A Politica   Aristoteles

A Politica Aristoteles


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desde a origem, seja na realidade e pelos costumes oligárquico, o que acontece depois das revoluções. Os homens não mudam bruscamente, e se contentam no começo em assumir algumas vantagens sobre os demais. As leis anteriores não são revogadas e, no entanto, os inovadores têm o comando.
 O Respeito às Leis e à Liberdade
 Conhecendo os meios pelos quais se corrompem e se dissolvem os Estados, podemos também saber por que meios eles se conservam. Causas contrárias produzem efeitos contrários; ora, a conservação é o contrário da corrupção.
 Deve-se, portanto, num Estado bem constituído, observar cuidadosamente que nada se faça contra as leis e os costumes, e sobretudo prestar atenção, desde o começo, nos abusos, por pequenos que sejam. A corrupção introduz-se imperceptivelmente; é que, como as pequenas despesas, repetidas, consomem o património de uma família. Só se sente o mal quando está consumado. Como ele não acontece de uma vez, seus progressos escapam ao entendimento e se parecem àquele sofisma que do fato de cada parte ser pequena infere que o todo seja pequeno. Ora, se é indubitável que o total seja composto de coisas pequenas, é falso que ele próprio seja pequeno. O ponto capital, portanto, é deter o mal desde o começo.
 A atenção não deve ser menos vigilante contra as armadilhas que se armam contra o povo. Este, de ordinário, é enganado pelos ricos em cinco ocasiões, que são as Assembléias, as magistraturas, os julgamentos, o armamento e os exercícios.
 1°- as Assembléias: permissão a todos para assistir a elas, mas pena contra os ricos se não assistirem a elas, e somente contra eles, ou então uma pena maior do que para os outros;
 2°- as magistraturas: proibição aos que têm rendas de recusá-las, mas que os pobres o possam;
 3°- os julgamentos: pena para os ricos que se recusarem a ser juízes; impunidade para os pobres, ou pena maior para os primeiros, menor para os segundos, como na lei de Carondas. (Em alguns lugares, todos os que estão inscritos no alistamento civil podem assistir às Assembléias e ser juízes, mas há pesadas multas contra os que, estando inscritos, não comparecerem ou não julgarem, a fim de que a pena evite que se inscrevam e, não estando inscritos, sejam dispensados de comparecer ou de julgar.); 4° as armas: mesma norma sobre as armas e os exercícios; permissão aos pobres de não terem armas e pena contra os ricos se não se tiverem preocupado em adquiri-Ias;
 5°- os exercícios: nenhuma pena contra os pobres, se não comparecerem, e pena contra os ricos, se faltarem. Assim, uns participam para evitar a pena, outros não comparecem, não tendo nada a temer.
 Nas democracias, os legisladores usam de sutilezas opostas. Propõem um salário aos pobres que assistirem às Assembléias ou que tiverem o ofício de juiz, e não impõem nenhuma pena aos ricos que se abstiverem.
 Todas essas astúcias são funestas às Repúblicas.
 Outras Práticas Salutares
 Cumpre observar que existem aristocracias e oligarquias que se sustentam menos pelo valor de sua constituição do que pela direção dos que as governam.
 Uma atitude sábia e moderada tanto para com os outros funcionários públicos quanto para com os simples particulares consiste primeiro em não fazer nem injúria nem injustiça a estes últimos, e depois em deixar que os primeiros entrem por sua vez na administração dos negócios, se forem capazes, não privando nem de honras os ambiciosos, nem de lucros a multidão, e vivendo popularmente com seus colegas. Pois a igualdade que os homens populares ostentam para o povo não é justa apenas no Estado democrático, mas sim em toda parte, entre semelhantes, e importa a eles observá-la. Se, portanto, há vários oligarcas à frente do governo, farão bem em pôr em prática uma boa parte das instituições democráticas, como a renovação semestral das magistraturas, a fim de que todos os seus semelhantes possam obtê-las alternadamente. Com efeito, os iguais formam, por assim dizer, um povo entre eles. Assim, com bastante freqüência, como dissemos acima, têm os seus demagogos. Aliás, para as oligarquias e as democracias, este é o meio de não caírem no despotismo; pois não é tão fácil maquinar uma intriga quando se tem pouco tempo para permanecer no cargo quanto quando nele se demora por muito tempo. Essa longa duração, precisamente, é o que gera a tirania nas oligarquias e nas democracias. Umas e outras tornam-se presas dos grandes.
 Nestas, os demagogos, naquelas, os magistrados mais altos acabam por confiscar o poder, quando lhes concedem tempo.
 As boas instituições conservam-se não apenas pelo afastamento do que pode corrompê-las, como também, às vezes, pela suposição de um perigo próximo. O medo torna mais atento à segurança do Estado. Assim, aqueles que velam pela sua segurança devem inventar de tempos em tempos alguns perigos e tornar mais próximos os perigos que estão distantes, a fim de que os cidadãos informados estejam sempre alertas, como sentinelas noturnas.
 Também se deve, se possível, cuidar através de leis, ou pelo menos prestar atenção, para que não surjam animosidades e sedições entre os grandes, e abafá-las antes até que tenham começado e atingido os que nada tinham com isso. Mas nem todos têm a capacidade de dar-se conta do mal em seu começo.
 É o privilégio dos políticos profundos.
 Se houver alguma variação na oligarquia ou no Estado a respeito dos impostos e do censo, como quando, permanecendo o mesmo o imposto, a abundância do numerário aumenta, cumpre aumentar ou diminuir a taxa através de uma nova ordenação, proporcional ao aumento ou à diminuição do numerário. Pois se não se seguir esta regra, nas oligarquias e nas Repúblicas, acontecerá ou que, no caso de aumento do censo, a República se transforme em oligarquia e a oligarquia em despotismo, ou que, no caso de diminuição, a República se transforme em democracia e a oligarquia em República ou em democracia.
 Os homens facilmente se corrompem pela prosperidade, pois nem todos são capazes de suportá-la. Portanto, trata-se de uma regra geral para todo governo, democrático, oligárquico, monárquico ou outro, não valorizar demais quem quer que seja e não distribuir nenhuma honra excessiva, mesmo que breve. Se se acumulam muitos cargos em uma só pessoa, tais cargos devem ser-lhe retirados aos poucos, e não todos de uma vez. Será sobretudo conveniente estabelecer através das leis que ninguém possa adquirir poder, crédito ou riqueza demais, ou que sejam afastados os que tiverem demais.
 E como da própria vida privada podem vir novidades perigosas, é necessário que haja um magistrado para observar todo gênero de vida que se chocar com a forma e o espírito do governo, qualquer que seja ele, democrático, republicano, oligárquico ou outro, a fim de manter a tranqüilidade pública em todas as partes.
 Se alguma facção ou classe do Estado assume demasiada ascendência, o remédio é confiar sempre ao partido contrário os cargos e os empregos, opor as pessoas distintas à massa e os pobres aos ricos, misturar com os ricos a multidão dos indigentes ou fortalecer o partido médio para romper os projetos sediciosos da desigualdade.
 Mas, em toda a política, não há máxima mais importante do que fazer com que as magistraturas não sejam lucrativas. Isto convém sobretudo às oligarquias. O vulgo zanga-se menos por estar excluído do governo do que por ver os magistrados viverem às custas do tesouro público. É até muito cômodo dispor de todo o tempo para cuidar dos negócios particulares. Mas se estiver persuadido de que os titulares dos cargos públicos pilham o Estado, terá a dupla vexação de estar afastado tanto dos cargos públicos quanto dos lucros pecuniários.
 Esta gratuidade é a única maneira de aliar, por assim dizer, a democracia à aristocracia. Ela concede aos nobres e ao vulgo o que desejam. Por um lado, admite sem distinção todos no governo,