Manual de Cuidados Paliativos ANCP
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clínica do doente estão relacionados a seguir.
Dados biográficos
Devem conter:
\u2022 nome e forma como gosta de ser chamado;
\u2022 sexo e idade;
\u2022 estado marital, filhos e netos, se os tiver;
\u2022 trabalho que realizou por mais tempo ou com o qual mais se identificou;
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Manual de Cuidados Paliativos da ANCP
\u2022 local de nascimento e região de moradia;
\u2022 com quem mora e por quem é cuidado a maior parte do tempo;
\u2022 religião e crenças;
\u2022 o que gosta de fazer;
\u2022 o que sabe sobre sua doença e o quanto quer saber.
Esses dados podem ser colhidos com o doente em conversa aparentemente informal 
para que se possa estimulá-lo a descrever-se e para que permita a percepção de quem é. 
Se algo na conversa chamar a atenção do profissional, deve ser descrito.
Exemplo:
Maria de Fátima, 5\ufffd anos, casada por 25 anos e divorciada há cinco. Três filhas (29, 
25 e 20 anos) e duas netas (5 e 3 anos). Professora do ensino fundamental aposentada 
há dois anos, gosta de cozinhar e cuidar das netas. Nasceu em Minas, mora na Aclimação 
com as duas filhas mais novas, é católica praticante e muito religiosa. Sabe de sua doença 
e da gravidade, mas tem fé na possibilidade de cura. 
Cronologia da doença atual e tratamentos realizados
Trata-se do registro da doença de base, com a época (mês e ano) do diagnóstico e o 
tratamento realizado no mesmo período.
Em seguida, a sequência de diagnósticos secundários à doença de base, com época e 
tratamentos.
Registrar também outras complicações relacionadas com o quadro principal e os 
diagnósticos não-relacionados com a doença em questão ou preexistentes.
Exemplo:
\u2022 Câncer de mama \u2013 outubro/1998 \u2013 mastectomia + radioterapia + quimioterapia;
\u2022 metástase óssea \u2013 maio/200\ufffd \u2013 radioterapia;
\u2022 metástases pulmonar e pleural \u2013 setembro/2008 \u2013 quimioterapia, pleurodese;
\u2022 metástase para o sistema nervoso central (SNC) atual \u2013 neurocirurgia + radioterapia 
finalizada há uma semana;
\u2022 trombose venosa profunda de membro inferior direito (MID) \u2013 janeiro/2009 \u2013 anticoagulantes;
\u2022 outros: hipertensão leve, controlada.
De forma sucinta, a cadeia de eventos está clara e indica a evolução da doença, os 
recursos terapêuticos usados e os outros diagnósticos que precisam ser observados.
Avaliação funcional
A avaliação funcional em Cuidados Paliativos é fundamental para a vigilância da 
curva evolutiva da doença e se constitui em elemento valioso na tomada de decisões, na 
previsão de prognóstico e no diagnóstico da terminalidade.
Existem algumas escalas de avaliação funcional que podem ser usadas em Cuidados Paliati-
vos. Os serviços de oncologia costumam usar a escala de Karnofsky, elaborada nos anos 1940. A 
escala de Karnosfsky ainda é muito usada em oncologia para a tomada de decisões(9, 10).
Em 199\ufffd, o Victoria Hospice, no Canadá, desenvolveu um instrumento de avaliação 
de performance com base no Karnosfky e adaptado aos Cuidados Paliativos. Trata-se da 
Palliative Performance Scale (PPS). Em 2002, aperfeiçou a escala, agregando texto de 
instruções e definições(1, 11).
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A escala possui 11 níveis de performance, da 0 a 100, divididos em intervalos de 10, 
ou seja, não existem valores intermediários.
A PPS deve ser utilizada todos os dias para pacientes internados, em todas as consul-
tas ambulatoriais e visitas domiciliares. 
A tradução oficial para o português está sendo desenvolvida por profissionais da Aca-
demia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP), em São Paulo. O Quadro 1 mostra a 
tradução preliminar brasileira.
Quadro 1 \u2013 Palliative Performance Scale (PPS)
% Deambulação Atividade e evidência 
de doença
Autocuidado Ingesta
Nível da 
consciência
100 Completa
Atividade normal 
e trabalho, sem 
evidência de doença
Completo Normal Completo
90 Completa
Atividade normal 
e trabalho, alguma 
evidência de doença
Completo Normal Completo
80 Completa
Atividade normal 
com esforço, alguma 
evidência de doença
Completo
Normal ou 
reduzida
Completo
70 Reduzida
Incapaz para o 
trabalho, doença 
significativa
Completo
Normal ou 
reduzida
Completo
60 Reduzida
Incapaz para hobbies/
trabalho doméstico, 
doença significativa
Assistência 
ocasional 
Normal ou 
reduzida
Completo ou 
períodos de 
confusão
50
Maior parte 
do tempo 
sentado ou 
deitado
Incapacitado para 
qualquer trabalho, 
doença extensa
Assistência 
considerável
Normal ou 
reduzida
Completo ou 
períodos de 
confusão
40
Maior parte 
do tempo 
acamado
Incapaz para 
a maioria das 
atividades, doença 
extensa
Assistência 
quase 
completa
Normal ou 
reduzida
Completo ou 
sonolência, 
+/- confusão
30 Totalmente 
acamado
Incapaz para 
qualquer atividade, 
doença extensa
Dependência 
completa
Normal ou 
reduzida
Completo ou 
sonolência, 
+/- confusão
20 Totalmente 
acamado
Incapaz para 
qualquer atividade, 
doença extensa
Dependência 
completa
Mínima a 
pequenos 
goles
Completo ou 
sonolência, 
+/- confusão
10 Totalmente 
acamado
Incapaz para 
qualquer atividade, 
doença extensa
Dependência 
completa
Cuidados 
com a 
boca
Sonolência 
ou coma, +/- 
confusão
0 Morte \u2212 \u2212 \u2212 \u2212
Fonte: Victoria Hospice Society. J Pall Care, v. 9, n. 4, p. 2\ufffd-32. Tradução livre de Maria Goretti Maciel/
Ricardo Tavares de Carvalho.
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Manual de Cuidados Paliativos da ANCP
A PPS tem sido usada na tomada de decisões em Cuidados Paliativos e parece ter 
algum valor prognóstico quando associada a outros sintomas, como edema, delirium, 
dispneia e baixa ingesta alimentar(\ufffd-8, 12).
A construção de um gráfico diário a partir dos registros da PPS tem ajudado na compre-
ensão da evolução da doença em pacientes internados na enfermaria de Cuidados Paliativos 
do Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE) desde o início de janeiro de 2009.
Exemplo:
O sr. A. S., 89 anos, com diagnóstico de carcinoma espinocelular de esôfago, era 
acompanhado no domicílio, e o último registro de PPS era de \ufffd0% em 4 de janeiro, uma 
semana antes da internação hospitalar, que durou 19 dias. No pronto-socorro, em 12 de 
janeiro, a queixa inicial era de confusão e sonolência e PPS de 40%, atribuídos inicial-
mente à infecção do trato urinário. No primeiro dia na enfermaria, fez quadro de delirium 
agitado seguido de torpor, caindo a PPS para 10%. O diagnóstico definitivo foi de hiper-
calcemia. Iniciado o tratamento, houve resposta razoável, elevando a PPS para 30%. Após 
sete dias de tratamento e ajustes terapêuticos, começou a recuperar desempenho funcio-
nal e retornou a 50%, patamar ideal para alta hospitalar, em 29 de janeiro (Figura).
70%
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27
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28
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A
lta
60%
50%
40%
30%
20%
10%
0%
PPS
Figura \u2013 PPS diária, paciente A. S., 89 anos, CEC de esôfago
Fonte: Registros diários, enfermaria de Cuidados Paliativos, HSPE, 2009. 
PS: pronto-socorro; PPS: Palliative Performance Scale.
Avaliação de sintomas
Objetivo e tarefa dos Cuidados Paliativos, a avaliação de sintomas deve ser realizada 
de forma sistemática na admissão, nas evoluções diárias, consultas ambulatoriais e visitas 
domiciliares.
A Edmonton Symptom Assessment Scale (ESAS), desenvolvida no Canadá, é um ins-
trumento valioso nessa tarefa. Consiste num pequeno questionário com nove sintomas 
determinados e um décimo, de livre escolha do paciente, que passará a ser registrado dia-
riamente. A cada sintoma solicita-se ao paciente que atribua uma nota de 0 a 10, sendo 
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0 a ausência do sintoma e 10, a sua maior intensidade. O profissional deve se manter im-
parcial