A Politica   Aristoteles

A Politica Aristoteles


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retiraram-se para Túrio e ali fizeram a mesma tentativa, mas, querendo dispor do território como senhores, foram vencidos e expulsos. Os bizantinos sofreram algo semelhante da parte de estrangeiros e tiveram subitamente que recorrer às armas para repeli-los. Os antisianos, que de modo semelhante haviam aceitado os banidos de Quios, também se viram obrigados a livrar-se deles pela força. Os zanclianos foram vencidos e expulsos pelos de Samos, que os tinham recebido. Também foram estrangeiros que perturbaram os apoloniatas do Ponto Euxino. Os siracusanos, após a expulsão de seus tiranos, tendo tornado cidadãos alguns soldados e mercenários estrangeiros, tiveram tantos aborrecimentos por causa disso que foi preciso romper com eles. Os de Anfípolis foram quase todos expulsos pelos de Cálcis, por tê-los recebido em sua cidade.
 Nas oligarquias, quem conspira é o povo, considerando injurioso que, apesar de sua pretensa igualdade, não o admitam nos mesmos postos. Nas democracias, quem se revolta são os nobres, por verem que são colocados no mesmo plano que os que não o são.
 Às vezes a sedição parece derivar da própria natureza do lugar que foi mal escolhido para habitação. Em Clazômenas, os habitantes do Centro (ou bairro dos banhos) detestam os da ilha; em Cólofon, a parte do norte odeia a do sul; em Atenas, o pireu é mais democrático do que a cidade. Pois, assim como num exército, um riacho, mesmo bem pequeno, pode romper a falange, assim também, numa cidade, qualquer diferença de habitação basta para quebrar, o entendimento e o acordo entre os habitantes.
 Mas o que há de mais incompatível são, em primeiro lugar, a virtude e o vício, depois as riquezas e a pobreza. Estas diferentes causas têm, por sua vez, cada qual seus graus: na própria classe dos pobres, uns são piores do que os outros, e isso, como acabamos de dizer, se deve a habitarem em bairros diferentes.
 Os Pretextos e Ocasiões
 As sedições não nascem de pequenas causas, mas às vezes têm pequenos começos.
 Ordinariamente, elas repousam sobre grandes interesses, e os menores ganham força quando elas se elevam entre os principais do país. Foi assim que, antigamente, em Siracusa, o Estado foi perturbado por dois jovens magistrados rivais em amor. Durante a ausência de um, o outro conquistou sua amada. O
 despeito, quando ele voltou, sugeriu-lhe atrair e seduzir a mulher de seu rival.
 Tendo cada um deles conseguido o apoio de outros magistrados, a discórdia espalhou-se por toda a cidade.
 Portanto, nunca é cedo demais para abafar as brigas dos altos funcionários e dos grandes. O mal está na origem. Em tudo, o que começou já está feito pela metade. O menor erro cometido no início repercute em tudo que se segue.
 As brigas entre os poderosos de ordinário arrastam consigo todo o Estado. Foi o que aconteceu em Hestiéia, após a guerra dos persas, quando dois irmãos disputavam uma herança. O menos rico dos dois, irritado por seu irmão desviar uma parte do despojo, especialmente o tesouro encontrado por seu pai, atraiu para seu partido toda a arraia-miúda; o outro, que era opulento, conseguiu o apoio de todos os ricos. Em Delfos, uma disputa a respeito de um casamento foi também o princípio de todas as sedições que depois aconteceram. O noivo, por lhe terem predito que a união lhe traria desgraça, hesitou em tomar sua noiva e a deixou sem nada concluir. Os pais da moça, considerando-se insultados, acusaram falsamente o jovem de ter roubado durante a celebração de um sacrifício o dinheiro do tesouro sagrado e o fizeram morrer como sacrílego. Em Mitilene, uma briga que surgiu por causa de uma vultosíssima herança que coube a duas jovens, à morte de Timófanes, seu pai, foi o começo dos desastres e da guerra contra os atenienses. Doxandre, que havia pedido as duas moças em casamento para seus dois filhos, vendo-os recusados, conspirou e insuflou contra sua pátria os atenienses, junto aos quais tinha direito de hospitalidade pública. Mitilene foi tomada pelo general Paques.
 Problema semelhante ocorreu entre os fócios, envolvendo Mnaseas, pai de Mneson, e Eutícrates, pai de Onomarco, por uma jovem e rica herdeira. Foi o começo da "guerra sagrada". Em Epidamno, um casamento também revirou o Estado. O pai da noiva, tendo sido condenado a uma multa pelo pai do noivo, que se tornara magistrado, não pôde conter seu ressentimento por este pretenso insulto e fez com que se revoltassem todos os que estavam excluídos dos cargos.
 Surge uma grande ocasião para mudar, quer para oligarquia, quer para democracia ou para República, a Constituição dos Estados quando algum grupo de magistrados ou alguma classe numerosa de cidadãos adquire para si novos graus de prestígio, ou consegue aumentar seu poder. Assim agiu o areópago que, tendo-se glorificado na guerra dos persas, tentou reduzir o governo a uma forma mais concentrada. Por seu lado, a plebe naval, que contribuíra mais do que todos para a vitória da batalha de Salamina, orgulhosa de ter proporcionado à Ática, por sua marinha, a preeminência sobre todos os Estados da Grécia, não deixou de fortalecer a democracia. Em Argos, tendo os membros se distinguido na primeira batalha de Mantinéia, contra os lacedemônios, tentaram arruinar a democracia. Em Siracusa, o povo a quem se devia a vitória alcançada sobre os atenienses substituiu a forma republicana pela democracia. Em Cálcis, quando o povo expulsou o tirano Foxus junto com a nobreza, tornou-se instantaneamente senhor do governo. Da mesma forma, em Ambrácia, depois de ter expulsado o tirano Periandro e seus partidários, o povo apossou-se do governo.
 Numa palavra - e isto é bom que se saiba -, todos os que, quer na condição privada, quer na magistratura, quer em família, quer em tribo ou qualquer outra associação que possa haver, proporcionaram ao Estado algum acréscimo de potência, sempre ocasionaram certa perturbação, quer começada por invejosos, quer por terem eles próprios, envaidecidos com o sucesso, desdenhado permanecer nos limites da igualdade.
 Os Estados também sofrem comoções quando aquelas de suas partes que parecem contrárias, como os ricos e a arraia-miúda, se contrabalançam e a classe média é ou nula ou muito pouco numerosa. Pois se uma das duas facções se torna muito superior, a porção média não quer arriscar-se contra quem tem uma superioridade evidente. Aqueles, aliás, que excelem em mérito são sempre menos numerosos do que os outros e por isso raramente insuflam sedições e pouco participam delas.
 Estas diversas mudanças acontecem ou por força ou por astúcia: por força, ao constranger, de repente ou após certo prazo, o povo a se submeter; por astúcia, quer conquistando-o com belas palavras e conservando-o com lisonjas no estado a que o conduziram, quer induzindo-o primeiro a uma mudança voluntária, para depois nela mantê-lo forçosamente e a contragosto, depois que reconhece o erro. Foi assim que em Atenas os Quatrocentos lograram o povo com a falsa esperança de que o rei da Pérsia ajudaria com seu dinheiro os atenienses a fazerem guerra contra os lacedemônios, e assim se apossaram do governo.
 Estas são as mudanças comuns a todos os Estados. Daqui para a frente consideraremos separadamente as revoluções particulares a cada forma de governo.
 Das Revoluções Próprias
 às Repúblicas
 Causas das Revoluções na Democracia
 A principal causa das mudanças é, nos estados democráticos, o atrevimento dos demagogos. Caluniam os ricos uns após os outros e os obrigam a fazer coalizões, pois o temor diante do perigo comum tem o efeito de reconciliar os maiores inimigos. Em seguida, amotinam publicamente o povo contra a coalizão, como se vê quase em toda parte.
 Foi com tais maldades que forçaram em Cós os nobres a conspirar e destruir a democracia. Em Rodes, distribuíram aos soldados todo o dinheiro proveniente dos impostos e impediram que os capitães das