Manual de Cuidados Paliativos ANCP
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e diferentes dessas para pacientes com outras doenças.
Fadiga
Fadiga relacionada com o câncer é definida como perturbadora sensação subjetiva e 
persistente de cansaço e exaustão física, emocional e/ou cognitiva, desproporcional ao 
nível de atividade física, que interfere no status funcional do paciente(9). Diferencia-se da 
fadiga do dia-a-dia, que é temporária e aliviada com o repouso. É um dos sintomas mais 
prevalentes e desgastantes para o paciente com câncer, com impacto negativo na quali-
dade de vida(4, 19). Sua prevalência pode chegar a 95%, sendo que há grande variabilidade 
nos estudos, a depender do critério diagnóstico utilizado. Apesar da alta prevalência e do 
alto impacto para o paciente, dados da literatura mostram que a fadiga é pouco diagnos-
ticada e tratada pelos médicos(1\ufffd).
A fisiopatologia da fadiga relacionada com o câncer é pouco compreendida, mas vá-
rias causas podem sobrepor-se e contribuir para o seu agravamento. As principais causas 
de fadiga estão relacionadas no Quadro 1.
A avaliação da queixa de fadiga deve ser feita de forma ativa por parte do médico, 
que deverá questionar especificamente sobre presença/ausência desse sintoma e buscar 
quantificá-lo de forma objetiva. O mais recomendado é utilizar a escala numérica de 0 
a 10, por ser de fácil aplicação e boa para seguimento. Na presença de fadiga moderada 
a intensa (4 a 10) deve-se proceder a anamnese e exame físico detalhados na busca de 
causas contribuintes potencialmente tratáveis. O tratamento dessas causas para a fadiga 
constitui-se na principal opção terapêutica, visto que as medidas de tratamento pura-
mente sintomático são escassas. 
O uso de corticoides (dexametasona 1 a 4 mg/dia ou prednisona 5 a 20 mg/dia) pode 
ser recomendado com base na experiência clínica de melhora sintomática em alguns 
pacientes, entretanto não há evidências científicas para tal uso. Além disso, deve-se con-
siderar que a corticoterapia prolongada acelera a perda de massa muscular. Os psicoesti-
mulantes podem ser indicados para o tratamento da fadiga com base em alguns estudos 
clínicos. Numa recente metanálise com 2\ufffd4 pacientes, o metilfenidato (5 a 20 mg/dia 
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Quadro 1 - Causas relacionadas com a fadiga
Anemia
Neuromusculares
Perda de massa muscular relacionada com caquexia ou 
imobilidade prolongada
Polineuropatia
Metabólicas
Distúrbios hidroeletrolíticos
Hipóxia
Insuficiência renal/hepática
Infecção
Endócrinas
Insuficiência adrenal
Hipotireoidismo
Diabetes descompensado
Hipogonadismo
Nutricionais
Deficiências/síndromes carenciais
Anorexia/náuseas e vômitos
Má absorção
Comorbidades
Insuficiência cardíaca/coronariana
DPOC/pneumopatias intersticiais
Insuficiência renal/hepática
Psiquiátricas
Depressão/ansiedade
Distúrbios do sono
Medicamentos
Opioides
Ansiolíticos/hipnóticos/antidepressivos
Anti-histamínicos, diuréticos, anti-hipertensivos, 
hipoglicemiantes etc.
DPOC: doença pulmonar obstrutiva crônica.
via oral [VO]) mostrou-se superior ao placebo no tratamento da fadiga relacionada com 
o câncer(8), entretanto ainda são necessários dados de maior valor científico. O modafinil 
também tem sido pesquisado, com bons resultados em pequenos estudos, entretanto 
esses dados também são escassos e carecem de maior comprovação científica(2). Proges-
tógenos (acetato de megestrol) e antidepressivos (paroxetina) não se mostraram efetivos 
no tratamento sintomático da fadiga(8).
As medidas não-farmacológicas, com intervenções de toda a equipe interdisciplinar, 
também são muito importantes na abordagem dos pacientes com fadiga, principalmente 
levando-se em consideração as poucas opções de tratamento medicamentoso. Programas 
de exercícios físicos podem trazer benefícios na funcionalidade e nos índices de qualidade 
de vida, mesmo em pacientes com doença oncológica avançada(11). Além disso, terapias 
psicossociais, atividades de lazer, orientações quanto a adaptação do ambiente e ativida-
des cotidianas, medidas para higiene do sono e suportes psicológico, familiar e nutricional 
são úteis no atendimento global desses pacientes.
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Sudorese
Sudorese excessiva pode ser um sintoma muito desgastante e de difícil controle para 
o paciente sob Cuidados Paliativos. A prevalência foi de 1\ufffd% num estudo entre os pacien-
tes de um hospice(14), mas dados de literatura revelam prevalência de até 28%(12). Muitas 
vezes a sudorese é pior à noite ou limitada ao período noturno, levando a distúrbios do 
sono. Ela pode ser um sintoma típico de alguns tipos de neoplasia, como linfoma, feo-
cromocitoma e tumores carcinoides, mas qualquer neoplasia avançada pode ser a causa 
primária desse sintoma. As principais causas de sudorese em pacientes com câncer estão 
listadas no Quadro 2.
Quadro 2 - Causas de sudorese em pacientes com câncer
Infecção (associada ou não a febre)
\u2022 Paraneoplasica (associada ou não a febre)
- linfoma
- tumores carcinoides
- feocromocitoma
- mesotelioma
- metástases ósseas
- câncer avançado não-especificado
\u2022 Alterações hormonais em decorrência do próprio câncer ou de seu tratamento
\u2022 Medicamentos (quimioterápicos, opioides, antidepressivos tricíclicos, inibidores 
hormonais)
O tratamento mais adequado deverá ser escolhido conforme a causa da sudorese, 
levando-se em conta que muitas vezes a etiologia é múltipla e a causa, nem sempre 
reversível. Para os casos de sudorese relacionados com quadro infeccioso, o tratamento 
adequado com antibióticos deverá resolver o sintoma. A sudorese associada a tumores 
neuroendócrinos pode ser controlada com análogo da somatostatina, octreotida por via 
subcutânea (SC) na dose de 50 a 500 mcg três vezes ao dia. Os casos de sudorese as-
sociada a fogachos em pacientes menopausadas ou naqueles com câncer de próstata 
submetidos à castração (cirúrgica ou farmacológica) podem ser tratados com terapia de 
reposição hormonal (acetato de megestrol 20 mg VO duas vezes ao dia ou acetato de 
medroxiprogesterona 500 mg intramuscular [IM] quinzenal(1, 15)), mas as contraindica-
ções relativas e absolutas frequentemente limitam o seu uso em pacientes sob Cuidados 
Paliativos. Homens com câncer de próstata castrados também podem usar estrógenos 
ou o antiandrogênico acetato de ciproterona (50 mg VO duas vezes ao dia)(15). Quando a 
sudorese é associada ao uso de opioide, pode-se tentar fazer rotação para outro opiáceo, 
embora os dados da literatura sugiram que a rotação é pouco eficaz nesses casos(20). Os 
principais fármacos utilizados para o controle sintomático da sudorese são:
\u2022 anti-inflamatórios não-hormonais (AINHs) \u2013 particularmente indicados para os casos de 
febre paraneoplásica, mas também podem ser utilizados para controle da sudorese sem 
febre (naproxeno 250-3\ufffd5 mg VO duas vezes ao dia);
\u2022 neurolépticos \u2013 olanzapina 5 mg VO uma a duas vezes ao dia é descrita como alternati-
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va para tratamento da sudorese(20). A tioridazina em doses baixas (10-25 mg/dia) também 
é descrita(3), mas o risco de alargamento do intervalo QT e de arritmias fatais praticamen-
te contraindica seu uso;
\u2022 antidepressivos \u2013 venlafaxina (\ufffd5 mg/dia, liberação prolongada) tem se mostrado efe-
tiva no controle da sudorese associada a fogachos em pacientes menopausadas e nos 
com câncer de próstata submetidos a castração(\ufffd, 13, 15). Outros antidepressivos inibidores 
seletivos da recaptação da serotonina (ISRS) (paroxetina, fluoxetina) também podem ser 
empregados(\ufffd, 1\ufffd);
\u2022 gabapentina: na dose de 900 mg/dia mostrou-se efetiva na redução de sudorese e foga-
chos em pacientes sob os efeitos de menopausa ou castração, e pode ser efetiva também 
nos casos de sudorese sem causa estabelecida(10, 12, 15).
Outras medicações como cimetidina (400-800 mg duas vezes ao dia), talidomida 
(100 mg à noite), clonidina e hioscina são citadas na literatura como alternativas para 
controle