Crise Financeira Global
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Crise Financeira Global


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contra eventuais flutuações cambiais a um custo 
conveniente. Ainda assim, num momento de fuga desabalada para a liquidez, os 
detentores de riqueza correm para a moeda-reserva, último refúgio dos capitais 
outrora destemidos, agora medrosos. Já os que emitem moedas inconversíveis estão 
obrigados, no mundo globalizado, a segurar as reservas em moeda forte e manter 
os excedentes comerciais de forma permanente. Esses bons fundamentos podem, 
37. Aglietta (1986) destaca a natureza contraditória da taxa de câmbio num sistema monetário e financeiro 
internacional após o colapso de Bretton Woods (1971-1973): por um lado, elemento da formação dos preços dos ativos 
financeiros denominados em diferentes moedas; por outro lado, preço relativo entre os bens domésticos e externos. 
São exatamente essas duas dimensões que estão implícitas nas duas teorias mais antigas de determinação da taxa de 
câmbio nominal, respectivamente, a teoria da paridade descoberta das taxas de juros e a teoria da paridade do poder 
de compra. Vale mencionar que ambas foram discutidas por Keynes (1930) no Tratado da Moeda e resgatadas pelos 
economistas do mainstream nos anos 1970 (ver, por exemplo, DORnBUSCH, 1976).
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no entanto, não ser suficientes para impedir as vendas maciças da moeda local. 
Os bancos centrais ficam dilacerados: conter a desvalorização da moeda local ou 
impedir a invasão de seu território pelas forças recessivas que dominam a economia 
global. Expostos à fuga de capitais, os países de moeda inconversível dificilmente 
serão capazes de aplacar, com a elevação dos juros, os movimentos abruptos de 
desvalorização do câmbio.
Enfim, o prêmio de liquidez implícito na posse da moeda de reserva in-
ternacional (o dólar) é, nos momentos de desconfiança e pânico, o objeto mais 
cobiçado nos mercados globais. As diferenças nos chamados \u201cfundamentos\u201d \u2013 
entre os quais se destacam os resultados em transações correntes e de contas pú-
blicas, a proporção do endividamento externo ou doméstico em moeda estran-
geira (ou seja, o descasamento de moedas) e a higidez dos sistemas financeiros \u2013, 
no entanto, condicionaram a evolução das taxas de câmbio das economias em 
desenvolvimento ao longo de 2009, quando várias moedas registraram aprecia-
ção frente do dólar (gráficos 1 e 2). Isso porque permitiram reações defensivas 
imediatas dos governos nacionais a fim de evitar que a crise internacional con-
taminasse irreversivelmente os sistemas financeiros e as economias domésticas. 
Vale dizer, possibilitaram a implementação de políticas econômicas anticíclicas: 
fiscais, monetárias, creditícias e cambiais, contrarrestando diferentes mecanismos 
de contágio.38 Dessa forma, puderam executar uma política monetária acomoda-
tícia (diminuição de taxas de juros e aumento do crédito dos bancos públicos em 
alguns países), uma expansão fiscal (redução de impostos, ampliação dos gastos 
em proteção social e em infraestrutura) e intervenções cambiais (empréstimos 
em moeda estrangeira, permitidos pela acumulação de reservas). Essas medidas 
auxiliaram na estabilização das taxas de câmbio, na contenção da retração dos 
fluxos de créditos em moeda nacional e na desvalorização dos ativos financeiros, 
assim como na contração renitente do produto e do emprego.39 Vale mencionar 
que, no primeiro semestre de 2010, devido ao aumento da aversão aos riscos 
dos investidores globais provocado pela crise da área do euro, várias moedas 
emergentes (com destaque para aquelas da Europa Central e do Leste) voltaram 
a depreciar. Em média, a perda de valor dessas moedas foi de 4,9%, percentual 
bem mais elevado do que o registrado no caso das moedas das economias avan-
çadas (gráficos 1 e 2).
No caso do Brasil, por exemplo, o FMI, por meio de um estudo detalhado 
sobre o enfrentamento da crise realizado por 19 países emergentes, sinalizou que o 
Banco Central atuou de forma inovadora durante a crise financeira internacional, 
38. Para diferentes aspectos das políticas anticíclicas implementadas pelo governo brasileiro, ver, entre outros, Barbosa 
et al. (2010), Barbosa e Souza (2010), Barbosa (2010) e Chianamea; Calixtre e Cintra (2010).
39. não se deve esquecer as linhas de swap do Fed (US$ 30 bilhões) com os bancos centrais do Brasil, México, Coreia 
do Sul e Cingapura, na gestão da liquidez em moeda estrangeira. Ver McGuire e Peter (2009).
33os países em Desenvolvimento diante da Crise Financeira Global
utilizando-se de diferentes instrumentos para restaurar a liquidez em moeda es-
trangeira sem perdas significativas de reservas internacionais. Atuou também de 
forma vigorosa sobre as expectativas e anunciou publicamente as medidas toma-
das (STONE; WALKER; YASUI, 2009).
A despeito dos problemas com os derivativos cambiais em alguns países 
em desenvolvimento (Brasil, Coreia do Sul e México), os sistemas financeiros 
das economias emergentes \u2212 particularmente Brasil, Índia e China \u2212 possuem 
regulamentações mais rigorosas e saíram fortalecidos da crise (THE ECONO-
MIST, 2010a). Com a adoção das políticas anticíclicas e com o apoio dos sistemas 
financeiros domésticos, as economias em desenvolvimento puderam rapidamente 
retomar uma trajetória de crescimento econômico acelerado (back to normal), 
impulsionando a recuperação mundial (CANUTO, 2010). O FMI projetou a 
taxa de crescimento dos países emergentes em 6,8% em 2010, sob a liderança da 
Ásia em desenvolvimento, 9,2%, como sugere a tabela 2.
TABELA 2. 
indicadores selecionados (2003-2011, variação anual)
(Em %)
2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 20101 20111
Produto interno bruto real
Mundo 3,6 4,9 4,5 5,1 5,2 3,0 -0,6 4,6 4,3
Economias avançadas 1,9 3,2 2,7 3,0 2,8 0,5 -3,2 2,6 2,4
EUA 2,5 3,6 3,1 2,7 2,1 0,4 -2,4 3,3 2,9
Área do euro 0,8 2,2 1,7 3,0 2,8 0,6 -4,1 1,0 1,3
Japão 1,4 2,7 1,9 2,0 2,4 -1,2 -5,3 2,4 1,8
Outras economias avançadas 2,5 4,0 3,5 3,9 3,9 1,7 -1,2 4,6 3,7
Países emergentes e em desenvol. 6,2 7,5 7,1 7,9 8,3 6,1 2,5 6,8 6,4
África Subsaariana 5,0 7,1 6,3 6,5 6,9 5,6 2,2 5,0 5,9
Europa Central e do Leste 4,8 7,3 5,9 6,5 5,5 3,1 -3,6 3,2 3,4
Comunidade Estados Independentes 7,7 8,2 6,7 8,5 8,6 5,5 -6,6 4,3 4,3
Ásia em desenvolvimento 8,2 8,6 9,0 9,8 10,6 7,7 6,9 9,2 8,5
Oriente Médio e norte da África 6,9 5,8 5,3 5,7 5,6 5,3 2,4 4,5 4,9
América Latina 2,2 6,0 4,7 5,6 5,8 4,2 -2,3 3,7 3,8
Brasil 1,1 5,7 3,2 4,0 6,1 5,1 -0,2 7,1 4,2
Volume do comércio Mundial 5,4 10,4 7,5 9,3 7,2 2,8 -11,3 9,0 6,3
Índice de Preços ao Consumidor
Economias avançadas 1,8 2,0 2,3 2,4 2,2 3,4 0,1 1,4 1,3
Economias em desenvolvimento 5,8 5,7 5,2 5,4 6,4 9,3 5,2 6,3 5,0
Libor 2
Depósitos em dólar (seis meses) 1,2 1,8 3,8 5,3 5,3 3,0 1,1 0,6 0,9
Fonte: IMF, World Economic Outlook, Washington, D.C., April/July 2010.
notas: 1. Projeções;
2. London Interbank Offered Rate.
34 Crise Financeira Global
A revista The Economist (2010b, p. 40 e 47-48) sugeriu a emergência de 
um novo paradigma de organização da produção e de introdução do progresso 
técnico, a partir das principais economias emergentes (China, Índia, Coreia do 
Sul, Brasil etc.): 
A inovação frugal não se restringe ao redesenho de produtos; ela exige repensar 
todos os processos de produção e modelos de negócios. As empresas têm de reduzir 
custos para atingir mais consumidores, e precisam aceitar margens de lucros restritas 
para ganhar em volume. Três formas de reduzir custos vêm sendo consideradas as 
mais bem-sucedidas. A primeira é terceirizar cada vez mais. (...) A segunda maneira 
de economizar é usar tecnologias já existentes de formas novas e criativas. (...) 
O terceiro caminho para reduzir custos é utilizar técnicas de produção em massa 
em áreas novas e surpreendentes, como a medicina. (...). A inovação de negócios 
no mundo emergente chegou ao ponto em que todos os avanços individuais se 
transformam em algo maior