Manual de Cuidados Paliativos ANCP
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escassas e cada país tem buscado se adaptar à prática de 
tais cuidados com recursos preexistentes.
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Esta é, de fato, a grande recomendação para os Cuidados Paliativos da Organização 
Mundial da Saúde (OMS): uma assistência pautada em conceitos e princípios e adap-
tada à realidade de cada país ou região.
Neste capítulo analisaremos as diferentes modalidades de assistência em Cuidados 
Paliativos existentes no Brasil e o que deve ser comum a todas, comentando vanta-
gens, desvantagens e necessidades básicas de cada modelo, numa tentativa de homo-
geneizar as ações desenvolvidas no país.
O documento de recomendações denominado Getting Started: Guidelines and 
Suggestions for Those Starting a Hospice/Palliative Care Services, elaborado pelo Dr. 
Derek Doyle, que atua em Cuidados Paliativos na Escócia há mais de 30 anos, serve 
como ponto de partida para análise e considerações a seguir. Esse documento foi pu-
blicado e é divulgado pela da Associação Internacional de Hospice e Cuidado Paliativo 
(IAHPC)(3).
Princípios da atuação
Qualquer que seja o modelo de prestação de serviços, as equipes de Cuidados Pa-
liativos possuem em comum(3): 
\u2022 reconhecimento e alívio da dor e de outros sintomas, quaisquer que sejam sua causa 
e natureza;
\u2022 reconhecimento e alívio do sofrimento psicossocial, incluindo o cuidado apropriado 
para familiares ou círculo de pessoas próximas ao doente;
\u2022 reconhecimento e alívio do sofrimento espiritual/existencial;
\u2022 comunicação sensível e empática entre profissionais, pacientes, parentes e colegas;
\u2022 respeito à verdade e à honestidade em todas as questões que envolvem pacientes, 
familiares e profissionais;
\u2022 atuação sempre em equipe multiprofissional, em caráter interdisciplinar.
Equipes de Cuidados Paliativos habituam-se a considerar sempre que há muito 
sofrimento envolvido nos processos de adoecimento e morte e que o ensino da medi-
cina não capacita o profissional de forma adequada para compreensão e alívio desse 
sentimento nos últimos anos e meses de vida.
O sofrimento físico inclui dor severa, dispneia, fadiga, perda do apetite, náusea e 
vômito, obstipação, insônia, feridas, delirium, convulsões e outros sintomas de varia-
das naturezas que devem ser investigados e prontamente aliviados, preferencialmente 
pelo controle de causas reversíveis(3).
O sofrimento psíquico inclui ansiedade, medo, depressão, perda da dignidade, so-
lidão, medo de se tornar um estorvo e causar sofrimento aos entes queridos, medo de 
que seus sentimentos não sejam valorizados e também de ser abandonado(3).
O sofrimento existencial inclui questões de cunho religioso, os significados da vida, 
da morte e do sofrimento, culpas, necessidade de perdão, entre outros temas muito 
particulares(3).
Toda essa problemática, junto com as de natureza social, é determinante de um 
difícil e doloroso processo de morrer, com muitas implicações para a rede de saúde em 
geral, pelo alto custo da assistência voltada apenas para o modelo médico-interven-
cionista, pelo estresse ocasionado às equipes de saúde e pelas consequências de um 
luto complicado para os familiares.
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Manual de Cuidados Paliativos da ANCP
Que serviço se pretende construir?
Na estruturação de um serviço de Cuidados Paliativos, as questões fundamentais a 
serem respondidas nesse período inicial de planejamento são as seguintes(3):
Quais os objetivos do serviço?
O serviço de Cuidados Paliativos pode ter por objetivo(3):
\u2013 a resolução ágil de uma intercorrência no curso de uma doença avançada;
\u2013 o cuidado pertinente à fase final da vida;
\u2013 o cuidado prolongado a doentes incapacitados;
\u2013 a reabilitação de pacientes gravemente incapacitados após acidente vascular ou trau-
mático recente, em fase pós-crítica, mas de grande vulnerabilidade;
\u2013 o cuidado a doentes com falência funcional avançada, com períodos de instabilidade 
clínica e necessidade de intervenções proporcionais.
Qual a demanda de necessidades de Cuidados Paliativos?
É fundamental conhecer:
\u2013 diagnósticos mais frequentes;
\u2013 principais necessidades de doentes e familiares;
\u2013 possibilidade de inserção do serviço de Cuidados Paliativos na cadeia da assistência existente.
Essa pergunta responde à primeira: com base na necessidade local, define-se o obje-
tivo do serviço.
Que recursos, materiais e humanos, já existem?
Qual o modelo que mais se enquadra no objetivo proposto?
Qual o investimento proposto para este projeto?
Quais os obstáculos e resistências que envolvem as equipes profissionais?
Qual a necessidade de treinamento das equipes locais?
Depois da análise das necessidades, demanda e intenção de investimento na ope-
racionalização do modelo de Cuidados Paliativos a ser implantado, o passo seguinte é 
estudar cada estrutura e escolher a que melhor se adapta(3).
O Cuidado Paliativo nunca pode estar isolado da cadeia de serviços de saúde que 
caracterizam a atenção global ao paciente. O fluxo de pacientes para internação numa 
unidade de Cuidados Paliativos, as necessidades de investigação diagnóstica e o segui-
mento do doente durante sua estadia no domicílio devem ser parte de uma rede integrada 
e muito bem articulada, de modo a oferecer segurança ao doente e a sua família em todas 
as etapas do adoecimento e no respeito às decisões previamente acordadas para o final da 
vida. A Figura mostra um exemplo de rede de atenção em Cuidados Paliativos.
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Unidades de internação em Cuidados Paliativos
Enfermaria de Cuidados Paliativos
Consiste numa ala de um hospital geral, secundário ou terciário, que opera em leitos 
próprios e com equipe especializada em Cuidados Paliativos. A equipe deve ser composta 
por médicos, enfermeiras e técnicos de enfermagem, psicólogo, assistente social e capelão 
de caráter ecumênico. Pode contar também com fisioterapeutas, farmacêuticos clínicos e 
voluntários, além da ação intermitente de outros profissionais e clínicas do hospital(3).
Funciona como uma clínica de especialidade no hospital, com equipe constante e bem 
treinada, maior flexibilidade com relação a visitas de familiares, alimentação e regras do 
hospital.
A família deve ficar bem acomodada e receber atenção da equipe. Preferencialmente, 
a acomodação deve ser em quarto individual para a preservação da intimidade e das par-
ticularidades do doente com sua família.
No Brasil, um exemplo de enfermaria de Cuidados Paliativos é a do Hospital do Ser-
vidor Público Estadual de São Paulo (HSPE/SP), com uma ala de 10 quartos individuais 
para o paciente e sua família. O hospital tem complexidade terciária e possui \ufffd00 leitos 
ativos. A enfermaria trabalha em consonância com o ambulatório de Cuidados Paliativos 
e atendimento domiciliar(5).
vAntAGens
\u2022 Integração dos Cuidados Paliativos com todas as especialidades do hospital;
\u2022 facilitação do acesso de pacientes à internação nas 24 horas;
\u2022 facilidade de acesso aos profissionais das equipes que até então o acompanhavam;
\u2022 menos sensação de abandono;
\u2022 respostas rápidas ao doente e maior segurança à família;
Hospedaria
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Figura \u2013 Modelo de rede integrada em Cuidados Paliativos
Assistência domiciliar
Ambulatório
Unidade 
de internação
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\uf0e9\uf0e9
\ufffd\ufffd
Manual de Cuidados Paliativos da ANCP
\u2022 facilidade para o ensino de Cuidados Paliativos;
\u2022 disseminação de uma cultura de Cuidados Paliativos de forma científica e controlada 
dentro de um grande hospital, contribuindo para a desmistificação de conceitos inade-
quados sobre a questão.
desvAntAGens
O ambiente hospitalar é um fator limitante e as internações devem sempre ser curtas 
por dificuldades como:
\u2022 acesso do paciente a áreas verdes e jardins e facilidade de reabilitação;
\u2022 ambiente hospitalar como fator de agravo ao humor, em especial para pacientes ido-
sos;
\u2022 em hospitais pequenos, o custo de uma unidade com menos de 10 leitos pode ser dema-
siadamente elevado