Manual de Cuidados Paliativos ANCP
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esclarecendo, assim, a prescrição de medicamen-
tos não-analgésicos.
Dor na atenção domiciliar
Na presença de um paciente com diagnóstico de doença terminal associada à dor to-
tal, a equipe de saúde presencia dois tipos de conduta. A princípio ocorrem o abandono e 
o cessar da atenção ao paciente, transferindo-se essa responsabilidade para a família, que 
passa a utilizar os serviços de emergência devido a quadros de dor, que, no melhor dos 
casos, são estabilizados em centros assistenciais e transferidos para outro, ocasionando 
gasto institucional e maior incerteza para o paciente e sua família. É nesse momento que 
a atenção domiciliar tem espaço. O outro tipo de conduta é o encarceramento terapêuti-
co, sendo os pacientes vítimas de quadros dolorosos associados a tratamentos curativos 
agressivos cujos efeitos secundários e cuja escassa ou nula melhoria implicam custos 
físico e econômico para paciente, sua família e o sistema público de saúde.
A analgesia domiciliar segue os mesmos princípios já discutidos anteriormente, que 
são efetivos para a analgesia sem riscos notáveis de efeitos adversos. Entretanto, os bons 
resultados vão requerer maior compromisso das famílias. É vital, portanto, avaliar a dis-
ponibilidade da família em conduzir as recomendações médicas. Devem-se avaliar o grau 
de conflitos interpessoais, a dinâmica familiar, o tipo de família, a religião e os valores 
com relação à morte, ao tipo de atenção domiciliar e à farmacoterapia proposta para o 
alívio da dor.
O provedor dos cuidados pode ser um familiar motivado por um componente emocio-
nal (cuidador informal) ou uma pessoa contratada (cuidador formal). Frequentemente, na 
maioria das famílias, o cuidado do paciente crônico é assumido por um único membro da 
família, chamado de \u201ccuidador principal\u201d, podendo ocorrer voluntariamente ou por acordo 
familiar. O cuidador deve exercer diferentes tipos de habilidades para as quais não foi trei-
nado, além de cumprir com o resto de suas responsabilidades particulares, o que repercute 
na qualidade da atenção delegada ao paciente e no estresse emocional do cuidador pela 
situação vivida. Por tudo isso é recomendável que o médico, desde o princípio, aborde o 
grupo familiar e identifique aquele que tem propensão para cumprir as tarefas de cuida-
dor principal, buscando acordo e colaboração de todo o grupo. Na atenção domiciliar é 
disponibilizada uma equipe multiprofissional integrada por médico, psicólogos, assistentes 
sociais e enfermeiros que informam ao grupo familiar sobre a doença de seu parente, a 
evolução, o prognóstico e sobre como os cuidados, além de oferecerem apoio moral, aju-
dam psicologicamente. A equipe também contará com apoio dado por um guia espiritual.
Os Cuidados Paliativos domiciliares englobam valores científicos e éticos que não 
devem ser considerados um luxo restrito a uma elite que pode adquirir esse tipo de cuida-
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do de forma privada, mas sim devem ser vistos como uma forma solidária de assistência 
integrada no sistema de saúde pública(8).
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Manual de Cuidados Paliativos da ANCP
Dispneia, tosse e hipersecreção de vias aéreas
riCArdo tAvAres de CArvAlho
A abordagem dos sintomas respiratórios em Cuidados Paliativos é complexa e engloba 
não apenas o controle dos sintomas envolvidos (principalmente dispneia, tosse e hiperse-
creção brônquica \u2013 broncorreia), mas também uma gama de doenças (doença pulmonar 
obstrutiva crônica [DPOC], insuficiência cardíaca congestiva [ICC], câncer etc.), além de 
aspectos emocionais que envolvem, além do paciente e familiares, toda a equipe de saú-
de. A abordagem do assunto exige conhecimento clínico para compreensão da fisiopa-
tologia, das bases farmacológicas para o uso de medicação opioide e benzodiazepínicos, 
além do racional, para o uso apropriado de oxigênio e terapêuticas não-farmacológicas, 
que podem auxiliar o controle dos sintomas.
Dispneia
Entre os sintomas presentes nesse contexto, sem dúvida o mais comum é a dispneia. 
Trata-se de uma sensação eminentemente subjetiva, caracterizada pela percepção des-
confortável da respiração, receio de não conseguir respirar ou ainda uma \u201csensação de 
avidez por ar\u201d.