da água incautamente,
Daqui e dali saltando (o charco soa),
Por fugir do perigo que se sente,
E, acolhendo-se ao couto que conhecem,
Só as cabeças na água lhe aparecem:
Assim fogem os mouros ...
Fala-se de parábolas quando todos os elementos de
uma acção, exposta ao leitor, se referem, ao mesmo
tempo, a urna outra série de objectos e processos.
A clara compreensão da acção do primeiro plano elucida,
por comparação, sobre a maneira de ser da outra.
DA OBRA LITERARIA 189
A rigidez na construção duma parábola provém da
intenção dídáctíca, Os exemplos mais conhecidos são
as parábolas da Bíblia (<<O reino dos céus é como um
semeador» ... ). Como «parábola», num sentido mais
restrito, entende-se uma forma literária que, no cedo,
contém uma comparação. No fundo, a fábula é uma
forma especial da parábola.
Partindo da comparação, procurou-se entender a
essência da metáfora. Metáfora quer dizer trans-
posição: o significado de uma palavra é usado num
sentido que lhe não pertence inicialmente. Na expressão
«o mar da vida», não devemos pensar no elemento
aquoso, salgado. Ora, aceitou-se ser a metáfora o
resultado de uma comparação antecedente que surge,
por assim dizer, em resumo: as formas gramaticais da
comparação (como, como se, etc.) teriam sido supri-
midas. No caso citado, à ideia «vida» viera justapor-se
a comparação «mar», representando então o movi-
mento, o perigo e a incomensurabilidade o «tertium
competetionis», Uma tal interpretação, que ainda hoje
se pode encontrar em livros dídáctícos de Estilística,
ascende a Quintiliano, que dizia da metáfora: brevior
est similitudo.
Na verdade, muitas metáforas são o resultado
de comparações claras. Quando na poesia barroca
encontramos expressões como água de cristal, mar da
vida, etc., podemos reconstítuir precisamente as linhas
de pensamento que conduziram o autor a estas metá-
foras; as duas séries de ídeías conservam a sua índe-
pendência assaz nitidamente. Tal como com o voca-
bulário e com a comparação, também com a metáfora
se ganharam deduções por meio da investigação síste-
mática das zonas objectuais. Os poetas do Barroco
190 ANÁLISE E INTERPRET AÇAQ
tiram as suas metáforas dum círculo relativamente
estreito; flores, pedras preciosas, astros, em especial tudo
o que brilha, também tudo o que de poderoso e elevado
existe, indicam o terreno palaciano, aristocrático, em
que se desenvolveu tal poesia, que tanto se comprazia
com os enfeites.
Contudo, investigações mais recentes tornaram duví-
doso se corresponderá à verdade ser a metáfora uma
comparação abreviada. :g certo continuar a ser válido
ter por base uma dualidade e que a metáfora significa
algo de diferente daquilo que diz Iinguisticamente.
(Pertence às «figures de pensée» e não às «figures lin-
guistiques».) Há porém metáforas, sobretudo na poesia
moderna, onde dificilmente se podem aceitar actividades
precedentes comparativas, e nas quais cessa em absoluto
essa relativa autonomia das duas zonas. Quando uma
poesia de Antero começa assim:
Um dilúvio de luz cai da montanha ...
reconhece-se imediatamente que, neste caso, não há
dois objectos que se sobrepõem, e que o autor não teve
tempo para distanciar-se do objecto friamente, rela-
cíonando-se então com outros. A metáfora resulta aqui
da impressão em face de uma súbita ocorrência e
estende-se a mais do que dois objectos e diferente-
mente. Aos versos de Eugénio de Castro, já citados,
das alamedas e das árvores, seguem-se estes:
Árvores negras, cuja voz
Me enche de espinhos o coração ...
Aqui amontoam-se as maneiras de falar eímprô-
prias». Uma voz enche o coração, e enche-o de espí-
DA OBRA LITERARIA 191
nhos. S impossível diferenciar ainda as zonas clara-
mente. Enquanto que, nos poetas do Barroco, por meio
da razão dois elementos independentes eram unidos
numa mistura - no rígido sentido físico da palavra-,
nos últimos exemplos resulta na torrente ardorosa do
sentimento uma ligação que dissolve a autonomia dos
elementos e deles faz algo de novo, autónomo.
Nesta espécie de metafórica sente-se como na metá-
fora, que é o género mais importante da linguagem
«imprópria», a língua começa a escorregar e perde a
sua firmeza. Não se trata de acaso, quando se evita
tal metafórica díssolvente, sempre que se procura Iír-
meza, forma, consistência plástica. Assim, Goethe, na
sua época clássica, declarou-se contra a metáfora e,
realmente, nas suas obras evitou-a, como tantos poetas
«clássicos». Na juventude e na velhice, pelo contrário,
defendia-a e usava-a. Por outro lado, românticos. e sim-
bolistas procuraram a metáfora dissolvente por duas
razões primaciais: por extrema desconfiança acerca da
fidedignidade da fixação conceptual-línquístíca, e por
extrema desconfiança quanto à sua legitimidade. Disse
Verlaine na sua Art poétique:
11faut aussi que tu n' ailIes point
Choisír tes rnots sans quelque méprise:
Ríen de plus cher que Ia chanson grise
Ou J'Indécis au Précis se [oínt. ..
Para estes poetas todo o existente estava ligado
misteriosamente, de forma a não existirem fronteiras
firmes entre as coisas, e tudo seguia um curso perma-
nente, em transformação constante.
Nesta altura cabem algumas observações basilares
acerca da língua. Assenta em bases muito fracas a
192 ANALISE E INTERPRETAÇÃO
crença na segurança da fixação conceptual-linquístíca
e na possibilidade de uma linguagem verdadeiramente
«própria» ou «adequada». Na nossa maneira de falar
quotidiana não raramente as designações «próprias» se
revelam como «transpostas»; acontece o mesmo até na
linguagem científica, que está sob a lei estilística da
máxima exactídão. Na linguagem quotidiana um estran-
geiro habitualmente repara nas designações metafóricas
mais depressa do que quem a elas se habituou desde a
juventude. (Exemplos do português: céu da boca, matar
a sede, romper do dia, manter, etc.). Como exemplo
da metafórica encoberta da linguagem científica, escolhe-
mos uma frase qualquer: «Bluteau, uma vez dominada
a língua portuguesa, mantém viva até à morte, em 1731,
a sua actividade intelectual».
Como, ao lermos, reparamos no sentido da frase,
a princípio não observamos que, a cada passo, se deram
transposições de toda a espécie. Olhando mais de perto
revela-se-nos, então, alguma coisa, por exemplo: domi-
nada, viva, mantém. Mas, quanto mais minuciosamente
observamos, mais se dissolve a firmeza das designações
e se vai diluindo: intelectual, língua, vez, por fim até
o «em» da data - todos estes significados, aparen-
temente proprietários das habitações em que nasceram,
revelam-se como hóspedes pensionistas vindos de longe
e que, bastantes vezes, expulsaram os verdadeiros donos.
Os poetas porém, os eternos íntranquilcs, excitáveis,
procurando e criando relações, animam com prazer, e
frequentemente, estes movimentos, de que já está tão
cheio o mundo da linguagem.
A metáfora é um dos meios mais eficazes para a
ampliação do âmbito de significado e para pôr em movi-
mento aquele que entra nele. Ao mesmo tempo, é
DA OBRA LITERARIA 193
precisamente pela metáfora que se torna claro não
possuírem as palavras só o seu respectivo significado,
mas ainda energias sugestivas, valores «sociais», ídeías
secundárias de todo o género, etc, Temos de agradecer,
por exemplo, às ídeías secundárias, que a palavra «mar»,
como metáfora, possa sugerir a ideia de vida.
Em maior ou menor grau, cada palavra da língua
contém, ao lado do seu significado, ainda outras «cama-
das» activas. Basta indicar os sinónimos que, certa-
mente, comportam ligeiras diferenças de significado.
mas que são sobretudo diversas pelo fundo emocional,
as ídeias acessórias e os valores «sociais». E as mesmas
palavras, usadas em combinações diferentes,