a menina loas um processo de construcao da assistencia social aldaiza sposati 140126181917 phpapp01 (1)
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http://www.ceas.sc.gov.br/downloads/sposati.doc
A Menina LOAS1
Aldaíza Sposati2
Brasília, 7 de dezembro de 2003
Hoje é dia de aniversário de uma menina. Faz 10 anos. É uma pré 
adolescente brasileira, que, como outras tantas, tem sonhos, quiçá de ser 
top model, mas vive em uma periferia, relegada pelas irmãs, a saúde e a 
previdência, que relutam em reconhecer seu vínculo consangüíneo pelo 
mesmo pai: a seguridade social. A legalidade da relação Estado-Mercado-
Sociedade para o alargamento de um pacto social, que poderia gerar o 
dever público para essa família da seguridade é questionada nos salões de 
festas de grandes empresários, banqueiros e políticos. Só o povo que \u2013 nos 
forrós nos pagodes, nos grupos de hip hop, nas festas do bairro e do dia de 
santo \u2013 diz que é preciso que a seguridade social seja relação de 
compromisso e casamento duradouro. A menina LOAS convive com esses 
dois lados.
Creio que podemos discorrer solto, a falar da menina LOAS: do 
lugar onde vive; dos seus sonhos; da sua situação financeira; dos seus 
padrinhos estrangeiros e dos brasileiros, daqueles que querem que ela se 
porte de um jeito que não é o dela; dos que a rejeitam; dos que a aceitam e 
acham até, que ela tem um futuro promissor, entre outras várias conversas.
É possível que a analogia entre os 10 anos da LOAS e os 10 anos 
de uma adolescente brasileira: dos seringais da Amazônia, dos morros do 
1 Conferência de abertura da IV Conferência Nacional de Assistência Social. 
2 Professora titular da PUC/SP, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Seguridade e 
Assistência Social da PUC/SP, vereadora pelo Partido dos Trabalhadores na Câmara Municipal de São 
Paulo licenciada e Secretária Municipal de Assistência Social da Cidade de São Paulo.
1
Rio, das praças de Salvador, das periferias ou mesmo, do centro de São 
Paulo, dos pampas ou de Porto Alegre, tenham semelhanças pelas próprias 
determinações sócios, econômicas, políticas, históricas de nossa sociedade 
brasileira.
Mas o fato é que ambas, hoje, são aniversariantes e merecem 
todo o respeito em ser ouvidas, entendidas, apoiadas, protegidas, 
incentivadas em seus projetos pessoais e sociais.
Ambas são portadoras potenciais de direitos, seres de direitos, 
que facilmente são negados, direta ou indiretamente, por instituições, por 
agentes institucionais, por técnicos, por autoridades, pela família, pelos 
companheiros. Ambas são, portanto, só cidadãs potenciais, já que não 
possuem garantias plenamente reconhecidas.
Ambas estão infelizes com tanta discussão e pouca coerência na 
ação. A menina LOAS ouve dizer que é tudo complexo, é tudo complicado. 
Sente que passa o tempo e tudo continua no mesmo. Parece até, que o 
mundo é um caminho sem rumo.
Afinal de contas, que rumo é esse da inclusão e da cidadania se o 
cotidiano é mais de exclusão e de descidadania. Sem falar da anunciada 
democracia onde tudo se prepara para acontecer e, na hora H, falha. 
Afinal o que impede da menina LOAS de ser feliz, poder sorrir, 
ter esperança, não ter medo de ser feliz? Isto é, não ter medo de levar surra? 
Não sentir traição dos mais velhos quando da realização de seus sonhos e 
desejos? Não ver negada a comemoração de sua festa de aniversário?
O assunto merece atenção de especialistas, analistas, amigos e até 
dos devotos, entendidos como fundamentalistas, cuja religiosidade e fé é 
considerada vício de origem e formação.
2
Vamos conversar sobre a vida dessa menina LOAS, começando 
sobre os traços genéticos de sua paternidade.
\u2022 a paternidade da LOAS
A assistência social não nasce como política no mesmo dia do 
nascimento da LOAS. Ela é bem mais velha. É mais um caso de atraso de 
registro de nascimento. Ela tem bem mais que 10 anos de vida. Fazer o 
registro de nascimento em data atrasada pode ser vontade de fazer coincidir 
com o dia de padroeiro mas, em geral, é situação de mãe solteira, que fica 
esperando a coragem do pai, em pôr seu nome no registro da criança já 
nascida e crescida. É bom lembrar que o pai da LOAS é o Estado 
brasileiro.
A LOAS tem parentes distantes, talvez mais estrangeiros do que 
brasileiros. Boa parte são de ingleses, outra de franceses, que conseguiram 
um acordo entre Sociedade-Estado-Mercado, na metade da década de 
quarenta, do século XX, após a IIº Guerra Mundial, para fazer nascer a 
proteção social de cidadania para todos, garantida por serviços públicos 
custeados pelo orçamento estatal, cuja receita decorre do pagamento de 
impostos e taxas pelo conjunto dos cidadãos. Para isso, os impostos e as 
taxas têm que ser justos e incidir mais sobre quem tem mais riqueza e 
propriedade para poder redistribuir bons serviços públicos. A experiência 
inglesa de bem-estar social e a francesa de solidariedade e proteção social, 
se estenderam por outros países da Europa. No Brasil mesmo, só chegou, e 
com modificações, em 1988 pela sanção da nova Constituição.
Os sociais democratas brasileiros, e parte dos socialistas, 
entenderam que o Brasil poderia, e deveria, produzir serviços sociais 
públicos de qualidade mesmo, sob a economia capitalista. Deveria 
demandar tal responsabilidade do Estado, mesmo que isto pudesse parecer 
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quase impossível de acontecer ou até considerar que alguns políticos 
poderiam usar tais serviços só para amainar conflitos sociais. Aqui em 
geral, a família socialista se divide. Para alguns mais ortodoxos tudo o que 
for proposto tenderá a fantasias e resultado zero, enquanto a economia não 
for socialista. Para outros, as mudanças na sociedade são relações de 
conflito e esses conflitos mudam posições de forças sociais e permitem 
mudar situações e protagonismos. Assim, sem abandonar a direção 
socialista, e sem falsos objetivos, entendem que é preciso buscar mudar já. 
A menina LOAS vem dessa segunda família mas, vira e mexe seus tios, 
que não aceitam reformas, ralham com ela.
A conquista de direitos humanos e sociais supõe uma revolução 
político\u2013cultural que provoca mudanças no modo de pensar e agir 
conservador, ditatorial, não democrático, de concentração de riquezas 
intensamente presentes na sociedade brasileira. Estas mudanças geram 
também impactos na economia, no financiamento público. Sem essa 
mudança de entendimento nunca no Brasil poderão ser praticados os 
direitos sociais e direitos humanos. 
Mas é bom ter presente que nos dias de hoje, aumentou o número 
de pobres na Inglaterra foram fragilizadas as políticas sociais. Durante os 
anos 70, pouco mais de 20 anos da experiência de bem-estar social, a 
corrente do neoliberalismo político, econômico e social, iniciada com 
Margaret Tatcher, foi desfazendo as conquistas sociais dos anos 50. Esta 
corrente também chegou ao Brasil logo depois da Constituição de 88, pelas 
mãos do presidente Collor que gerou impedimentos para o avanço das 
conquistas sociais. Em 1990, ele impediu que a LOAS fosse promulgada e 
vetou seu nascimento. Não esqueçamos dos ingratos em dia de aniversário, 
pela negativa eles também constroem história.
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A assistência social tem na sua paternidade genética heranças que 
não se pode afirmar, sejam desejáveis ou compatíveis com a inclusão ou 
com os direitos de cidadania.
Em sua paternidade longínqua a LOAS tem interessantes 
lembranças do lado dos parentes homens. Uma delas é Ataulpho Nápole de 
Paiva, juiz da Corte de Apelação do Rio de Janeiro, nascido em