A Politica   Aristoteles

A Politica Aristoteles


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que é o procedimento da democracia; por outro lado, o que é uma concepção aristocrática, só concede magistraturas aos nobres. Isto se torna fácil se se retiram dos homens públicos todos os meios de tirar proveito de suas magistraturas. Então, os pobres não se preocuparão com estes cargos, mas preferirão exercer sua profissão e cuidar de seus negócios, e os ricos, não precisando de salários para viver, aceitarão mais facilmente os cargos não pagos. Disto resultará também que os pobres, tendo tempo para trabalhar, alcançarão mais facilmente a riqueza, e os nobres não correrão o risco de depender do primeiro que aparecer.
 Para prevenir a espoliação do tesouro público, é preciso que a receita seja feita à vista do público e as duplicatas dos impostos e dos recibos sejam entregues às corporações, às centúrias e às tribos. De resto, os magistrados serão menos tentados a tirar algum lucro de seus cargos se houver honras propostas pela lei aos que os tiveram exercido liberalmente.
 Nas democracias, deve-se ser prudente com os bens dos ricos e não submeter nem suas propriedades nem suas rendas a nova partilha, como se faz secretamente em algumas Repúblicas. Seria ainda mais sábio não obrigá-los a grandes despesas e até mesmo proibir-lhes as que são apenas aparatosas, sem serem úteis para o povo, como espetáculos, iluminações e outras coisas semelhantes.
 Da mesma forma, nas oligarquias, é preciso ter muita atenção para com os indigentes e distribuir-lhes os empregos lucrativos. No caso de algum rico os ultrajar, será punido mais severamente do que se tivesse insultado um igual.
 É preciso que as heranças não se transmitam, por testamento, a estrangeiros, mas, por sucessão, às pessoas da família, e que cada um só possa receber uma. Desta forma, haverá maior igualdade entre as riquezas e um maior número de pobres poderá tornar-se rico.
 Na democracia e na oligarquia, convém que os que participam menos do governo, como os ricos na democracia e, na oligarquia, os pobres, sejam em tudo o mais tratados igualmente, se não melhor, a menos que se trate da suprema autoridade, que deve ser reservada aos que a forma do governo indica, isto é, ao magistrado único ou ao Senado.
 
 
 A Política
 
 
 
 O Desinteresse
 Os atuais demagogos, para fazer a corte ao povo, proporcionam-lhe através dos tribunais muitos confiscos. Aqueles que se preocupam com a segurança do Estado devem agir de modo inverso e, em vez de se apoderar em proveito do povo dos bens dos condenados, consagrá-los à religião. A pena será a mesma e deterá igualmente os crimes, mas o povo terá menos pressa para condenar, pois não tirará nenhum proveito da sentença. Além disso, os legisladores devem fazer com que as acusações públicas se tornem muito raras, estabelecendo penas pesadas contra os que agirem levianamente, pois não são as pessoas do povo, mas sim as dos meios refinados que assim se costumam atacar e humilhar.
 Deve-se inspirar a todos, e sobretudo aos cidadãos, um afeto pelo governo tão grande quanto possível, para ao menos se evitar que considerem os grandes como inimigos.
 Como as últimas espécies de democracia contam um povo numeroso e é quase impossível a toda essa gente assistir às Assembléias sem pagamento, as pessoas de certa situação correrão grandes riscos se o Estado não tiver rendas. Só se subsidiará essa despesa esmagando-os com impostos e mandando confiscar seus bens por tribunais vendidos à iniqüidade. Isso já precipitou a subversão de muitas democracias. Portanto, quando o Estado só tem poucos recursos, só deve haver Assembléias nacionais muito raramente e tribunais numerosos só por muito poucos dias.
 Os ricos temerão menos a despesa e verão sem maiores preocupações que não lhes são concedidos honorários, mas apenas aos pobres. Isto também pode ter como efeito fazer com que se julguem muito melhor os processos. Os ricos não se ausentam de bom grado de suas casas por muito tempo, mas se dispõem a isso quando se trata de um tempo bastante curto.
 Se houver rendas suficientes, não se deve, como fazem os demagogos, distribuir à arraia-miúda o dinheiro que sobrar. Mal o recebem e já voltam a cair na indigência, pois essas pessoas são tonéis furados a que essa liberalidade não traz nenhum proveito.
 Um homem realmente popular deve antes cuidar de que o povo não seja pobre demais. A miséria é a fonte de todos os males na democracia. Assim, devem-se encontrar meios de tornar todos abastados de maneira duradoura; isto servirá aos próprios ricos. O melhor emprego das rendas públicas, quando a sua percepção está terminada, é auxiliar amplamente os pobres, para colocá-los em condições ou de comprar um pedaço de terra ou os instrumentos para a lavoura, ou de abrir um pequeno comércio. Se não for possível ajudá-los a todos, deve-se pelo menos verter os subsídios na caixa de alguma tribo ou cúria ou de alguma porção do Estado, ora uma, ora outra. Far-se-á com que os ricos contribuam para as despesas das Assembléias necessárias, de preferência a esbanjamentos frívolos e meramente aparatosos. Por meio disso, o governo cartaginês tornou-se popular, empregando sempre alguém do povo nas administrações provinciais, para que aí fizessem fortuna. É próprio de um grande discernimento e de uma alma nobre, quando se é rico, proteger os pobres e lhes oferecer oportunidade e meios para trabalhar.
 O exemplo dos habitantes de Tarento revela-se, assim, muito digno de se imitar. Eles põem em comum alguns bens para uso dos pobres, e com isto conquistam o afeto do povo. Quanto a seus magistrados, escolhem-nos de duas maneiras, uns por eleição, outros por sorteio; os segundos para que o povo possa participar, e os primeiros para que os cargos sejam melhor preenchidos.
 Podem-se tomar ainda outras disposições sobre a mesma magistratura e conferi-Ia alternadamente por sorteio e por eleição.
 A Virtude e a Educação
 Três qualidades se impõem nos chefes de governo: o apego à Constituição atual do Estado, a maior habilidade adquirida com o exercício e a administração das funções de governo, um gênero de virtude e de justiça adaptada ao regime, pois, não sendo o direito o mesmo em todas as Constituições, a justiça deve necessariamente ser diferente.
 Uma primeira dificuldade aparece quando nem todas estas condições se acham na mesma pessoa. Se, por exemplo, tal homem é capaz de comandar um exército, porém, no mais, não tem probidade e tem pouca afeição pelo governo; e tal outro se revela unicamente honesto e bem intencionado, qual dos dois se escolherá para general? Acho que se devem considerar dois pontos: o que se encontra mais comumente em todos os homens e o que se encontra menos. Assim, para eleger um general de exército, deve-se considerar mais a experiência militar do que a virtude, pois há menos generais experientes do que homens virtuosos. O caso é totalmente contrário no que diz respeito à administração das finanças, pois aí é preciso mais probidade do que tem o comum dos homens.
 Quanto à ciência, todos a têm em medida suficiente para conservar o que lhes é confiado.
 Eis uma outra questão: suponhamos que alguém tenha talentos suficientes para governar e também apego ao Estado; neste caso, será preciso que tenha também virtude, já que, usando destas duas primeiras qualidades, esta pessoa se sai bem em suas funções? Não será mais necessário que tenha virtude, já que, apesar destes dois méritos, poderia não ter uma alma desinteressada?
 Sim, sem dúvida, pois pessoas sem caráter, com todo o seu saber, não são senhoras de si mesmas e muitas vezes ouvem mais, em seus próprios negócios, sua paixão do que seu interesse. Fariam o mesmo na gestão dos negócios públicos.
 Em geral, chamamos interesse público tudo o que é regulado pelas leis para a conservação dos Estados. O ponto essencial, porém, como já dissemos várias vezes,