A Politica   Aristoteles

A Politica Aristoteles


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doentes e recorrem a seus colegas.
 Também os professores de esgrima recorrem a outros mestres de sua profissão quando querem exercitar-se, por não ser possível distinguir a verdade através de suas prevenções e não quererem ser juízes em seus próprios casos.
 É claro que aqueles que só buscam a justiça procuram um mediador entre os dois adversários. Ora, este mediador é a lei.
 Aliás, faz-se necessária uma distinção entre as leis. Aquelas que estão impressas nos costumes dos povos têm uma autoridade bem maior e uma importância bem diferente das que estão escritas. Se a intuição do chefe de Estado for mais segura do que estas últimas, não o será mais do que os costumes. Acrescente-se a isto que não é fácil que um só homem baste para a inspeção de tantas coisas. Ele precisa de vários magistrados sob suas ordens.
 Que importa, pois, que estes sejam designados desde o princípio ou que ele próprio os proveja depois?
 De resto, se, como já dissemos, um homem virtuoso é digno de governar pela superioridade de seu mérito, com mais forte razão, como diz Homero, Dois bravos companheiros quando caminham juntos.
 É isto também que faz com que Agamêmnon deseje
 Ter dez conselheiros sábios como Nestor.
 Ainda hoje, temos magistrados autorizados a arbitrar como juízes, em certas matérias, sobre os casos não previstos pela lei, já que não é possível que ela governe ou julgue perfeitamente. Pois, no que ela pode definir, não resta dúvida de que se deva ceder à sua autoridade.
 Existem, porém, coisas que podem constar de suas disposições e outras que não. É isto que faz com que se hesite e se questione sobre se é preferível ser governado por excelentes leis ou por um homem excelente. Como não é possível fazer leis sobre casos particulares, é preciso que o homem as supra.
 Ninguém diz o contrário. Mas será um só ou serão vários? Por melhor que julgue o magistrado, guiado pela lei, seria estranho que um homem que só tem dois olhos, duas orelhas, dois pés e duas mãos visse, ouvisse e decidisse melhor do que vários que têm cada qual o mesmo número de órgãos. Atualmente, mesmo os príncipes que detêm sozinhos as rédeas do governo multiplicam seus olhos, suas mãos e seus pés, confiando a seus favoritos uma parte dos negócios de Estado. Se estes não forem bem intencionados para com ele, servilo-ão mal. Se forem seus amigos, se-lo-ão também de seu Estado. A amizade supõe igualdade e semelhança. Portanto, se os considera dignos de governar consigo, reconhece que o governo pertence igualmente aos iguais e semelhantes.
 Em suma, tudo se resume em saber se é mais vantajoso para um Estado ser governado por um homem muito eminente quanto às virtudes ou por leis excelente0.
 Aqueles que preferem o governo monárquico se baseiam no fato de que as leis, sendo concebidas em termos gerais, não poderiam dar conta dos casos particulares. Consideram uma loucura, em qualquer arte, que um homem procure nos livros o que deve ordenar. No Egito, os médicos só têm permissão de purgar seus doentes após o quarto dia; se o fizerem antes, é por sua própria conta e risco. Pela mesma razão, não pode haver Estado perfeitamente governado quando se está limitado a governar de acordo com o texto da lei. Não que não se devam conhecer os princípios gerais e as regras; um guia desapaixonado é sempre mais seguro do que aquele em que as paixões são inatas. Ora, a lei não tem paixões. O espírito humano, pelo contrário, está naturalmente sujeito a elas, mas não é menos verdade que os casos particulares são melhor acertados pelos homens do que pela lei. Portanto, é preciso que ele preencha seu silêncio, ou então a totalidade do povo.
 Entre nós, é o povo que toma conhecimento dos negócios, até mesmo os dos particulares, delibera sobre eles e os julga. Um homem, qualquer que seja ele, comparado à multidão, deve provavelmente valer menos. Ora, o Estado é formado pela multidão. Suas Assembléias se parecem com aqueles banquetes a que vários trazem suas contribuições, e sempre superam qualquer mesa particular. Da mesma forma, em muitas coisas, a multidão julga melhor do que um particular, qualquer que seja ele. Além disso, ela é menos fácil de se corromper, sendo semelhante à água, que quanto mais é abundante menos está sujeita à corrupção. Quando um juiz se deixa levar pela cólera ou por qualquer outra paixão, sua sentença recebe necessariamente a marca disto. Numa multidão, é difícil que todos os espíritos sejam coléricos ou suspeitos de erro.
 Suponhamos, pois, um povo composto de pessoas livres, que respeitam a lei e a seguem em todos os casos, salvo os que escapam à sua previdência (ou, se este povo não é fácil de encontrar, suponhamos pelo menos vários homens de bem e bons cidadãos), não serão eles mais difíceis de se corromper do que um só, sendo todos pessoas de bem e tendo a vantagem do número? Pois deve-se supor a seu lado uma maioria certa.
 Se argumentarem que um só não é sedicioso, mas vários podem sê-lo, responderei que as pessoas de bem também são uma só pela unidade de espírito. Portanto, quer se junte ao poder de comandar o de executar, quer eles sejam separados, a aristocracia, que é o governo de várias pessoas de bem, é preferível, para todo Estado, à monarquia, que é o governo de um só. Todo o problema está em encontrá-las.
 Razão Histórica de Ser da Monarquia
 Se antigamente se deixaram governar por reis, é, sem dúvida, porque raramente se encontravam ao mesmo tempo várias pessoas eminentes quanto ao mérito, sobretudo nas pequenas Cidades, como eram as dos velhos tempos.
 Elegiam-se, aliás, como reis, homens assinalados por sua generosidade, marca que cabe a pessoas de escol. Mas, quando os homens de mérito começaram a se multiplicar, não se quis mais aquele governo; procurou-se algo mais conveniente ao interesse comum e se formou uma República.
 Quando, em seguida, as Repúblicas se corromperam pela cobiça dos funcionários que se locupletavam às custas do Estado, formaram-se, ao que tudo indica, oligarquias em que as riquezas tiveram a primazia.
 Da oligarquia, os grandes passaram ao despotismo, e depois o despotismo deu lugar à democracia. Sua cupidez, excitada pelos lucros ilícitos, reduzindo aos poucos o número de colegas para ganhar mais, insuflou o povo contra eles e determinou-o a apossar-se da autoridade. É a única forma que prevaleceu desde que as cidades cresceram, e talvez tenha sido difícil substituí-Ia por outra.
 Se supusermos, porém, que em geral a monarquia convém mais aos grandes Estados, que partido tomar com relação aos filhos dos reis? Deve ser hereditário o cetro? Ficaremos expostos a cair nas mãos de maus sucessores, como aconteceu algumas vezes. Dir-se-á que o pai terá o poder de não lhe passar a coroa. Mas não devemos esperar por isto: esta renúncia está muito acima da virtude que a natureza humana comporta.
 A segunda questão relativa ao poder executivo consiste em saber de que força um rei deve dispor para submeter os rebeldes, e como deve fazer uso dela na execução do mando; pois por mais constitucional que o suponhamos, não fazendo nada movido por sua própria vontade nem contra as disposições da lei, mesmo assim precisará de algum poder para manter as leis. Não é difícil determinar a força que lhe é necessária. Ele deve ter uma força tal que seja mais poderoso do que cada um em particular e do que a reunião de vários, mas mais fraco do que a nação inteira. Esta é a medida observada pelos antigos na vigilância que exerciam sobre os que chamavam de tiranos ou Aisymnetas ;
 alguém aconselhou aos siracusanos que regulassem da mesma forma a importância da guarda que lhes pedia Dionísio.
 Conveniência da Monarquia para Certos Povos
 Eis aproximadamente o que se alega contra a monarquia. Mas isto pode ser verdade para alguns povos e não para outros. Alguns existem que são naturalmente