A Politica   Aristoteles

A Politica Aristoteles


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e até, se tiverem a felicidade de ser bem tratados por eles, afeiçoam-se necessariamente à tirania, ou à democracia, pois o povo também pode ser um tirano. Os dois regimes estimam os aduladores: o povo, seus demagogos, os tiranos, os que rastejam diante deles. Um homem franco e leal ama, mas não adula; eles, pelo contrário, provocam a adulação e favorecem os malvados. Precisam deles para suas torpezas "Um prego expulsa outro", diz o provérbio. A gravidade e a franqueza desagradam-lhes. Querem ter este privilégio sozinhos. Quem quer que use delas parece disputar com eles sua preeminência e seu despotismo.
 Tais pessoas são-lhes odiosas, como se atentassem contra a tirania. Admitem em suas mesas os estrangeiros de preferência aos cidadãos, encarando estes como inimigos e aqueles como indiferentes e, portanto, só concedem a eles o acesso à sua pessoa.
 Eis por que meios, todos eles gerados pela malignidade e pela improbidade mais consumada, se mantém a tirania. Podemos, porém, reduzi-los a três, pois, no fundo, são apenas três as coisas de que se vale o tirano: A primeira, manter seus súditos no mais profundo aviltamento; um homem sem coragem não conspira nem trama contra ninguém.
 A segunda, fazer com que desconfiem uns dos outros, pois a tirania não pode ser derrubada se não houver pessoas que tenham confiança recíproca.
 Assim, os tiranos declaram guerra a todo homem de bem que tiver coragem.
 Esta categoria de pessoas é perniciosa a seu regime, por não quererem deixar-se tratar servilmente, serem francos com todos, sobretudo entre eles, e não denunciarem ninguém.
 A terceira, não lhes deixar nenhum poder. Sem poder, ninguém tentará arruinar a tirania, porque não se tenta o impossível.
 Todos os desígnios dos tiranos tendem a algum destes fins, e todos os seus atos estão relacionados com eles. Nada de confiança entre cidadãos, nada de poder, nada de alma: eis o método de rigor.
 O Uso da Moderação
 O outro método, inverso do primeiro, consiste, como dissemos, na moderação. Concebe-se ela ao se considerar a maneira como se deprava a monarquia. Assim como esta se arruína à medida que se torna mais tirânica, a tirania firma-se ao se tornar mais régia, mantendo apenas a força necessária para se fazer obedecer tanto pelos que querem bem ao tirano quanto pelos outros, poder que não pode perder sem ele próprio se perder.
 Isto posto, é preciso que o tirano faça, em parte, o que fazem os reis, e que, quanto ao demais, salve as aparências simulando corretamente os sentimentos e os modos de um bom príncipe.
 Em primeiro lugar, que tenha o ar de se preocupar com o bem público; que evite as despesas que ferem o povo, como a dilapidação das finanças; que se abstenha de fazer, às custas dos pobres que têm tanta dificuldade para economizar, grandes gastos, principalmente essas generosidades escandalosas, como pensões para suas amantes e para os encarregados de seus prazeres, para estrangeiros sem mérito, para artesãos de corrupção e de imoralidade; que preste contas da percepção e do emprego dos impostos, como alguns tiranos no passado. Por este meio, será tido por econômico e fará com que se esqueça sua tirania. Sendo senhor do Estado, não deve temer a falta de dinheiro. Mais vale para ele estar sem dinheiro para suas campanhas do que deixar em casa tesouros empilhados; com isto, ficarão menos tentados de abusar desse dinheiro os que, em sua ausência, governarem o Estado, pessoas muito mais temíveis para ele do que os meros cidadãos. Estes marcham com ele para o combate, enquanto que aqueles ficam na retaguarda.
 Quanto à percepção dos impostos, o tirano deve comportar-se como se só os aumentasse para a manutenção do Estado e, se ela ocorrer, para as despesas de guerra; numa palavra, mostrar-se tal que seja considerado mais o guardião do que o senhor do tesouro público.
 Que o tirano tenha também uma abordagem fácil e um ar grave, de modo que os que tiverem acesso a ele pareçam menos temê-lo do que respeitá-lo, o que homens desprezíveis não conseguem facilmente. Se não se preocupar com nenhuma outra virtude, que pelo menos seja cortês, tenha a política de passar por virtuoso, e se abstenha não apenas ele mesmo de toda injúria contra seus súditos, de qualquer sexo que for, mas também não tolere que nenhum de seus domésticos ofenda ninguém, e cuide de que suas mulheres se comportem da mesma maneira para com as outras mulheres. Pois há injúrias feitas por mulheres de tiranos que arruínam a tirania.
 Sobre a questão dos prazeres sensuais, que faça o contrário de seus êmulos de hoje, que não se contentam em se entregar a eles da manhã à noite, durante vários dias, mas ainda querem que todos saibam a vida que levam, para serem admirados como seres felizes. Que use moderadamente deste tipo de prazeres; que pelo menos tenha a aparência de não correr atrás deles, e até de procurar furtar-se a eles. Não se surpreende com facilidade e não se despreza um homem sóbrio, mas sim um homem bêbado, nem um homem vigilante, mas sim um homem sonolento.
 Numa palavra, deve agir de modo totalmente inverso do que dissemos mais acima, conservar e adornar a cidade, como se fosse o seu curador, e não o tirano.
 Que demonstre principalmente muito zelo pela religião. Teme-se menos injustiça da parte de um príncipe que se crê seja religioso e parece temer aos deuses, e se está menos tentado a conspirar contra ele quando se presume que tem a assistência e o favor do Céu. Mas é preciso que sua piedade não seja afetada, nem supersticiosa.
 Além disso, que honre as pessoas de bem e os que se sobressaem por algum talento, a ponto de convencê-los de que não seriam melhor tratados por seus concidadãos no Estado da mais ampla liberdade. Que deixe para si mesmo a distribuição das honras e entregue a seus oficiais e aos juízes as punições.
 Outro cuidado para a conservação e a segurança de toda monarquia consiste em não elevar ninguém, ou então elevar mais de um, pois assim eles se vigiarão mutuamente. Se, por acaso, só se puder fazer avançar um só, que não seja nem arrogante nem audacioso: estes caracteres são, em todas as coisas, muito empreendedores. Se for preciso rebaixar alguém e tirar-lhe o crédito e a autoridade que não seja de uma vez, mas pouco a pouco.
 É necessário sobretudo abster-se de qualquer injúria, principalmente de dois tipos: uma, bater em quem quer que seja; outra, desonrar a juventude por lubricidade. Este respeito é indispensável sobretudo para com as pessoas ambiciosas e nobres. Os avaros suportam com impaciência a injúria que toca na diminuição de seus bens, e as pessoas sábias e honestas, tudo o que atenta contra a sua honra. A própria punição das faltas deve evitar o ultraje. Só se deve fazer uso dele com uma espécie de jeito paternal.
 Se acontecer que o príncipe se deixe levar por alguma fraqueza com pessoas jovens, que seja por amor, e não por abuso de autoridade, e, se ferir a honra, que indenize com maiores honras.
 Entre aqueles que conspiram contra a vida do tirano, os mais temíveis, contra os quais mais se deve cuidar, são os que sacrificam a própria vida contanto que seja para matar, principalmente os que estão motivados pelo ressentimento de alguma injúria, quer em sua própria pessoa, quer na dos seus.
 Nada se poupa quando a cólera e o despeito se misturam. "É difícil", diz Heráclito, "conter a cólera; põe-se nela a vida."
 Como os Estados são compostos de duas partes, pobres e ricos, deve-se fazê-los compreender que sua salvação depende da do Estado e do cuidado que tomarem para não se prejudicarem uns aos outros no que quer que seja.
 Mas que o príncipe traga para o seu lado os mais poderosos, para que, se acontecer uma sedição, não seja forçado nem a libertar os escravos nem a desarmar os cidadãos. Se um dos partidos unir-se a ele, suas forças lhe bastarão para resistir