Crise Financeira Global
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Crise Financeira Global


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Paulo (Bovespa) e do índice 
de ações Dow Jones da Bolsa de Valores de nova York (fechamento), disponíveis na página eletrônica do Ipeadata:
www.ipeadata.gov.br.
17. Ver Mesquita e Torós (2010).
18. Índice registrado em 28/05/2008.
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No entanto, apesar dos resultados positivos atrelados ao desempenho eco-
nômico do país, grande parte dos aumentos verificados no índice financeiro 
esteve fortemente atrelada ao componente de expectativa disseminado entre os 
agentes financeiros e alimentado, sobretudo, pelos resultados positivos na lucra-
tividade das empresas domésticas, pelo forte aumento nos preços das commodities 
no mercado internacional e pelos efeitos indiretos da intensa valorização da bolsa 
de valores americana que contagiou diversos sistemas financeiros no mundo.19 
O cenário de otimismo vislumbrado por tais agentes desencadeou um processo 
de maior tolerância a risco entre bancos e empresas, acompanhado pelo deslo-
camento em direção às formas especulativas de financiamento e pelo aumento 
generalizado das exposições financeiras, dinâmica essa muito próxima daquela 
delineada por Minsky enquanto geradora de fragilidade sistêmica. 
Os primeiros sinais da magnitude das posições alavancadas existentes no 
mercado brasileiro somente se tornaram conhecidas na fase mais aguda da crise, em 
setembro de 2008, quando o Federal Reserve (Fed) tomou a decisão de não socorrer 
o banco de investimento Lehman Brothers, levantando dúvidas quanto à robustez 
do sistema financeiro americano. Nesse cenário, a fuga dos capitais privados para 
ativos mais líquidos e seguros \u2212 especialmente títulos do Tesouro dos Estados Unidos 
e o próprio dólar \u2212 provocou um forte enxugamento da liquidez internacional e 
teve como desdobramento imediato a valorização da moeda americana frente ao 
real, além da queda do preço das commodities no mercado externo.
Apesar de os bancos nacionais possuírem participações mínimas no mercado 
de hipotecas americano, o chamado \u201csubprime brasileiro\u201d abrangeu as operações 
com derivativos cambiais realizadas entre importantes bancos \u2212 tanto domésti-
cos quanto estrangeiros \u2212 e empresas nacionais. A surpreendente revelação de 
que corporações de grande porte \u2212 como Sadia, Aracruz e Votorantim \u2212 incor-
reram em perdas financeiras, por estarem envolvidas em transações especulativas 
no mercado de derivativos cambiais, causou enorme temor entre os operadores 
do sistema financeiro brasileiro diante da incerteza quanto ao real volume dos 
prejuízos e das instituições envolvidas. Segundo estudo de Novaes (2010), os dois 
casos mais relevantes, Sadia e Aracruz \u2212 ambas com ADR20 negociados na Bolsa 
de Valores de Nova York \u2212 sofreram perdas da ordem de R$ 760 milhões e de 
R$ 1,95 bilhão em transações financeiras de câmbio futuro. Além disso, o Banco 
de Compensações Internacionais (BIS) divulgou estimativa para as perdas das 
19. O gráfico 2 mostra uma elevada correlação do índice Bovespa e do índice Dow Jones da Bolsa de nova York, 
principalmente nos anos posteriores a 2002.
20. Os American Depositary Receipts (ADRs) são instrumentos criados para permitir aos investidores norte-americanos 
negociarem ações de empresas que não são dos Estados Unidos. Por meio desse instrumento, um determinado nú-
mero de ações pode ser representado por ADRs, que são precificados e negociados em dólares no mercado de ações 
americano (AHUJA, 2007).
59A Crise Financeira e o Comportamento do mercado Brasileiro: entre euforia e incerteza
companhias brasileiras com derivativos cambiais, no último trimestre de 2008, de 
cerca de US$ 25 bilhões \u2212 seis vezes superiores àquelas estimadas para o México 
(US$ 4 bilhões).
Algumas motivações são citadas para explicar a decisão das companhias 
de correrem riscos dessa magnitude. Um dos principais argumentos recai sobre 
a perda de competitividade das empresas em razão da valorização do real no 
período anterior à crise de 2008. Sob esse argumento, a busca por alternativas de 
ganho financeiro para compensar a queda nas receitas leva as empresas a optarem 
pela valorização dos seus ativos por meio de transações especulativas cambiais. 
Esse quadro é estimulado pelos bancos privados, principalmente a partir de 2007,21 
mediante a oferta de empréstimos com dupla indexação: taxa de juros do Certificado 
de Depósito Interbancário (CDI) e da variação cambial, ou seja, crédito vinculado 
às operações com derivativos em dólar. O cenário de tranquilidade no mercado 
interno e a relativa estabilidade da taxa de câmbio combinados com o otimismo 
quanto ao desempenho da economia brasileira reuniram os condicionantes ideais 
para que empresas e instituições financeiras subestimassem os riscos inerentes a 
essas operações e assumissem exposições consideráveis na moeda americana. 
O rompimento das expectativas no mercado brasileiro ocorreu na ocasião 
do colapso financeiro em 2008, cujo impacto imediato repercutiu sob a forma de 
intensa e abruta desvalorização da moeda brasileira em relação ao dólar. Entre a 
metade de setembro e o início de outubro de 2008, o real desvalorizou 29,6%, o 
que desencadeou a sequência de prejuízos financeiros atrelados às referidas ope-
rações com derivativos.22
No mercado financeiro, o cenário de euforia anterior cedeu lugar ao pânico. 
Os rumores de insolvência envolvendo as grandes corporações empresariais segui-
ram acompanhados de enormes incertezas quanto ao grau de envolvimento das 
instituições financeiras contrapartes nas transações descobertas ou com passivos 
em créditos concedidos àquelas. As dúvidas quanto à rigidez do sistema financei-
ro naquele momento era justificada pelo completo desconhecimento tanto dos 
volumes envolvidos como dos agentes participantes. Prevalecia, portanto, uma 
evidente incerteza no sentido atribuído por Keynes, essa expressa, sobretudo, nas 
palavras do então presidente do Banco Central do Brasil, Henrique Meirelles: 
\u201c(...) eram empresas grandes, não se sabiam quantas nem quais. Elas tinham con-
trato majoritariamente com bancos internacionais. Só que mantinham linhas de 
21. Os sinais da instabilidade financeira no mercado americano em 2007 provocaram a elevação do custo de captação 
tanto no ambiente internacional, devido à redução da liquidez, como no ambiente doméstico, por meio da alta da taxa 
do Sistema Especial de Liquidação e Custódia (SELIC). Ver Freitas (2009).
22. Taxa de câmbio do dólar americano (R$/US$) \u2013 venda, fechamento \u2212 disponibilizada no site do Banco Central do 
Brasil. (www.bacen.gov.br).
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crédito com grandes bancos nacionais. Aqui de novo, não se sabiam quantos ou 
quais (...)\u201d (MALBERGIER; AITH, 2009). 
Ainda segundo o presidente do Banco Central, o mercado brasileiro estava 
de tal maneira alavancado que a intervenção do Banco Central era necessária para 
evitar perdas significativas para os bancos locais (MALBERGIER; AITH, 2009).
Não surpreendentemente, o comportamento dos preços na Bovespa perdeu 
a sua principal base de sustentação \u2212 as expectativas \u2212 e apresentou forte queda, 
conforme mostra o gráfico 2. No intervalo entre a primeira quinzena de setembro 
e de outubro de 2008, a desvalorização chegou a 24%. No início de setembro, 
o índice Bovespa oscilava em torno do patamar de 55 mil pontos e caiu para 
próximo dos 29 mil já no final de outubro, acumulando uma depreciação de 
quase 47% em apenas dois meses.23
Tem-se, portanto, que o quadro de instabilidade ocorrido no Brasil durante 
a crise em 2008, embora esteja inegavelmente atrelado a fatores externos advindos 
principalmente do colapso no mercado financeiro americano, trouxe evidências de 
que havia internamente a emergência de um processo de crescente alavancagem 
financeira com potencial capacidade de conduzir o sistema brasileiro à fragilidade. 
Em outras palavras, o contexto da crise de 2008 atingiu um Brasil imerso