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estava na Resolução 213 do CNJ e foi positivado em nossa legislação pela Lei nº 13.964/2019. CHEGADA DO APF AO JUDICIÁRIO RELAXAR A PRISÃO CONVERTER EM PREVENTIVA CONCEDER L.P COM OU SEM FIANÇA O QUE O JUIZ PODERÁ FAZER? EXTENSIVO MPE 25 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. Por fim, e não menos importante, anotem em seus cadernos que o posicionamento do STJ é no sentido de que na ocorrência de autuação de crime em flagrante, ainda que seja dispensável ordem judicial para a apreensão de telefone celular, as mensagens armazenadas no aparelho estão protegidas pelo sigilo telefônico, que compreende igualmente a transmissão, recepção ou emissão de símbolos, caracteres, sinais, escritos, imagens, sons ou informações de qualquer natureza, por meio de telefonia fixa ou móvel ou, ainda, por meio de sistemas de informática e telemática. STJ. 5ª Turma. RHC 67.379-RN, Rel. Min. Ribeiro Dantas, julgado em 20/10/2016 (Info 593). O STF também tem o mesmo posicionamento, no sentido de que sem prévia autorização judicial, são nulas as provas obtidas pela polícia por meio da extração de dados e de conversas registradas no WhatsApp presentes no celular do suposto autor de fato delituoso, ainda que o aparelho tenha sido apreendido no momento da prisão em flagrante. STJ. 6ª Turma. RHC 51.531-RO, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 19/4/2016 (Info 583). Em resumo: a) Na prisão em flagrante pode apreender o celular do autor? PODE. b) Na prisão em flagrante pode apreender o celular do autor e também acessar os dados contidos nele? NÃO; É PRECISO TER AUTORIZAÇÃO JUDICIAL PRÉVIA. Na prática, o policial apreende o celular e o aparelho fica acautelado no inquérito; enquanto isso, o delegado representa pela quebra do sigilo. A Lei nº 12.965/2014 (Marco Civil da Internet), que regulamenta os direitos e deveres para o uso da internet no Brasil, protege as conversas armazenadas, conforme se observa em seu art. 7º, III: Art. 7º O acesso à internet é essencial ao exercício da cidadania, e ao usuário são assegurados os seguintes direitos: III - inviolabilidade e sigilo de suas comunicações privadas armazenadas, salvo por ordem judicial. Por outro lado, se o juiz determinou a busca e apreensão de telefone celular ou smartphone do investigado, é lícito que as autoridades tenham acesso aos dados armazenados no aparelho apreendido, especialmente quando a referida decisão tenha expressamente autorizado o acesso a esse conteúdo. STJ. 5ª Turma. RHC 75.800-PR, Rel. Min. Felix Fischer, julgado em 15/9/2016 (Info 590). O STF também decidiu que sem autorização judicial ou fora das hipóteses legais, é ilícita a prova obtida mediante abertura de carta, telegrama, pacote ou meio análogo. STF. Plenário. RE 1116949, Rel. Min. Marco Aurélio, Rel. p/ Acórdão Min. Edson Fachin, julgado em 18/08/2020 (Repercussão Geral – Tema 1041) (Info 993). Falamos praticamente tudo sobre prisão em flagrante, agora trataremos sobre a prisão preventiva. EXTENSIVO MPE 26 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. DA PRISÃO PREVENTIVA A prisão preventiva é tema crucial em provas para de Ministério Público, por isso devemos ficar atentos a inúmeros detalhes. Trataremos aqui com vocês o indispensável para sua prova, sem arrodeio. Com o pacote anticrime (Lei nº 13.964/2019), o magistrado também não poderá decretar a prisão preventiva de ofício na fase processual, notadamente pela adoção, em nosso ordenamento jurídico, do sistema acusatório. Com as alterações dos arts. 282, § 4º, e 311 do CPP pela Lei n. 13.964/2019 (Lei Anticrime), que entrou em vigor em 23/1/2020, não pode mais o juiz, de ofício, converter a prisão em flagrante em preventiva com fundamento no art. 310, II, do CPP, sendo indispensável para tanto o prévio requerimento do Ministério Público, do querelante ou de seu assistente, ou representação da autoridade policial. STJ. 5ª Turma. AgRg no HC n. 624.218/RS, Rel. Min. João Otávio de Noronha, julgado em 20/4/2021. STJ. 6ª Turma. HC n. 638.655/SC, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 5/4/2022. STJ. 3ª Seção. RHC n. 131.263/GO, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 24/2/2021. Veja como era o art. 311 e como ficou após a Lei Anticrime: COMO ERA COMO FICOU Art. 311. Em qualquer fase da investigação policial ou do processo penal, caberá a prisão preventiva decretada pelo juiz, de ofício, se no curso da ação penal, ou a requerimento do Ministério Público, do querelante ou do assistente, ou por representação da autoridade policial. Art. 311. Em qualquer fase da investigação policial ou do processo penal, caberá a prisão preventiva decretada pelo juiz, a requerimento do Ministério Público, do querelante ou do assistente, ou por representação da autoridade policial. CAIU NO MPE-PE-2022-FCC: Em qualquer fase da investigação policial ou do processo penal, caberá a prisão preventiva decretada pelo juiz, a requerimento do Ministério Público, do querelante ou do assistente, ou por representação da autoridade policial. 32 Em fevereiro de 2021, a Terceira Seção do STJ pôs fim à divergência que havia entre a 5a e a 6a Turmas, prevalecendo entendimento da 5ª Turma no sentido de proibir que a CONVERSÃO ocorra sem manifestação do Ministério Público ou da autoridade policial. Essa decisão do STJ seguiu o posicionamento do STF (2a Turma) de 06 de outubro de 2020, segundo o qual o magistrado competente não pode converter, ex officio, a prisão em flagrante em prisão preventiva no contexto da audiência de custódia, pois essa medida de conversão depende, necessariamente, de representação da autoridade policial ou de requerimento do Ministério Público. 32 CERTO. EXTENSIVO MPE 27 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. Nesse sentido o voto condutor do Ministro Celso de Mello no Habeas Corpus (HC) 188.888/MG, que assim estabelece: “A reforma introduzida pela Lei nº 13.964/2019 (“Lei Anticrime”) modificou a disciplina referente às medidas de índole cautelar, notadamente aquelas de caráter pessoal, estabelecendo um modelo mais consentâneo com as novas exigências definidas pelo moderno processo penal de perfil democrático e assim preservando, em consequência, de modo mais expressivo, as características essenciais inerentes à estrutura acusatória do processo penal brasileiro. – A Lei nº 13.964/2019, ao suprimir a expressão “de ofício” que constava do art. 282, §§ 2º e 4º, e do art. 311, todos do Código de Processo Penal, vedou, de forma absoluta, a decretação da prisão preventiva sem o prévio “requerimento das partes ou, quando no curso da investigação criminal, por representação da autoridade policial ou mediante requerimento do Ministério Público” (grifei), não mais sendo lícita, portanto, com base no ordenamento jurídico vigente, a atuação “ex officio” do Juízo processante em tema de privação cautelar da liberdade. O STF também reconheceu, neste caso, a impossibilidade jurídica de o magistrado, mesmo fora do contexto da audiência de custódia, decretar, de ofício, a prisão preventiva de qualquer pessoa submetida a atos de persecução criminal (inquérito policial, procedimento de investigação criminal ou processo judicial), "tendo em vista asinovações introduzidas nessa matéria pela recentíssima Lei nº 13.964/2019 (“Lei Anticrime”), que deu particular destaque ao sistema acusatório adotado pela Constituição, negando ao Juiz competência para a imposição, ex officio, dessa modalidade de privação cautelar da liberdade individual do cidadão (CPP, art. 282, §§ 2º e 4º, c/c art. 311)", pontuo Celso de Mello.33 É bom lembrar que no julgado do STF, que foi um dos últimos antes do Ministro Celso de Mello se aposentar (deixou saudades), ele lembrou que grandes doutrinadores brasileiros, mesmo sob a égide da Lei nº 12.403/2011, já sustentavam a absoluta impossibilidade de conversão da prisão em flagrante em preventiva sem anterior requerimento do Ministério Público ou sem prévia representação da autoridade policial: “(..) o Juiz não pode converter a prisão em flagrante em prisão preventiva de ofício. Não se trata de mera ‘manutenção’ da prisão em flagrante, mas sim da conversão – o próprio legislador utiliza esta expressão –, que significa literalmente mudar, transformar, transmudar, comutar, substituir. Assim, há a mudança do título prisional, ou seja, da prisão em flagrante – que já esvaiu sua função – para a prisão preventiva, que possui requisitos e condições de admissibilidade próprios, além de finalidade distinta. Na verdade, são medidas completamente díspares, tanto ontológica quanto funcionalmente. Sem requerimento do MP haveria, portanto, iniciativa e atuação proativa do 33 Voto disponível em: http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/HC188888acordao.pdf. Acesso em: 03/02/2021. http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/HC188888acordao.pdf EXTENSIVO MPE 28 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. magistrado. Tanto existe esta iniciativa que há uma nova decisão, prolatada pelo magistrado. O que o juiz pode fazer sem provocação é o controle da legalidade, que é automático e deflui de sua função constitucional. Porém, caso não haja pedido do MP, o juiz deve liberar em seguida, sendo inadmissível a decretação da prisão preventiva sem requerimento, pois, do contrário, estaria dando causa a uma nova medida, sem autorização constitucional e legal para tanto. Não bastasse, a conversão de ofício traz maiores riscos de violação inútil da liberdade do detido, uma vez que o magistrado poderia converter em prisão preventiva em situações nas quais o MP entende que não há elementos para imputar ou em que a qualificação do fato não admite a decretação da prisão preventiva, à luz do art. 313. Além de trazer riscos para a imparcialidade do juiz, sem qualquer razão relevante que justifique a exceção ao princípio do sistema acusatório na fase de investigação, pode prejudicar a estratégia da investigação. (...).” (grifei) 34 Em resumo de sua decisão, ainda no HC 188.888/MG, pontua o Ministro Celso de Mello: “Em suma: tornou-se inadmissível, em face da superveniência da Lei no 13.964/2019 (“Lei Anticrime”), a conversão, “ex officio”, da prisão em flagrante em preventiva, pois a decretação dessa medida cautelar de ordem pessoal dependerá, sempre, do prévio e necessário requerimento do Ministério Público, do seu assistente ou do querelante (se for o caso), ou, ainda, de representação da autoridade policial na fase pré-processual da “persecutio criminis”, sendo certo, por tal razão, que, em tema de privação e/ou de restrição cautelar da liberdade, não mais subsiste, em nosso sistema processual penal, a possibilidade de atuação “ex officio” do magistrado processante”. CAIU NO MPE-BA-2023-CESPE: Em qualquer fase da investigação policial ou do processo penal caberá prisão preventiva decretada pelo juiz, a requerimento do Ministério Público, do querelante ou do assistente, ou por representação da autoridade policial.35 CAIU NO MPE-SP-2023-VUNESP: O juiz poderá, de ofício, em qualquer fase do processo, decretar a prisão preventiva do acusado, desde que devidamente fundamentada, revisando-a a cada 90 (noventa) dias.36 34 (ANDRÉ NICOLITT, “Manual de Processo Penal”, p. 783, 6a ed., 2016, RT; AURY LOPES JR., “Direito Processual Penal”, p. 635, item n. 4.7, 13a ed., 2016, Saraiva; FERNANDO DA COSTA TOURINHO FILHO, “Código de Processo Penal Comentado”, vol. 1/914, 14a ed., 2012, Saraiva; RENATO BRASILEIRO DE LIMA, “Código de Processo Penal Comentado”, p. 866/867, item n. 3.3, 2a ed., 2017, JusPODIVM; SILVIO MACIEL, “Prisão e Medidas Cautelares – Comentários à Lei 12.403, de 4 de maio de 2011”, coordenado por Luiz Flávio Gomes e Ivan Luís Marques, p. 145, 3a ed., 2012, RT, v.g.), como se vê, p. ex., do precioso trabalho de ANDREY BORGES DE MENDONÇA (“Prisão Preventiva na Lei 12.403/2011 – Análise de Acordo com Modelos Estrangeiros e com a Convenção Americana de Direitos Humanos”, p. 404/405, item n. 3.3, 2016, JusPODIVM) 35 CERTO. 36 ERRADO. EXTENSIVO MPE 29 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. CAIU NO MPE-PE-2022-FCC: Em qualquer fase da investigação policial ou do processo penal, caberá a prisão preventiva decretada pelo juiz, de ofício, se no curso da ação penal, ou a requerimento do Ministério Público, do querelante ou do assistente, ou por representação da autoridade policial. 37 CAIU NO MPE-AC-2022-CESPE: A prisão preventiva pode ser decretada de ofício pelo juiz, desde que ocorra durante a ação penal. 38 Mas, atenção! No informativo 725, STJ proferiu o seguinte posicionamento: A determinação do magistrado pela cautelar máxima, em sentido diverso do requerido pelo Ministério Público, pela autoridade policial ou pelo ofendido, não pode ser considerada como atuação ex officio. RHC 145.225-RO, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, por maioria, julgado em 15/02/2022. Significa dizer que se o Ministério Público pedir a aplicação de medida cautelar diversa da prisão e o Magistrado decretar prisão preventiva, ou seja, a cautelar máxima, segundo o STJ, não se trata de atuação de ofício vedada pelo ordenamento jurídico. Vale lembrar, ainda, que neste mesmo informativo, o STJ mencionou que a Lei Maria da Penha não é uma exceção, isto é, também é vedada a conversão da prisão preventiva de ofício nos crimes da Lei 11.340/06, havendo revogação tácita do art.20 dessa lei. CAIU NO MPE-AM-2023-CESPE: A prática de contravenção penal, no âmbito de violência doméstica, não é motivo idôneo para justificar a prisão preventiva do autor desse tipo de infração, mesmo em caso de descumprimento da medida protetiva imposta a ele.39 Porém a 5ª Turma do STJ, em agosto de 2022, posicionou-se no sentido contrário, entendendo pela vedação de aplicação de medida mais gravosa (ex: prisão preventiva) quando requerida medida cautelar diversa da prisão. Vejamos a explicação de Márcio Cavalcante40: Se o MP pediu a aplicação de medida cautelar diversa da prisão, o juiz está autorizado a decretar a prisão? 5ª Turma: NÃO Se o requerimento do Ministério Público limita-se à aplicação de medidas cautelares ao preso em flagrante, é vedado ao juiz decretar a medida mais gravosa - prisão preventiva -, por configurar uma atuação de ofício. STJ. 5ª Turma. AgRg no HC 754506-MG, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 16/08/2022 (Info 746). 37 ERRADO. 38 ERRADO. 39 CERTO. 40 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Se o MP pediu a aplicação de medida cautelar diversa da prisão, o juiz está autorizado a decretar a prisão?. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: .Acesso em: 15/03/2023 EXTENSIVO MPE 30 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. 6ª Turma: SIM A determinação do magistrado pela cautelar máxima, em sentido diverso do requerido pelo Ministério Público, pela autoridade policial ou pelo ofendido, não pode ser considerada como atuação ex officio. STJ. 6ª Turma. RHC 145.225-RO, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 15/02/2022 (Info 725). Depois da Lei nº 13.964/2019(Pacote Anticrime), ainda é possível que o juiz, de ofício, converta a prisão em flagrante em prisão preventiva? NÃO. Antes da Lei nº 13.964/2019 (Pacote Anticrime), a jurisprudência entendia que o juiz, após receber o auto de prisão em flagrante, poderia, de ofício, converter a prisão em flagrante em prisão preventiva. Ocorre que a Lei nº 13.964/2019 revogou os trechos do CPP que previam a possibilidade de decretação da prisão preventiva ex officio. Em suma: Após o advento da Lei nº 13.964/2019, não é mais possível a conversão da prisão em flagrante em preventiva sem provocação por parte ou da autoridade policial, do querelante, do assistente, ou do Ministério Público, mesmo nas situações em que não ocorre audiência de custódia. A Lei nº 13.964/2019, ao suprimir a expressão “de ofício” que constava do art. 282, § 2º, e do art. 311, ambos do CPP, vedou, de forma absoluta, a decretação da prisão preventiva sem o prévio requerimento das partes ou representação da autoridade policial. Logo, não é mais possível, com base no ordenamento jurídico vigente, a atuação ‘ex officio’ do Juízo processante em tema de privação cautelar da liberdade. STJ. 3ª Seção. RHC 131.263, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 24/02/2021 (Info 686). STF. 2ª Turma. HC 188888/MG, Rel. Min. Celso de Mello, julgado em 6/10/2020 (Info 994). Imagine agora a seguinte situação hipotética: João foi preso em flagrante. Logo em seguida, ele foi levado para a audiência de custódia. O Ministério Público pugnou pela concessão da liberdade provisória mediante a aplicação de cautelares diversas da prisão, dentre elas o recolhimento domiciliar. Contudo, a juíza que presidia a audiência entendeu que estavam presentes os requisitos do art. 312 do CPP e decretou a prisão preventiva (medida extrema / cautelar máxima) de João. A Defensoria Pública, presente na audiência, protestou afirmando que a magistrada agiu de ofício ao decretar a prisão preventiva, considerando que o MP pediu apenas medidas cautelares diversas da prisão. Para a Defensora, houve atuação de ofício, em contrariedade às mudanças trazidas pelo Pacote Anticrime. A magistrada respondeu que não estava decidindo de ofício. “O Ministério Público requereu a aplicação de medidas cautelares diversas da prisão. Logo, ele pediu a aplicação de medidas cautelares. Eu só estou decretando uma medida cautelar diversa daquela que o Parquet requereu. Desse modo, estou agindo mediante requerimento da acusação.” E para complementar, trouxemos uma tabela41 para melhor visualização: 41 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Se o MP pediu a aplicação de medida cautelar diversa da prisão, o juiz está autorizado a decretar a prisão?. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: . Acesso em: 15/03/2023 EXTENSIVO MPE 31 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. Se o Ministério Público pediu a aplicação de medida cautelar diversa da prisão, o juiz está autorizado a decretar a prisão sob o argumento de que se trata de uma espécie de medida cautelar? 5ª Turma: NÃO 6ª Turma: SIM Se o requerimento do Ministério Público limita-se à aplicação de medidas cautelares ao preso em flagrante, é vedado ao juiz decretar a medida mais gravosa - prisão preventiva -, por configurar uma atuação de ofício. STJ. 5ª Turma. AgRg no HC 754.506-MG, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 16/08/2022 (Info 746). A determinação do magistrado pela cautelar máxima, em sentido diverso do requerido pelo Ministério Público, pela autoridade policial ou pelo ofendido, não pode ser considerada como atuação ex officio. STJ. 6ª Turma. RHC 145.225-RO, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 15/02/2022 (Info 725). A reforma introduzida pela Lei nº 13.964/2019, preservando e valorizando as características essenciais da estrutura acusatória do processo penal brasileiro, modificou a disciplina das medidas de natureza cautelar, especialmente as de caráter processual, estabelecendo um modelo mais coerente com as características do moderno processo penal. O art. 310 e os demais dispositivos do CPP devem ser interpretados privilegiando o regime do sistema acusatório vigente em nosso país, nos termos da Constituição Federal, que outorgou ao Parquet a relevante função institucional de “promover, privativamente, a ação penal pública” (art. 129, I, CF/88). Assim, a despeito da manifestação do Ministério Público em audiência de custódia, a prisão que venha a ser decretada por Magistrado, à revelia de um requerimento expresso nesse sentido, configura uma atuação de ofício em contrariedade ao que dispõe a nova regra processual penal. Não se desconhece a existência do RHC 145.225- RO, precedente da 6ª Turma acerca do tema. Ocorre que, neste julgado, houve 2 votos divergentes, demonstrando não se tratar de tema pacífico. Assim, tratando-se de pedido do Ministério Público limitado à aplicação de medidas cautelares ao preso em flagrante, é vedado ao juiz decretar a A decisão que decreta a prisão preventiva, desde que precedida da necessária e prévia provocação do Ministério Público, formalmente dirigida ao Poder Judiciário, mesmo que o magistrado decida pela cautelar pessoal máxima, por entender que apenas medidas alternativas seriam insuficientes para garantia da ordem pública, não deve ser considerada como de ofício. Isso porque uma vez provocado pelo órgão ministerial a determinar uma medida que restrinja a liberdade do acusado em alguma medida, deve o juiz poder agir de acordo com o seu convencimento motivado e analisar qual medida cautelar pessoal melhor se adequa ao caso. Impor ou não cautelas pessoais, de fato, depende de prévia e indispensável provocação. Entretanto, a escolha de qual delas melhor se ajusta ao caso concreto há de ser feita pelo juiz da causa. Entender de forma diversa seria vincular a decisão do Poder Judiciário ao pedido formulado pelo Ministério Público, de modo a transformar o julgador em mero chancelador de suas manifestações, ou de lhe transferir a escolha do teor de uma decisão judicial. Saliente-se que esse é igualmente o posicionamento adotado quando o Ministério Público pugna pela absolvição do acusado em alegações finais ou memoriais e, mesmo assim, o magistrado não é obrigado a absolvê-lo, podendo agir de acordo com sua discricionariedade. EXTENSIVO MPE 32 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. medida mais gravosa, a prisão preventiva, por configurar uma atuação de ofício. Vale ressaltar que o fato de o Ministério Público, no julgamento do habeas corpus contra a decisão,ter se manifestado favoravelmente à manutenção da prisão preventiva, não tem o condão de suprir/sanara ilegalidade da prisão decretadade ofício em primeiro grau, considerando que o habeas corpus é uma ação de manejo exclusivo da defesa em benefício do réu. Dessa forma, a determinação do magistrado, em sentido diverso do requerido pelo Ministério Público, pela autoridade policial ou pelo ofendido, não pode ser considerada como atuação ex officio, uma vez que lhe é permitido atuar conforme os ditames legais, desde que previamente provocado, no exercício de sua jurisdição. CAIU NO MPE-RS-2023-Banca Própria: Em se tratando de prisão temporária, a manifestação ministerial de que trata o §1º , do art. 2º , da Lei no 7.960/89, quando contrária à representação da autoridade policial, torna inadmissível sua decretação. 42 Imagine agora que o juízo decrete a prisão de ofício e em seguida o MP ou a autoridade policial requer a decretação da prisão preventiva. Nesse caso, o vício estaria sanado? Inicialmente, o STJ entendeu que sim. Se, após a decretação, a autoridade policial ou o Ministério Público requererem a prisão, o vício de ilegalidade que maculava a custódia é suprido (convalidado) e a prisão não será relaxada. Isso porque, revogar a prisão preventiva seria inútil, considerando que tanto a autoridade policial, como o Ministério Público entendem que é caso de prisão preventiva. Logo, bastaria ao juízo decretar mais uma vez a prisão preventiva, amparado dessa vez nos pedidos do MP ou da autoridade policial (AgRg RHC 136.708/MS). No entanto, o STJ decidiu posteriormente que a prisão preventiva decretada de ofício permanece sendo ilegal mesmo quando o MP opina contrariamente ao pedido de revogação feito pela defesa, ou seja, a manifestação posterior do MP pela manutenção da prisão preventiva não sanaria o vício inicial da decretação da prisão preventiva de ofício. De acordo com o STJ, a prisão é ilegal posto que, no caso analisado, não houve requerimento de prisão preventiva pelo MP, mas apenas parecer pelo indeferimento do pedido de relaxamento de prisão sob alegação de ausência de modificação na situação fática (HC 757.812/TO). Outra situação: caso o MP tenha requerido a decretação da prisão preventiva e o juízo a tenha decretado, mas posteriormente o MP pede a revogação dessa prisão, o juízo está obrigado a revogar? NÃO. 3. Prisão preventiva decretada a pedido do Ministério Público, que, posteriormente requer a sua revogação. Alegação de que o magistrado está obrigado a revogar a prisão a pedido do Ministério Público. 4. Muito embora o juiz não possa decretar a prisão de ofício, o julgador não está vinculado a pedido formulado pelo Ministério Público. 5. Após decretar a prisão a pedido do Ministério Público, o magistrado não é obrigado a revogá-la, quando novamente requerido pelo Parquet. (...) STF. 2ª Turma. HC 203.208 AgR. Entender de forma diversa seria vincular a decisão do Poder Judiciário ao pedido formulado pelo 42 ERRADO. EXTENSIVO MPE 33 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. Ministério Público, de modo a transformar o julgador em mero chancelador de suas manifestações, ou de lhe transferir a escolha do teor de uma decisão judicial. Dando continuidade, vejam o que estabelece o art. 312 do CPP, também alterado pela Lei Anticrime: COMO ERA COMO FICOU Art. 312. A prisão preventiva poderá ser decretada como garantia da ordem pública, da ordem econômica, por conveniência da instrução criminal, ou para assegurar a aplicação da lei penal, quando houver prova da existência do crime e indício suficiente de autoria. Parágrafo único. A prisão preventiva também poderá ser decretada em caso de descumprimento de qualquer das obrigações impostas por força de outras medidas cautelares (art. 282, § 4º). (Incluído pela Lei nº 12.403, de 2011). Art. 312. A prisão preventiva poderá ser decretada como garantia da ordem pública, da ordem econômica, por conveniência da instrução criminal ou para assegurar a aplicação da lei penal, quando houver prova da existência do crime e indício suficiente de autoria e de perigo gerado pelo estado de liberdade do imputado. § 1º A prisão preventiva também poderá ser decretada em caso de descumprimento de qualquer das obrigações impostas por força de outras medidas cautelares. § 2º A decisão que decretar a prisão preventiva deve ser motivada e fundamentada em receio de perigo e existência concreta de fatos novos ou contemporâneos que justifiquem a aplicação da medida adotada. SE LIGA NA JURIS: A periculosidade do agente e a intimidação de testemunha justificam a decretação da prisão preventiva para garantia da ordem pública e conveniência da instrução criminal Caso concreto: o juiz decretou a prisão preventiva do paciente, suspeito de ser o mandante do homicídio de sua ex-companheira. A custódia foi determinada em razão da periculosidade social do paciente, evidenciada pela gravidade concreta da conduta, porque por ciúmes teria mandado assassinar sua ex-companheira e seu atual companheiro e, para isso, contou com o auxílio de uma terceira pessoa, a qual teria ficado responsável por intermediar a contratação dos pistoleiros. Soma-se a isso, a notícia de que o paciente estaria coagindo testemunhas. A notícia de perturbação no curso da persecução penal tolhendo, de qualquer forma, a atuação da testemunha em sua ampla liberdade de prestar declarações acerca dos fatos em apuração, é motivo suficiente para a decretação da prisão preventiva para conveniência da instrução criminal. STJ. 5ª Turma. AgRg no HC 735745-MG, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 27/9/2022 (Info Especial 10). 43 43 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. A periculosidade do agente e a intimidação de testemunha justificam a decretação da prisão preventiva para garantia da ordem pública e conveniência da instrução criminal. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: . Acesso em: 15/03/2023 EXTENSIVO MPE 34 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. Perceba que a lei nova, em seu caput, traz os dois pressupostos para decretação da prisão preventiva: o fumus comissi delitici (prova da materialidade e indícios suficientes de autoria) e o periculum libertatis (o perigo gerado pelo estado de liberdade do imputado). Além disso, o art. 312, §2º, CPP, passou a prever expressamente que a decisão que decretar a prisão preventiva deve ser motivada e fundamentada em receio de perigo e existência concreta de fatos novos ou contemporâneos que justifiquem a aplicação da medida adotada. Em outras palavras, a prisão processual exige a contemporaneidade dos fatos justificadores dos riscos que se pretende evitar com o cárcere. Por isso, o STJ vem entendendo que a decretação, bem como a manutenção, da prisão preventiva exige a contemporaneidade delitiva (HC 732.420). No mesmo sentido, o STJ entendeu que, se o crime ocorreu há quase um ano, não há contemporaneidade para a prisão preventiva fundamentada na gravidade concreta do fato. Ora, se o crime é concretamente grave ao ponto de abalar a ordem pública, a prisão preventiva deve ser decretada logo após sua prática. Se passar muito tempo, quase um ano, é porque não havia cautelaridade (STJ, AgRg no HC 748.026). SE LIGA NA JURIS: Na análise do cabimento da prisão preventiva de pessoas em situação de rua, além dos requisitos previstos no CPP, o magistrado deve observar as recomendações da Resolução CNJ 425/2021 O CNJ editou a Resolução nº 425/2021, que instituiu,no âmbito do Poder Judiciário, a Política Nacional Judicial de Atenção a Pessoas em Situação de Rua e suas interseccionalidades. Na análise do cabimento da prisão preventiva de pessoas em situação de rua, além dos requisitos legais previstos no CPP, o magistrado deve observar as recomendações constantes da Resolução, e, caso sejam fixadas medidas cautelares alternativas, deve-se optar por aquela que melhor se adequa a realidade da pessoa em situação de rua, em especial quanto à sua hipossuficiência, hipervulnerabilidade, proporcionalidade da medida diante do contexto e trajetória de vida, além das possibilidades de cumprimento. No caso dos autos, o réu – pessoa em situação de rua –, teve a prisão preventiva decretada porque descumpriu medida cautelar alternativa fixada anteriormente pelo juízo, consistente no comparecimento para dormir em abrigo municipal. A questão referente a pessoas em situação de rua é complexa, demanda atuação conjunta e intersetorial, e o cárcere, em situações como a que se apresenta nos autos, não se mostra como solução adequada. Cabe aos membros do Poder Judiciário, ainda que atuantes somente no âmbito criminal, um olhar atento a questões sociais atinentes aos réus em situação de rua, com vistas à adoção de medidas pautadas sempre no princípio da legalidade, mas sem reforçar a invisibilidade desse grupo populacional. Diante disso, o STJ concedeu o habeas corpus para tornar sem efeito a prisão e as medidas cautelares impostas. STJ. 6ª Turma. HC 772380-SP, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 08/11/2022 (Info 757). 44 44 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Na análise do cabimento da prisão preventiva de pessoas em situação de rua, além dos requisitos previstos no CPP, o magistrado deve observar as recomendações da Resolução CNJ 425/2021. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: . Acesso em: 15/03/2023 EXTENSIVO MPE 35 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. Vejam, ainda, as alterações ocorridas no art. 313 e 315 do CPP: COMO ERA O ART. 313 COMO FICOU O ART. 313 Sem correspondência Foi acrescentado o § 2º § 2º Não será admitida a decretação da prisão preventiva com a finalidade de antecipação de cumprimento de pena ou como decorrência imediata de investigação criminal ou da apresentação ou recebimento de denúncia. COMO ERA O ART. 315 COMO FICOU O ART. 315 Art. 315. A decisão que decretar, substituir ou denegar a prisão preventiva será sempre motivada. Art. 315. A decisão que decretar, substituir ou denegar a prisão preventiva será sempre motivada e fundamentada. § 1º Na motivação da decretação da prisão preventiva ou de qualquer outra cautelar, o juiz deverá indicar concretamente a existência de fatos novos ou contemporâneos que justifiquem a aplicação da medida adotada. § 2º Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela interlocutória, sentença ou acórdão, que: I - limitar-se à indicação, à reprodução ou à paráfrase de ato normativo, sem explicar sua relação com a causa ou a questão decidida; II - empregar conceitos jurídicos indeterminados, sem explicar o motivo concreto de sua incidência no caso; III - invocar motivos que se prestariam a justificar qualquer outra decisão; IV - não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes de, em tese, infirmar a conclusão adotada pelo julgador; V - limitar-se a invocar precedente ou enunciado de súmula, sem identificar seus fundamentos determinantes nem demonstrar que o caso sob julgamento se ajusta àqueles fundamentos; VI - deixar de seguir enunciado de súmula, jurisprudência ou precedente invocado pela parte, sem demonstrar a existência de distinção no caso em julgamento ou a superação do entendimento. EXTENSIVO MPE 36 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. O artigo 315 do CPP copiou a estrutura do artigo 489, §1º, do CPC, indicando como uma decisão que decreta a prisão preventiva deve ser fundamentada. De se notar que essas balizas são aplicáveis a toda e qualquer decisão penal, incluindo as sentenças, e não apenas as decisões que decretam prisão preventiva. Caso o juízo não fundamente adequadamente a decisão que revisa a necessidade de prisão preventiva, a prisão se torna ilegal ou o juízo deve apenas ser obrigado a proferir nova decisão devidamente fundamentada? O STF entendeu que outra decisão deve ser proferida, ou seja, não é caso de relaxamento da prisão (RHC 214.145). A toda evidência, a decisão do STF contraria o disposto no p. único do art. 316 do CPP. Ora, a decisão que não está fundamentada adequadamente implica na ilegalidade da prisão, razão pela qual essa deve ser relaxada, e não dada nova oportunidade à fundamentação da referida decisão pelo juízo que a prolatou. O art. 316 do CPP também sofreu uma significativa alteração, ao estabelecer, em seu parágrafo único, que decretada a prisão preventiva, deverá o órgão emissor da decisão revisar a necessidade de sua manutenção a cada 90 (noventa) dias, mediante decisão fundamentada, de ofício, sob pena de tornar a prisão ilegal. Trata-se da chamada revisão periódica dos requisitos da prisão preventiva. O STF, no HC 179859 AgR/RS, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 3/3/2020 (Info 968), lembrou que a existência desse substrato empírico mínimo, apto a lastrear a medida extrema, deverá ser regularmente apreciado por meio de decisão fundamentada: “A prisão preventiva é decretada sem prazo determinado. Contudo, o CPP agora prevê que o juízo que decretou a prisão preventiva deverá, a cada 90 dias, proferir uma nova decisão analisando se ainda está presente a necessidade da medida. Isso significa que a manutenção da prisão preventiva exige a demonstração de fatos concretos e atuais que a justifiquem. A existência desse substrato empírico mínimo, apto a lastrear a medida extrema, deverá ser regularmente apreciado por meio de decisão fundamentada. A esse respeito, importante mencionar também o § 2º do art. 312 do CPP, inserido pelo Pacote Anticrime: “A decisão que decretar a prisão preventiva deve ser motivada e fundamentada em receio de perigo e existência concreta de fatos novos ou contemporâneos que justifiquem a aplicação da medida adotada.” STF. 2a Turma. HC 179859 AgR/RS, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 3/3/2020 (Info 968).” Nesse ensejo, o STJ consolidou o entendimento de que a revisão periódica da prisão preventiva (CPP, art. 316, parágrafo único), não se aplicaria à fase recursal (5ª Turma, AgRg no HC 569.701, Rel. Min. Ribeiro Dantas, 09.06.2020 e 6ª Turma, HC 589.544, Relatoria Ministra Laurita Vaz, 08.09.2020). Contudo, como veremos abaixo, há o Enunciado 19 da I Jornada de Direito Penal e Processo Penal do CJF/STJ - realizada nos dias 10 a 14 de agosto de 2020 em sentido contrário. EXTENSIVO MPE 37 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. CAIU NO MPE-RS-2023-Banca Própria: Até que sobrevenha trânsito em julgado da decisão condenatória, o decreto de prisão preventiva deve ser reexaminado a cada 90 (noventa) dias no tocante à necessidade de sua manutenção.45 JORNADAS DE DIREITO E PROCESSO PENAL: Enunciado 19 da I Jornadade Direito Penal e Processo Penal do CJF/STJ - realizada nos dias 10 a 14 de agosto de 2020: Cabe ao Tribunal no qual se encontra tramitando o feito em grau de recurso a reavaliação periódica da situação prisional do acusado, em atenção ao parágrafo único do art. 316 do CPP, mesmo que a ordem de prisão tenha sido decretada pelo Magistrado de primeiro grau. Enunciado 31 da I Jornada de Direito Penal e Processo Penal do CJF/STJ - realizada nos dias 10 a 14 de agosto de 2020: A decisão de revisão periódica da prisão preventiva deve analisar de modo motivado, ainda que sucinto, se as razões que a fundamentaram se mantêm e se não há excesso de prazo, sendo vedada a mera alusão genérica à não alteração do quadro fático. Na verdade, as medidas cautelares (a prisão preventiva é uma espécie de cautelar) são decretadas com base na cláusula rebus sic stantibus. Assim, há uma nítida necessidade de o magistrado analisar se ainda estão presentes os requisitos autorizadores, consubstanciados no fumus comissi delicti e pelo periculum libertatis (ou periculum in mora). Com a nova lei, deverá ser realizada a análise em até 90 dias, sob pena de relaxamento por ilegalidade. Entendam que a lei não trouxe um tempo máximo de duração para a prisão preventiva; a lei tão somente positivou a obrigação de que essa cautelar seja revista periodicamente. Ressalta- se que antes do pacote anticrime o CNJ, por meio de mutirões, já estabelecia a necessidade de revisão de prisões cautelares. Para o STF, o transcurso do prazo previsto no parágrafo único do art. 316 do Código de Processo Penal (revisão periódica da prisão preventiva) não acarreta, automaticamente, a revogação da prisão preventiva e, consequentemente, a concessão de liberdade provisória. STF. Plenário. ADI 6581/DF e ADI 6582/DF, Rel. Min. Edson Fachin, redator do acórdão Min. Alexandre de Moraes, julgados em 8/3/2022 (Info 1046). Recentemente, o STJ decidiu que não cabe revisão periódica da prisão preventiva no que tange a presos foragidos. Isso porque a finalidade da lei é evitar o grave constrangimento sofrido pelos presos preventivos esquecidos no sistema prisional. Não haveria, portanto, prejuízo ao acusado foragido em não ter sua decisão que decretou a prisão preventiva reavaliada a cada 90 dias, já que ele não está preso. Ao revés, a princípio, os fundamentos da prisão, garantia da aplicação da lei e garantia da instrução, encontram-se presentes enquanto o acusado estiver foragido: “Quando o acusado encontrar-se foragido, não há o dever de revisão ex officio da prisão preventiva, a cada 90 dias, exigida pelo art. 316, parágrafo único, do Código de Processo Penal. A finalidade do dispositivo é a de evitar o gravíssimo constrangimento experimentado por quem está com efetiva restrição à sua 45 ERRADO. STJ afirma que a necessidade de revisão somente se aplica às instâncias ordinárias e não às instâncias extraordinárias. EXTENSIVO MPE 38 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. liberdade. Somente o gravíssimo constrangimento causado pela efetiva prisão justifica o elevado custo despendido pela máquina pública com a promoção desses numerosos reexames impostos pela lei. Não seria razoável ou proporcional obrigar todos os Juízos criminais do país a revisar, de ofício, a cada 90 dias, todas as prisões preventivas decretadas e não cumpridas, tendo em vista que, na prática, há réus que permanecem foragidos por anos. Soma-se a isso o fato de que, se o acusado – que tem ciência da investigação ou processo e contra quem foi decretada a prisão preventiva – encontra-se foragido, já se vislumbram, antes mesmo de qualquer reexame da prisão, fundamentos para mantê-la – quais sejam, a necessidade de assegurar a aplicação da lei penal e a garantia da instrução criminal –, os quais, aliás, conservar-se-ão enquanto perdurar a condição de foragido do acusado. Assim, pragmaticamente, parece pouco efetivo para a proteção do acusado, obrigar o Juízo processante a reexaminar a prisão, de ofício, a cada 90 dias, nada impedindo, contudo, que a defesa protocole pedidos de revogação ou relaxamento da custódia, quando entender necessário.” STJ. 5ª Turma. RHC 153.528-SP, Rel. Min. Ribeiro Dantas, julgado em 29/03/2022 (Info 731). CAIU NO MPE-AC-2022-CESPE: O transcurso do prazo de 90 dias, sem que haja expressa renovação do mandado de prisão, torna automaticamente ilegal a prisão. 46 CAIU NO MPE-GO-2022-FGV: Sobre a prisão preventiva, é correto afirmar que: A) a gravidade em abstrato do crime constitui uma das fundamentações idôneas para a decretação ou manutenção da custódia cautelar; B) a periculosidade do agente não constitui uma das fundamentações idôneas para a decretação ou manutenção da custódia cautelar; C) a necessidade de interromper a atuação de organização criminosa não constitui uma das fundamentações idôneas para a decretação ou manutenção da custódia cautelar; D) a inobservância do prazo nonagesimal previsto no parágrafo único do Art. 316 do Código de Processo Penal não implica automática revogação da prisão preventiva, devendo o juiz ser instado a reavaliar a legalidade e a atualidade de seus fundamentos; E) a inobservância do prazo nonagesimal previsto no parágrafo único do Art. 316 do Código de Processo Penal não implica automática revogação da prisão preventiva, desde que o Ministério Público se manifeste pela manutenção da custódia cautelar.47 IMPORTANTE: Em agosto de 2023 a 2ª Turma do STF permitiu a participação de réus foragidos em audiência de instrução por videoconferência (HC 227671). Antes disso, havia decisão STJ em sentido contrário. #NOTÍCIA48 A Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) referendou medida liminar concedida pelo ministro Edson Fachin que havia permitido que dois acusados de tráfico de drogas foragidos participassem, por videoconferência, da audiência de instrução e julgamento na ação penal a que respondem. O 46 ERRADO. 47 Gabarito: D. 48 Disponível em: https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=511947&ori=1 https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=511947&ori=1 EXTENSIVO MPE 39 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. entendimento é de que as garantias constitucionais do contraditório, da ampla defesa, da eficiência e da celeridade processuais devem ser preservadas. A decisão se deu no exame do Habeas Corpus (HC) 227671, impetrado pela defesa dos acusados, na sessão virtual finalizada em 7/8/2023. O juízo de primeira instância e o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte (TJ-RN) haviam negado a participação dos acusados, sob o argumento de que mandados de prisão preventiva expedidos contra eles estavam pendentes de cumprimento. Em seguida, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) rejeitou habeas corpus. No STF, a defesa reiterou o pedido. Audiência Na decisão referendada pela Turma, o ministro Edson Fachin avaliou que o fato de os acusados não se apresentarem à Justiça não significa renúncia tácita ao direito de participar da audiência de instrução, ainda que de maneira virtual. O relator explicou que, na audiência presencial, o acusado tem o direito de comparecer espontaneamente ao ato. Assim, o comparecimento à audiência virtual também deve ser facultado aos réus, para que possam acompanhar depoimentos e exercer a autodefesa. Devido processo legal Fachin ressaltou que o devido processo legal se pauta no contraditório e na ampla defesa, visando garantir aos acusados o direitobi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. No entanto, gente, para a decretação da prisão preventiva são necessários, além desses requisitos do 312, os requisitos do 313 do CPP. Vejam que o art. 313 afirma que “nos termos do art. 312 deste Código, será admitida a decretação da prisão preventiva”: I - nos crimes dolosos punidos com pena privativa de liberdade máxima superior a 4 (quatro) anos; II - se tiver sido condenado por outro crime doloso, em sentença transitada em julgado, ressalvado o disposto no inciso I do caput do art. 64 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 - Código Penal; III - se o crime envolver violência doméstica e familiar contra a mulher, criança, adolescente, idoso, enfermo ou pessoa com deficiência, para garantir a execução das medidas protetivas de urgência; CAIU NO MPE-AC-2022-CESPE: Em nenhuma hipótese é permitida prisão preventiva caso a pena máxima do crime seja inferior ou igual a 4 anos.51 Com o “Pacote Anticrime”, o art. 313 ganhou um § 2º, cuja redação aduz que não será admitida a decretação da prisão preventiva com a finalidade de antecipação de cumprimento de pena ou como decorrência imediata de investigação criminal ou da apresentação ou recebimento de denúncia, o que reforça o caráter cautelar da prisão preventiva (e nunca de “prisão-pena”). CAIU NO MPE-AC-2022-CESPE: A prisão preventiva poderá ser decretada com a finalidade de antecipação do cumprimento da pena.52 Permita-me lembrá-los que também será admitida a prisão preventiva, segundo o CPP, quando houver dúvida sobre a identidade civil da pessoa ou quando esta não fornecer elementos suficientes para esclarecê- la, devendo o preso ser colocado imediatamente em liberdade após a identificação, salvo se outra hipótese recomendar a manutenção da medida. Essa é a única hipótese de cabimento de prisão preventiva admissível tanto para crimes dolosos como crimes culposos. Nessa hipótese, a prisão preventiva tem um marco temporal definido, porque ela só poderá durar até o momento em que se realizar a identificação civil ou criminal do preso. Portanto, uma vez identificada a pessoa, deverá haver a soltura do preso. CAIU NO MPE-AC-2022-CESPE: Caberá prisão preventiva quando houver dúvida sobre a identidade civil da pessoa.53 O art. 314 também é claro ao pontuar que a prisão preventiva em nenhum caso será decretada se o juiz verificar pelas provas constantes dos autos ter o agente praticado o fato nas condições previstas nos casos de excludentes de ilicitude. Essa proibição tem uma natureza lógica, pois se ausente o elemento “ilicitude” na conduta, a rigor, não há nem ao menos crime na situação concreta. 51 ERRADO. 52 ERRADO. 53 CERTO. EXTENSIVO MPE 43 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. SE LIGA NA JURIS: Não cabe a decretação de prisão preventiva amparada apenas na ausência de localização do réu, sem a demonstração de outros elementos que justifiquem a necessidade da segregação cautelar. STJ. 5ª Turma. AgRg no RHC 170.036-MG, Rel. Min. João Batista Moreira (Desembargador convocado do TRF da 1ª Região), julgado em 21/11/2023 (Info 16 – Edição Extraordinária). Por fim, o juiz poderá revogar a prisão preventiva se, no correr do processo, verificar a falta de motivo para que subsista, bem como de novo decretá-la, se sobrevierem razões que a justifiquem. CAIU NO MPDFT-2021-Banca Própria: Em se tratando das prisões cautelares, assinale a opção CORRETA: A) Não se pode justificar a prisão preventiva para a garantia de ordem pública com fundamento em atos infracionais. B) O juiz pode declarar de ofício a prisão preventiva durante a ação penal, desde que estejam presentes os pressupostos e requisitos da decretação da medida. C) Não cabe a decretação de prisão preventiva quando da prática de contravenção penal no âmbito da violência doméstica. D) O juiz que decretou a prisão preventiva bem como todos os demais tribunais por onde o feito estiver em curso precisam revisar, a cada 90 dias, a necessidade de sua manutenção, mediante decisão fundamentada de ofício, sob pena de tornar a prisão ilegal. E) A Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça unificou o entendimento de que o Juiz pode converter a prisão em flagrante em prisão preventiva de ofício, não havendo a obrigatoriedade do requerimento do Ministério Público ou da representação da autoridade policial.54 LAWFARE NO PROCESSO PENAL Tema recente e pode ser cobrado em provas do MP. O termo "lawfare" é uma junção das palavras "law" (lei) e "warfare" (guerra) e refere-se ao uso do sistema legal e processos judiciais como uma forma de “guerra política” ou estratégia para atingir objetivos políticos, muitas vezes às custas da justiça e do devido processo legal. Embora o conceito não tenha sido criado para o processo penal, atualmente a expressão lawfare tem sido utilizada nesta seara quando utilizam-se do direito penal e do processo penal como uma ferramenta para perseguir opositores/inimigos. Isso pode envolver acusações criminais infundadas, abuso do processo legal, manipulação de evidências e interferência indevida no sistema de justiça. Vejamos o que diz a doutrina: “O termo Lawfare deita raiz no Direito Internacional. Surge com mais força no contexto da Guerra ao Terror americana, em que conceito jurídico como o de combatente ilegal será manipulado para fins de legitimação dos ataques preventivos americanos ao Afeganistão e ao Iraque. Hodiernamente, em temos jurídicos, tem sido utilizado como sinônimo de utilização do Direito Penal e do Direito Processual Penal como instrumentos de perseguição a determinado inimigo, individual ou 54 Gabarito: C. EXTENSIVO MPE 44 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. coletivo, declarado ou não. Não deixa de ser, de certo modo, manifestação do famigerado Direito Penal do Inimigo. Nesse sentido, colacionamos artigo (Geraldo Carreiro de Barros Filho; Athena de Albuquerque Farias; Gislene Farias de Oliveira) que resume o tema: “O termo Lawfare foi popularizado nos Estados Unidos pelo Major General da Força Aérea Americana, Charles Dunlap em 2001, engendrando desde então uma difusão indeterminada do seu significado. O termo “lawfare” não tem definição fixa, mas passou a ser entendido de forma geral como: “O uso indevido da lei como substituto dos meios militares tradicionais para alcançar objetivos militares”. Lawfare está preocupado com a instrumentalização ou politização da lei para alcançar um efeito tático, operacional ou estratégico. No âmbito propriamente político e das leis, é uma expressão que faz referência ao fenômeno do uso abusivo e superficial do direito, nacional ou internacional, como forma de se atingirem objetivos militares, econômicos e políticos, eliminando, deslegitimando ou incapacitando um inimigo. Lawfare pode ser concebido como o termo que define o uso do Direito para deslegitimar ou incapacitar um inimigo. Tendo então suas características ou táticas já reconhecidas pela comunidade jurídica internacional, quais sejam: a) A manipulação do sistema legal. b) Dar aparência de legalidade para perseguições políticas. c) A utilização de processos judiciais sem qualquer mérito, sem conteúdo, com acusações frívolas. d) Abuso do direito para danificar e para deslegitimar um adversário. e) Promoção de ação judicial para descredibilizar o oponente. f) Tentativa de influenciara opinião pública. g) Utilização da lei para obter publicidade negativa ou opressiva. h) Judicialização da política: a lei como instrumento para conectar meios e fins políticos. i) A promoção da desilusão popular. j) A crítica àqueles que usam o direito internacional e os processos judiciais para fazer reinvindicações contra o Estado. k) A utilização do direito como forma de constranger e punir o adversário. l) Acusação das ações dos inimigos como imorais e ilegais, com o fim de frustrar objetivos contrários. A palavra Lawfare é a junção das palavras americanas law, que significa lei, e warfare, que significa conflito armado, guerra. Lawfare então faz referência ao uso da lei como arma de guerra. Assim, convidando ao exercício hermenêutico, diz ser o abuso das leis e dos sistemas próprios do Ordenamento jurídico com intuitos bélicos ou políticos. Quais sejam tais esforços de entendimentos exemplificados nos processos legais com violações intimidadoras, frustrantes dos empenhos dos oponentes; trazendo à seara jurídica um novo adjetivo: campo de batalha legal. O site lawfareproject.org se refere aos fins políticos do Lawfare de forma aversiva: Lawfare significa o uso da lei como uma arma de guerra. Denota o abuso das leis ocidentais e sistemas judiciais para conseguir fins militares estratégicos ou políticos. Lawfare é inerentemente negativa. Não é uma coisa boa. É o oposto da busca de justiça. É a apresentação de processos judiciais frívolos e mau uso de processos legais para EXTENSIVO MPE 45 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. intimidar e frustrar adversários no teatro de guerra. Lawfare é o novo campo de batalha legal (THE LAWFARE PROJECT, 2016). Ainda no sentido de arma de guerra, Susan Tiefenbrun (2010)1 define o fenômeno como sendo: “uma arma projetada para destruir o inimigo através do uso, mau uso e abuso do sistema legal e dos meios de comunicação, para levantar o clamor público contra aquele inimigo”. Como ressalta Dunlap Jr. (2001), preceptor do termo, são violações legais reais, percebidas ou até mesmo orquestradas e empregadas como um meio de confronto não usual.” 55 É isso, pessoal. Até a parte 02. Bom descanso. 55 Disponível em: https://www.emagis.com.br/area-gratuita/polemico/lawfare-e-processo-penal/. https://www.emagis.com.br/area-gratuita/polemico/lawfare-e-processo-penal/inocentes e, ainda, proteção a crianças e adolescentes que tenham cometido atos infracionais. “Em todas essas 3 É importante que você lembre que o dispositivo não poderia ter sido declarado inconstitucional, já que a norma que o instituiu (CPP) é anterior à Constituição. Neste caso, a norma foi declarada não recepcionada pela Constituição através de ADPF. 4 Disponível em: https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=504930&ori=1 https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=504930&ori=1 EXTENSIVO MPE 5 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. hipóteses, busca-se conferir maior proteção à integridade física e moral de presos que, por suas características excepcionais, estão em situação mais vulnerável”, observou. Medida discriminatória Contudo, a seu ver, esse raciocínio não se aplica à prisão especial para quem tem diploma universitário. “Trata-se, na realidade, de uma medida discriminatória, que promove a categorização de presos e que, com isso, ainda fortalece desigualdades, especialmente em uma nação em que apenas 11,30% da população geral tem ensino superior completo e em que somente 5,65% dos pretos ou pardos conseguiram graduar-se em uma universidade”. Ou seja, “a legislação beneficia justamente aqueles que já são mais favorecidos socialmente, os quais já obtiveram um privilégio inequívoco de acesso a uma universidade”. Bacharelismo O ministro lembrou o fenômeno do bacharelismo no Brasil, em que a posse de um título acadêmico legitimava o exercício da autoridade. A seu ver, ainda persiste, na sociedade brasileira, um ranço ideológico desse fenômeno. “A extensão da prisão especial a essas pessoas caracteriza verdadeiro privilégio que, em última análise, materializa a desigualdade social e o viés seletivo do direito penal e malfere preceito fundamental da Constituição que assegura a igualdade entre todos na lei e perante a lei”, concluiu. DA PRISÃO EM FLAGRANTE O art. 301 prevê que qualquer do povo poderá e as autoridades policiais e seus agentes deverão prender quem quer que seja encontrado em flagrante delito. Há muita polêmica sobre a real natureza jurídica da prisão em flagrante. No entanto, prevalece que a prisão em flagrante é uma medida pré-cautelar, porque ela antecede uma deliberação cautelar por parte da autoridade judiciária, com base no art. 310 do CPP. Porém, há uma corrente minoritária no sentido de que se trata de um ato administrativo. Por fim, há ainda um resquício doutrinário no sentido de que a prisão em flagrante seria uma medida cautelar. As formas de flagrante estão previstas no art. 302 do CPP: Art. 302. Considera-se em flagrante delito quem: I - está cometendo a infração penal (FLAGRANTE PRÓPRIO) II - acaba de cometê-la; (FLAGRANTE PRÓPRIO) III - é perseguido, logo após, pela autoridade, pelo ofendido ou por qualquer pessoa, em situação que faça presumir ser autor da infração; (FLAGRANTE IMPRÓPRIO) IV - é encontrado, logo depois, com instrumentos, armas, objetos ou papéis que façam presumir ser ele autor da infração. (FLAGRANTE FICTO OU PRESUMIDO) Em resumo, para que vocês possam visualizar: EXTENSIVO MPE 6 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. FORMAS DE FLAGRANTE PRÓPRIO Está cometendo a infração penal ou acaba de cometê-la; IMPRÓPRIO É perseguido, logo após, pela autoridade, pelo ofendido ou por qualquer pessoa, em situação que faça presumir ser autor da infração; O “logo após” deve ser um curto intervalo de tempo suficiente para que os agentes de segurança tomem conhecimento da existência do crime e passem a investigar o paradeiro do suposto autor da infração. Não há um lapso temporal fixo que caracterize esse logo após. Por sua vez, a perseguição deve ser ininterrupta, independentemente do tempo que ela dure, conforme artigo 290, §1º, do CPP; PRESUMIDO OU FICTO É encontrado, logo depois, com instrumentos, armas, objetos ou papéis que façam presumir ser ele autor da infração; De acordo com uma parte da doutrina, esse termo “logo depois” é diferente do “logo após” previsto para o flagrante impróprio ou imperfeito, sendo mais longo que este último. Já uma segunda parte da doutrina entende que é a mesma coisa, um curto espaço de tempo; a diferença entre os flagrantes é que, no flagrante presumido, não há perseguição; PREPARADO É ilegal. Enunciado de Súmula 145: Não há crime, quando a preparação do flagrante pela polícia torna impossível a sua consumação. Ora, se todas as precauções foram observadas para que o delito não se consumasse, então o crime é impossível, pois a obtenção do resultado é absolutamente inviável; DIFERIDO Não tem previsão no CPP, mas sim na legislação esparsa. É a chamada ação controlada, em que os policiais retardam o flagrante para obter mais provas do crime. Na Lei nº 12.850/13 – Lei de Organização Criminosa, não se exige autorização judicial, apenas comunicação PRÉVIA ao juízo competente; Na Lei de Drogas, a ação controlada depende de prévia AUTORIZAÇÃO judicial. Na Lei de Lavagem de Capitais, o Pacote Anticrime incluiu o cabimento da ação controlada, a qual independe de autorização judicial. (HC 512.290/RJ, j. 18/08/2020). CAIU NO MPE-PR-2023-Banca Própria: Analise as assertivas abaixo e assinale a alternativa: I. Quando um agente policial, de forma insidiosa, provoca o agente à prática de um delito, ao mesmo tempo que toma providências para que o crime não se consume, temos o chamado flagrante preparado. II. Quando um agente policial tem notícias de que uma infração penal será cometida e passa a monitorar a atividade do agente de forma a aguardar o melhor momento para executar a prisão, temos o chamado crime de ensaio. III. Quando um fato típico não foi praticado pelo suposto infrator, mas foi praticado por um agente policial com o objetivo de incriminá-lo falsamente, temos o chamado flagrante urdido. IV. Quando um agente policial, de forma insidiosa, fabrica provas de um crime inexistente para incriminar falsamente uma pessoa, temos o chamado crime putativo por obra do agente provocador. V. Quando um agente é encontrado, logo depois, com instrumentos, armas, objetos ou papéis que façam presumir ser ele autor da infração, temos o chamado flagrante presumido ou imperfeito. A) Apenas as assertivas I, III e IV estão incorretas. EXTENSIVO MPE 7 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. B) Apenas as assertivas III, IV e V estão corretas. C) Apenas as assertivas II, IV e V estão incorretas. D) Apenas as assertivas II e IV estão corretas. E) Apenas as assertivas I, III e V estão corretas.5 CAIU NO MPE-BA-2023-CESPE: Considera-se em flagrante delito quem: esteja cometendo a infração penal, tenha acabado de cometê-la; seja perseguido, logo após a infração, pela autoridade, pelo ofendido ou por qualquer pessoa, em situação que faça presumir ser aquele o autor da infração ou seja encontrado, logo depois da infração, com instrumentos, armas, objetos ou papéis que façam presumir ser ele o autor da infração.6 CAIU NO MPE-SC-2023-CESPE: Admite-se a prisão em flagrante quando, logo após o fato delituoso, o ofendido, avistando o autor da infração, persegue-o sem interrupção, embora, depois, o perca de vista. 7CAIU NO MPE-BA-2018-CEFET: A Sra. Mimosa compareceu à Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (DEAM) e narrou para a Delegada de Polícia plantonista, Dra. Nativa, que sofre abuso sexual por parte de seu genitor, desde a sua adolescência. Embora, atualmente, casada, com 21 anos de idade, continua recebendo esporadicamente mensagens do seu pai por meio do aplicativo WhatsApp, ameaçando de publicar, nas redes sociais, fotos íntimas da mesma (já que ao longo dos anos da adolescência foi obrigada a posar nua enquanto ele a fotografava), pois trata-se de um fotógrafo profissional. A autoridade policial propôs à Sra. Mimosa a instalação de um software no seu celular que permite o monitoramento da localização da vítima, além de retransmitir, para o celular da delegada de polícia, todo conteúdo das mensagens enviadas para o aparelho de celular da indigitada vítima. Assim, no dia 1º de dezembro de 2018, o genitor de Mimosa lhe enviou mensagens acompanhadas das fotos íntimas, determinando que a sua filha comparecesse ao seu estúdio fotográfico às 18 horas, com pretensão de manter com ela relação sexual. Ao visualizar as mensagens, Dra. Nativa orientou que a vítima, Sra. Mimosa, atendesse ao convite do seu genitor, no horário definido, pois estaria monitorada, e lá deveria agir naturalmente. Assim, a Sra. Mimosa fez. Enquanto isso, a Delegada determinou que agentes da Polícia Civil se posicionassem no entorno do imóvel onde funcionava o estúdio. Ao ouvirem os gritos de socorro da Sra. Mimosa, os agentes policiais arrombaram a porta e encontraram a vítima de calcinha e sutiã, com as vestes rasgadas e o agressor totalmente despido. Foi dada voz de prisão. Conforme a doutrina, a situação ilustra uma hipótese de A) flagrante ficto. B) quase flagrante. C) flagrante esperado. D) flagrante controlado. E) flagrante provocado.8 5 Gabarito: C. 6 CERTO. 7 CERTO. 8 Gabarito: C. EXTENSIVO MPE 8 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. Antes de entrarmos propriamente em detalhes sobre o flagrante, precisamos tratar obrigatoriamente sobre a audiência de custódia. AUDIÊNCIA DE CUSTÓDIA Com certeza vocês já ouviram falar bastante sobre audiência de custódia, porque de fato vocês como Promotores de Justiça farão MUITO. Essa audiência nasce de uma necessidade, oriunda de decisões internacionais, do direito de todas as pessoas presas de serem conduzidas (levadas), - sem demora (CNJ e CPP adotaram o prazo máximo de 24h, de acordo com a Resolução nº 213 e art. 310 do CPP), - à presença de uma autoridade judicial. Inicialmente, saibam que a audiência de custódia HOJE, após a Lei nº 13.964/2019, tem previsão legal, convencional e também em Resolução do CNJ. Nessa audiência será analisado se os direitos fundamentais da pessoa presa foram respeitados (ex.: se não houve tortura), se a prisão em flagrante foi legal ou se deve ser relaxada (art. 310, I, do CPP) e se a prisão cautelar (antes do trânsito em julgado) deve ser decretada (art. 310, II) ou se o preso poderá receber a liberdade provisória (art. 310, III) ou medida cautelar diversa da prisão (art. 319), como bem assevera Márcio Cavalcante.9 OBS.: A Resolução n° 221/2020 do CNMP dispõe sobre a atuação do Ministério Público na audiência de custódia, incorpora as providências de investigação referentes ao Protocolo de Istambul, da Organização das Nações Unidas (ONU) e dá outras provdidêncisa. É interessante vocês, futuras e futuros Promotores de Justiça conhecerem. https://www.cnmp.mp.br/portal/images/Resolucoes/Resoluo-n-221.pdf Vale observar que não cabe discussão de culpa ou dilação probatória na audiência de custódia. Não é possível a adoção de abreviamentos procedimentais, haja vista que o Juízo apenas verificará, de forma imediata, a forma da prisão, a garantia dos direitos e necessidade ou não da manutenção da prisão daquela pessoa. A audiência de custódia deve ser realizada também em caso de cumprimento de mandado de prisão preventiva ou apenas após prisão em flagrante? O STJ decidiu no AgRg no RHC 140.995 que a audiência de custódia só deve ser realizada para presos em flagrante, tratando-se da única hipótese prevista. Com isso, o STJ negou a realização do ato em prisão decorrente de mandado. No entanto, na Reclamação 29.303, o STF determinou a realização das audiências de custódia em todas as modalidades prisionais, inclusive temporárias, preventivas e definitivas. Não bastasse isso, a CADH, no art. 7.5, impõe a realização de audiência de custódia para toda pessoa presa, e não apenas para os presos em flagrante. Ainda, a decisão do STJ ignorava a Resolução 213/2015 do CNJ, que determina 9 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. A falta da audiência de custódia enseja nulidade da prisão preventiva? O preso deverá ser colocado em liberdade? Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: https://www.buscadordizerodireito.com.br/jurisprudencia/detalhes/05ae14d7ae387b93370d142d82220f1b. Acesso em: 03/02/2021. https://www.cnmp.mp.br/portal/images/Resolucoes/Resoluo-n-221.pdf https://www.buscadordizerodireito.com.br/jurisprudencia/detalhes/05ae14d7ae387b93370d142d82220f1b EXTENSIVO MPE 9 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. a realização de audiência de custódia para as prisões decorrentes de mandado de prisão, com as alterações trazidas pela Resolução 562/2024: Art. 13. A audiência de custódia também se realizará, no prazo previsto no art. 1º, em relação às pessoas presas em decorrência de cumprimento de mandado de prisão cautelar ou definitiva, ou de alimentos, aplicando-se, no que couber, os procedimentos previstos nesta Resolução. (redação dada pela Resolução n. 562, de 3.6.2024) Na Resolução 562/2024 do CNJ sobre o Juiz das Garantias, foi estabelecido que a comunicação da prisão em flagrante à autoridade judicial, que se dará por meio do encaminhamento do auto de prisão em flagrante, e a verificação formal de sua regularidade, não suprem a realização da audiência de custódia presencial. No entanto, excepcionalmente, segundo a Resolução, a audiência de custódia poderá ser realizada por meio de videoconferência, que será justificada pela autoridade judiciária competente em cada caso concreto, com registro na respectiva ata, em caso de: § 9º (...) I – calamidade pública ou crise sanitária; e II – manifesta impossibilidade de apresentação presencial da pessoa presa, dentro do prazo legal para a realização da audiência de custódia. § 10 Na hipótese do parágrafo anterior, a participação da pessoa custodiada ocorrerá, preferencialmente, em unidade judiciária, em sala equipada para a audiência por videoconferência, com adequada conexão de internet. § 11 A realização da audiência de custódia por videoconferência pressupõe a adoção dos meios necessários para garantir a incolumidade física e psicológica do custodiado, com a ausência da equipe policial responsável por sua prisão ou pela investigação, devendo ser adotadas as seguintes medidas, dentre outras: I – garantia do direito de entrevista prévia e reservada entre o preso e a defesa técnica, tanto presencialmente quanto por videoconferência, telefone ou qualquer outro meio de comunicação; II – realização de exame de corpo de delito presencialmente, com a juntada do laudo aos autos antes da realização da audiência para análise da autoridade judicial, a fim de averiguar a integridade física do custodiado; https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601EXTENSIVO MPE 10 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. III – garantia de privacidade à pessoa custodiada na sala em que se realizar a videoconferência, devendo permanecer sozinha durante a realização de sua oitiva, ressalvada a presença da defesa técnica, conforme inciso VI; IV – utilização concomitante de mais de uma câmara ou de câmera 360 graus no recinto em que se encontrar o preso no momento da realização de assentada, de modo a permitir a visualização integral do espaço; V – existência de câmera externa à qual o juiz das garantias tenha acesso, com o objetivo de monitorar a entrada e a saída do preso na sala em que será realizada a audiência por videoconferência; e VI – direito à presença do advogado, advogada, defensor ou defensora na sala em que se encontrar a pessoa custodiada. Nos termos da jurisprudência do STJ, a audiência de custódia deve ser realizada na localidade em que ocorreu a prisão. Contudo, há peculiaridades que não podem ser ignoradas, notadamente em razão da celeridade que deve ser empregada em casos de análise da legalidade da prisão em flagrante. No caso, como o investigado já foi conduzido à Comarca do Juízo que determinou a busca e apreensão, há aparente conexão probatória com outros casos e prevenção daquele Juízo, de forma que não se mostra razoável determinar o retorno do investigado para análise do auto de prisão em flagrante, notadamente em razão da celeridade que deve ser empregada em casos de análise da legalidade da custódia. “Não se mostra razoável, para a realização da audiência de custódia, determinar o retorno de investigado à localidade em que ocorreu a prisão quando este já tenha sido transferido para a comarca em que se realizou a busca e apreensão. CC 182.728-PR, Rel. Min. Laurita Vaz, Terceira Seção, por unanimidade, julgado em 13/10/2021, DJe 19/10/2021. CAIU NO MPE-MS-2022-AOCP: Não se mostra razoável, para a realização da audiência de custódia, determinar o retorno de investigado à localidade em que ocorreu a prisão quando este já tenha sido transferido para a comarca em que se realizou a busca e apreensão.10 CAIU NO MPE-PR-2019-Banca Própria: Se o autor do fato criminoso, sendo perseguido, passar ao território de outro município ou comarca, o executor da prisão em flagrante poderá efetuar-lhe a prisão no lugar onde o alcançar, apresentando-o imediatamente à autoridade local, que, depois de lavrado, se for o caso, o auto de flagrante, providenciará para a remoção do preso.11 10 CERTO. 11 CERTO. EXTENSIVO MPE 11 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. AUDIÊNCIA DE CUSTÓDIA NO PLANO INTERNACIONAL Pois bem. Antes de vermos alguns detalhes sobre a audiência de custódia no Pacote Anticrime, é de absoluta importância que estudemos a audiência de custódia de suas nuances no plano internacional. A CADH prevê, em seu art. 7.5, que “Toda pessoa presa, detida ou retida deve ser conduzida, sem demora, à presença de um juiz ou outra autoridade autorizada por lei a exercer funções judiciais (...)” Trata-se, sem dúvidas, da previsão convencional da audiência de custódia. Nesse ponto, é importante dizer que no Caso Velásquez Rodriguez vs Honduras, a Corte IDH considerou que a prisão ou a detenção de uma pessoa sem a sua condução, sem demora, à presença de uma autoridade judicial, consiste em privação arbitrária de liberdade e dificulta os meios adequados para se controlar a legalidade da prisão (Caio Paiva e Thimotie Aragon, 2020, p. 60/61). A audiência de custódia se aplica não apenas ao processo penal, como já estamos acostumados a ler, mas também quando da apreensão (e não prisão) de adolescentes quando de práticas infracionais. Nesse sentido a doutrina: (...) Com muito mais razão, a audiência de custódia deve ser aplicada na apreensão de adolescentes infratores ou em conflito com a lei, quando a sua realização deverá ocorrer em prazo ainda mais rápido. Assim, os artigos 171 e 175 do ECA devem passar por um controle de convencionalidade, extraindo-se deles uma interpretação que possibilite a máxima efetividade dos direitos humanos”.12 Além disso, no “Caso Acosta Calderón vs Equador”, a Corte IDH entendeu que o simples conhecimento por parte de um juiz de que uma pessoa está detida, não satisfaz a garantia do art. 7.5 da Convenção Americana de Direitos Humanos (audiência de custódia), já que o detido deve comparecer pessoalmente e apresentar sua declaração ante o juiz ou autoridade competente. Neste Caso submetido à apreciação da Corte, o senhor Acosta Calderón foi apresentado a um “agente fiscal do Ministério Público”, entendendo a Corte IDH que não restou observado o art. 7.5 da CADH, tendo em vista que este agente fiscal não tinha poderes de autoridades judiciárias. Um ponto curioso enfrentado pela Corte IDH, no “Caso Chaparro Álvarez e Lapo Inniguez vs Equador” foi o seguinte: se no local e no exato momento da prisão houver um magistrado, mesmo assim há necessidade de haver uma audiência de custódia? A resposta é positiva. Nesse sentido traz Caio Paiva e Thimotie Aragon: “A Corte IDH enfrentou um tema inusitado sobre audiência de custódia no julgamento do “Caso Chaparro Álvarez e Lapo Inniguez vs Equador”, pois o Estado alegrou que cumpriu o art. 7.5 da CADH, e isso porque a juíza da causa esteve presente no momento das detenções, e exerceu um controle judicial direto. A Corte 12 PAIVA, Caio. HEEMANN, Thimotie Aragon. Jurisprudência Internacional de Direitos Humanos. 3. ed. Belo Horizonte. Editora CEI, 2020, p. 80. EXTENSIVO MPE 12 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. IDH não acolheu esse argumento e afirmou que “ainda que a presença da juíza possa ser qualificada como uma garantia adicional, não é suficiente por si só para satisfazer a exigência do art. 75 de “ser levado” ante um juiz. A autoridade judicial deve ouvir pessoalmente o detido e valorar todas as explicações que este lhe proporcione para decidir se procede a liberação ou a manutenção da privação da liberdade”. (...)”13 Para fins de aprofundamento, é muito interessante sabermos o conceito de “GUANTANAMIZAÇÃO DO PROCESSO PENAL”, expressão trazida pelo Juiz da Corte IDH García Ramíres no Caso Tibi vs Equador14, expressão utilizada: (...) “para designar um movimento de autoritarismo e de arbitrariedade que propõe a derrogação ou a suspensão de direitos e garantias no marco da luta contra crimes graves. Nas palavras de García Ramíres, “A persistência de antigas formas de criminalidade, a aparição de novas expressões de delinquência, o assédio do crime organizado, a extraordinária virulência de certos delitos de suma gravidade – assim, o terrorismo e o narcotráfico – têm determinado uma sorte de “exasperação ou desesperação” que é a má conselheira: sugere abandonar os progressos e retornar a sistemas ou medidas que já mostraram suas enormes deficiências éticas e práticas. Numa de suas versões extremas, este abandono tem gerado o fenômeno como a “guantanamização” do processo penal, ultimamente questionada pela jurisprudência da própria Suprema Corte de Justiça dos Estados Unidos”.15 Não é demais reforçar que foi no “Caso Jailton Neri vs Brasil” que a Comissão Interamericana de DireitosHumanos (e não a Corte IDH) responsabilizou o Brasil pela primeira vez por violação ao direito à audiência de custódia. “A Comissão conclui que Jailton Neri da Fonseca foi privado de sua liberdade de forma ilegal, sem que houvesse existido causa alguma para sua detenção nem alguma situação de flagrante. Não foi levado sem demora ante um juiz. Não teve direito a recorrer a um Tribunal competente (...)” Por fim, no Pacto Internacional de Direitos Civil e Políticos da ONU, há uma previsão muito importante no art. 9.3 sobre o que conhecemos hoje como “audiência de custódia”, vejam: 3. Qualquer pessoa presa ou encarcerada em virtude de infração penal deverá ser conduzida, sem demora, à presença do juiz ou de outra autoridade habilitada por lei a exercer funções judiciais e terá o direito de ser julgada em prazo razoável ou de ser posta em liberdade. A prisão preventiva de pessoas que aguardam julgamento não deverá constituir a regra geral, mas a soltura poderá estar 13 PAIVA, Caio. HEEMANN, Thimotie Aragon. Jurisprudência Internacional de Direitos Humanos. 3. ed. Belo Horizonte. Editora CEI, 2020, p. 197. 14 Sentença do Caso disponível em: http://www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/seriec_114_esp.pdf. Acesso em: 03/02/2021. 15 PAIVA, Caio. HEEMANN, Thimotie Aragon. Op. cit., 2020, p. 134/135. http://www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/seriec_114_esp.pdf EXTENSIVO MPE 13 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. condicionada a garantias que assegurem o comparecimento da pessoa em questão à audiência, a todos os atos do processo e, se necessário for, para a execução da sentença. Sobre o tema, e aprofundando ainda mais, saibam que o Comitê da ONU editou o Comentário Geral nº 35/2014 sobre o tema “Liberdade e segurança pessoais”, em que afirma que a audiência de custódia se aplica no contexto de processos penais ordinários, dos processos penais militares e em outros regimes especiais nos quais seja possível impor sanções penais. AUDIÊNCIA DE CUSTÓDIA NO PACOTE ANTICRIME Com a Lei nº 13.964/2019, o art. 287 do CPP foi alterado a fim de incluir expressamente a audiência de custódia em alguns dispositivos16: COMO ERA O ART. 287 COMO FICOU O ART. 287 Art. 287. Se a infração for inafiançável, a falta de exibição do mandado não obstará à prisão, e o preso, em tal caso, será imediatamente apresentado ao juiz que tiver expedido o mandado. Art. 287. Se a infração for inafiançável, a falta de exibição do mandado não obstará a prisão, e o preso, em tal caso, será imediatamente apresentado ao juiz que tiver expedido o mandado, para a realização de audiência de custódia. CAIU NO MPE-AM-2023-CESPE: Em quaisquer circunstâncias, a falta de exibição do mandado obsta a prisão cautelar.17 O legislador trouxe outros detalhes sobre a audiência de custódia, alterando substancialmente o art. 310 do CPP: COMO ERA COMO FICOU Art. 310. Ao receber o auto de prisão em flagrante, o juiz deverá fundamentadamente: I - relaxar a prisão ilegal; ou II - converter a prisão em flagrante em preventiva, quando presentes os requisitos constantes do art. 312 deste Código, e se revelarem inadequadas ou insuficientes as medidas cautelares diversas da prisão; ou III - conceder liberdade provisória, com ou sem fiança. Parágrafo único. Se o juiz verificar, pelo auto de prisão em flagrante, que o agente praticou o fato Art. 310. Após receber o auto de prisão em flagrante, no prazo máximo de até 24 (vinte e quatro)18 horas após a realização da prisão, o juiz deverá promover audiência de custódia com a presença do acusado, seu advogado constituído ou membro da Defensoria Pública e o membro do Ministério Público, e, nessa audiência, o juiz deverá, fundamentadamente: I - relaxar a prisão ilegal; ou II - converter a prisão em flagrante em preventiva, quando presentes os requisitos constantes do art. 312 deste Código, e se revelarem inadequadas ou 16 A audiência de custódia tinha previsão apenas na Convenção Americana de Direitos Humanos (CADH) e no Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, além da Resolução nº 213/2015 do CNJ. 17 ERRADO. 18 Foi positivado o prazo previsto na Resolução 213 do CNJ. EXTENSIVO MPE 14 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. nas condições constantes dos incisos I a III do caput do art. 23 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 - Código Penal, poderá, fundamentadamente, conceder ao acusado liberdade provisória, mediante termo de comparecimento a todos os atos processuais, sob pena de revogação. insuficientes as medidas cautelares diversas da prisão; ou III - conceder liberdade provisória, com ou sem fiança. § 1º Se o juiz verificar, pelo auto de prisão em flagrante, que o agente praticou o fato em qualquer das condições constantes dos incisos I, II ou III do caput do art. 23 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), poderá, fundamentadamente, conceder ao acusado liberdade provisória, mediante termo de comparecimento obrigatório a todos os atos processuais, sob pena de revogação. § 2º Se o juiz verificar que o agente é reincidente ou que integra organização criminosa armada ou milícia, ou que porta arma de fogo de uso restrito, deverá denegar a liberdade provisória, com ou sem medidas cautelares. § 3º A autoridade que deu causa, sem motivação idônea, à não realização da audiência de custódia no prazo estabelecido no caput deste artigo responderá administrativa, civil e penalmente pela omissão. § 4º Transcorridas 24 (vinte e quatro) horas após o decurso do prazo estabelecido no caput deste artigo, a não realização de audiência de custódia sem motivação idônea ensejará também a ilegalidade da prisão, a ser relaxada pela autoridade competente, sem prejuízo da possibilidade de imediata decretação de prisão preventiva.19 O Ministro Fux, na ADI 6299 MC / DF, suspendeu a eficácia do artigo 310, §4º, Código de Processo Penal (ilegalidade da prisão pela não realização da audiência de custódia no prazo de 24 horas), sob os seguintes argumentos: (a1) A ilegalidade da prisão como consequência jurídica para a não realização da audiência de custódia no prazo de 24 horas fere a razoabilidade, uma vez que desconsidera dificuldades práticas locais de várias regiões do país, bem como dificuldades logísticas decorrentes de operações policiais de considerável porte. A categoria aberta “motivação idônea”, que excepciona a ilegalidade da prisão, é demasiadamente abstrata e não fornece baliza interpretativa segura para aplicação do dispositivo; 19 Cuidado, pois, como veremos, o STF suspendeu a eficácia do art. 310, § 4º, cuja redação havia sido dada pelo Pacote Anticrime. A decisão foi do Ministro Fux na ADI 6299 MC/DF. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del2848.htm#art23i http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del2848.htm#art23i http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del2848.htm#art23i http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art23i http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art23i http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art23i EXTENSIVO MPE 15 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is.(a2) Medida cautelar concedida, para suspensão da eficácia do artigo 310, §4º, do Código de Processo Penal (Inconstitucionalidade material). Depois de mais de 02 anos com a redação de vários dispositivos suspensos pelo STF, em 24 de agosto de 2023, a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Rosa Weber, finalmente proclamou o resultado do julgamento das quatro Ações Diretas de Inconstitucionalidade que questionavam algumas das alterações no Código de Processo Penal (CPP) pelo Pacote Anticrime (Lei 13.964/2019). O Tribunal, por maioria, nos termos do voto do relator julgou parcialmente procedente as ações diretas de inconstitucionalidade e fixou, entre outras teses, as seguintes: (...) Por unanimidade, atribuir interpretação conforme ao caput do art. 310 do CPP, alterado pela Lei nº 13.964/2019, para assentar que o juiz, em caso de urgência e se o meio se revelar idôneo, poderá realizar a audiência de custódia por videoconferência; (...) Por unanimidade, atribuir interpretação conforme ao § 4º do art. 310 do CPP, incluído pela Lei nº 13.964/2019, para assentar que a autoridade judiciária deverá avaliar se estão presentes os requisitos para a prorrogação excepcional do prazo ou para sua realização por videoconferência, sem prejuízo da possibilidade de imediata decretação de prisão preventiva; CAIU NO MPE-SC-2021-CESPE: A não realização de audiência de custódia acarreta, por si só, a nulidade da conversão da prisão em flagrante em prisão preventiva pelo juiz.20 Dando continuidade, vamos conversar sobre alguns aspectos importantes previstos na Resolução 213 editada pelo CNJ. Inicialmente, ela prevê que toda pessoa presa em flagrante delito, independentemente da motivação ou natureza do ato, seja obrigatoriamente apresentada, em até 24 horas da comunicação do flagrante, à autoridade judicial competente, e ouvida sobre as circunstâncias em que se realizou sua prisão ou apreensão. Art. 1º Determinar que toda pessoa presa em flagrante delito, independentemente da motivação ou natureza do ato, seja obrigatoriamente apresentada, em até 24 (vinte e quatro) horas da prisão em flagrante, à autoridade judicial competente, para realização de audiência de custódia, pública e oral, para o controle da legalidade da prisão. (redação dada pela Resolução n. 562, de 3.6.2024) Vale aduzir, também, que o Supremo Tribunal Federal, por relatoria do Ministro Marco Aurélio, deferiu liminar para determinar que o Tribunal de Justiça de Goiás observe o prazo máximo de 24 horas, contado a 20 ERRADO. https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 EXTENSIVO MPE 16 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. partir do momento da prisão, para promover audiências de custódia, inclusive nos fins de semana, feriados ou recesso forense.21 Beleza. Mas quem se considera “autoridade” para fins da Resolução? § 2º Entende-se por autoridade judicial competente o juiz das garantias, observado o disposto nas leis de organização judiciária locais ou, salvo omissão, definida por ato normativo do Tribunal de Justiça, Tribunal de Justiça Militar, Tribunal Regional Federal, Tribunal Regional Eleitoral ou do Superior Tribunal Militar que instituir as audiências de apresentação, incluído o juiz plantonista. (redação dada pela Resolução n. 562, de 3.6.2024) O art. 8º da Resolução é bem importante: Art. 8º A audiência de custódia será realizada com o escopo de garantir os direitos fundamentais da pessoa presa, na sua presença, de seu advogado ou advogada constituída ou membro da Defensoria Pública e do Ministério Público, na qual o juiz deverá: (redação dada pela Resolução n. 562, de 3.6.2024) I – certificar-se de que a pessoa presa se encontra calçada e adequadamente vestida, considerando a temperatura e clima locais, conforme Manual de Proteção Social na Audiência de Custódia, se necessário determinando à autoridade competente o fornecimento de vestuário e calçado compatíveis; (redação dada pela Resolução n. 562, de 3.6.2024) II – certificar-se, com apoio da equipe especializada em proteção social (Serviço de Atendimento à Pessoa Custodiada), se a pessoa custodiada apresenta indícios de transtorno mental ou qualquer forma de deficiência psicossocial, adotando os procedimentos previstos na Resolução CNJ nº 487/2023 quando identificados estes indícios ou situações de crise em saúde mental; (redação dada pela Resolução n. 562, de 3.6.2024) III – consultar se a pessoa presa é migrante, se é indígena, se é fluente na língua portuguesa ou se deseja ser tratada por nome social, de acordo com sua identidade de gênero; (redação dada pela Resolução n. 562, de 3.6.2024) IV – esclarecer as razões pelas quais a pessoa está sendo investigada e sobre o objetivo da audiência de custódia, ressaltando as questões que serão analisadas, em linguagem acessível; (redação dada pela Resolução n. 562, de 3.6.2024) 21 Reclamação 25.891 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/4960 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 EXTENSIVO MPE 17 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. V – assegurar que a pessoa presa não esteja algemada, salvo em casos de resistência e de fundado receio de fuga ou de perigo à integridade física própria ou alheia, devendo a excepcionalidade ser justificada por escrito e, nesse caso, serão observados os princípios da legalidade, necessidade e proporcionalidade, em especial sobre o tipo e a técnica de aplicação do instrumento de contenção; (redação dada pela Resolução n. 562, de 3.6.2024) VI – dar ciência sobre seu direito de permanecer em silêncio; (redação dada pela Resolução n. 562, de 3.6.2024) VII – entrevistar a pessoa presa, formulando questões sobre: (redação dada pela Resolução n. 562, de 3.6.2024) a) se lhe foi dada ciência e efetiva oportunidade de exercício dos direitos constitucionais inerentes à sua condição, particularmente o direito de consultar-se com advogado, advogada, defensor ou defensora pública, o de ser atendido por médico e o de comunicar-se com seus familiares; (redação dada pela Resolução n. 562, de 3.6.2024) b) se lhe foi fornecida água potável e alimentação no período de espera entre a prisão e a audiência; (redação dada pela Resolução n. 562, de 3.6.2024) c) a qualificação da pessoa presa, incluindo nome, nacionalidade, idade, autodeclaração de gênero e raça/cor e outras informações pertinentes, como gravidez, existência de filhos ou dependentes sob os seus cuidados, histórico de saúde, incluídos os transtornos mentais e medicamentos de uso contínuo, utilização excessiva de álcool e drogas, situação de moradia, trabalho e estudo, a fim de analisar o cabimento da concessão da liberdade provisória, com ou sem medida cautelar, assim como encaminhamento assistencial voluntário. (redação dada pela Resolução n. 562, de 3.6.2024) d) as circunstâncias da abordagem policial, prisão ou apreensão, a fim de verificar sua legalidade e a subsunção a alguma das hipóteses de flagrante delito estabelecidas no art. 302, do Código de Processo Penal; (redação dada pela Resolução n. 562, de 3.6.2024) e) o tratamento recebido em todos os locaispor onde passou antes da apresentação à audiência, questionando sobre eventual tortura e maus tratos, para a adoção das providências cabíveis; (redação dada pela Resolução n. 562, de 3.6.2024) f) a realização de exame de corpo de delito, determinando-a em caso de ausência ou insuficiência dos registros, se tiver ocorrido na presença de agente policial, bem como quando a alegação de tortura e maus tratos se referir a momento posterior https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del3689.htm https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 EXTENSIVO MPE 18 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. ao exame efetuado, observando-se a Resolução CNJ nº 414/2021, quanto à formulação de quesitos ao perito; (redação dada pela Resolução n. 562, de 3.6.2024) VIII – adotar as providências a seu cargo para sanar as irregularidades; (redação dada pela Resolução n. 562, de 3.6.2024) IX – após a oitiva da pessoa presa, o juiz deferirá ao Ministério Público e à defesa técnica, nesta ordem, perguntas compatíveis com a natureza do ato, sem relação com o mérito da causa, permitindo-lhes, em seguida, requerer: (redação dada pela Resolução n. 562, de 3.6.2024) a) o relaxamento da prisão em flagrante; (redação dada pela Resolução n. 562, de 3.6.2024) b) o arquivamento do inquérito policial, se for o caso, sendo vedada a apreciação da matéria por juiz ou juíza plantonista; (redação dada pela Resolução n. 562, de 3.6.2024) c) a concessão da liberdade provisória com ou sem aplicação de medida cautelar diversa da prisão, prevista no art. 319 do Código de Processo Penal; (redação dada pela Resolução n. 562, de 3.6.2024) d) a decretação de prisão preventiva; (redação dada pela Resolução n. 562, de 3.6.2024) e) a adoção de outras medidas necessárias à preservação de direitos da pessoa presa, incluindo encaminhamentos voluntários às políticas de proteção social; e (redação dada pela Resolução n. 562, de 3.6.2024) f) a adoção de medidas de proteção ou de assistência à vítima, podendo encaminhá- la ao Núcleo de Atendimento de Assistência Social do juízo, se houver. (redação dada pela Resolução n. 562, de 3.6.2024) A Resolução também aduz que a audiência de custódia será realizada na presença do Ministério Público22 e da Defensoria Pública, caso a pessoa detida não possua defensor constituído no momento da lavratura do flagrante. IMPORTANTE: É vedada a presença dos agentes policiais responsáveis pela prisão ou pela investigação durante a audiência de custódia. Isso porque, como um dos objetivos da audiência é verificar se o preso teve seus direitos violados, a presença dos policiais provavelmente faria com que o preso se sentisse constrangido em seu depoimento (efeito psicológico pela simples presença dos policiais, ainda que estes nada dissessem ou nada fizessem). Lembram da sobrevitimização (ou revitimização)? 22 A Resolução 221/2020-CNMP dispõe sobre a atuação do membro do Ministério Público nas audiências de custódia. https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del3689.htm https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5601 EXTENSIVO MPE 19 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. ATENÇÃO: tenham em mente de uma forma muito clara que a audiência de custódia NÃO SERVE para produção de provas e/ou coleta de indícios; em suma, não se presta a discutir o mérito do caso. Portanto, a competência do juiz que preside esse ato é bem restrita e essas limitações devem ser observadas sob pena de nulidade. CAIU NO MPE-RS-2023-Banca Própria: Os agentes policiais podem efetuar prisão fora da competência territorial do juiz que expediu o mandado, mesmo que este não esteja registrado no Conselho Nacional de Justiça.23 Dando continuidade, após a oitiva da pessoa presa em flagrante delito, o juiz deferirá ao Ministério Público e à defesa técnica, nesta ordem, reperguntas compatíveis com a natureza do ato, devendo indeferir as perguntas relativas ao mérito dos fatos que possam constituir eventual imputação, permitindo-lhes, em seguida, requerer: I - o relaxamento da prisão em flagrante; II - a concessão da liberdade provisória sem ou com aplicação de medida cautelar diversa da prisão; III - a decretação de prisão preventiva; IV - a adoção de outras medidas necessárias à preservação de direitos da pessoa presa. No tocante à ata da audiência, esta conterá apenas e resumidamente, a deliberação fundamentada do magistrado quanto à legalidade e manutenção da prisão, cabimento de liberdade provisória sem ou com a imposição de medidas cautelares diversas da prisão, considerando-se o pedido de cada parte, como também as providências tomadas, em caso da constatação de indícios de tortura e maus tratos. Proferida a decisão que resultar no relaxamento da prisão em flagrante, na concessão da liberdade provisória sem ou com a imposição de medida cautelar alternativa à prisão, ou quando determinado o imediato arquivamento do inquérito, a pessoa presa em flagrante delito será prontamente colocada em liberdade, mediante a expedição de alvará de soltura, e será informada sobre seus direitos e obrigações, salvo se por outro motivo tenha que continuar presa. Importante mencionar que segundo a nova redação dada pela Resolução nº 254, de 4.9.2018, a autoridade policial será cientificada e se a vítima de violência doméstica e familiar contra a mulher não estiver presente na audiência, deverá, antes da expedição do alvará de soltura, ser notificada da decisão, sem prejuízo da intimação do seu advogado ou do seu defensor público. IMPORTANTE: A aplicação da medida cautelar diversa da prisão prevista no art. 319, inciso IX (monitoração eletrônica), do Código de Processo Penal, será excepcional e determinada apenas quando demonstrada a impossibilidade de concessão da liberdade provisória sem cautelar ou de aplicação de outra medida cautelar menos gravosa, sujeitando-se à reavaliação periódica quanto à necessidade e adequação de sua manutenção, sendo destinada exclusivamente a pessoas presas em flagrante delito por crimes dolosos puníveis com pena privativa de liberdade máxima superior a 4 (quatro) anos ou condenadas por outro crime doloso, em sentença transitada em julgado, ressalvado o disposto no inciso I do caput do art. 64 do Código Penal, bem como pessoas em cumprimento de medidas protetivas de urgência acusadas por23 CERTO. EXTENSIVO MPE 20 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. crimes que envolvam violência doméstica e familiar contra a mulher, criança, adolescente, idoso, enfermo ou pessoa com deficiência, quando não couber outra medida menos gravosa. CAIU NO MPE-GO-2024-FGV: Maria, após ser agredida e ameaçada por João, companheiro de longa data, conseguiu fugir, logrando êxito em localizar, nas proximidades, uma viatura da Polícia Militar, ocasião em que narrou o ocorrido. Em assim sendo, os policiais militares se dirigiram ao domicílio do casal e prenderam o agente em flagrante, encaminhando-o à Delegacia de Polícia especializada. Na sequência, João foi direcionado ao sistema prisional para a realização da audiência de custódia. Nesse cenário, considerando as disposições da Resolução nº 213/2015 do Conselho Nacional de Justiça sobre a audiência de custódia, assinale a afirmativa correta. A) Proferida a decisão que resultar no relaxamento da prisão em flagrante, na concessão da liberdade provisória sem ou com a imposição de medida cautelar alternativa à prisão, ou quando determinado o imediato arquivamento do inquérito, a autoridade policial será cientificada e, se a vítima de violência doméstica e familiar contra a mulher não estiver presente na audiência, deverá, em até vinte e quatro horas, contadas da expedição do alvará de soltura, ser notificada da decisão, sem prejuízo da intimação do seu advogado ou do seu defensor público. B) A ata da audiência conterá, apenas e resumidamente, a deliberação fundamentada do magistrado quanto à legalidade e à manutenção da prisão, cabimento de liberdade provisória sem ou com a imposição de medidas cautelares diversas da prisão, considerando-se o pedido de cada parte, como também, em caso da constatação de indícios de tortura e maus tratos, a expedição de ofício, com cópia dos autos, ao órgão ao qual estão vinculados os agentes públicos executores da prisão. C) Proferida a decisão que resultar no relaxamento da prisão em flagrante, na concessão da liberdade provisória sem ou com a imposição de medida cautelar alternativa à prisão, ou quando determinado o imediato arquivamento do inquérito, a pessoa presa em flagrante delito será colocada em liberdade em até vinte e quatro horas, mediante a expedição de alvará de soltura, e será informada sobre seus direitos e obrigações, salvo se, por outro motivo, tenha que continuar presa. D) Concluída a audiência de custódia, cópia da sua ata será entregue à pessoa presa em flagrante delito, ao Defensor e ao Ministério Público, tomando-se a ciência de todos, e apenas o auto de prisão em flagrante, com antecedentes e cópia da ata, seguirá para livre distribuição. E) A oitiva do preso será registrada, preferencialmente, em mídia, como também haverá a formalização de termo de manifestação de pessoa presa ou do conteúdo das postulações das partes, ficando arquivada na unidade responsável pela audiência de custódia.24 Avançando, imagine agora que não houve audiência de custódia e, apesar dos esforços defensivos, a prisão do acusado não foi relaxada pelo Tribunal e pelo STJ. Finalmente, o caso chegou à apreciação do STF, mas já havia sido realizada até mesmo audiência de instrução. Diante disso, questiona-se: A superveniência da realização da audiência de instrução e julgamento não torna superada a alegação de ausência de audiência de custódia? 24 Gabarito: D. EXTENSIVO MPE 21 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. Esse tema é polêmico. O STF já se debruçou sobre caso semelhante e, na ocasião, prevaleceu o entendimento de que: A superveniência da realização da audiência de instrução e julgamento não torna superada a alegação de ausência de audiência de custódia. Isso porque as audiências de custódia e de instrução e julgamento ostentam finalidades sistêmicas completamente diferentes. Mesmo que a prisão do acusado fosse debatida em audiência de instrução, o tema seria analisado de forma incidental, ao passo que, na audiência de custódia, a análise da prisão é o cerne. Além disso, aceitar a tese de que a audiência de instrução torna superada a ausência de audiência de custódia enfraquece este instituto e pode transmitir a mensagem de que sua realização é dispensável (STF, HC 202579 AgR/ES e HC 202700 AgR/SP). CAIU NO MPE-MS-2018-Banca Própria: A superveniência do decreto de prisão preventiva a embasar a custódia cautelar não é suficiente para superar a ausência de realização da audiência de custódia, causando constrangimento ilegal à manutenção da prisão.25 Também é importante saber que o STF, no julgamento do HC 157306, julgado em 25/09/2018, reconheceu que a decisão na audiência de custódia que determina o relaxamento da prisão em flagrante sob o argumento de que a conduta praticada é atípica não faz coisa julgada:26 (...) 6. In casu, o juízo plantonista apontou a atipicidade da conduta em sede de audiência de apresentação, tendo o Tribunal de origem assentado que “a pretensa atipicidade foi apenas utilizada como fundamento opinativo para o relaxamento da prisão da paciente e de seus comparsas, uma vez que o MM. Juiz de Direito que presidiu a audiência de custódia sequer possuía competência jurisdicional para determinar o arquivamento dos autos. Por se tratar de mero juízo de garantia, deveria ter se limitado à regularidade da prisão e mais nada, porquanto absolutamente incompetente para o mérito da causa. Em função disso, toda e qualquer consideração feita a tal respeito – mérito da infração penal em tese cometida – não produz os efeitos da coisa julgada, mesmo porque de sentença sequer se trata”. 7. O trancamento da ação penal por meio de habeas corpus é medida excepcional, somente admissível quando transparecer dos autos, de forma inequívoca, a inocência do acusado, a atipicidade da conduta ou a extinção da punibilidade. (...) (HC 157306, Relator(a): Min. LUIZ FUX, Primeira Turma, julgado em 25/09/2018, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-043 DIVULG 28-02-2019 PUBLIC 01- 03-2019). O STF já decidiu que a audiência de custódia (ou de apresentação) constitui direito público subjetivo, de caráter fundamental, assegurado por convenções internacionais de direitos humanos a que o Estado brasileiro aderiu, já incorporadas ao direito positivo interno (Convenção Americana de Direitos Humanos e Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos). Traduz prerrogativa não suprimível assegurada a qualquer pessoa. Sua imprescindibilidade tem o beneplácito do magistério jurisprudencial (ADPF 347 MC) e 25 ERRADO. 26 Justamente pelo fato de que a audiência de custódia não possui como objetivo a produção de elementos materiais em relação ao crime. EXTENSIVO MPE 22 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. do ordenamento positivo doméstico (Lei nº 13.964/2019 e Resolução 213/2015 do CNJ). STF. HC 188888/MG, Rel. Min. Celso de Mello, julgado em 6/10/2020 (Info 994). No entanto, após o estudo da audiência de custódia, voltemos a tratar sobre a situação de flagrante, que estávamos comentando lá em cima. Doutrinariamente, o flagrante é dividido em etapas. Há a prisão-captura; prisão-documentação e prisão-cárcere. TODOS os crimes podem ensejar a prisão em flagrante na fase da captura,inclusive aqueles delitos de menor potencial ofensivo. A diferença é que, nestes últimos, a fase da documentação se encerrará com a elaboração do termo circunstanciado e, aceitando os termos, não haverá a fase do cárcere. Continuemos. Segundo o art. 303 do CPP, nas infrações permanentes27, entende-se o agente em flagrante delito enquanto não cessar a permanência. E quanto aos crimes habituais? Há entendimento que não cabe prisão em flagrante de crime habitual, pois não cabe tentativa, já que para sua configuração deve existir uma série reiterada de atos. Se o agente é surpreendido praticando apenas 1 ato, será um indiferente penal. Entretanto, outra corrente admite sim, desde que no momento da prisão haja prova segura da habitualidade28. Além disso, apresentado o preso à autoridade competente, ouvirá esta o condutor e colherá, desde logo, sua assinatura, entregando a este cópia do termo e recibo de entrega do preso. Em seguida, procederá à oitiva das testemunhas que o acompanharem e ao interrogatório do acusado sobre a imputação que lhe é feita, colhendo, após cada oitiva suas respectivas assinaturas, lavrando, a autoridade, afinal, o auto. Anote-se que a falta de testemunhas da infração não impedirá o auto de prisão em flagrante; mas, nesse caso, com o condutor, deverão assiná-lo pelo menos duas pessoas que hajam testemunhado a apresentação do preso à autoridade. Além disso, quando o acusado se recusar a assinar, não souber ou não puder fazê-lo, o auto de prisão em flagrante será assinado por duas testemunhas, que tenham ouvido sua leitura na presença deste. CAIU NO MPE-PE-2022-FCC: Quando o acusado se recusar a assinar, não souber ou não puder fazê-lo, o auto de prisão em flagrante será assinado por duas testemunhas, que Ihe tenham ouvido a leitura na presença do acusado, do condutor e das testemunhas.29 ALERTA: uma importante inovação incluída pela Lei nº 13.257/2016 (Estatuto da Primeira Infância) foi a de que pela lavratura do auto de prisão em flagrante deverá constar a informação sobre a existência de filhos, 27 Infração permanente é aquela cujo momento consumativo se prolonga no tempo de acordo com a vontade do agente. 28 HABEAS CORPTJS. PREVENTIVA. Para subsistência do flagrante, em crime habitual, exige- se comprovação da habitualidade na lavratura do auto. Delito do art. 229 CP. Palavra da ré-paciente, confirmatória do funcionamento regular da boate, havendo ratificação testemunhal. Instrução regular, em obediência aos prazos legais. Habeas denegado. (Habeas Corpus Nº 70002358299, Oitava Câmara Criminal, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Tupinambá Pinto de Azevedo, Julgado em 25/04/2001). 29 ERRADO. EXTENSIVO MPE 23 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. respectivas idades e se possuem alguma deficiência e o nome e o contato de eventual responsável pelos cuidados dos filhos, indicado pela pessoa presa. Essa informação obrigatoriamente deverá constar no APF, pois a tutela de direito nesse caso é, primordialmente, a dos filhos, que podem ver-se desassistidos dada a prisão da pessoa responsável por eles. Informação também valiosa é a prevista no art. 306, em que a prisão de qualquer pessoa e o local onde se encontre serão comunicados imediatamente ao juiz competente, ao Ministério Público e à família do preso ou à pessoa por ele indicada. O § 1º prevê que em até 24 (vinte e quatro) horas após a realização da prisão, será encaminhado ao juiz competente o auto de prisão em flagrante e, caso o autuado não informe o nome de seu advogado, cópia integral para a Defensoria Pública. No mesmo prazo, será entregue ao preso, mediante recibo, a nota de culpa, assinada pela autoridade, com o motivo da prisão, o nome do condutor e os das testemunhas. Em resumo: COMUNICAÇÃO DA PRISÃO ENCAMINHAMENTO DO APF NOTA DE CULPA A prisão de qualquer pessoa e o local onde se encontre serão comunicados imediatamente ao juiz competente, ao Ministério Público e à família do preso ou à pessoa por ele indicada. Em até 24 (vinte e quatro) horas após a realização da prisão, será encaminhado ao juiz competente o auto de prisão em flagrante e, caso o autuado não informe o nome de seu advogado, cópia integral para a Defensoria Pública. Em até 24h será entregue ao preso, mediante recibo, a nota de culpa, assinada pela autoridade, com o motivo da prisão, o nome do condutor e os das testemunhas. O que deve fazer o magistrado, ao receber o auto de prisão em flagrante que acabamos de ver? Ele terá 3 opções, segundo o art. 310 do CPP: Primeiro, relaxar a prisão, se esta tiver sido ilegal (com tortura, violação a algum direito fundamental etc.). Segundo, converter a prisão em flagrante em preventiva, quando presentes os requisitos constantes do art. 312 deste Código, e se revelarem inadequadas ou insuficientes as medidas cautelares diversas da prisão; ou30. A decisão que decreta a prisão preventiva pode ser proferida apenas de forma oral em audiência de custódia? Não, o STJ entendeu que a decretação da prisão preventiva apenas de forma oral na audiência de custódia é ilegal. Essa decisão viola o artigo 5º, LXI, CF, que exige que a ordem de prisão seja escrita e 30 Esse dispositivo deve ser relido com cautela. Isso porque com a nova sistemática prevista na Lei nº 13.964/2019, qualquer prisão, seja durante a investigação, seja durante a ação penal, dependerá de pedido de órgão/pessoas/instituições a que a lei processual atribui a referida função, como o MP, a vítima e seus sucessores, assistente de acusação e autoridade policial. Assim, em um primeiro momento, nos parece que a decretação da preventiva depende de pedido expresso do MP. Caso contrário, haverá nítida violação ao sistema acusatório. EXTENSIVO MPE 24 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. fundamentada. Não bastasse isso, o art. 283 do CPP estabelece que ninguém pode ser preso senão por ordem escrita e fundamentada (HC 748.034/SP). Terceiro, conceder liberdade provisória, com ou sem fiança. Recorde-se, mais uma vez, da nova redação dada ao art. 310 do CPP: Art. 310. Após receber o auto de prisão em flagrante, no prazo máximo de até 24 (vinte e quatro)31 horas após a realização da prisão, o juiz deverá promover audiência de custódia com a presença do acusado, seu advogado constituído ou membro da Defensoria Pública e o membro do Ministério Público, e, nessa audiência, o juiz deverá, fundamentadamente: I - relaxar a prisão ilegal; ou II - converter a prisão em flagrante em preventiva, quando presentes os requisitos constantes do art. 312 deste Código, e se revelarem inadequadas ou insuficientes as medidas cautelares diversas da prisão; ou III - conceder liberdade provisória, com ou sem fiança. Pessoal, CUIDADO: relaxamento de prisão é para quando esta for ILEGAL; já a concessão de liberdade provisória é para os casos em que a pessoa possa responder ao processo em liberdade. Nessa esteira, a liberdade será plena, quando não for imposta nenhuma medida cautelar ou então será uma liberdade limitada, dada a necessidade de cumprimento da cautelar diversa da prisão. Ainda: tenham em mente que a prisão em flagrante será convertida em prisão preventiva quando não for possível a efetividade de medidas cautelares. Trata-se, portanto, de última ratio – haja vista a importância do bem jurídico da liberdade. 31 Mais uma vez lembro que este prazobi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. No entanto, gente, para a decretação da prisão preventiva são necessários, além desses requisitos do 312, os requisitos do 313 do CPP. Vejam que o art. 313 afirma que “nos termos do art. 312 deste Código, será admitida a decretação da prisão preventiva”: I - nos crimes dolosos punidos com pena privativa de liberdade máxima superior a 4 (quatro) anos; II - se tiver sido condenado por outro crime doloso, em sentença transitada em julgado, ressalvado o disposto no inciso I do caput do art. 64 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 - Código Penal; III - se o crime envolver violência doméstica e familiar contra a mulher, criança, adolescente, idoso, enfermo ou pessoa com deficiência, para garantir a execução das medidas protetivas de urgência; CAIU NO MPE-AC-2022-CESPE: Em nenhuma hipótese é permitida prisão preventiva caso a pena máxima do crime seja inferior ou igual a 4 anos.51 Com o “Pacote Anticrime”, o art. 313 ganhou um § 2º, cuja redação aduz que não será admitida a decretação da prisão preventiva com a finalidade de antecipação de cumprimento de pena ou como decorrência imediata de investigação criminal ou da apresentação ou recebimento de denúncia, o que reforça o caráter cautelar da prisão preventiva (e nunca de “prisão-pena”). CAIU NO MPE-AC-2022-CESPE: A prisão preventiva poderá ser decretada com a finalidade de antecipação do cumprimento da pena.52 Permita-me lembrá-los que também será admitida a prisão preventiva, segundo o CPP, quando houver dúvida sobre a identidade civil da pessoa ou quando esta não fornecer elementos suficientes para esclarecê- la, devendo o preso ser colocado imediatamente em liberdade após a identificação, salvo se outra hipótese recomendar a manutenção da medida. Essa é a única hipótese de cabimento de prisão preventiva admissível tanto para crimes dolosos como crimes culposos. Nessa hipótese, a prisão preventiva tem um marco temporal definido, porque ela só poderá durar até o momento em que se realizar a identificação civil ou criminal do preso. Portanto, uma vez identificada a pessoa, deverá haver a soltura do preso. CAIU NO MPE-AC-2022-CESPE: Caberá prisão preventiva quando houver dúvida sobre a identidade civil da pessoa.53 O art. 314 também é claro ao pontuar que a prisão preventiva em nenhum caso será decretada se o juiz verificar pelas provas constantes dos autos ter o agente praticado o fato nas condições previstas nos casos de excludentes de ilicitude. Essa proibição tem uma natureza lógica, pois se ausente o elemento “ilicitude” na conduta, a rigor, não há nem ao menos crime na situação concreta. 51 ERRADO. 52 ERRADO. 53 CERTO. EXTENSIVO MPE 43 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. SE LIGA NA JURIS: Não cabe a decretação de prisão preventiva amparada apenas na ausência de localização do réu, sem a demonstração de outros elementos que justifiquem a necessidade da segregação cautelar. STJ. 5ª Turma. AgRg no RHC 170.036-MG, Rel. Min. João Batista Moreira (Desembargador convocado do TRF da 1ª Região), julgado em 21/11/2023 (Info 16 – Edição Extraordinária). Por fim, o juiz poderá revogar a prisão preventiva se, no correr do processo, verificar a falta de motivo para que subsista, bem como de novo decretá-la, se sobrevierem razões que a justifiquem. CAIU NO MPDFT-2021-Banca Própria: Em se tratando das prisões cautelares, assinale a opção CORRETA: A) Não se pode justificar a prisão preventiva para a garantia de ordem pública com fundamento em atos infracionais. B) O juiz pode declarar de ofício a prisão preventiva durante a ação penal, desde que estejam presentes os pressupostos e requisitos da decretação da medida. C) Não cabe a decretação de prisão preventiva quando da prática de contravenção penal no âmbito da violência doméstica. D) O juiz que decretou a prisão preventiva bem como todos os demais tribunais por onde o feito estiver em curso precisam revisar, a cada 90 dias, a necessidade de sua manutenção, mediante decisão fundamentada de ofício, sob pena de tornar a prisão ilegal. E) A Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça unificou o entendimento de que o Juiz pode converter a prisão em flagrante em prisão preventiva de ofício, não havendo a obrigatoriedade do requerimento do Ministério Público ou da representação da autoridade policial.54 LAWFARE NO PROCESSO PENAL Tema recente e pode ser cobrado em provas do MP. O termo "lawfare" é uma junção das palavras "law" (lei) e "warfare" (guerra) e refere-se ao uso do sistema legal e processos judiciais como uma forma de “guerra política” ou estratégia para atingir objetivos políticos, muitas vezes às custas da justiça e do devido processo legal. Embora o conceito não tenha sido criado para o processo penal, atualmente a expressão lawfare tem sido utilizada nesta seara quando utilizam-se do direito penal e do processo penal como uma ferramenta para perseguir opositores/inimigos. Isso pode envolver acusações criminais infundadas, abuso do processo legal, manipulação de evidências e interferência indevida no sistema de justiça. Vejamos o que diz a doutrina: “O termo Lawfare deita raiz no Direito Internacional. Surge com mais força no contexto da Guerra ao Terror americana, em que conceito jurídico como o de combatente ilegal será manipulado para fins de legitimação dos ataques preventivos americanos ao Afeganistão e ao Iraque. Hodiernamente, em temos jurídicos, tem sido utilizado como sinônimo de utilização do Direito Penal e do Direito Processual Penal como instrumentos de perseguição a determinado inimigo, individual ou 54 Gabarito: C. EXTENSIVO MPE 44 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. coletivo, declarado ou não. Não deixa de ser, de certo modo, manifestação do famigerado Direito Penal do Inimigo. Nesse sentido, colacionamos artigo (Geraldo Carreiro de Barros Filho; Athena de Albuquerque Farias; Gislene Farias de Oliveira) que resume o tema: “O termo Lawfare foi popularizado nos Estados Unidos pelo Major General da Força Aérea Americana, Charles Dunlap em 2001, engendrando desde então uma difusão indeterminada do seu significado. O termo “lawfare” não tem definição fixa, mas passou a ser entendido de forma geral como: “O uso indevido da lei como substituto dos meios militares tradicionais para alcançar objetivos militares”. Lawfare está preocupado com a instrumentalização ou politização da lei para alcançar um efeito tático, operacional ou estratégico. No âmbito propriamente político e das leis, é uma expressão que faz referência ao fenômeno do uso abusivo e superficial do direito, nacional ou internacional, como forma de se atingirem objetivos militares, econômicos e políticos, eliminando, deslegitimando ou incapacitando um inimigo. Lawfare pode ser concebido como o termo que define o uso do Direito para deslegitimar ou incapacitar um inimigo. Tendo então suas características ou táticas já reconhecidas pela comunidade jurídica internacional, quais sejam: a) A manipulação do sistema legal. b) Dar aparência de legalidade para perseguições políticas. c) A utilização de processos judiciais sem qualquer mérito, sem conteúdo, com acusações frívolas. d) Abuso do direito para danificar e para deslegitimar um adversário. e) Promoção de ação judicial para descredibilizar o oponente. f) Tentativa de influenciara opinião pública. g) Utilização da lei para obter publicidade negativa ou opressiva. h) Judicialização da política: a lei como instrumento para conectar meios e fins políticos. i) A promoção da desilusão popular. j) A crítica àqueles que usam o direito internacional e os processos judiciais para fazer reinvindicações contra o Estado. k) A utilização do direito como forma de constranger e punir o adversário. l) Acusação das ações dos inimigos como imorais e ilegais, com o fim de frustrar objetivos contrários. A palavra Lawfare é a junção das palavras americanas law, que significa lei, e warfare, que significa conflito armado, guerra. Lawfare então faz referência ao uso da lei como arma de guerra. Assim, convidando ao exercício hermenêutico, diz ser o abuso das leis e dos sistemas próprios do Ordenamento jurídico com intuitos bélicos ou políticos. Quais sejam tais esforços de entendimentos exemplificados nos processos legais com violações intimidadoras, frustrantes dos empenhos dos oponentes; trazendo à seara jurídica um novo adjetivo: campo de batalha legal. O site lawfareproject.org se refere aos fins políticos do Lawfare de forma aversiva: Lawfare significa o uso da lei como uma arma de guerra. Denota o abuso das leis ocidentais e sistemas judiciais para conseguir fins militares estratégicos ou políticos. Lawfare é inerentemente negativa. Não é uma coisa boa. É o oposto da busca de justiça. É a apresentação de processos judiciais frívolos e mau uso de processos legais para EXTENSIVO MPE 45 RUMO AO MP PROCESSO PENAL Atualizado em 01/01/25 M at er ia l p ro du zid o pe lo G ru po E du ca ci on al R DP I Pr oi bi da a c irc ul aç ão n ão a ut or iza da , s ob p en a de v io la çã o de d ire ito s au to ra is. intimidar e frustrar adversários no teatro de guerra. Lawfare é o novo campo de batalha legal (THE LAWFARE PROJECT, 2016). Ainda no sentido de arma de guerra, Susan Tiefenbrun (2010)1 define o fenômeno como sendo: “uma arma projetada para destruir o inimigo através do uso, mau uso e abuso do sistema legal e dos meios de comunicação, para levantar o clamor público contra aquele inimigo”. Como ressalta Dunlap Jr. (2001), preceptor do termo, são violações legais reais, percebidas ou até mesmo orquestradas e empregadas como um meio de confronto não usual.” 55 É isso, pessoal. Até a parte 02. Bom descanso. 55 Disponível em: https://www.emagis.com.br/area-gratuita/polemico/lawfare-e-processo-penal/. https://www.emagis.com.br/area-gratuita/polemico/lawfare-e-processo-penal/