A Politica   Aristoteles

A Politica Aristoteles


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fez Ciro contra Astiago, cujos costumes eram desprezíveis e a incapacidade evidente, já que vivia na moleza e seu exército estava irritado com a ociosidade. Seutes da Trácia agiu da mesma forma contra Amãdoco, cujas tropas comandava.
 Às vezes a conjuração tem vários motivos. Ao desprezo junta-se a cobiça, como no caso de Mitrídates contra Aribarzane. Ninguém é mais empreendedor do que os audaciosos que têm valentia e foram educados por seus mestres na carreira militar. A magnanimidade somada ao poder transforma-se em ousadia.
 Estas duas qualidades os levam à conjuração, por estarem certos do êxito.
 Os que conspiram para conseguir um nome são de uma espécie completamente diferente. Não atacam os tiranos pelas honras e pelas riquezas, mas sim para conquistar a glória e fazer com que falem deles. O desejo de um grande nome e da memória da posteridade faz com que arrisquem grandes façanhas, mas pessoas deste tipo são raras. É preciso estar, como Díon, o bravo, disposto ao sacrifício da própria vida e a perder tudo, se falhar o golpe. A natureza não engendra facilmente almas tão heróicas. Ele atacou Dionísio com um punhado de homens, declarando que lhe bastava, chegado ao ponto que fosse, ter vencido as dificuldades da aventura. Mesmo se morresse depois do primeiro passo na corrida, ele ambicionava a glória de uma morte tão bela.
 A tirania também se arruína, como qualquer outro Estado, pelo exterior, quando tem na vizinhança algum outro Estado mais poderoso, num sistema contrário. O contraste das instituições faz nascer a vontade de agredir e, quando toda uma nação almeja alguma coisa, executa-a assim que pode. Os Estados opostos, por exemplo uma democracia vizinha a uma tirania, são tão inimigos quanto os oleiros o são dos oleiros, no dizer de Hesíodo, pois a última espécie de democracia é ela própria uma tirania. O mesmo ocorre com a monarquia e a aristocracia. Por isso os lacedemônios e os siracusanos, enquanto foram bem governados, destruíram várias tiranias.
 Algumas vezes a tirania morre por si mesma, quando ocorre uma divisão entre os pretendentes, como outrora a de Gelão e em nossos dias a de Dionísio.
 A de Gelam foi destruída por Trasíbulo, irmão de Hierão. Bajulando o filho de Gelão à maneira dos demagogos, levava-o à dissolução para reinar. A família e os cortesãos do jovem príncipe tentaram, por certo, reunir forças para salvar a tirania e se desfazer de Trasíbúlo, mas os conjurados, tendo encontrado uma ocasião favorável, expulsaram-nos todos. Quanto a Díon, que, à frente de um exército e com a ajuda do povo, expulsara o jovem Dionísio, seu cunhado, também foi morto, por sua vez.
 Como o ódio e o desprezo são as duas causas principais pelas quais se conspira contra a tirania, é necessariamente à pessoa dos tiranos que se liga o ódio; no entanto, sua ruína na maioria dos casos procede do desprezo. Prova disso é que quase todos os usurpadores conservaram a soberania durante a vida, apesar do ódio público, mas quase todos os seus sucessores perderam-na incontinente. A vida dissoluta que levam faz com que caiam no desprezo e dá mil ocasiões de os exterminar.
 A cólera está ligada ao ódio e produz quase os mesmos efeitos, mas é ainda mais enérgica. Os que são animados por ela insurgem-se com mais violência, não podendo, na perturbação da paixão, ouvir os conselhos da razão.
 As pessoas deixam-se levar pela impetuosidade da cólera principalmente por injúria. Esta reação tornou-se funesta para a tirania dos filhos de Pisistrato e de vários outros, mas o ódio atinge com maior segurança os seus alvos. Ao passo que a cólera é acompanhada de uma dor que não permite raciocinar, a animosidade isenta desse ardor calcula e age silenciosamente.
 Enfim, tudo o que dissemos das causas que destroem a oligarquia imoderada e a extrema democracia pode convir à tirania, pois elas próprias são espécies de tirania.
 
 
 A Política
 
 
 
 Superioridade da Monarquia
 A monarquia tem menos a temer das causas exteriores e por isso mesmo dura mais tempo. Mas, de ordinário, ela destrói a si mesma de duas maneiras, quer pela divisão dos que dela participam, quer por sua tendência à tirania, querendo os reis aumentar sem parar o seu poder, a despeito das leis. Assim, vemos hoje muito poucos Estados governados por reis. Se existem ainda alguns, são de preferência monarquias absolutas e tiranias. A realeza é uma dignidade estabelecida voluntariamente, cujo poder se estende às maiores coisas. Ora, como a maioria dos homens se assemelha e raramente se encontra alguém tão perfeito para corresponder à grandeza e à dignidade do cargo, as pessoas não se submetem de bom grado a semelhantes instituições. Se alguém quiser reinar por astúcia ou por violência, não haverá monarquia, mas sim tirania.
 Quanto às monarquias hereditárias, elas têm uma causa especial de enfraquecimento. Muitos príncipes sem mérito se sucedem e, não tendo seu poder sido adquirido por seus ancestrais através da tirania, mas sim pela honra, esquecem-se disso e revoltam seus súditos com sua insolência. Dissolve-se, então, com facilidade o pacto que os une. Não é mais rei aquele a quem seus súditos se recusam a obedecer; daí em diante não passa de um tirano que governa homens livres contra a vontade.
 Pouca Duração das Tiranias
 Historicamente, a monarquia tirânica é, juntamente com a oligarquia, a forma de Estado menos duradoura.
 A mais longa tirania foi a de Ortógoras e de seus descendentes, em Sícion.
 Durou cem anos. A causa desta duração foi que esta dinastia tratou com moderação os súditos e na maior parte dos casos se conformava com as leis, esforçando-se por contentar o povo. Some-se a isto que Clístenes não era um guerreiro desprezível e, ademais, amava a justiça. Dizem que ele chegou a coroar o juiz que lhe fora adverso na adjudicação dos prêmios dos combates ginásticos. Segundo alguns, este magistrado é aquele cuja estátua ainda se vê na grande praça de Sícion. Conta-se, igualmente, que Pisístrato, citado diante do Areópago, se submeteu à sua jurisdição.
 A segunda tirania quanto à longevidade é a dos Cipsélidas em Corinto.
 Durou setenta e três anos e seis meses. Cipselo reinou trinta anos, Periandro, quarenta, e Psamético, filho de Górdias, três. A causa desta duração também foi que Cipselo tratava o povo com bondade e todo seu reinado transcorreu sem que contratasse guardas. Periandro teve os costumes de um tirano, mas foi bom general.
 A terceira foi a dos Pisistrátidas, em Atenas. Mesmo assim, a tirania de Pisístrato se viu duas vezes interrompida por sua expulsão, de modo que de trinta e três anos, só reinou dezessete e seus filhos dezoito, o que perfaz no total trinta e cinco anos.
 A tirania de Gelão e de Hierão em Siracusa foi de apenas dezoito anos.
 Gelão, após ter reinado sete anos, morreu no oitavo, e Hierão reinou dez anos.
 Trasibulo foi expulso no décimo primeiro mês. As outras tiranias foram igualmente de curta duração.
 Das Leis ou Práticas Salutares às Republicas Cabe ao legislador ou a quem quer que tenha sabido traçar o plano de um governo não apenas realizá-lo, mas sobretudo prover a permanência de sua obra. Qualquer que seja o governo escolhido, não é difícil fazê-lo durar um, dois ou três meses. Portanto, conforme o que dissemos acima sobre a dissolução dos Estados, deve-se tentar garantir sua existência, evitando tudo o que lhe for pernicioso e tomando, através de leis escritas ou não escritas, todas as medidas necessárias à sua conservação, e não considerar tanto como democrático ou oligárquico o que confere este caráter a um Estado, a não ser que lho imprima por bastante tempo.
 Às vezes, aliás, acontece que o governo, sem ser democrático por sua constituição, se torne tal pelo fato e pelo hábito, e, inversamente, tendo se constituído democraticamente