Reforma politica
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Reforma politica


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público de 
comunicação no Brasil fez-se até hoje sem a imprescindível participação popular.
Sociedade e comunicação democráticas são indissociáveis. Pertencem ao mesmo universo e sua 
relação não pode ser dissolvida. Se a comunicação joga um papel fundamental para a realização 
plena da cidadania e da democracia brasileira, a democratização da comunicação representa condição 
fundamental para o efetivo exercício da soberania popular.
Assumindo esta concepção mais ampla, podemos afirmar que, no Brasil, o direito à comunicação 
ainda é um horizonte longínquo e que, dentre todos os obstáculos à sua efetivação, o não 
reconhecimento pela maioria esmagadora da sociedade brasileira do direito à comunicação como um 
direito humano é dos mais desafiadores. Enquanto a luta pela garantia de outros direitos sociais parte 
do pressuposto já enraizado na sociedade de que tais questões são de fato direitos humanos, o direito 
à comunicação, uma evolução dos conceitos de liberdade de expressão e do direito à informação, 
ainda carece de maior densidade social, inclusive nos movimentos sociais e nas organizações civis. 
No Brasil, mantém-se inalterada a concentração dos meios de comunicação de grande audiência 
e circulação nas mãos de poucos conglomerados, ou melhor, nas mãos de poucas famílias. 
Permanecemos sem qualquer mecanismo legal para combater o monopólio ou o oligopólio do setor 
de telecomunicações. Ao contrário de diversos países, não há, no Brasil, qualquer instrumento que 
impeça a propriedade cruzada de meios de comunicação, ou seja, a posse e a concessão de veículos 
de comunicação de diferentes naturezas numa mesma área geográfica. Em muitos Estados brasileiros, 
os concessionários das redes de televisão líderes de audiência (todas elas afiliadas da Rede Globo) 
também são proprietários dos jornais locais de maior circulação e de rádios de maior audiência.
 Da mesma forma, não há qualquer mecanismo que impeça o monopólio da audiência de televisão 
por uma única emissora (como existe mesmo nos EUA, por exemplo). No Brasil, a Rede Globo permanece 
soberana, mantendo níveis de audiência sempre acima dos 50% dos televisores ligados. O fato deve ser 
considerado grave, visto que a televisão permanece como a principal mediadora nas relações políticas, 
sociais e culturais dos brasileiros (98% da população de 10 a 65 anos assiste à televisão). 
A ausência destes mecanismos aliada à não existência do direito de antena no Brasil praticamente 
elimina a possibilidades de os movimentos sociais significativos comunicarem-se, direta ou indiretamente, 
com o conjunto da sociedade. 
Além disso, os principais pontos da Constituição Federal permanecem sem regulamentação. Entre eles, 
estão justamente o que impediria o oligopólio dos meios de comunicação (art. 220) e o que criaria exigências 
mínimas de programação para as emissoras de rádio e televisão (art. 221). A ausência de regulamentação 
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também atinge o artigo 223, que estabelece o princípio da complementaridade entre os sistemas público, 
privado e estatal na radiodifusão. Devemos considerar, ainda, que continuamos a ter um processo de outorga e 
renovação de concessões, que envolve os Poderes Executivo e Legislativo, sem o mínimo de transparência. 
Também no campo da comunicação comunitária não tem havido mudanças na situação dos últimos 
anos. Estima-se que haja hoje cerca de 15 mil emissoras de baixa potência em funcionamento no Brasil, 
a maioria não legalizada. A legalização destas emissoras se dá em ritmo extremamente lento, havendo 
mais de 7 mil processos aguardando análise no Ministério das Comunicações. É notável que ao invés 
de políticas de estímulo à apropriação do direito à comunicação pela população \u2013 o que ao fim e ao 
cabo levaria ao estímulo à criação de rádios comunitárias \u2013 o que tem acontecido é uma política de 
combate a esses veículos, por meio da pressão exercida pelos veículos comerciais. 
SISTEMA PúBLICO DE COMUNICAÇÃO
A Constituição de 1988 prevê a complementariedade dos sistemas privado, público e estatal de 
comunicação. No entanto, o sistema público praticamente não existe. Para que a comunicação possa 
acontecer livre de interesses comerciais ou políticos, é necessário equilibrar a proporção entre estes 
sistemas e outorgar parte das concessões a organizações da sociedade civil, garantindo mecanismos 
de financiamento. 
Tais medidas visam a garantir o acesso igualitário dos indivíduos e dos grupos sociais aos meios de 
comunicação, assim como zelar pela pluralidade ideológica e cultural no espaço público midiático.
Dessa forma, deve-se incentivar o surgimento e a manutenção de veículos de caráter público, 
ou seja, sem fins lucrativos, em especial os de caráter comunitário. Tal incentivo consiste não só em 
favorecer sua regulamentação (como no caso das concessões de Rádio e TV), mas também em garantir 
sua sustentabilidade material e financeira, assim como o acesso ao conhecimento técnico. 
O Estado deve subvencionar todos/as que desejam se expressar (principalmente quando se trata 
de grupos significativos que carecem de meios financeiros), quaisquer que sejam as suas opiniões e 
embora suas idéias sejam críticas em relação aos titulares atuais do poder. Muitos países adotam 
medidas neste sentido, financiando veículos comunitários e de caráter não lucrativo, assim como 
obrigando corporações de comunicação a financiar veículos de comunicação de pequeno porte. É 
preciso reconhecer que a diversidade de opiniões não é necessariamente proporcional ao número de 
veículos e, por isto, deve se prestar especial atenção à pluralidade ideológica.
Deve-se também incentivar com afinco a produção de conteúdo regional, garantindo não só meios 
financeiros para a produção de informação e difusão cultural, mas também espaços de veiculação ou 
publicação dessas produções, evitando o desequilíbrio entre a cidade e o campo ou entre diferentes 
regiões do País. Tais medidas, entre outros objetivos, visam impedir uma influência desproporcional 
de determinadas culturas sobre outras.
4.2 - CONTROLE DE PROPRIEDADE
Grande parte dos meios de comunicação do País é controlada por poucos grupos. O combate à 
concentração da propriedade é chave para a democratização da comunicação no Brasil. Atualmente, as 
concessões são renovadas quase que automaticamente e têm sido, historicamente, distribuídas segundo 
interesses políticos. Por isso, é preciso estabelecer o controle público também para as concessões dos 
meios, garantindo a pluralidade necessária para a consolidação da democracia. A legislação brasileira 
deve prever o limite de propriedade, como acontece em muitos países do mundo, incluindo aí o controle 
da propriedade cruzada e da audiência potencial. Essas medidas são predominantemente de cunho 
legislativo e prescindem de mecanismos de controle igualmente democráticos.
 Entre as medidas restritivas mais importantes estão as que impedem a concentração dos meios de 
comunicação, como as iniciativas que visam a bloquear a propriedade cruzada dos meios de comunicação, 
isto é, a propriedade por um grupo ou pessoa de meios de comunicação de diversas naturezas ou suportes 
em uma mesma região geográfica. Na prática, tais medidas visam a impedir que, em uma região específica, 
um mesmo grupo seja proprietário de jornais diários, emissoras de rádio e TV. Mais do que isso, visa a 
impedir que os veículos desse grupo ou pessoa sejam líderes de audiência/circulação em suas regiões.
Outras iniciativas igualmente importantes para a efetivação do direito à comunicação e que se 
caracterizam como medidas de restrição são as que visam a impedir a concentração horizontal dos 
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meios de comunicação, ou seja, a oligopolização ou monopolização que se produz dentro de uma 
área ou setor e as que visam impedir a concentração vertical, ou seja, a concentração das diferentes 
etapas da cadeia de produção e distribuição