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Mecanismos de Metástase e Angiogênese
INTRODUÇÃO
O termo câncer compreende uma vasta coleção de pato
logias com comportamentos di versos que dependem de vá
rios fatores como sítio primário, condição clínica e imunoló
gica do paciente e histologia do tumor, entre outros. Uma vez
estabelec ido o diagnóstico de câncer, torna-se imperativo o
estadiamento e a caracterização histopatológica do tumor,
uma vez que o tratamento e o prognóstico irão depender di
retamente desses fatores .
Alterações no genoma de uma específica população ce
lular resultam em defeitos nos diversos mecanismos de con
trole da homeostase celular. Devido à complexidade dessa
regulação, não é surpreendente que oncogenes e genes su
pressores sejam descritos para quase todos os circuitos
regulatórios do ciclo celular. como apoptose (ex. TP53, BCL-
2 e BAX), comunicação celular (ex. caderi nas e integrinas),
estabilidade genética (ex. telomerase) e resposta inflamatória
(ex. ciclo-oxigenase 2). Essas alterações genéticas resultam.
em última instância, na formação de um microambiente tu mo
ral e peritumoral, cujo funcionamento é dependente da cons
tante comunicação celular parácrina e autócrina (inter e intra
celular, respectivamente).
Apesar dos recentes avanços nas várias áreas do conhe
cimento que envolvem o diagnóstico e o tratamento de tumo
res malignos. a terapia anticâncer convencional ainda baseia
se, principalmente, na possibilidade de ressecção cirúrgica e
na eficácia das diversas modalidades de tratamento adjuvante
e neo-adjuvante, que variam de acordo com cada tipo de tu
mor. O microambiente tumoral também influencia significati
vamente a resposta das células ao tratamento, portanto de
termina diretamente a eficácia da terapia antitumoraJI 2•
Duas das principais características dos tumores malignos
são a capacidade de divisão celular, que resulta num cresci-
Marco Antonio Arap
Renata Pasqualini
Wadih Arap
mento do volume do tumor, e a capacidade de invasão de te
cidos adjacentes e a distância (esta última denominada mc
tástase). Todos os eventos que envolvem a gênese, o desen
volvimento e crescime.nto dos tumores e a sua capacidade de
invasão local e a distância ocorrem simultaneamente e são
interl igados por complexos mecanismos moleculares, muitos
ainda por serem esclarecidos. Portanto, para o desenvolvi
mento de terapias anticâncer mais eficazes, tanto para a doen
ça localizada quanto para a doença metastática, faz-se neces
sário um melhor entendimento dos mecanismos mQleculares
que regulam a biologia dos tumores.
Aqui, descrevemos os mecanismos da angiogênese e da
formação de metástases, dois dos eventos que mais caracte
rizam os tumores malignos. Esses dois fenômenos estão di
retamente relacionados e serão discutidos separadamente,
apenas com o objetivo de facilitar o entendimento.
ANGIOGÊNESE
H ISTÓRICO
O desenvolvimento e a proliferação das células durante
o crescimento normal e fisiológico dependem diretafuente do
adequado suprimento de oxigênio e de fatores de crescimen
to, além da retirada de resíduos tóxicos que poderiam com
prometer a sobrevida celular. Já em 1955, Tomlison verificou
que a difusão radial do oxigênio em tecidos sólidos ocorre
em apenas 150 a 2ÜÜJ..lm a partir dos capilares. Sem adequa
do suprimento vascular, além desse limite ocorre a morte ce
lular5. Da mesma follT!a que na organogênese e em situações
de anabolismo fisiológico, por exemplo, durante o processo
da cicatrização, a expansão tumoral depende.da proliferação
de vasos e capilares, conhecida como angiogênese. Desde
meados da década de 1940, quando Coman e Sheldon 7 espe-
97
cularam sobre a proliferação celular a pat1ir da observação de
hiperemia ao redor de tumores implantados em camundon
gos, a angiogênese tem sido ativamente estudada por vári
os grupos. Um dos primeiros estudos, realizado em melano
mas, permitiu a classificação da vascularização em dois prin
cipais tipos de vasos: os que supriam apenas a periferia do
· tumor, associados à freqüente necrose central observada em
tumores de crescimento rápido, e vasos que pareciam pene
trar a int imidade do tumor, responsáveis pela real vasculari
zação da intimidade do tumor. Posteriormente, a análise de
talhada da ul tra-estrutura revelou a existência de três tipos
principais de vasos: os derivados de capilares, com paredes
delgadas; os sinusóides, desti tuídos de endotélio e recober
tos por células tu morais, e finalmente v:1sos maduros, de apa
rência normaiJ7
A part ir do início da década de 1970, quando a direta re
lação entre angiogênese e crescimento tumoral foi propos
ta 15·16, muitos trabalhos confirmaram a angiogênese como
condição fundamental para o crescimento tanto do tumor pri
mário quanto das metástases dele originadas. Em 1974, Liotta
e coi.~J concluíram que o desprendi mento, a embolização e a
disseminação celulares são eventos subseqüentes à vascu
larização do tumor primá1io. Estudos mais recentes relaciona
ram a mielossupressão decorrente de quimioterápicos como
a doxorrubicina à supressão da angiogênese36
, suportando o
conceito de que tumores usufruem de mecanismos homeos
táticos para o próprio desenvolvimento.
O conhecimento sobre a fi siopatologia e os mecanismos
da angiogênese tem, portanto, avançado muito durante as
últimas seis décadas. No entanto, importantes questões ain
da permanecem sem resposta, como por exemplo estágios na
evolução dos neovasos que poderiam ser utilizados como al
vos em terapias anticâncer.
MECANISMOS MOLECULARES DA ANGIOGÊNESE
O processo da angiogênese inicia-se com a formação de
brotos originados de células endoteliais de microvasos capi
lares que proliferam, migram e penetram o estroma do tecido,
em geral na direção da fonte originári a das moléculas deter
minantes do processo. Posteriormente, os brotos capilares se
desenvolvem e se transformam em capilares madurosL'. A in
dução da angiogênese é mediada por inúmeros fatores pro
venientes tanto de células tu morais quanto não tumorais,
como, por exemplo, células endoteliaisu, linfócitos-T26, mas
tócitosJ0, macrófagos35·H e suas citocinas21. Muitos fatores
derivados dessas e de outras células são conhecidos, como
o fator de necrose tumoral a (TNF-a.), a interleucina 8 (IL-8),
endotelinas, angiotropinas e moléculas pertencentes à famí
lia dos fatores de crescimento de fibroblastos (FGF), dos fato
res de crescimento epidérmico (EGF), dos fatores de crescimen
to de endotélio vascular (VEGF) e dos fatores de crescimento
endotelial derivadQ de plaquetas (PDGF), entre outros.
Algumas das características mais importantes dos vaso?.
formados na angiogênese tumoral, diferentes ·da vasculatu
ra resultante da angiogênese fis iológica do crescimento e da
cicatrização são: a presença de um maior número de fenestra
ções intercelulares, a associação anormalmente frouxa entre
98
pericitos e o endotélio tumoraF9 e a expressão significativa ele
marcadores que são inex istentes ou quase indetectáveis no
endotélio de vasos sanguíneos nonnais33·J1, como av-integri
nasJ·5 e receptores para certos fatores de crescimento". Es
sas diferenças fazem com que: I) o interst ício tu moral seja
mais acess ível a tnoléculas e células ci rculantes e 2) o cnclo
télio tu moral possa ser-usado como alvo parã terapi a tumor
específica.l·1931 . De fato, novas modalidades de tratamento
anticâncer, dirigidas de acordo com as características mole ~
culares expressas nas células tumorais e em seu endotélio,
foram avaliadas em modelos animais, a ]XIl1 ir da ut ilização ela
tecno logia de apresentação de bacteriófagos (P//(fge
disp/ay) .
Bacteriófagos (ou simplesmente fagos) pertencem a um
grupo de vírus bacterianos com fi ta única ele DNA envol ta
dentro ele um longo capsídeo protéico cilíndrico (Fig. 9.1 ). A
classe Ff de f:1gos é a mais estudada e os fagos pertencen
tes a essa classe utilizam a ponta do pilo como receptor, por
tanto infectam especificamente E. colique contém o plasmí
deo F. Bacteriófagos não promovem a morte da bactéria hos
pedeira, e durante a infecção ocorre a replicação ela fita de
DNA vira!, resultando na formação de uma nova fi ta ún ica de
DNA.
A tecnologia de apresenwção de fagos foi descrita em
198541 e inicialmente desenvolvida para o mapeamento de sí
tios de ligação de anticorpos através do estudo da interação
de bibliotecas de fagos que expressam peptídeos randomiza
dos com imunoglobulinas i mobil izad:1s~0 . Essa tecnologia tor
nou-se uma potente ferramenta par:1 o estudo de interações
protéicas-19·J1 e é comumente utilizada para a seleção de pep
tídeos, anticorpos e proteínas recombinantes capazes de li
gação específica in vitro31
. Uma de suas grandes vantagens
é a capacid:1de de detectar a dispon ibilidade de receptores
nos tecidos não só baseando-se em sua expressão, como
t:1mbém nà·acessibil id:1de a um probe circulante. A constru
ção da bi bl ioteca de fagos consiste na fusão e expressão de
polipeptídeos randomizaclos na proteína de superfície piii
de bacteriófagos filamentosos M 13. Bibli otecas com enor
me variedade ele permutações (até 109 polipeptídeos) podem
ser expressas na superfície das partículas ele fago, permi
tindo o estudo de interações específicas entre esses pep
tídeos e seus receptores em cul tura de célul:1s e tec idos in
vitro. O estudo do painel consiste basicamente nos seguin
tes passos:
exposição ela bibl ioteca ele fagos-peptídeos à proteí
na em questão;
remoção dos fagos não ligados;
recuperação e propagação dos fagos ligados através
da infecção bacteri:1na;
sucessivos rounds são normal mente re:1lizados para a
obtenção da seleção ele peptídeos que se ligam à pro
teína em questão.
A uti lização in vivo dessa tecnologia foi inicialmente des
crita em 1996.1-l, quando peptídeos com afinidade seletiva pelo
endotélio do rim e do cérebro fora m identificados em· animais
de experimentação. A seleção in vivo (Fig. 9.2) consiste in i
cialmente na injeção endovenosa ela biblioteca de f:1gos -no
animal de experimentação (usualmente o camundongo), devi-
Fig. 9.1 - Estrutura do bacteriófago. As proteinas que constituem o fago estão apontadas (setas). A proteina p/11 é o sítio mais co
mum para a apresentação de peptídeos.
damente anestesiado. Os fagos devem permanecer circulan
do por cinco a 10 minutos e o camundongo é então perfun
dido com solução salina tamponada com fosfato ou meio de
Dulbecco modificado (DMEM) através de cateter inserido no
ventrículo esquerdo. Deve ser realizada secção completa da
veia cava inferior, para permitir a drenagem do líquido de per
fu são. Após a perfusão, os órgãos de interesse são recupe
rados, pesados e homogeneizados. Após três lavagens com
DMEM, os fagos que apresentaram ligação específica e não
foram retirados na lavagem são recuperados através de infec
ção do homogeneizado com solução contendo E. co/i em
fase de multiplicação logarítmica. Após a infecção, diluições
seriadas da solução são pipetadas em placas de Petri , con
tendo LB/agar e antibióticos apropriados. O resto da cultura
bacteriana permanece em incubadora por aproximadamente 12
horas (usualmente durante a noite). No dia seguinte, a quan
tificação da afinidade dos fagos é realizada pela contagem
das colônias bacterianas nas placas de Petri em relação aos
órgãos de interesse. Os fagos são precipitados da cultura
bacteriana que permaneceu em crescimento e utilizados para
os sucessivos rounds da seleção in vivo. Geralmente, três
rounds são suficientes para a seleção de fagos-órgão e tu
mor-específicos, no entanto outros rounds podem ser real i
zados. Após o enriquecimento desejado do conj unto de
fagos para um certo órgão ser obtido, aproximadamente 50
clones dos últimos dois rounds de selação são seqüencia
dos. Essas seqüências são comparadas entre si para a iden
tificação de peptídeos semelhantes. Uma observação comum
é que a mesma seqüência de tripeptídeos que apresenta a afi
nidade pelo órgão em questão aparece situada dentro de di
ferentes fagos recuperados. A selelividade dos clones é en
tão validada pela comparação individual da sua capacidade
de ligação a outros órgãos e também da ligação de um fago
que não contém peptídeo32 .
Esse estudo foi o primeiro passo na seleção e identifica
ção de marcadores endoteliais. Desde então, a identificação
de pares receptores/ligantes foi descrita para vários tecidos
murinos, como rim, pulmões, pele, pâncreas, intestinos, úte
ro, adrenal, retina e músculos. O processo de seleção in vivo
traz consigo desafios devido à grande quantidade de variá-
veis que nele estão envolvidas. Apesar dessas dificuldades,
o método apresenta importames vantagens. Primeiro, peptí
deos expressos no fago são identificados através de avalia
ção funcional, que deve ser específica e ultrapassar os me
canismos naturais de degradação. Segundo, peptídeos que
reconhecem proteínas de superfície plasmáticas e/ou inespe
cíficas são depletados do conjunto total de peptídeos. Final
mente, a seleção in vivo de peptídeos mostrou ser capaz de
identificar receptores endoteliais expressos seletivamente em
tumores. Esses receptores, específicos do endotélio tumoral,
podem servir como marcadores tumorais moleculares, alvos
para terapias dirigidas e até para o mapeamento da vascula
tura normal e tumoral.
TERAPIA ANTICÂNCER D IRIGIDA E ANGIOGÊNESE
Uma das maiores conquistas resu.ltantes da identificação
de marcadores endoteliais tumorais é o desenvolvimento de
terapias anticâncer órgão-dirigidas. Dados recentes obtidos
em nosso laboratório têm mostrado vantagens na utilização
de compostos quiméricos, formados por peptídeos órgão-di
rigidos associados a peptídeos pró-apoptóticos ou compos
tos quimioterápicos, no tratamento de vários tipos de tumo
res e na ablação ou retardo do desenvolvimento tumoral em
modelos animais. Na tentativa de desenvolver uma terapia
menos traumática a indivíduos portadores de patologias
prostáticas, utilizamos peptídeos que apresentavam ligação
específi ca ao· endotélio vascular prostático no tratamento de
camundongos transgênicos que desenvolvem tumores
prostáticos malignos (adenocarcinomas) de forma espontâ
nea (TRAMP). Após a seleção dos peptídeos através da tec
nologia de apresentação de fagos, estudamos sua habilida
de em dirigir preferencialmente à próstata um composto bio
logicamente ativo, capaz de induzir apoptose9
. O resultado foi
a destruição do parênquima prostático e o retardo no apare
cimento dos tumores. no grupo de camundongos tratados
com a quimera ativa'.
Em outro exemplo da utilização de marcadores molecula
res de angiogênese na terapia anticâncer dirigida, utilizamos
uma quimera formada pela ligação da droga anticâncer doxor-
99
Recuperação dos lagos
Perfusão e/ou
lavagens
·~
Lígação in vivo
dos lagos
Vaso sanguíneo
Aumento da afinidade dos lagos
Fig. 9.2 - Caracterização do processo de seleção in vivo de fagos. Inicialmente, a biblioteca de fagos é injetada em veia da cauda do
camundongo. Após tempo preestabelecido de circulação, o órgão ou tecido em questão é coletado e os fagos ligados são recupera
dos e amplificados através de infecção com E. coli em fase logarítmica de crescimento, sendo então novamente injetados, dando-se
início ao round seguinte da seleção.
rub ic ina ou de peptídeo pró-apoptótico'J às seqüências
CNGRC (cisteína-asparagina-glici.na-arginina-cisteína) e RGD-
4C (arginina-glicina-ácido aspártico envoltos num peptídeo
duplo-cíclico). identi ficadas a partir de uma biblioteca de
fagos, no tratamento de tumores de mama implantados no te
cido subcutâneo de camundongos. O composto apresentou
aumento na eficácia e redução na freqüência de efeitos cola-.
terais;·~.
Alguns dos fatores de crescimento quase que exclusiva
mente expressos no endotélio vascular tumoral, como a
aminopeptidase NJJ. as metaloproteases de matriz46 e as inte
gri nas a.v~3 e a.v~5 17 • participam também na regulação doprocesso da angiogênese5
•
11
• A aminopeptidase N (também
conhecida como CD 13) tem papel fundamental na angiogêne
se. Ela mostrou-se presenre no endotélio vascular tumoral e
indetectável em todas as outras estruturas endoteliais estu
dadas. Seus antagonistas suprimiram o desenvolvimento de
tumores de mama em modelos animais e suprimiram a angio
gênese num modelo experimental de neovascularização reti
niana induzida por hipóxia·;J_
Uma das maiores dificuldades na elaboração e implanta
ção de novas terapias anticâncer é a transição entre os estu
dos em animais e o tratamento anticâncer de humanos. To
dos os trabalhos até aqui descritos, que identificaram recep
tores no endotélio vascular através do uso da apresentação
de fagos, foram realizados em modelos animais. A primeira
vez q~e essa tecnologia foi uti lizada em humanos com o ob
jetivo de mapear o endotélio foi por nós descrita recentemen
te!. Através da util ização da tecnologia de fagos em indiví
duos com morte cerebral, verificamos que peptídeos circulan
tes contendo mais de 47 mil seqüências de oligonucleotídeos
100
apresentaram afi nidade pelo endotélio vascular de diferentes
órgãos, numa distribuição não-randômica. Ainda mais, certos
peptídeos circulantes ligaram-se especificamente a recepto
res conhecidos do enc.lotélio vascular de órgãos dos quais os
peptídeos foram recuperados. Um dos exemplos de peptídeo
que apresentou afinidade seleti va pelo endotélio vascular da
próstata mostrou-se muito semelhante à interleuc.ina-11 (IL-
11 ) e atualmente está sendo estudado como possível ferra
menta no tratamento do adenocarcinoma de próstata.
O mapeamento do endotélio vascu lar oferece. portanto,
muitas aplicaç!3es clínicas em potencial, tanto para a tera
pêut ica anticâncer quanto para doenças benignas como a
hiperplasia prostática e a endometriose. Acredi tamos que
em última instância poderá ser possível a real ização de um
perfi l molecular da vasculatura dos diversos órgãos em di
ferentes condições e. se esse objeti vo for alcançado, visua
lizamos uma nova modalidade de terapia-dirigida de doen
ças, baseada no perfil vascular do endotélio do órgão ou
tecido afetado.
METÁSTASE
Dentre toda as características dos tumores malignos, tal
vez a que mais influencie a evolução e o prognóstico da
doença seja a presença de metástases. Definida como sendo
a presença de células tumorais em outros tecidos do organis
mo que não-o sítio primário do tumor, _usualmente a presen
ça de metástases envolve a circulação de células tu morais por
vasos linfáticos ou sanguíneos!4
. Para que células tumorais
sejam capazes de desenvolver-se numa me'lástase, elas de
vem sobreviver a uma série de interações com os mecanis-
mos homeostáticos do hospedeiro que são potencialmente
fatais. Portanto, não é surpreendente ser relativamente rara a
freqüência de metástases dentro do imenso uni verso de tu
mores malignos descritos no ser humano. A aquisição das
características fenotípicas que permitem a invasão tecidual e
a formação de metástases resulta da ativação ele genes pro
motores e da inativação ele genes supressores de invasão te
ciclual. Entretanto, a cápaciclacle de in vasão não é exclusiva
ele células neoplásicas. Ela é também observada em células
embrionárias e leucócitos, e o mecanismo utilizado é seme
lhante em todos os casos.
Desde o início dos estudos sobre a evolução do câncer,
o processo de formação das metástases foi dividido em fases
que são essenciais e interligadas em todos os tipos de tumo
rcs18. Inicialmente, a célula neoplásica deve se multiplicar c,
para isso, utiliza nutrientes provenientes do microambiente do
tecido onde está local izada. Esse processo ocorre por difu
são c é suportado pelo conceito que tumores em desenvol
vimento podem utilizar mecanismos homeostáticos do hospe
deiro36. Entretanto, conforme discutido anteriormente, o oxi
gênio obtido por difusão alcança aproximadamente 15Üf1m e,
portanto, é capaz de suprir um tumor de até I ou 2mm de diâ
metro13. A partir daí, a angiogênese é necessária para a so
brevivência das células e para o crescimento do tumor. O pas
so seguinte na formação de metástases é o desprendimento
das células do tumor primário. Para isso, as células tumorais
dependem da regulação negativa de molécu las de coesão e
adcsinas, como por exemplo as E-caderinas22·-'~ , e da capaci
dade de motil idade celular. A motil idade celul ar é determina
da por alterações no citoesqueleto e por resposta a fatores
como tromboplastinas~9 e de automotilidade 10·~s .
Após a migração tec idual , as células devem entrar na cir
culação do hospedeiro. Uma vez que caem na circulação, a
grande maioria padece em decorrência de vári os fatores,
como sua deformabilidade, seu poder de agregação e molé
culas de adesão expressas em sua superfície. Além destes,
fatores do hospedeiro como macrófagos, plaquetas, cé lulas
Hatural killers e a própria turbulência do sangue di ficultam
a sobrevivência das células neoplásicas na circulação. As
que sobrevivem devem aderir a receptores presentes nos pe
ricitos ou nas células do endotél io e/ou a moléculas da mem
brana basal do órgão-alvo, como as proteogl icanas e o colá
geno tipo IVfi.s_ Em seguida, as células devem sair do vaso e
penetrar o parênquima do órgão-alvo. Entre as enzimas envol
vidas na in vasão tecidual estão as metaloproteinases de ma
triz, produzidas por células neoplásicas e também por células
do tecido conectivo6
A
3
• Após a adesão e o extravasamento
celular, deve ocorrer a proliferação celular para o desenvol
vimento do tumor. Para isso, as células sofrem influência
autócrina, endócrina e parácrina de fatores de crescimento,
além de serem capazes de burlar os mecanismos de defesa do
órgão-alvo. Uma vez que a metástase alcança o diâmetro l-i
mite de difusão do oxigênio, inicia-se novamente o processo
de angiogênese da mesma forma que no tumor primário, dessa
forma permitindo a sobrevivência e o crescimento da n'letás
tasc. As células da metástase podem então sofrer processo
semelhante ao do tumor primário, dessa forma caracterizan
do o que conhecemos por metástases de metástases.
O padrão de envol vimento linfático de um tumor depen
de claramente da via de drenagem do órgão primário. Células
malignas podem invadir canais linfáticos diretamente, podem
passar de vasos sanguíneos para linfáticos e vice-ve rsa,
mostrando que existe uma comunicação veno-linfáLica com
plexa nos linfonodos e ~m outros tecidos '~ .
Um dos exemplos mais clássicos de doença metàstática é
o câncer de próstata. Há muito foi reconhecido que o sítio
preferencial de formação de metástases no adenocarcinoma
de próstata são os ossos, principalmente ossos pélvicos c da
coluna vertebral. No entanto, o fator que determina essa pre
ferência, ou seja, o fa tor que determina o local (órgão ou te
cido) aonde células neoplásicas circulantes vão se ader ir c
proliferar, tanto no adenocarcinoma de prós tata quanto em
outras neoplasias, não é conhecido. Em 1889, Pagct descre
veu a teoria de seed ond soi/ (semente e solo), e concluiu que
as células neoplásicas (sementes) tinham uma afinidade es
pecial por ambientes encontrados em órgãos e tecidos espe
cíficos (solo)'0. É fácil imaginar que as células neoplásicas
circul antes não reconhecem moléculas e receptores no
interstício ou nas células do órgão-alvo, mas sim em seu en
dotélio, nos pericitos ou ainda na membrana basal de seus
vasos sanguíneos ou linfáticos. Baseados nessa premissa,
acreditamos que o endotélio de cada órgão ou tecido tem re
ceptores, células e propriedades diferentes, seja ele tumoral
ou nãot.2•3~·J7 • Ainda mais, uma vez que a angiogêncsc tu mo
ral difere da fis iológica, o endotélio tumoral apresenta um re
pertório de moléculas e receptores diferentes dos encontra
dos nos vasos do órgão de origem do tumor. Uma das dife
renças entre o endoté lio do órgão primário, do tumor c de
suas metástases é a expressão emdiferentes níveis de molé
culas e receptores presentes no endotélio normal. Quando h;í
um aumento significativo da expressão de moléculas especí
fi cas no tumor ou na metástase, existe o reconhecimento do
sistema imune que; em últ ima análise, pode ser quanti fic;tclo
pela concentração sérica de an ticorpos fo rmados contra essa
determinada molécula. Em publicação recente, mostramos que
o repertório de anticorpos circulantes de pacientes com cân
cer de próstata pode ser caracterizad·o através da tecnologia
de fagos~s. Esses anticorpos, puri fi cados de pacientes com
adenocarcinoma de próstata, foram reconhecidos de forma
específica por peptídeos expressos nos fagos. A proteína que
desencadeou essa resposta foi reconhecida e está sendo es
tudada como marcador de doença avançada, já que se mos
trou inversamente relacionada à sobrevi da dos pacientes2x.
Além di sso, poderá tornar-se alvo na utilização de terapias
anticâncer dirigidas.
Após o tratamento de pacientes portadores de doença
maligna, a recorrência tumoral é a questão mais importante.
Entretanto, em alguns casos é observada recorrência muitos
anos após o tratamento do tumor primúrio. Acredita-se que
células tumorais podem permanecer quiescentes e viáveis,
no entanto os mecanismos que determinam essa fase do ci
clo celular não são conhecidos. Uma das possíveis explica
çõe-s para a ocorrência de metástases longo tempo apos o
tratamento do tumor primário é o envolvimento das células em
tecido conectivo, mantendo-as relati vamente pouco vascula
rizadas, permitindo a proteção contra os mecanismos ele de-
101
fesa e contra os agentes qu imioterápicos~7 • Outra possível
razão para o aparecimento de metástases longo tempo após
o tratamento do tumor primário é o equilíbrio entre a divisão
celular e a apoptose27, o que manteria o tumor num volume
constante e suficientemente pequeno para não ser detecta
do pelos métodos diagnóst icos existentes atualmente. Num
determinado momento, o número de célul as em divisão celu
lar passaria a ser maior que o de células em apoptose, permi
tindo novamente o crescimento do tumor.
FUTURO
O estudo da angiogênese e a caracterização do mecanis
mo de formação das metástases ainda têm mu ito a ser explo
rados; no entanto, o emprego de novas técni cas e a otimiza
ção de métodos antes uti lizados para outras fi nalidades per
mitirão os avanços necessários para a compreensão desses
fenômenos e para a melhora da terapia anticâncer.
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Cap 9 - Metástase e angiogênese0002
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