A Politica   Aristoteles

A Politica Aristoteles


DisciplinaSociologia32.932 materiais1.131.529 seguidores
Pré-visualização50 páginas
ao partido que ousar atacá-lo.
 Em suma, não há esforços que não devam ser feitos pelo tirano para que seus súditos o encarem não como um egoísta ou um déspota que liga tudo ao seu interesse, mas sim como um rei ou como um curador ou ecônomo unicamente ocupado com o bem público. Que ele seja moderado em todas as ações; não se permita nenhum excesso; seja cortês com os nobres e amável com o povo; com isso, tornará mais florescente a sua autoridade, e mais agradável e duradoura, não estando mais exposto ao ódio que o temor inspira, e reinando não sobre gente aviltada, mas sobre sujeitos livres, gente de coragem e de bem. Enfim, que regre de tal modo seus costumes e suas maneiras que, se não for bom, o pareça pelo menos pela metade, e se for mau só o pareça pela metade.
 Estas são, aproximadamente, todas as causas de subversão e os diversos meios de salvação para as diversas formas de governo.
 Exame de Algumas Constituições
 que Tiveram seu Reinado ou que
 
 
 A Política
 
 
 
 Foram Apenas Projetadas
 pelos Filósofos
 Sendo nossa intenção examinar qual seja a melhor das sociedades políticas para os que podem levar o gênero de vida que melhor lhes convém, devemos considerar rapidamente as Constituições dos Estados que passaram por ter boas leis, assim como os projetos de alguns filósofos que se ocuparam deste assunto. Veremos o que se pode aproveitar disso. Deve ser-nos permitido também procurar algo de melhor, não para ostentar uma vã erudição, mas para indicar o que pode haver para corrigir em cada um.
 Exame das Duas Repúblicas de Platão
 Comecemos pelo exame da questão que se apresenta em primeiro lugar nesta discussão, a saber, se tudo deve ser comum entre os cidadãos ou se não deve haver nada de comum, ou se algumas coisas devem sê-lo e não outras.
 Nada haver em comum é impossível. O próprio Estado não é senão uma espécie de comunidade, a que é necessário, em primeiro lugar, um local comum. É esta unidade de lugar que faz com que todos pertençam igualmente a uma mesma Cidade e os associa quanto ao território.
 Num Estado bem constituído, porém, tudo o que for suscetível de comunidade deve permanecer em comum, ou a comunidade deve restringir-se a certas coisas, sendo o restante próprio de cada um?
 Em sua República, Platão propõe que as mulheres, as crianças e os bens sejam comuns aos cidadãos. De fato, neste Diálogo, Sócrates preconiza a comunidade total. Qual é melhor, este sistema ou nosso costume?
 A comunidade de mulheres oferece grandes dificuldades, e se fosse preciso estabelecê-la não seria pela razão apresentada por Sócrates. O próprio fim suposto por ele para a associação política torna impossível este estabelecimento, e assim ele nada diz de preciso sobre este assunto.
 Seu princípio é que o maior bem que possa acontecer para um Estado qualquer é a perfeita unidade; digo o mesmo, mas se levarem muito longe essa unidade, ela não será mais uma sociedade política que consiste essencialmente numa multidão de pessoas. De uma Cidade podem fazer uma família, e, de uma família, uma só pessoa. Com efeito, há mais unidade numa família do que num Estado, e numa só pessoa do que numa família. Ora, se fosse possível estabelecer esta perfeita unidade entre os membros de um Estado, seria preciso evitá-lo: isso seria destruir a sociedade política, que, por essência, é constituída de pessoas, não apenas em grande número, mas também dessemelhantes e de espécies diferentes.
 Há muita diferença entre um Estado e uma liga. A liga compõe-se de gente da mesma espécie, unida pelo pacto de se auxiliar mutuamente em caso de guerra. Quanto maior número de homens contar, mais será forte, semelhante assim aos pesos, cuja força aumenta na razão de sua quantidade.
 Os bandos também diferem dos povos, por não se dividirem em cidades e aldeias, mas se dispersarem por cabanas, como os árcades.
 Para que a unidade social seja vantajosa, é preciso que os membros unidos difiram em espécie. O que conserva o Estado é, como dissemos em nossa Ética, a reciprocidade dos serviços.
 Esta reciprocidade deve existir entre pessoas livres e iguais. Nem todos podem comandar ao mesmo tempo, mas cada qual por sua vez, por ano ou alguma outra divisão e ordem de tempo. Desta maneira, todos participam da autoridade: é como se os sapateiros e os serralheiros, ao invés de permanecerem toda a vida no trabalho que escolheram, revezassem de profissão. E já que é vantajoso que a sociedade política seja organizada desta maneira, é evidente que seria preferível que todos pudessem mandar, se fosse possível; mas como a igualdade natural torna o governo comum impossível quanto a certas coisas, e como é justo que cada qual participe da autoridade, quer a julguemos um bem, quer a consideremos um fardo, é necessário, quanto ao que não pode ser ordenado por todos, que se faça alternar o poder, de modo que homens que são iguais entre si mandem e obedeçam alternadamente, como se se tivessem tornado outros homens.
 Observo, também, que aqueles que são investidos de autoridade exercem poderes diferentes.
 É, portanto, claro que a unidade, como alguris a apresentam, não pertence à essência de um Estado, e o que chamam de seu maior bem é a sua ruína. O que é realmente bom conserva.
 Outro raciocínio também prova que a unidade perfeita demais não convém ao Estado: uma família basta-se mais a si mesma do que um indivíduo, e um Estado, mais do que uma família. Até mesmo não há verdadeiro Estado senão quando a sociedade tem todos os bens de que precisa para satisfazer às suas necessidades. Portanto, se esta suficiência é preferível a tudo, menos unidade é mais desejável do que unidade demais.
 Se supuséssemos que o maior bem de um Estado é ser reduzido à unidade, esta não seria demonstrada pela hipótese de que todos os cidadãos concordassem em dizer: "Isto é e não é meu", linguagem que Sócrates considera sinal de sua perfeita unidade.
 A palavra "todos" tem dois significados. Se a tomarmos distributivamente, haverá alguma verdade nas palavras de Sócrates, podendo cada um, de fato, dizer de sua mulher e de seu filho que são seus, e o mesmo sobre seus bens e sobre o que lhe diz respeito pessoalmente; mas os que tivessem mulheres e crianças em comum não poderiam dizer o mesmo. A palavra "todos" não tem a idéia de cada um deles em particular; empregá-la, neste caso, é um paralogismo.
 Encontra-se a mesma ambigüidade em um "casal", que significa ora os dois indivíduos, ora o seu conjunto; conseqüentemente, um número par no primeiro sentido e ímpar no segundo, o que pode ocasionar grandes equívocos.
 Sem dúvida, é permitido a todos e a cada um falar da mesma forma, pois isto é bom em si; mas a coisa é impossível e inútil para a uniformidade de sentimentos.
 Há outro inconveniente na comunidade socrática: preocupamo-nos pouco com o que é comum a muitos e só damos valor ao que nos pertence; ou, se nos preocupamos com o que nos é comum, é unicamente pela parte que podemos ter. De resto, descansamos uns sobre os outros, e normalmente acontece o que se observa no serviço doméstico, onde quanto mais empregados houver, menos o trabalho é bem feito. Da mesma forma, achando-se cada cidadão de posse de milhares de filhos que não são mais dele do que dos outros, todos desdenharão de igual modo o seu trato e a sua educação.
 Além disso, cada qual vai querer ter como filhos os que prosperarem, e rejeitará os outros. Como entre os milhares ou mais de crianças não se terá certeza sobre a paternidade e nem a quem se deve a sua conservação, não haverá preocupação de saber quem é quem e se dirá ao acaso: "Este é meu; este é dele." Ora, pergunto, o que é preferível para uma criança entre duas ou dez mil outras, que cada qual a chame seu filho ou ter, como entre nós, um pai conhecido,