Manual de Cuidados Paliativos ANCP
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interação que ocorre no relacionamento humano. É necessário 
qualificá-la, oferecer-lhe emoções, sentimentos e adjetivos, para que seja possível perceber e 
compreender não só o que significam as palavras, mas também os sentimentos implícitos na 
mensagem; e é a dimensão não-verbal do processo de comunicação que permite demonstra-
ção e compreensão dos sentimentos nos relacionamentos interpessoais. A linguagem verbal é 
qualificada pelo jeito e tom de voz com que as palavras são ditas, por gestos que acompanham 
o discurso, olhares e expressões faciais, postura corporal, distância física que as pessoas man-
têm umas das outras e até mesmo por roupas, acessórios e características físicas.
Para facilitar o estudo da comunicação não-verbal, propõe-se classificá-la(12) em 
paralinguagem, cinésica, proxêmica, características físicas, fatores do meio ambiente e 
tacêsica. 
A paralinguagem refere-se a qualquer som produzido pelo aparelho fonador e utili-
zado no processo de comunicação, ou seja, o modo como falamos. Representam-na os 
ruídos, a entonação da voz, o ritmo do discurso, a velocidade com que as palavras são 
ditas, o suspiro, o pigarrear, o riso e o choro. É também chamada paraverbal e confere 
emoção às informações transmitidas verbalmente.
Quadro 1 - Metas para a comunicação ao final da vida
Ao final da vida, espera-se que uma comunicação adequada permita:
\u2022 Conhecer problemas, anseios, temores e expectativas do paciente
\u2022 Facilitar o alívio de sintomas de modo eficaz e melhorar sua autoestima
\u2022 Oferecer informações verdadeiras, de modo delicado e progressivo, de acordo com as 
necessidades do paciente
\u2022 Identificar o que pode aumentar seu bem-estar
\u2022 Conhecer seus valores culturais, espirituais e oferecer medidas de apoio
\u2022 Respeitar/reforçar a autonomia
\u2022 Tornar mais direta e interativa a relação entre profissional da saúde e paciente
\u2022 Melhorar as relações com os entes queridos
\u2022 Detectar necessidades da família
\u2022 Dar tempo e oferecer oportunidades para a resolução de assuntos pendentes 
(despedidas, agradecimentos, reconciliações)
\u2022 Fazer com que o paciente se sinta cuidado e acompanhado até o fim
\u2022 Diminuir incertezas
\u2022 Auxiliar o paciente no bom enfrentamento e na vivência do processo de morte
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O termo \u201ccinésica\u201d, criado por Ray Birdwhistell, precursor no estudo da fala e dos 
sinais emitidos pelo corpo durante as interações, diz respeito à linguagem corporal. É ca-
racterizado por gestos, expressões faciais, olhar, características físicas e postura corporal. 
Conhecer a linguagem do corpo é importante não apenas por trazer informações sobre o 
outro, mas também para o autoconhecimento.
A proxêmica aborda as teorias que dizem respeito ao uso que o homem faz do espa-
ço físico dentro do processo de comunicação. O neologismo \u201cproxêmica\u201d foi criado por 
Edward Hall, ao identificar os fatores envolvidos na distância que o indivíduo mantém do 
outro na interação.
O toque e todas as características envolvidas são estudados pela cinésica. O contato 
físico é capaz de provocar, por meio de seus elementos sensoriais, alterações neuro-
musculares, glandulares e mentais. Não apenas em caráter técnico e instrumental, mas 
também como forma de oferecer apoio e demonstrar afeto, o toque é um instrumento 
terapêutico valioso na área da saúde(12).
A comunicação não-verbal é fundamental para o estabelecimento do vínculo que 
embasa o relacionamento interpessoal, imprescindível na relação entre profissionais 
da saúde e pacientes(1, 4, 11, 13). Com frequência, mesmo antes que a interação direta 
com o paciente aconteça, existe um julgamento prévio a respeito do profissional com 
base na análise de seu comportamento e características não-verbais, expressos nos 
corredores do hospital ou na interação com os outros colegas. E pode ser até nesse 
momento que o paciente decida se o profissional é ou não digno de sua confiança e se 
quer ou não ser cuidado por ele, sem que palavra alguma seja trocada entre ambos. 
É principalmente por meio da emissão dos sinais não-verbais do profissional da 
saúde que o paciente desenvolve confiança e permite que se estabeleça uma relação 
terapêutica efetiva. Assim, tanto o comportamento verbal quanto o não-verbal do 
profissional devem demonstrar empatia e transmitir segurança, conforme evidencia 
o Quadro 2.
Ao cuidar do paciente em processo de morte, uma das principais habilidades de co-
municação necessárias ao profissional é a escuta. Ela, atenta e reflexiva, é um dos mais 
importantes instrumentos do profissional da saúde que atua em Cuidados Paliativos, visto 
que permite identificar as reais demandas dos pacientes. Sentar-se ao lado do paciente, 
mostrando-se interessado por sua história e disponível para ouvi-lo e compreendê-lo 
é uma maneira comprovadamente eficaz de assisti-lo emocional e espiritualmente. Ser 
ouvido é uma importante demanda de quem vivencia a terminalidade(4).
Quadro 2 - Elementos essenciais do comportamento empático
Comportamento empático envolve:
\u2022 Manter contato com os olhos durante aproximadamente 50% do tempo da interação
\u2022 Ouvir atentamente
\u2022 Permanecer em silêncio enquanto o outro fala, utilizando eventualmente meneios positivos
\u2022 Sorrir
\u2022 Manter tom de voz suave
\u2022 Voltar o corpo na direção de quem fala e manter os membros descruzados
\u2022 Utilizar, eventualmente, toques afetivos em braços, mãos ou ombros
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Quando se utiliza adequadamente a comunicação interpessoal no contexto dos Cui-
dados Paliativos, frequentemente é possível decifrar informações essenciais e, dessa for-
ma, diminuir a ansiedade e a aflição de quem está próximo da morte, proporcionando 
mais qualidade ao nosso cuidar e conquistando mais satisfação pessoal. O Quadro 3 
identifica estratégias de comunicações verbal e não-verbal que devem ser utilizadas na 
atenção a pacientes sob Cuidados Paliativos.
As notícias difíceis: como falar a respeito de perdas, terminalidade e morte
Em um contexto de desenvolvimentos técnico e científico ímpares na história das 
ciências da saúde, em que a percepção de que quase todos os problemas podem ser resol-
vidos com o uso de aparatos tecnológicos, a terminalidade e a morte permanecem como 
limites ao ser humano. Desse modo, pacientes, familiares e até mesmo os profissionais da 
saúde evitam falar sobre o tema. Cria-se, assim, uma situação conhecida como \u201ccerca\u201d ou 
\u201cconspiração de silêncio\u201d(9).
Essa condição se manifesta com a transmissão de mensagens ambivalentes, nas quais 
o discurso verbal otimista e focado em assuntos diversos e superficiais é contradito pela 
linguagem não-verbal, que expressa claramente o agravamento da situação. 
Profissionais e familiares, por acharem que poderão aumentar o sofrimento e a de-
pressão, evitam falar sobre terminalidade e morte para poupar o paciente, que, por sua 
vez, visando proteger suas pessoas queridas, também evita abordar o assunto. Cria-se, as-
sim, uma espécie de isolamento emocional: de um lado, o paciente, e do outro, a família, 
todos com sentimentos, dúvidas e anseios semelhantes, porém não compartilhados.
Receber boas informações (honestas, claras e compassivas) é um desejo universal 
dos pacientes em estado avançado da doença, conforme evidencia a literatura(3, 5, 14, 1\ufffd). 
Em estudo realizado no Brasil com 3\ufffd3 pacientes, identificou-se que mais de 90% dos 
entrevistados desejam ser informados sobre suas condições de saúde, incluindo eventuais 
diagnósticos de doenças graves(5).
Outro estudo europeu(1\ufffd), realizado com 128 indivíduos que tiveram o diagnóstico de 
câncer incurável, revelou que grande parte desses doentes gostaria de ser informada sobre 
opções de tratamento, efeitos colaterais, sintomas físicos e como e onde encontrar ajuda 
e aconselhamento a respeito de dietoterapia, cuidados psicossociais e complementares. 
Embora muitos pacientes queiram saber sobre sua condição de